terça-feira, agosto 12, 2008

Balada do Bom Cavaquista

que eu sempre fui bom cavaquista
nem é preciso repeti-lo:
anos depois já só se avista:
tanto canário, tanto grilo,

tanto gorgeio, tanto trilo

que de promessas se guarnece:

um mundo e outro, isto e aquilo,

e o povo tem o que merece.


vi engrossar de boys a lista,
vi saltitar mais do que esquilo,

de galho em galho ser artista,

e armar o estado em crocodilo.

voracidade? era do estilo.

economia? ai que arrefece!

vi Portugal vendido ao quilo

e o povo tem o que merece.


vi muito pássaro na pista
já de asa murcha e intranquilo,

já sem alface nem alpista

e já sem grão dentro do silo,

secou a teta e o mamilo,

chegou a hora, chega o stress.

há vários anos que eu refilo,

e o povo tem o que merece.


senhor, na entrada deste asilo,
mordeu-se a isca da benesse

e o povo tem o que merece.


Vasco Graça Moura

segunda-feira, agosto 11, 2008

Lawlessness: A Miséria Humana

Hesitei muito em falar de temas como este no blog. Não é a sua vocação natural. Mas perdoem-me, peço-vos, esta excepção.

O rapaz que vocês vêem nesta foto acabou de apunhalar a namorada. Está coberto de sangue, e rodeado de polícias. "Game over... So it ends" a foto parece dizer. O fim chegou. Que ele tenha ódio de si e isso seja castigo suficiente ou não é uma outra questão. O que se está a passar em Portugal, neste momento, numa sociedade que se demite a todos os níveis - isso sim, é preocupante.

Vem aí um Setembro muito complicado, muito duro. Para ninguém menos que José Sócrates. É neste Verão, com um assalto violento a um banco, com um assassínio brutal a uma namorada (estamos a falar de um ser humano, português, rapariga e inocente que mancha a camisa deste rapaz), com um tio que mata a sangue-frio o sobrinho em Olhão, que Sócrates começa a perder as eleições.

Há fenómenos que são de desespero generalizado, internacional. Outros que têm origem nacional. Sócrates está a esquecer-se dos segundos. Este é o Verão que marca o fim da era do 'Menino de Ouro'.

Atenção, porém. Nunca direi que Sócrates é mal-intencionado, que não quis bem aos seus compatriotas. E nunca direi que não tem boas decisões políticas. Mas... não é tão vertebrado quanto seria necessário. Não tem trigo e joio, não tem castigo - espera que as coisas aconteçam somente pela positiva. Será sempre, para mim, um primeiro-ministro esforçado. Mas que nem a esforço consegue ser um líder de um país. Porque há parte de ser líder que não é uma questão de esforço.

Extreme Living

Dia passado, de manhã, a transportar citotóxicos - em que deixar cair uma pinga que seja é fatal - a andar de bicicleta, à tarde, por uma Odivelas plena de condução violenta e impaciente, em rasas de centímetros, a darem que pensar no que seria.

São assim estes dias. O importante é chegar incólume para os escrever aqui.

sábado, agosto 09, 2008

A Idade anti-Kissinger

É como se, a determinada altura, as mulheres entrassem na 'idade anti-Kissinger'. Mais velhas e amarguradas, tudo em seu redor é tratado com cinismo, 'bota-abaixo' - 'realpolitik' usada no sentido mais nefasto.

Não procuram - ao contrário de Kissinger - uma détente, o relaxamento da tensão entre partes. Kissinger procurava amigos preciosos a todo o custo. As mulheres nesta idade, pelo contrário, criam gratuitamente tensão e geram inimizades - mormente entre outras pessoas - para comprovar a sua visão cínica da realidade das coisas.

O problema é que é delas uma sensibilidade, um pressentimento quase... diabólico. São lixadas - conseguem intuir o calcanhar de Aquiles de quem quer que seja - e já perderam a vergonha de outros tempos, agora usam isso como arma de arremesso.

