Ele era um vendedor tranquilo da Feira de Carcavelos. 'Ó freguêêês! Olhe para estas colchas que até metem cobiça! Olhe para esta qualidade! 20 euros! É só 20 euros!'.
Mas um dia... o gang do Custódio Junco, mais conhecido por 'Lambreta' começou a vender as camisas Doce e Gabana abaixo do preço das outras bancas. Depois vieram as camisas da Grant, e os ténis da Rebook.
Dizia-se que tinha um novo fornecedor chinês que não partilhava com ninguém. Vários tentaram falar com ele, para serem afastados - por vezes rudemente - pelos seus capangas, contratados à sombra da nova fortuna.
Com o negócio parado, e vendo-se perto da ruína, ouvindo todos os dias os gritos da mulher em sua casa, Lelo decidiu que era preciso quebrar os pactos que fizera no Passado. Era preciso retaurar a ordem na Feira.
Era preciso trazer de novo à existência - o Super-Lelo.
Justamente no momento em que ia falar de forma mais veemente com Custódio Junco, os homens do gang andavam outra vez a meter-se com as suas irmãs. Enfurecido, o Super-Lelo deixou todos os anteriores planos para trás.
Amanhece na penitenciária. E há a mesma pena diária A cumprir – Por um crime que devia ter cometido.
Se ao menos me tivesse Comprometido, Assinado Um qualquer tratado, Um pacto acertado De silêncio, E os pecados a cometer, Ficariam escondidos Do mundo - Sem ninguém saber; Continuaríamos a dizer-lhe A melhor forma de existir (E então seria dele a prisão De somente intuir…).
Pudesse eu. Pudesse eu mentir assim, E dizer que não sabia, Conseguir perdoar, Ver a jusante de mim Um futuro elegante, Por entre os tremores do passado; Assassinos, meliantes… Mas eu é que fui condenado.
Amanhece E finjo não saber Dessa dor, Tenho medo que me deixe - É a única amiga Verdadeira Entre estas paredes frias.
Tenho ainda pena a cumprir – Disseram-me naquele dia - Por não me saber encobrir, Nem encobrir ninguém. A ingenuidade E um louco amor à verdade São delitos De se achar melhor. Outrora, A prisão terminava lá fora. Mas eles calaram-se, As transgressões foram consentidas - E as paredes construídas. Mas que me interessa Ser o cárcere ampliado? Eu Não mereço estar condenado. Ah, tudo passa Como o amanhecer na prisão… Que este sol ainda tem Um pouco de calor, E esqueço-me dos gritos, Da dor, Por um momento.
Esqueço-me de não saber De uma história, De um bom fim a este tormento.
E no outro dia ouvi de novo uma palavra de um passado já distante: trempe.
Ti Zé Godinho*
Lá vem o Ti Zé Godinho a cavalo no burrinho o burrinho é fraco a cavalo no macaco o macaco é valente a cavalo num trempe a trempe é de ferro a cavalo num martelo o martelo bate sola a cavalo numa bola a bola é vermelha a cavalo numa telha a telha é de barro a cavalo num cocharro o cocharro é de cortiça a cavalo numa chouriça a chouriça é preta a cavalo numa borboleta a borboleta foi-se o burrinho deu um coice e acabou-se a papa doce.
in "Eu bem vi nascer o sol" - Antologia da Poesia Popular Portuguesa, de Alice Vieira
O guarda Jacinto era famoso pelo primor com que se vestia. Trazia a farda sempre impecavelmente engomada, e nunca andava com o coldre minimamente desviado de uma posição canónica.
Aquando da sua passagem pelo Departamento de Estupefaccientes, o seu rigor na composição dos elementos foi também aplicado na apresentação à imprensa dos resultados das apreensões da polícia. Fazia questão de apresentar as drogas por ordem alfabética, alinhava os pacotes, e dispunha as armas de acordo com princípios muito estrictos, e que os sucessores na função viriam a reproduzir.
Havia alguma paz de espírito na visão de estupefaccientes e armas assim ordenadas. Como se de alguma forma transmitissem a inevitabilidade da Ordem, a inexorabilidade da rectificação dos elementos - o castigo do Crime.
A sua técnica rapidamente se espalhou e tornou popular um pouco por todo o mundo. Foi baptizada de 'Feng Chuí' - e ainda hoje continua a ser desenvolvida.
Ainda não sei em que partido votar nestas eleições europeias. Mas acho piada o anúncio dos candidatos de cada parte ter sido feito pela mesma altura em que estrou o filme: 'Monstros vs. Aliens'. Lá isso acho.
A vida irrita, Porque só parece Uma mulher bonita, Que nunca conhecemos - A mesma História que quase esquecemos.
A vida irrita Mais do que ensina, Nessa teima de guardar O que destina - E quanto o queremos saber Antes de dar O primeiro passo.
Rua acima, Segue essa mulher De contornos vivazes no ar, Chama a vida a provocar Com o jogo do costume, E passa perante nós o tudo Que ao mesmo nada (Ainda) Se resume.
E ao fim de bastante conversa, consegui decompôr a diferença que ele queria aplicar às raparigas, mulheres, suponho.
Além de uma relação discreta com a sexualidade, nas raparigas mais... curiosas pelo fenómeno do seu corpo, existiriam, segundo ele, mas por meio da minha Sistemática, as subespécies: 'porca' e 'ninfomaníaca'.
Não olhem para mim assim. Eu sou tão somente um ecrã com palavras aleatoriamente compostas. Onde está 'porca' poderia igualmente estar 'economia do Zimbabwe'.
Hei - também há os homens 'porcos'. Bem mais, até. Não tem nenhum mal (hum... embora...). Nós (os que filosofávamos, não confundir com a subespécie masculina anteriormente descrita) é que somos 'snobs' e 'copos de leite' para ir buscar essas distinções.
Mas acho que estão a perder a beleza da coisa. Que está, justamente, em considerar que 'porca' é a extremófila, a 'outliner' (considerando no meio da curva de Gauss a mulher com quem o sexo tem um valor não demasiado importante para a realização pessoal), a extremófila, dizia, sem ... 'sex-appeal'.
Porque o que ele não estava a conseguir expôr claramente é uma certa... discriminação. A 'porca', coitada, seria uma prazenteria sem 'finesse', onde a ninfomaníaca 'sabia o que fazia...' no que respeita ao sexo. Temos, pois, uma diferença de domínio do mester. Há quem tenha jeito industrial, há quem tenha jeito artesanal - embora, em ambos os casos, em grande escala.
Como classificaria Lineu estas duas subespécies? Hum? Sugestão: simplicius porcini e sabidonia ninfomani.