Coitadas das pobres raparigas, a começarem as suas vidas, a atarem todas as pontas soltas. Elas, que, com toda a doçura e generosidade, procuram parceiros seguros, têm maravilha pela vida. E, às vezes, vêm-se sujeitas ao jugo destas SS, destas outras mulheres, mais velhas, amarguradas - na idade 'anti-Kissinger'.

Palavra e Acção

Hoje elogiaram-me directa, generosamente. O tipo de elogio que eu reclamo sempre escassear, faltar como motivação para ir mais além. Devia estar contente e calado, portanto.

Mas... a pergunta surge ainda assim. Haverão acções, por detrás de quem elogia, em relação a nós que estejam em consonância? É que no momento eu - obviamente - derreto-me com o elogio. Mas gosto de pensar que, em última análise, são sempre as acções mais importantes. Requer algum esforço assim pensar - mas parece-me mais correcto, a longo prazo.

As Catedrais Pagãs 6

Acabemos voltando ao início. Porque são, tudo dito, os hospitais templos ainda mais pagãos que os estádios de futebol? Se em ambos, tantas vezes, o Sagrado se confunde com o Profano, se em ambos, tantas vezes, não há crença ou necessidade de Deus?

Acontece que o futebol é, apesar de tudo, uma metáfora. É uma metáfora para a vida, para instintos mais básicos. No hospital é a própria vida, esses instintos, que todos os dias estão em questão. Há sangue, pecado, humilhação e salvação. Absoluta. Não é um golo – é uma vida. Não há metáforas.

As Catedrais Pagãs 5

O médico ouve e compreende – o clínico, o bom clínico – tanto ou mais que os padres de hoje. Tudo encaixa, tudo aceita e contextualiza, no que respeita à vida extra-patológica da pessoa. O que tem algo de benção, de alívio para o indivíduo.

Profanidade nº4: o hospital (a Medicina em geral) tem, na vida moderna, uma função acolhedora da confissão disputada à classe religiosa.

As Catedrais Pagãs 4

Em vez de cânones e mandamentos há parâmetros bioquímicos e procedimentos. Em vez de orações há fármacos. Não mais dez Avés-Maria, antes dez miligramas de sertralina depois das refeições.

Profanidade nº3: as regras, em que se tem uma fé quase absoluta, são científicas, funcionam como directivas religiosas.

Doutorismo

Pergunto-me se algumas pessoas insistirão em serem tratados por 'doutor' para terem sempre uma distância assegurada a outrém. É que eu insisto em não ser tratado por doutor - simplesmente, sinto-me muito pouco douto - mas sei como, se alguém ultrapassar barreiras que não deve, e seja doutor, leigo ou Presidente da República - reagir. É que essas barreiras existiram sempre por alguma razão, afinal...

Dispenso a "protecção" que é o título de doutor. Mas faço-o conscientemente... Consciente daquilo de que abdico ou me arrisco. Mas sei. E isso faz toda a diferença.

As Catedrais Pagãs 3

Por outro lado, sendo o corpo o elemento central, como foi dito, é a sua vertente repugnante que é ali tratada Não é de beleza, de movimentos cénicos, de todo o píncaro físico do organismo que trata o hospital – pelo contrário, depara-se com todos os aspectos da sua decadência. E, por arrasto, com os efeitos psicológicos dessas mazelas físicas.

Assim, no hospital é-se confrontado com o a prostração, a corrupção do organismo, o exaurir inevitável, o bizarro, com tudo aquilo que é, por cada qual, escondido.

Aqui o corpo não deixa criar ilusões quanto às suas imperfeições, quanto às sua fragilidade, quanto aos seus vícios… E quanto ao seu fim – que o corpo tem um fim marcado, porquanto o neguemos, tal não pareça assim na vida moderna, que nos convida a desfilar egotisticamente por um mundo de superfícies, falso. Quem vive num hospital sente essa profundidade todos os dias.

Profanidade nº2: a decadência do corpo surge como derrota do espírito, da alma, cerceia ilusões, expõe a fragilidade e o fim.

As Catedrais Pagãs 2

Antes de mais, é curioso reparar como, da mesma forma que as igrejas cristãs eram construídas sobre antigas mesquitas, também os hospitais começaram por ter inspiração cristã. Mas hoje não obedecem – não poderiam obedecer – a esses preceitos. O Sagrado, é certo, continua a conviver com o Profano, mas a confusão só beneficia o Profano.

De alguma forma, o hospital cria em si uma força centrípeta, decorrendo do seu objecto por excelência: o corpo humano - que é também o elemento central do paganismo.

Num hospital, o corpo humano é Deus. Ele dita as regras e a moralidade. A moralidade, claro está, é a absoluta solidariedade entre corpos. Os prestadores dedicam-se a salvar corpos, e fazem também o que for preciso aos seus para o conseguir. Levam-no ao ‘red line’ naquele momento, tratam-no depois como entenderem.

O stress absolutamente ímpar de querer salvar uma vida, por ser um fim supremo, perdoa qualquer mecanismo de compensação, de relaxamento.

Repare-se que, se um cirurgião for capaz de trabalhar várias horas ‘non-stop’, e, mercê de meticulosa arte, operar magistralmente o coração a um doente e o salvar, ninguém o condenará por… praticamente nada. Por ser mal-educado, pedante, cocainómano, viciado em sexo? Por nada. O seu trabalho é essencial demais – é a sua redenção. É óbvio que a maior parte das pessoas é normal, e há-os virtuosos também. A questão é que, em nenhum outro tipo de função são os vícios privados tão tolerados - face à complexidade e importância da função.

Profanidade nº1: todo o vício ou abuso (adulto) é consentido em função de um bem maior.

(continua)

As Catedrais Pagãs 1

(Nota: A reflexão que publico a seguir não está - somente - relacionada com o facto de, actualmente, estar envolvido no meio hospitalar. Antes, incorpora alguns elementos, observações, prévias a essa experiência, e que decorrem da minha relação com a área de Ciências da Saúde.)

Durante muito tempo pensei que fossem os templos pagãos da nossa era os estádios de futebol. Aí, olhar fixo no jogo, o irracional assome, o irracional assume. Não há mais controlo, mais pudor – mais limitações socialmente impostas. Aí o chimpazé dentro de nós salta e dança, faz um cafuné ao intelectual.

Hoje, contudo, e tendo tido a experiência de conhecer por dentro um hospital, digo que esse é, na realidade, o derradeiro templo pagão dos nossos dias. Apresento em seguida alguns argumentos genéricos a favor desta tese, e no final justificarei porque suplanta o hospital o estádio de futebol em paganismo.

(continua)

sexta-feira, agosto 08, 2008

Poker Sem Cartas

E às vezes eles estão em torno de nós comunicando sem falar. Trocando coisas que nós só podemos intuir, suspeitar, não mais que - por melhores que sejamos - ter quase-certezas. Nunca certezas totais...

Não sabemos das histórias, dos sinais, dos ímpetos revelados das vontades. Pode ser aquilo, quase aquilo - mas falta o 100%. E sem 100% não há partilha, mesmo resposta ou atitude.

Ali, à nossa frente, em olhares e semi-palavras há informação a ser percebida, trocada. Até mesmo sobre nós. Diante de nós, naquele momento, joga-se um jogo de poker - sem cartas.

Guilherme Farrusco

E acho que encontrei o sócia português do Will Ferrel. Tal e qual... Mas porreiro.

Wannabee Playboy

Ainda na mesma conversa, e a propósito de namoradas, acabo por confessar, porquanto pedinte no mundo-cão das relações que, pudesse eu, seria certamente um playboy.

'Só tenho dois problemas a atrapalhar esse projecto de vida: o excesso de barriga e a falta de dinheiro. Mais nada. Mas sou um 'wannabee' playboy - lá isso sou'.