E pronto, srs. telespectadores. Por hoje é tudo. Despeço-me com amizade.
Sexta-feira normalíssima na vida de Zé Júlio. Vou a uma papelaria, peço, pago, saio. Mas espera: sou educadinho: "Bom fim-de-semana". Logo.
Onde é que está aqui o problema? Existe um. É que eu não conhecia ninguém naquele respeitável estabelecimento comercial. E dou comigo a pensar que o 'bom fim-de-semana' exige uma certa familiaridade. Se os não conheço - porque me apoquenta assim a sua felicidade domingueira, hum?
Dizes que são preocupações da treta. Entendo. Mas eu chamo-lhe 'dramas da vida surreal', ou 'amizade com a vacuidade'. Mas o Seinfeld fez uma pipa de massa com isso - e eu estou aqui a lançar-me.
A questão é que um 'boa-tarde', mesmo um abrangente, equívoco 'bom-dia' teriam bastado. E eu ando a esbanjar cumprimentos. Nesta economia, não dá.
Mas bom, sempre é um motivo simples para reparar que falta Beatles a este blog.
Vazio, Fugindo ao corrupio À incerteza. Amanhã, Uma bala, voz, verdade Seca e lesa, Matou todos os outros planos (Suspeito à noite).
Tentado De novo, por já tentado, Fracassado - Sem saber de ter escapado, Mas o caminho tão esquecido…
O prazer É só um adiar fingido, Dessa manhã, E a noite (di-la-ão malsã), A noite está em nós Por ninguém sabe Se a luz virá.
Há Uma fuga dos sentidos, Em atalhos repetidos – Mas porque não me lembra enfim? Quanto esses caminhos Me alontanaram de mim.
Mas a noite (di-la-ão verdade), E aos dias, Circunstâncias - Impostos de realidade, Gritos escondidos pela novidade De alguém gritar.
Não, já o disse – Estou farto de andar Por aí; Sei que fui destinado - Ainda antes de o amar - A estar sozinho, E é por isso que erro no caminho: Todos sabem onde estar E eu… Não me posso abandonar.
As imagens transbordam fugitivas E estamos nus em frente às coisas vivas. Que presença jamais pode cumprir O impulso que há em nós, interminável, De tudo ser e em cada flor florir?
Até que enfim: boas notícias! E se o Sporting, em tempo de crise, viver à conta da formação - ainda melhor... Escusa de repôr o stock de 'flops' de todos os anos. Coisas positivas desta crise.
Aquilo que sempre me irritou mais nas questões portuguesas é a perda de tempo. O tempo está a correr vertiginosamente para o país se preparar a enfrentar uma severa crise económica.
Como de costume, porém, não faltam futilidades, amíude por pessoas que não percebem o que se passa em torno do país.
Vale a pena ler o artigo. Vejam bem que os americanos (!) se preocupam sobre se a deflação espanhola os pode afectar. Os americanos. E nós? Bom - se amanhã jogar o Benfica ou o Sporting não é problema. Voltamos à autarcia - porque não?
Tempos houve em que alguns portugueses estiveram incomodados com o sucesso da Espanha de Aznar. Pois aí têm um país longe da glória, pleno de sinais alarmantes.
Ah - so 90s! Não se enganem - vejam aqui a primeira parte, se faz favor. Aviso: lírica... semi-explícita, vá. Depois sim, cliquem aí em baixo. Achei por bem... separar.
Ele há homens cujo sonho é escalar o Evereste. Eu não.
Eis Ana Hickmann, sublime modelo brasileira, conhecida por estar registada no Guiness pela circunstância de ter as mais longas pernas nesse mester: 1,20 m (Respect...).
O mais curioso porém, é o outro 'record' - como mulher: se não bastassem os atributos femininos, diria que inelutáveis, aparentemente, Ana é tão bem despretensiosa e inteligente - sendo, para além de modelo, empresária. Esteve, aliás, recentemente em Portugal a promover a sua marca de óculos. A propósito - faltou essa outra virtude: usa óculos.
Porque é que se riem, pois, quando eu digo que gosto de mulheres inteligentes? Hum?
Na bomba de gasolina, Está o velho gasolineiro, E ele – é estranho – não me julga Se eu não tiver dinheiro No cartão.
Desculpa-me a confusão, Toma o plástico, E dá-me o papel na mão Com tempo.
O velho gasolineiro Não teme a desconfiança, A maldade, a desilusão; Eu sei que ele gostava apenas Que a vida tivesse menos Artes de antecipação.
Eu sei que ele não se importa, Nem lhe custa o perdoar, Mas dói-lhe na alma saber Que outros não costumam deixar A uma alma distraída, E às outras, uma saída, Se Inferno súbito chegar.
Está tudo bem - Ainda tenho dinheiro No cartão, E mais um dia inteiro Para gastar sem ambição.
O velho gasolineiro Suspeito, dar-me-ia Tudo mais o meu dinheiro, Se eu lhe pudesse remendar Estarmos Sem saldo de amanhã, Sem futuro para gastar.
Mas eu… Já não tenho dessa moeda, Roubaram-me todo o capital, Já o esqueci – Não está bem, Não está mal.
Saiba, Velho gasolineiro, Que antes sequer de dinheiro Com que pagar, Ofereci tudo o que tinha - Ninguém o quis aceitar.
Por isso amanhã terei Que ter dinheiro no cartão, E este nosso coração, Velho gasolineiro, Vai continuar só moeda Fora de circulação -
Quem consegue viver sem música? Eu adoro o silêncio - mas o de qualidade, de recolhimento, não o depressivo, melancólico.
Hei - e não digam que há melhores exemplos. Não sejam elitistas. Afinal, quem é que não gosta de 'Barenaked Ladies', hum? Ainda por cima um vocalista com barriga e óculos? É ouro.
Misturadas as razões, Latitudes, Crimes e júbilos, Mercenários e nobre gente, Verdades reais, equivocadas; Sem ordem aparente, misturadas São entradas Desta enciclopédia.
Passado, Presente, Quase a fragância se sente À vida antes de a viver, E como o poderíamos saber De outra forma? Dela vamos informados, Seus amores - e transgressores Estão classificados Pelo melhor dos tratados.
Cuidado porém, Que própria vida ainda Se não pode ler:
A enciclopédia Não ensina a esquecer, Nem também a recordar; Não escolhe as melhores lições - E não pode alguém falar Somente por citações.
Se eu tivesse que escolher um anúncio para definir a minha vida, não teria a mais pequena dúvida - é este. Este é, tem sido, o resumo da minha vida: um garoto a tentar aproximar-se de mulheres.
Tanto - tanto! - tempo, desperdiçado nessa demanda. Irrita. Só há uma coisa que irrita ainda mais: é, sendo homem, ver as coisas demasiado banais. Prefiro o mistério que está antes. Prefiro andar a procurar mulheres pelo canto do olho toda a minha vida. Prefiro ser assim - garoto, malandro, feliz - para sempre.
Eu... lamento. A sério que lamento. Eu tento fazer um blog com nível, de conteúdo excelso, mas... não resisti. Tenho esta costela dessa qualidade que nomearam. Que querem? Já disse que lamento.
Para não me 'xingarem' ainda mais, nem sequer vou incorporar o vídeo. Mas continua a ser um facto que eu não consigo parar de rir com este anúncio.
Portugal vive um momento absurdo da sua história. Assim uma espécie de deserto existencialista. Estou certo que Camus adoraria escrever sobre este Portugal.
Quando se vive no absurdo, quando não há regras ou limites distintos, a estupidez momentânea - essa que passa pela mente num 'vibe' - sente-se em casa. Dorothy: estamos definitivamente no Kansas.
Dei comigo a pensar nisto no outro dia quando ouvi uma rapariga dizer um palavrão de camionista. Ou de puto rebelde que quer chocar os pais. Não é que eu não diga palavrões, ou seja sexista - e daí talvez eu seja um bocado sexista nesse aspecto. Mas o chocante ali foi a gratuitidade e o 'out of the blue' da coisa. Enquanto os demais cumprem regras de convivência e civilidade, há quem as fure, e deite cá para fora o que não deve. Uma espécie de incontinência verbal.
Esta incontinência, parece-me, está muito em voga, em virtude justamente desse 'normal absurdo', e vai além do palavrão gratuito e chocante, para chegar à excentricidade repetida da falta de lógica, ou de moralidade básicas (mesmo para humor). Tem, assim, outro sinal patognomónico - a boutade. Em suma, delicia-se com este deserto de lucidez que se tornou Portugal.
Um dos temas favoritos da boutade é, nesse mantra de 'espantar o burguês', a sexualidade. Nomeadamente das formas de perversão da sexualidade*. Clássico: dar a entender (levando nós uma 'sheltered life') que certas realidades chocantes existem bem vívidas, e que nós nos cruzamos com elas todos os dias.
Se alguém perguntar por factos - não há. 'Fact-checking' é só um estrangeirismo manhoso usado por indivíduos de óculos que perdem tempo com blogs. Se alguém aprofundar a conversa (uma surpresa, aliás, dado que o tema é supostamente 'para não mexer ainda mais', a não ser por uma espécie de desejo necrófilo), é-se sempre desviado, sobretudo com a justificação subentendida de 'não nos perturbar mais' com a dura realidade - quando o maquiavelismo está, exactamente, em deixar tudo suspenso, difuso, ambíguo. À boa maneira portuguesa, o subjectivo é senhor do objectivo.
Seja pelo palavrão gratuito, seja pela boutade de conteúdo explícito, perverso, incompleto, configura-se na sociedade portuguesa, no microcosmos de uma conversa aquilo a que eu gosto de chamar o 'movimento streaker'.
Tens um pensamento perturbador? Conheces uma notícia sórdida? Então manda cá para fora, quando as pessoas estiverem a comer ou a pensar em coisas sérias! É despires tudo e mostrar 'your stuff' para o público. São os teus quinze minutos de fama, a libertação! Uuuuiiiiii! Bora lá.
A gente tira logo o preconceito do civismo e mostra a realidade nua e crua aos olhos preservadinhos desses copos de leite! Nem interessa se sabemos da coisa, ou se ela é verdade! Estamos com a coisa a roer na mente. Os jornais e a televisão também não seguram as cuecas - porque haveríamos de o fazer? Interessa é que fica na retina essa corrida em pêlo pela falsa moralidade! Está cá fora... Uff... Que alívio!
Ah, todos os 'streakers' portugueses fossem como este senhora, com o perfil ideal para a primeira 'streaker' de Wimbledon...
Na verdade, a metáfora mais ajustada seriam aqueles senhores barrigudos em meias, fugindo de outros senhores fluorescentes, com "ultra-mega-über-casino.com" toscamente pintado nas costas. Urghhh... "didn't need to see that".
E o mesmo se aplica na perfeição aos 'streakers' tugas hodiernos: urghh... "didn't need to hear that".
Não esquecer: a vida é um... 'messy business'. Feita de tanta coisa... e de tanto acaso também. Por mais que não o saibamos aceitar. Às vezes pode mudar a vida para pior, às vezes para melhor.
Faites vos jeaux, mes amis. Mais les jeaux... ils ne sont jaimais faits.
E a idade adulta vem, e quanto mal faz ela aos sonhos. Mas, hei, se sonhar é humano, por mais adultos que venham, mais sonhadores virão também. Sonhos de conquistas e everestes. Ou os mais antigos sonhos de sempre - com ela, com elas. Enquanto por cá andarmos.
Uma das coisas mais... fixes de toda a minha vida foi a realização de um sonho: confessar 'I'm a nerd', a uma representante da 'nerd-nation' USA.
Foi a propósito de uns cartoons 'nerdy' (famosos, embora) que eu conhecia e esta simpática americana não, e lá lhe disse: 'Well, I'm a nerd... You've probably caught up on that'.
A verdade, porém, é que eu não sei se ainda sou um 'nerd'. Já fui, sabia imenso de imensas coisas - mas depois parece que me desleixei. Mas porque é que eu fui jogar à bola?...
Fiquei a modos que um 'pseudo-nerd', um 'nerd-wannabe' (so sad...). Mas... sei lá. Ela pareceu aceitar a coisa, fazia-lhe sentido. Toma lá: 'certified nerd'. I hereby state that Zé Júlio... etc, etc.
Riam-se, riam-se. O certo é que se eu um dia for ao Kentucky tenho uma amiga. Pode acontecer - porque não?
A enxurrada de notícias é avassaladora, e todos já estamos 'numbed', embrutecidos pelos títulos dos jornais. Com que é que nos vão chocar a seguir? Conseguirão - ainda - chocar-nos...?
Mas a realidade desafia esse limiar. Parece que há porcos que ainda voam mais alto. E a seguir ainda mais porcos, ainda mais alto.
A notícia do Correio da Manhã, que refere a acorrência de crianças subnutridas ao Hospital Amadora-Sintra é mais um novo 'sub-zero'. Eu já nem vou usar o chavão 3º mundo, porque me ocorre melhor algo como 'Twilight Zone', 'Quinta Dimensão'.