A Matriz

Alguém me dizia hoje, no estilo da conversa relaxada, estar constantemente a receber mensagens da Isabel Figureira, ter a Marisa Cruz à espera em casa, ser cobiçado pela Adelaide Sousa.

A minha resposta: 'Pois, tudo isso faz sentido. Mas depois, quando deixas a Matriz e voltas ao mundo real, deve ser doloroso - não?'

Bossy - Não Há Ordens Gratuitas

Já não consigo localizar o excelente post de Pedro Mexia (para mim o melhor blogger nacional), no seu Estado Civil, em que citava um escritor fancês, com uma frase que devia ser mais ou menos assim, dito do homem para a mulher: "ainda não me deste o direito de me dar ordens". Entenda-se o direito, claro, como o dela.

Eis porque me irrita solenemente que algumas mulheres, ou raparigas, amigas somente, pelo tom ou palavras me dêm ordens - assim, além do normal e saudável convívio entre pessoas. Ordens puras. Sem que a isso tenham - ou eu lhes quer dar - esse pleno direito.

O Factor Humano e o Mínimo de Coerência

Uma coisa curiosa sobre o trabalho, e a minha relação pessoal com o trabalho é o de que, quando envolvido, adoro trabalhar como poucas coisas (embora raramente o faça com o que gosto realmente). Mas sou muito pior a lidar com o factor humano, com a sociabilidade e todo o esforço de diplomacia. É que... às vezes não dá mesmo para perceber como as personalidades sobrepõem ao fim último, ao objectivo necessário. É... obsceno, tantas vezes parece obsceno. Mas há sempre um egozito de merda - mais frágil, uma tentativa de cercear a sede do melhor, um 'aparar por baixo' para que nenhum pense saltar alto de mais. Muita cortesia, muito amigos, mas desde que todos se considerem iguais. Não há cá melhores. Sempre abominei esses sentimentos ressabiados de tomar toda a gente por igual. E sempre tentei ser coerente com isso. Desde logo assumindo que, se eu próprio não estiver à altura, é justo que tenha consequências disso. Eu não tenho porque ser bom, ou mesmo 'o melhor'. Posso ser preguiçoso, querer aproveitar a vida. Mas tenho, sim, que reconhecer e abrir alas para quem seja, para quem queira sê-lo. É esse o meu mínimo de coerência.

Essa, contudo, está longe de ser a tese vigente.

Entusiasmo

É como se fôssemos motores de combustão e ardêssemos a diferentes velocidades, uns assolados pelo tempo de vida a ser desperdiçado, outros regalados nessa indolência, nessa modorra que nem a sabem ser.

De Profundis

Reparem como somos agentes superficiais de tanta coisa, de tantos espaços humanos. Quando vamos ao supermercado, à loja, ao hospital, à universidade. Reparem como nos movemos somente à superfície das coisas, sem saber dos podres, os vícios, as virtudes, os truques de colectivo, as regras não-ditas, a experiência, as personalidades, as histórias: 'quando, quem foi, quem fez, que acontecimento em que alguém perdeu a cabeça, quem dormiu com quem, quem foi despedido, quem adora, quem abomina'. Tantos os sítios por onde assim passamos, sem perceber toda a história por detrás. Só saberemos a do nosso próprio meio (às vezes nem isso). De todos os outros meios somos 'clientes', 'utilizadores', estamos 'do lado de lá'.

E, curioso, pessoas há que nunca passam para o 'lado de cá'. Ficam sempre do lado de lá, deliciam-se com a superfície, não se comprometem. Talvez, a maior parte deles, por a tal não serem obrigados - a realidade humana é sempre uma coisa chata com que se lidar.

Astronauta, Bubble-Boy, Erimita

E às vezes é como se fôssemos astronautas no Espaço. Lá fora do nosso fato, à prova de som e dos outros, fazem-se guerras surdas. Ou então somos nós que já não queremos ouvir, que já não temos sensibilidade para ouvir - já estamos entorpecidos pelo barulho.