Crianças. Sem alimentação. Por causa de uma crise que, aparentemente, não impede grossas reformas de continuarem, programas estatais de toda a sorte. Crianças com fome? Mas há Jaguares num Portugal com crianças com fome? Achas populista o comentário? Concedo, mas da discussão à volta disso estamos todos, aí sim, de barriga farta.
Nesse outro ponto terás mais razão... São os pais que não prescindem do acessório - eles não enganam. Pode ser. E já acontecia antes desta crise. Até, no limite dos limites (hei - estamos na Twilight Zone, não há regras) se pode fazer um ensaio sobre maquiavelismo infantil (vive la folie!)...
Mas... e depois? Quanta falta de lucidez neste país autofágico e demitido impede de ver, onde nunca tal deveria acontecer, crianças com fome? Ponto. E de o dizer - não é admissível. Ponto. Por nenhuma teoria ou justificação. Não é para isso que milhares são gastos em assistência social, não é para isso que impostos são pagos, cargos são ocupados.
Há uma emergência, todos o podemos perceber. Mas antigamente poderíamos também dizer que há inocentes, e que há culpados. Antigamente.
Vergílio Elicíto era um agricultor pacato. Gostava de bons nabos, boa cenoura, boa couve. Não gostava que lhe elogiassem a horta, porém. Tinha medo que fosse por cobiça e que lhe 'pantassem' um mau-olhado.
Um dia porém, Elícito pensou em deixar de uma vez a sua aldeia. Teve uma ideia. 'Tenho uma ideia, mulher!', disse ela à mulher Joaquina. 'Vou ficar rico! Vais ver!'. E partiu para a Cidade.
Na volta, Vergílio vinha, de facto, mudado. Conduzia um carro de alta cilindrada, e vestia fato de bom corte. Bateu à porta e chamou Joaquina 'Viste, mulher? Eu não te disse que ia ficar rico?'. 'Oh homem!, ai valha-te Deus', disse Joaquina, com ambas mãos na face.
A mudança da sorte de Vergílio - ocorrida somente em dois meses e meio - levantou muitas perguntas na aldeia. Ninguém sabia ao certo que negócio fantástico tinha sido aquele. Havia conversa de venda de vinho a martelo, ou mesmo da venda dos direitos para um 'reality show' campesino. Ninguém sabia ao certo - e ele escusava-se a esclarecer os curiosos. 'Cá coisas minhas, compadre!', costumava responder à pergunta certeira.
E desde esse dia ficou cunhado na aldeia, em referência a riqueza de origem não inteiramente clara, o termo 'enriquecimento Elícito'.
Lá ia eu, feliz na estrada. Mas ao parar numa bomba de gasolina, as pessoas olham estranhadas, para o parque de estacionamento. Diacho. Saberão elas da minha célebre inépcia na condução? Virá nos jornais, ali nas prateleiras? 'Indivíduo de Óculos Espalha o Pânico Novamente Com Reinvenção da Lei de Prioridade'? Ou mesmo: 'Escândalo: Polícia Deixa Solto Condutor Que Demorou 30 Minutos Para Estacionar de Lado' (eu disse-lhes que era agora, à próxima, mas a presença deles só aumentava os nervos...).
Mas não. Depois de sair da bomba de gasolina é que eu percebi esta inusitada atenção. Eram os faróis, Zé Júlio! Estavam ligados, home. Méképossível...? É - comigo até é. Mas aquele olhar a criticar o desleixo alheio - o meu, no caso - lembrou-me uma metáfora genial: os faróis ligados na altura errada são a 'berguilha aberta' de um condutor. 'Ehhh... que vergonha! Fecha isso, pá!'. O quê? 'Os faróis, pá! Os faróis! Então levas essa m**** ligada ao meio-dia?! Fecha isso, pá. Hoje não é dia de enevoamento! [risos]'.
É um desleixo juvenil que ninguém gosta de ver. 'Que vergonha!'. A não ser que seja numa estrela de rock excêntrica, que faça disso um 'fashion statement'. Ainda assim, duvido que possa andar com os faróis sempre ligados.
Suave pergunta, De não querer saber. Ira que desponta, Rugido a roer, Vida que remonta Entre a placidez, Vida, vida tonta Pergunta que afronta Ainda outra vez.
Às vezes dou comigo a pensar que não simpatizo com Mourinho em tantas coisas. Mas, de repente, há situações em que me torno grande fã, e por isso o tolero - nomeadamente quando é preciso 'dar uma lição' a um Benítez, eventualmente a um Wenger. Aí, sou 100% pró-Mourinho, aí desculpo tudo.
E, ainda a tempo, os parabéns - mais que merecidos a este Porto que foi a Manchester com toda a categoria, que se impôs e impôs em Old Trafford silêncio e assobios, e que calou um Ferguson deslumbrado, mas sobretudo, um pedante Benítez (podia aquele tipo ser mais irritante, se quisesse?) que aquando do sorteio disse invejar o Manchester, por ser o Porto o adversário que queria, e, naquele seu humor javardinho, perguntou "quem é que tinha feito o sorteio ao Manchester?" [risos...].
Depois de um Sporting que era preferível não ter ido à Champions, e de um Benfica que nem ao menos foi, os parabéns ao Porto. De baixo, a mostrar aos gabarolas como é que as coisas são. Orgulho nacional, sim - com todas as letras. Dito por um sportinguista.
Não há vida no vazio. Um homem vazio E sem coração, Não tem mais vida, Não tem mais senão Que a sua teoria, E consolação.
Um homem sem… Generosidade, É um homem velho De qualquer idade, A quem a morte pediu - E ele assentiu - A cumplicidade.
Um homem contido, Doseia o Diabo, E a dor nos outros, Escuta o seu pedido - Só mais um bocado, Sem a tentação De si oferecer, Sem avaliação, Sem que o possam ver Da vida esconder Sua traição.
Um homem vazio Só deixa aos demais Aquilo que não pode Por arte jamais Um dia esconder – A sua lição: O desenho que é só rascunho De sobreviver.
Desculpa se sei o que queres Desculpa se não sou quem procuras, Ou não quero ser, E podes ser tu quem quiseres Tentar enquanto o não disseres, Mas nunca, nunca convencer - Em ti o deves saber.
Desculpa se procuro algo mais - Diferente, Que estou certo de encontrar. Ah, e tu dirás Que gente é essa Com que teimo em sonhar…?
Mas esse sonho tem que existir, Essa ilha perdida no oceano E navegarei, sempre a sorrir, Filho de Ulisses, Nunca na rota Do teu engano.