Vagamos assim pelo vazio, sabendo porque se guerreiam os outros lá fora, Observando-os com enorme fastio. Mexendo-nos pelo Espaço deles. Sem querer, contudo, deixar o nosso fato, o nosso capacete. Já tentámos e íamos sendo violentamente sugados. Já tentámos e havia só barulho lá fora.

É como um 'bubble-boy' que não tem contacto com o mundo exterior. Mas que, ao contrário do desafortúnio biológico, pode ter e sabe como - mas dispensa-o.

Antigamente dizia-se de gente assim erimitas. Hoje, embora toda a gente esteja, na realidade, mais só, parece cada vez mais difícil o sossego, a verdadeira solidão.

Temperamento Iô-Iô

Ele há pessoas que têm um temperamento difuso. Nós pensamos que passamos do 'você' para o 'tu', mas depois parece que o 'você' quer voltar, ficava melhor. Pensamos que existe outro nível, mas - de repente tudo se fluidificia - os níveis confunde-se, a evolução simples, fiável, obtida pela experiência - deixa de surtir efeito.

Ele há pessoas com 'temperamentos iô-iô'. Não raras vezes, o equívoco, o deixar alguém escorregar de repente, o 'deixar o telefonema cair' do lado de lá, é feito por via de calculismo. Muito cuidado com os 'temperamentos iô-iô' - ninguém gosta de ser manipulado.

quinta-feira, agosto 07, 2008

A Força do Destino na Corrida Para a Felicidade 1

O Destino é uma coisa engraçada. Não raramente, usa uma arma predilecta para seus intentos: a Sorte. Juntemos-lhe uma característica ainda mais intensa em portugueses: o Hábito.

Para quê, perguntam vocês? Justamente, para falar do mesmo de sempre. Pois é.

Pensem numa/num namorada/o, e como o descobrem nas vossas vidas. Por exemplo, no vosso curso. Deve ser coisa tão velha quanto o dia em que rapazes e raparigas passaram a frequentar a mesma universidade. No vosso curso vocês têm conhecimentos, estabelecem contactos, afinidades. Passa-se muito tempo, refeições, vitórias e até derrotas juntos. Com a idade mais pletórica, eis a combinação perfeita de todos os elementos.

Agora, face a essa "miscibilidade" pensem nisto: o curso em que nos metemos faz a diferença. É diferente, do ponto de vista masculino, um curso de Humanidades, onde estão concentradas muito mais mulheres, que um curso de Engenharia. Pelo último, é desde logo cerceada muita possibilidadezinha. Pois é.

Os adeptos do "Mercado Livre", os Adam Smith das relações, dirão que, se bem não se encontrem num curso, poderão encontrar-se noutros lugares. Mas não é bem assim... Os portugueses têm um sentido muito apurado de fidelidade, e a primeira barreira de conquista de confiança é, por isso, difícil de vencer. Tem as suas grandes vantagens depois, mas até lá é difícil - para não dizer impossível.

Dou um exemplo. Um dia, por razões que não vêm ao caso, tive, à porta de um concerto, que me desfazer de um dos bilhetes que tinha. É difícil explicar a desconfiança, o afastar tácito, uma certa... 'repugnância de antemão', antes mesmo da pergunta, com que fui recebido por alguns portugueses. Para oferecer - oferecer!, que nem sequer era candonga, já só não queria que outro ser humano não aproveitasse aquele bilhete. Inacreditável. Lá o acabei por dar a uma estrangeira, que ficou bastante grata. Gostava de acreditar que isto aconteceu por ela estar fora do seu país, mais 'indefesa' e grata, e que no seu país também me daria obsceno desprezo.

Mas, para o caso de ser uma característica mais bem - excentricamente - portuguesa, vamos assumir que não.

(continua)

Welcome...

...said the spider to the fly. Aí está uma frase favorita de muita gente.