A propósito do Ano Internacional da Astronomia, de que tomei conhecimento nos posts de José Pacheco Pereira no Abrupto, e de uma sugestão, do Edu, acerca de um anúncio muito especial, a vós de reflectirem o quão insignificantes somos realmente, neste mundo. Vale a pena ler e escutar, por ele mesmo lido, todo o texto de Carl Sagan.
E é por tudo isto que eu, tolerante com todas as pessoas, só não tenho paciência para quem não tem o mínimo de humildade na sua existência - ou finge ter. Mas nesse aspecto, basta recordar Einstein: "Two things are infinite: the universe and human stupidity; and I'm not sure about the the universe".
"From this distant vantage point the earth might not seem of any particular interest. But for us it's different.
Consider again at that dot. That's here. That's home. That's us. On it everyone you love, everyone you know, everyone you ever heard of, every human being who ever was, lived out their lives. The aggregate of our joy and suffering, thousands of confident religions, ideologies, and economic doctrines, every hunter and forager, every hero and coward, every creator and destroyer of civilization, every king and peasant, every young couple in love, every mother and father, hopeful child, inventor and explorer, every teacher of morals, every corrupt politician, every "superstar," every "supreme leader," every saint and sinner in the history of our species lived there--on a mote of dust suspended in a sunbeam.
The Earth is a very small stage in a vast cosmic arena. Think of the rivers of blood spilled by all those generals and emperors so that, in glory and triumph, they could become the momentary masters of a fraction of a dot. Think of the endless cruelties visited by the inhabitants of one corner of this pixel on the scarcely distinguishable inhabitants of some other corner, how frequent their misunderstandings, how eager they are to kill one another, how fervent their hatreds.
Our posturings, our imagined self-importance, the delusion that we have some privileged position in the Universe, are challenged by this point of pale light. Our planet is a lonely speck in the great enveloping cosmic dark. In our obscurity, in all this vastness, there is no hint that help will come from elsewhere to save us from ourselves.
The Earth is the only world known so far to harbor life. There is nowhere else, at least in the near future, to which our species could migrate. Visit, yes. Settle, not yet. Like it or not, for the moment the Earth is where we make our stand.
It has been said that astronomy is a humbling and character-building experience. There is perhaps no better demonstration of the folly of human conceits than this distant image of our tiny world. To me, it underscores our responsibility to deal more kindly with one another, and to preserve and cherish the pale blue dot, the only home we've ever known."
É que, para além da nossa - relutante - insignificância... "el tiempo corre muy deprisa".
"A Origem das Espécies". O blog de Francisco José Viegas (FJV) é a mais honesta mistura que conheço de prazeres - mulheres, fumo, cultura (creio que a boa mesa ficará para outro formato) - com o mundano. Acabo por concordar com a maioria das opiniões - futebolísticas inclusive (ou sobretudo), mesmo sendo eu sportinguista.
Que me perdoem quebrar a regra de somente elogiar gratuitamente outro português quando haja morrido, mas as referências de FJV a outros blogs - sempre de grande qualidade - merecem a tal arcaica distinção de 'classe pessoal'.
E depois, claro, quem tenha lido as crónicas de António Sousa Homem (a mais bela 'faena' literária contemporânea de que me recordo enquanto leitor), ou, como eu, considere a revista 'Ler' provavelmente a melhor revista portuguesa neste momento (apesar de temática), tem mesmo que, face ao panorama de aridez consentida na sociedade portuguesa, elogiar FJV.
Ele era Importador de pecados, Chegados Pela madrugada Embalados, Comprados por quase nada.
Às vezes nem reconhecia Aquela dor, estranha agonia De um outro povo... Mas seus pecados importava, A qualidade estranhava - E importava-os de novo.
Que não os sabia produzir, Que não queria arriscar, E então pecados importava, Por a si não lhe importar.
Um dia lhe disse alguém De estar assim gastando a vida, Pagando o pecado ao vintém Da felicidade contida.
“Mas se há tanta gente a comprá-los Mesmo gastos, e mal-feitos!” Defendeu. “Muita gente tem defeitos E só não sabe como usá-los…” Esse amigo respondeu.
“Essa vida que prodigam Para eles alguém poupou... Ouve o que te digo - De uma vez - Aprende a pecar - sem medo, Como faz um português.”
Vejo-me obrigado a discordar do PGuerra quanto à Playboy portuguesa: nada tenho contra a escolha de Mónica Sofia para primeira capa. A verdade é que não existem assim tantos nomes de famosas passíveis de capa de estreia em Portugal.
Para além disso, o estilo da revista tem que se impôr primeiro para conseguir determinadas mulheres de renome - idealmente, como na versão brasileira, evoluindo para um patamar quase de 'honraria'. Só após o primeiro número essa cultura vai estar ou não... explícita, para as várias outras famosas que possam ser convidadas.
Pessoalmente, prevejo até que, mais do que as famosas já existentes, a Playboy portuguesa vá ela própria descobrir - e criar - mulheres famosas. Para que o projecto possa ter sustentabilidade em Portugal, claro.
E eu - está na cara - sou dos que deseja intensamente que tenha.
Amanhã é dia festivo, a playboy portuguesa vai para as bancas. Até aqui tudo bem. O problema (não é bem um problema), é que neste género de coisas as revistas na sua primeira edição têm sempre uma capa de sonho, para causar impacto, geralmente, escolhem sempre alguém de renome. Perante a escolha da Mónica Sofia (QUEM?), dá vontade de dizer que nos estreámos à portuguesa...fraquinho, fraquinho.
PS: Antes a Mónica Sofia que uma Soraia Karina ou uma Leila Vanessa.
Dou comigo a pensar como na minha vida, dessas coisas que o Estado dá a tantos portugueses: bolsas, subsídios, ajudas, etc., em nada creio ter sido - directamente, pelo menos - agraciado.
Para mim a 'mama' do Estado é como aquilo dos acidentes - só acontece aos outros. Pode ser que eu um dia, se não tiver cuidado, dê uma guinada na direcção e vá parar a uma avença confortável. Ou não respeite um vermelho e entre numa repartição amena.
Nada de grave, claro - só uns princípiozitos partidos, só umas escoriações superficiais na moral. Nada de sério. Mas é que eu ainda teimo em ter cuidado. Raios.
É assim, o célebre 'Estado'. Farto de ouvir dele na TV e jornais, mas - lá está - tantas vezes parece ser coisa só 'dos outros'.
Ok. Se o Obama diz, eu não vou insistir. Então nesse caso, meus caros, já só me resta a outra proposta: fechar o país e meter tudo a trocar a 'chicha' para as ideias fluírem. Mas sem deixar cair no chão. Isso é que era bonito.