O Ponto G

E, por acaso, tropeço nesta piadola do Sílvio: "O ponto G das mulheres é a última letra de shopping". Não está mal visto, Sílvio. Até estiveste bem. Um bocado machista, mas no domínio do humor a liberdade é total.

quarta-feira, agosto 06, 2008

La Corte Española em Lisboa:O Shopping Surreal

Não percebo bem porque é que é assim, mas sempre que vou ao Corte Inglés tenho a sensação de que os portugueses que por lá andam tiveram uma lavagem ao cérebro. Como se tivessem sido espanholizados. Refiro-me aos empregados, claro (embora também não faltem clientes presumidos). É como se tivessem feito parte de um programa "vamos a intentar sacar lo más diñero que possamos dos vossos compatriotas. Vocês também encham os bolsillos. Pode ser?". Como que uma espécie de Clube Miguel de Vasconcellos.

"Não meus amigos - isto para ter classe tem que ser mais que português. A gente importa uns cafés e uns lombos ensacados, faz um clube Gourmet, e treina os empregados para se lavarem muito bem todos os dias dessa coisa horrível... a portugalidade." - alguém de topo terá dito um dia.

Nada de inteligência emocional, nem flexibilidades 'à tuga'. Só o certinho, as excepções que estão nas leis castelhanas, o fatinho perfeito (melhor que o do cliente). Nada de confianças, que isto é internacional, meus amigos. Isto tem classe. Aquele senhor ali no Bar é formado em Filologia. O caballero da Hugo Boss tem um mestrado em Biologia Marinha. E ali o chefe... bom - é espanhol, não o ouve a falar alto ao telefone como se estivese em Marbella?

É preciso manter o nível da coisa, em suma - pode aparecer algum espanhol por ali. A lei parece que diz que não se pode barrar ugas mais burgessos... mas eles devem perceber a crítica tácita. Aqui só os portugueses com classe - entenda-se gente classe empresarial acomodada, 'quadros', gente académica, políticos do meio da cadeia inteligentes o suficiente para se terem 'safado', senhoras velhotas sem mais nada que fazer, senhoras novas, a pensar em comprar, ver, aparecer, passear, jovens algo desenquadrados, classes médias altas, médias baixa presumidas...

Tudo aquilo podia existir serenamente. Agora... há uma espécie de fusão do pior espírito lisboeta - de distância, 'marmorismo' emocional, com uma espécie de escape 'internacional' - os parâmetros dos 'outros' lá fora. Tudo junto, parece falso demais, vendido, hipócrita. Tem coisas boas? Excelentes (sobretudo no supermercado, a minha crítica diz mais respeito ao armazém acima). E tudo junto - que poucos têm tempo ou paciência para percorrer lojas 'gourmet'. Mas... um estilo tão híbrido, tão indefinido, tão constrangedoramente... falso, traidor tira muito prazer à coisa. Para mim.

É, agora me apercebo - há ali uma fusão de tanta coisa que eu dispenso: o surrealismo e mania lisboeta, um castelhanismo encapotado (tipicamente paternalista - respeitamos muito a cultura portuguesa, mas nos bastidores 'se habla' como deve ser), e, claro, o amorfismo de uma grande empresa, uma 'corporate', interessada - na forma manhosa de que é paradigma a colocação das escadas rolantes - no lucro. Mistura, assim, qualidade com coisas que - dispensassem a ambiência e o serviço 'by the book', intimidante, de alguém num fato impecável, ao ar condicionado - seriam chamados de 'normais', talvez mesmo apenas 'sofríveis'.

A Ordem das Coisas e a Conta no Ti Ego

Uma mulher é diferente de um homem. Sabiam?

Pois bem. À parte de outras mais interessantes variações, abordemos uma certa... autoridade.

Ninguém gosta de receber ordens. 'Mas que é isto?' 'Quem é fulano?' 'Que raio de tom de voz?' 'Logo o sicrano - que nunca fez, nunca conseguiu, ou sempre insistiu naquele erro. Logo o sicrano!'