Uma das declarações mais honestas que ouvi nos últimos tempos foi esta, de Mickey Rourcke, após o seu recente 'comeback' nos cinemas:
"I made some stupid, jerky, fall-on-my-ass mistakes, for fifteen years, and I regret a lot. A lot. Hollywood didn’t kick my ass; I kicked my ass. You go up against the system, you don’t win. I lost. That was it. I lost. Humbling."*
Reconhecer que se foi contra o sistema - e se foi trucidado por ele. Eis algo que não se ouve todos os dias. *bold meu
Para que possam ficar contextualizados, na preparação para o dia do primeiro número, aqui vos deixo o arquivo - inusitadamente navegável - de 53 números, de 1954 a 2006.
Para os amantes do vintage, em especial - mas para todos aqueles que sentiram ou sentem o fascínio pelo etéreo universo da Playboy.
As revistas estão integralmente digitalizadas. Acreditem - esta é mesmo uma excelente acção. Não têm de quê.
Eu sempre gostei de ler. Não - todo o género de livro, jornal. Até à revolução gráfica do 'Público', eu era um fiel devoto. Se eu não gostasse tanto de ler - e escrever - este blog não existiria.
A imprensa portuguesa degradou-se com o 'benchmarking', perdeu heterodoxia, e gente dedicada ao que mais gostava. É pena.
Mas no meio deste cinzentismo, meus amigos, faltam menos de 3 dias para o primeiro número - histórico - da mais amada revista. Como? Não, estão enganados - é muito mais que isso. E tudo aquilo que eu enunciei acima se aplica. Verão.
Do Generosità ficam os votos de que seja tudo aquilo que pode ser.
Finalmente, o amor às mulheres - para cavalheiros.
Por outro lado... pode ser o apogeu dos indivíduos com barriga! Hei - estou aqui!
Afinal, como diziam os 'yuppies': "em chinês o caracter de crise e oportunidade é o mesmo!". Embora... as suas dicas - de vida e outras - tenham perdido bastante valor.
*Talvez seja melhor a expressão "cutting back". Afinal, o 'tamanho', propriamente dito, não é, na verdade, inferior (Sem gozo - daqui só virá solidariedade. Talvez daqui a uns anos esteja ali eu, e minha barriga. Estão a rir-se, não é? Pois constatem os factos, meus amigos...).
Hum... E se um dos Gato Fedorento, quando chegasse a hora de escolher o novo nome para a nova série, naquela altura, meramente olhasse para um livro esquecido, ou se recordasse de ver o nome algures?
O homem novo apitou, E apitou novamente - "Olha pra esta merda!", Aos carros, em sua frente.
O homem novo rugiu "Tou farto, não pode ser!", E sua mulher saiu Do carro, para perceber Toda aquela confusão.
Reclamava também ela "- Realmente!", Falou com gente daquela, Que não pensa em quem sente Um espaço ao fim do dia, Ao fim de um dia assim quente; "É que é sempre esta avaria!" - Diz do carro, impaciente O seu marido.
São... Carros mal-estacionados, Novas regras desenhadas, Para pessoas, para estradas Neste chegar de uma vida - E ter onde estacionar - No mesmo ponto de partida.
Daquela toca às vez saíam barulhos estranhos. Gritos, desesperos, desabafos. Mas a família Lapin, coelhos que se haviam instalado naquela fresca e escondida zona do bosque havia algum tempo, tratava com serenidade todos os vizinhos. Dizia-se que os Lapin viviam bem - embora aquele não fosse bairro de mamíferos abastados. Era uma parte da bosque sem grande agitação - com o "ecossistema em equilíbrio", como dizia o patriarca Júlio Lapin, rindo-se.
Mesmo a origem aparentemente estrangeira do nome criava desconfiança. A isso se juntavam os gritos, as ofensas que saíam da toca, e que eles ouviam. Ruído que não se coadunava com o porte distante e polido dos Lapin no trato dos vizinhos... Havia um mundo dentro da toca, que apenas transparecia para fora, e tornava a vida de fora como que um acto de teatro.
Felício Lebre não percebia aqueles lagomorfos. Via-os a ter que sair da toca para apanhar as suas ervas, as suas raízes, e via-os bem alimentados. Nem sempre ele se podia gabar do mesmo. "Mas o que farão estes coelhos...?". A distância a que o remetiam não lhe permitia investigar mais sobre o assunto. Mas várias vezes concebia com alguma raiva aquela vida tranquila, de pêlo luzidio, enquanto que ele tinha que escapar a tantos predadores para manter o seu covil. Por vezes detestava aqueles coelhos, tão insistentes no trato frio, empurrando a sua curiosidade.
Um dia, porém, houve um furão que chegou àquela parte distante da floresta. Criou-se o pânico. Prevenidos, porém, os Lapin defenderam-se como puderam, os Lebre também. Depois de muito esforço, no final do susto, o furão já distante, Júlio Lapin não evitou olhar olhos nos olhos Felício Lebre. "- Isto é inadmissível!". Com alguma surpresa, Felício retorquiu: "Pois é, pois é... Esperemos não se repita". Júlio Lapin estendeu-lhe então a mão, e cumprimentou-o. Mais sereno perante tais situações-limite, Felício estava composto, e aquele cumprimento despertou em si um pequeno sorriso. Viu nele a ponte que necessitava para o futuro. "- Afinal sempre teve que dar a pata a torcer", diria depois a Juta, lebre sua esposa.
Daí em diante começaria a fazer conversa com os Lapin sempre que se encontravam fora da toca, retorcendo o seu teatro de cortesia, face às discussões pouco edificantes que lhes conhecia. "- Pois é...", disse numa tarde ao Vivi Texugo, dono de uma taberna do outro lado do bosque, "verás Vivi - eles ainda vão ter que vir aqui comer erva à minha pata. Vais ver! Eu sei do que eles são feitos...". Ria-se então, acompanhado por Vivi, amigo de longa data, à difusa luz, reflectida pela sua plumagem coçada, amarela. "- Bendito furão aquele, Vivi. Bendito furão!".
Ele falava em alto tom propositadamente. Com os amigos, discorria sobre as 'damas' que conhecia em jogos na net. Qual era o nome daquela? "Só quero afogar o ganso. Falei com ela, disse que já tava farto de ir para os copos com os gajos. E ela disse que tinha vodka".
De repente trocava, já não falava de 'damas', 'cena', 'chaval'. Falava brasileiro? Imitava o sotaque. Porquê? Ah. Mas 'o gajo', 'a dama', 'ya', 'ya', 'ya', 'tás a ver?' voltou, voltaram.
E à distância o mitrês trocava com um sotaque brasileiro. Propositadamente a fazer-se sentir. Aliás, em italiano, 'ouvir' é 'sentire'. E há conversas, tons, rumores, dúvidas que se querem fazer 'sentir' em redor - às outras pessoas.
Mas depois, só, houve ainda um galão a beber. E apontou ao empregado como um colega se esquecia de um pormenor no serviço da bebida.
Talvez tantas vezes, ao nosso jeito, usemos o nosso qualquer 'mitrês' ou 'pseudo-brasileiro' para nos fazermos ouvir. Não - ninguém é perfeito. Talvez só nos distingamos se, realmente, ainda damos atenção a esse pormenor, a essa pequenice de que gostamos. Somos portugueses respeitadores enquanto gostarmos desse pormenor. É o nosso modo de melhor expressão - involuntária, silenciosa - pelo rumor que quisermos criar, com que quisermos dar a entender aos outros - aquilo que somos, aquilo que podemos ser.
Uma coisa que me apoquenta especialmente são as 'chain letters'. No entanto, as que apelam a maldições, promessas de felicidade, cheias de testes, historietas, e moralidades 'feel good' não me incomodam minimamente. Ignoro-as com gáudio.
Mas... deparo-me sempre com as 'chain letters' de pedido de ajuda, pessoas supostamente em desespero, para encontrar alguém perdido, ou com problemas médicos. Aí, muito a custo, tenho que abrir uma excepção. Detesto ter que incomodar pessoas que conheço, melhor ou pior, com tal missiva, mas... no caso de tal ser efectivamente verdade, não tenho, nem os recipientes, o direito de ignorar um genuíno pedido de socorro. Ninguém tem.
Certamente, nem tudo será fidedigno. Mas... outros fins menos nobres escondidos a uma primeira vista, quem somos nós para ignorar o que quer que seja? Eu acabo por não gostar de receber estas cartas - porque sinto o dever de incomodar outras pessoas enviando-a também. Às que leiam este blog, ficam as minhas desculpas.
Peço somente que concebam como é ser um familiar assim em desespero. Todos temos, como humanos, de ser feitos de um mínimo de empatia, de compaixão. E todos temos que esperar, também, nunca nas nossas vidas ficarmos sem os prefixos "em-" e "com-" - nunca ficarmos a sós com a dor, e com a ânsia.
Diz que o mundo do futebol - o mundo em geral, realmente - é demasiado pequeno para dois portugueses terem sucesso ao mesmo tempo. Hei - a última palavra d' "Os Lusíadas" é inveja. Não por acaso, suponho. Não por acaso.
Ainda a propósito de sportinguismos e benfiquismos, aqui há uns dias fui a um desses restaurantes de rodízio. Pergunta-me o senhor, brasileiro, quando eu peço uma caipirinha, se a quero normal ou "à Benfica". E explica, rindo-se: mais fraca, com sorriso malandro.
Ora eu, como sportinguista (ui... depois de tanta outra coisa mais importante) devia-me ter rido. Mas quer dizer, convém ter um pouco de pudor. Não teria grande sentido, depois do resultado de Munique.
O mais curioso, porém, é que eu não gostei da caipirinha "à homem", mas adorei a mais fraca e doce "à Benfica". E pronto, fico assim: sportinguista quando vou ao estádio, benfiquista para a caipirinha, e talvez portista quanto à cor. Não é mau, suponho. Tudo somado, dá português.
Não, não, eu não me esqueci. Sem dúvida: uma derrota por 7-1 em Munique depois dos 5-0 em Alvalade 'bota' "milha" em humilhação: é muito extensa, de facto. Não, não, dizem bem - toda a razão.
Pessoalmente, estava à espera que o Sporting fosse cilindrado, mas nunca por tanto número. Agora, a 'million-dollar-question': o que é que isso me afecta? Zero. Se calhar alguns de vocês até estavam à espera dessa resposta.
Honestamente, pelos dias de hoje, os resultados do Sporting não me afectam minimamente, excepção feita quando vou ao estádio. Acho que é mesmo um luxo, hoje em dia, sofrer com o futebol. Eu não o tenho.
De qualquer forma, o meu sportinguismo, como de costume, vem sempre à tona quando me provocam a propósito do resultado, e, sendo que a maior parte são benfiquistas, eis a minha singela resposta: Riam-se à vontade. Digam o que quiserem. E até têm razão. Mas vocês sabem tão bem quanto eu que a decadência do Benfica é muito mais preocupante que a decadência do Sporting. Tenho ou não tenho razão?
A verdade é esta: se amanhã houver um presidente do Sporting com "garra" e heterodoxia, que disser que o Sporting, por causa desta crise económica, tem que fazer uma transição com somente júniores e meia dúzia dos jogadores actuais, eu garanto-vos que os sportinguistas estarão lá para os apoiar. E eu até vos garanto que uma tal equipa iria surpeender toda a gente pela positiva.
Não, a decadência no Sporting não me preocupa. Primeiro porque as oscilações no Sporting de Paulo Bento são desde sempre a única constante: nunca se sabe o que vem aí no próximo jogo. Segundo porque o Sporting está cheio de velhada, padece de excesso de verterania, e precisa de se refrescar com urgência. Tradicionalmente, porém, é um clube que faz isso com relativa facilidade. Até é bom o Sporting não ter dinheiro - para se ver obrigado a aproveitar até ao tutano a prata da casa - coisa que o seu estatuto maniento-burguês dos últimos tempos raramente concretiza.
Já não é assim com o Benfica. Quando há problemas no Benfica eles são muito mais estruturais. E isso significa que vão ter que rolar cabeças e ralharem comadres. Bem alto. E a maior parte dos benfiquistas tem enorme dificuldade em conciliar a simpatia por Vieira e Rui Costa com os resultados actuais. É como ter algo mal, mas não poder assacar as culpas a quem normalmente as arcaria.
Eu confesso: simpatizo bastante com Rui Costa, do ponto de vista pessoal. Foi um grande jogador, mas falo exclusivamente de personalidade. Explico melhor: no outro dia via uma foto de Figo com uns colegas de juventude. Crianças, apenas. Eu não quero elaborar demasiado sobre o tema, mas duvido seriamente que Figo tenha mantido o contacto com muitos desses primeiros amigos.
No pólo oposto, recordo-me de uma entrevista de Rui Costa em que ele falava de um colega das camadas jovens que seria tão bom ou melhor que ele naquele então, mas que não logrou dar o salto. Ora, na construcção do sucesso existem múltiplas variáveis. A sorte é uma delas.
Às vezes os melhores são atraiçoados por um pormenor. E já se sabe como é a História: ninguém fala dos segundos. Ninguém? Às vezes fala, como Rui Costa, que se lembrou desse outro rapaz, que não 'resultou', que ficou por qualquer razão, com quem até terá aprendido truques, perguntado como é que ele fazia aquilo, aquela finta, guardado ensinamentos para a vida. E evocou-o, depois de ter sucesso. Raríssimos são os que, em todas as áreas desta vida, o fazem. E eu tenho uma razão profunda - que o futuro desvelará - para escrever essa frase.
Eu não condeno os benfiquistas: se eu fosse benfiquista, eu também seria incapaz de culpar Rui Costa. Mas, como eles bem sabem, isso é estar entre a espada das más exibições e resultados e a parede do respeito a quem o merece.
Solução? Próxima época, naturalmente. A mesma de sempre - para os dois clubes.
O sr. Cordeiro era um ovino singelo, de quem se dizia com justiça, e graça miúda: 'não faz mal a ninguém!'. Gostava de acordar cedo pela manhã, mastigar um punhado de erva 'nem demasiado verde, nem demasiado seca', ler placidamente o 'Correio da Lã'. Nem sempre dormia bem, e tinha que estar atento à sua saúde, por via das dúvidas.
O seu trabalho era simples, sem complicações. Trabalhava num notário perto de sua casa. Era pontual. Dizia mesmo a brincar que as outras ovelhas poderiam acertar os relógios do escritório pela sua entrada, mas nenhum dos seus colegas percebia bem quem fora o 'Manuel Cante' nem a 'Quónisbeaurgue' de que falava.
Era um bom profissional, e os utentes gostavam dele. Tinha sempre um sorriso - "é o meu carimbo", gostava de dizer - para oferecer com um papel. Não se lhe conheciam romances. Constava que a sua vida era mesmo aquilo que parecia: o de ajudar a manter a paz no rebanho, a felicidade de todas as ovelhas, perdoando as ovelhas negras, evitando que os jovens borregos seguissem por maus caminhos. Era uma alma em paz, ou uma paz de alma.
Mas tudo mudaria aquando dos ataques dos lobos. Em raides sucessivos, predavam sobre o rebanho. O pânico instalou-se, a vida quotidiana mudou. Tudo agora parecia um interlúdio até ao próximo ataque, de que ninguém saberia o momento. As ovelhas passaram a ser consumidas pelo medo omnipresente, e a tensão envenenou o dia-a-dia.
Os anos passavam agora mais pela cara de todos, pela do sr. Cordeiro também. Apesar de tudo, ia tentando fazer a sua vida nos mesmos exactos moldes, tentando ser agradável - não prescindindo dos seus sorrisos. Essa simpatia e placidez, no entanto, capturava agora em si a ansiedade dos seus colegas. "Como pode ele estar com aquela cara da forma que as coisas estão?", diziam. E por isso, tão somente, o sr. Cordeiro passou a sofrer discriminação e assédio por parte dos seus colegas.
"O que é que queres, meu filho? Estás à mão de semear...", disse-lhe um dia seu tio, o dr. Carneiro. Mas o sr. Cordeiro recusava a acomodar-se, seguir o mesmo estado de pânico dos colegas. Fazia até maior ênfase em partilhar o seu amor pela vida, e insistia no mesmo hábito de não criar inimigos. "Mas olha que uma ovelha sem inimigos, é como se não existisse..." avisá-lo-ia seu tio.
No turbilhão de emoções, e do desespero convertido em pequena agressão, o sr. Cordeiro lembrou-se de uma história muito antiga, que lhe contara o seu bisavô, um ovino da velha guarda, sério e vetusto, que tivera a fortuna de conhecer enquanto borrego.
Recordava-se desse avô lhe confiar um segredo bem guardado na família. Dizia ele que os Cordeiros provinham de uma linhagem muito antiga, e que inclusive tinham sangue caprino muito distante. Não, porém, um sangue caprino qualquer, mas de um caprino famoso, que a História consagraria como "Bode Expiatório".
Pensou se seria essa herança genética a lançar sobre si a fácil pequena agressão. Afinal, os destinos não mudavam com os tempos. Às vezes sonhava que estava a ser julgado no tribunal do rebanho, em que alguém dizia: "Meretíssimo: este ovino que tendes perante vós é o culpado da nossa desgraça". "Mas como, sr. advogado, se ele não é nenhum lobo?", replicava o juíz. "Pois bem, meretíssimo - mas também não é nenhum cão de guarda. Ninguém pode ter uma aparência tão tranquila e plácida perante os acontecimentos correntes, se não for ele mesmo parte do problema!". "Agarrem-no! Agarrem-no!", gritavam então as ovelhas exaltadas na sala de audiência. "Ordem no tribunal! Ordem no tribunal!", exigia o juíz martelando sobre a mesa.
O sr. Cordeiro acordava então, sobressaltado, a lã suada. Fitava o céu do curral alumiado pela parca luz do luar, recuperava os nervos, e tentava dormir novamente, contando seres humanos.
Levantando as mãos em direcção à luz fluorescente do seu laboratório, o Dr. Sobral deu uma gargalhada. Ninguém o ouviria, àquela hora da noite. Ninguém distinguiria a luz quase de loucura nos seus olhos. Tinha conseguido, tinha resolvido o parodoxo - enfim. Reviu as equações de novo, e ainda outra vez. Riu-se ainda mais intensamente. Nunca se sentira tão eufórico - e estava sozinho, sem vivalma para se espantar com aquele furor. Mas estava certo - sabia-o. Conseguira deduzir o algoritmo final. A História estava a ser feita: doravante todos aqueles que o desejassem poderiam ter sol na sua eira, e chuva no seu nabal. E o Dr. Sobral - depois de uma disputa com um colega polaco, que terminaria nos tribunais - foi justamente glorificado como o descobridor da pedra filosofal da Agricultura.
O menino Fábio de outrora era já um homem. Já não ia aturar mais as ordens, e os caprichos de seus pais. Já não ia tolerar mais qualquer intromissão no seu destino. Não - aquilo acabava ali e agora. E por isso decidiu explorar o lado negro, experimentar o proibido, conhecer o sabor do limite. Olhou para o relógio da cozinha: eram quase 19h. Esperaria ainda mais algum tempo. Mas então chegaria a hora, do tudo ou nada. Olhava para as laranjas na fruteira diante de si, repassando a promessa a si próprio. Não as comeria de manhã, nem à tarde, como tantas vezes repetiam os seus pais - mas à noite. Seria homem o suficiente para o cumprir. O Fábio obediente, respeitador, polido e empático morria ali. O futuro diria em breve se algum outro Fábio viveria.