Pois bem. Levar ordens é lixado. Mas que limitação é esta à nossa liberdade pessoal?

Vamos começar por assumir como certa a necessidade social de ordens e de pessoas que dêem ordens a outras. Dito de outra forma, vamos assumir a necessidade social de Ordem (a do Eça, exactamente).

Nesse caso, quem pode dar ordens? E quem não pode, quem está a cruzar a linha? Não deixem lá por agora o Presidente da República. Bush quem? Não, comecemos pelo princípio - pelo género (não, não vou meter aqui a tal palavra - não quero desconcentrar, que isto é importante). Ora, pensemos nisto: pode uma mulher dar ordens da mesma exacta maneira que um homem? O Politicamente Correcto diz que sim, e eu não vou discutir isso ('assim se vê a força do PC!').

Mas... estaremos nós dispostos a receber essas ordens? Se um homem ou uma mulher emitirem a mesma ordem, é mesma coisa? Pois - acertaram. Eu não estaria para aqui a badelar se achasse que era.

A minha teoria é a seguinte: (nota prévia: também há género no recipiente) as mulheres são, apesar de tudo, mais... objectivas a receber ordens, de qualquer género. Pensam mais no fim, talvez no tom, que no facto de outrém mandar fazer. Os homens... os homens - ou estes, portugueses, que tenho a oportunidade de aturar, esta tribo da testosterona - parece dizer (ok, confesso: sou mesmo eu que o digo): uma ordem de uma mulher, antes de ser uma ordem, é de uma mulher. Ela pode não ter pingo de legitimidade, autoridade formal, pode desconsiderar até ao osso, esquecer todo o passado de dedicação num repente - que nós, a mais das vezes, não nos vamos chatear com isso. Ordens de mulheres são assim como lavar os dentes - um hábito que nos educaram como de higiene fundamental. Nunca saberemos até que ponto isso é mesmo verdade.

Agora, para obedecer a outro homem é preciso que ele tenha uma de duas: autoridade formal (ser patrão, por exemplo), ou uma legitimidade que impõe especial respeito. Porque... de resto, se um homem quer mandar, ser mauzinho, perder o tom, e a rédea sobre si mesmo, tem que estar preparado para uma realidade, uma... Ordem das Coisas - mais cedo ou mais tarde, essa é uma conta que ele vai ter que pagar. Na taberna do Ti Ego não se faz fiado.

Eis uma lição simples - e tão simples de esquecer...

P.S.: Bom, há também aquela coisa do perdão. Graus, ciscunstâncias, tempos. Mas isso, que me perdoem, é todo um outro post.

Summer Bastards

Há uma certa sacanice estival entre alguma juventude que é muito difícil de esconder. A coisa está a estalar por dentro com o calor. Há demasiada energia, demasiadamente mal investida. Não em nada de excelente, de eterno, de criativo, de amoroso. Fica tudo na retranca, encostado à parede da discoteca, bebendo, bebendo mais, olhando o suficiente até que ela - sim, ela - se decida ir ali falar com os príncipes. Até à preguiçosa manhã seguinte, depois de mais uma noite, começar tarde de mais um dia a adiar o futuro.

E a frustração, claro, por algures tem que sair. Não raramente, para colegas ou amigos que são - ou aparentam ser - o elo mais fraco, mais manipulável. Pessoal? A mim? Não necessariamente. Tem havido algum 'sacana' desses - mas não faz parte do meu círculo de confiança (vi ontem o 'Meet the Fockers'...).

A questão não vai por aí. Ao calor há pessoas que são piores, que se libertarem da maneira errada. O calor em alguns temperamentos é uma coisa chata - pode deitar muita coisa a perder.

Embezerrar Equívoco

Um dos problemas de um ambiente de trabalho, qualquer que seja (e não, não estou a falar do meu actual), é o da interpretação da distância.

Se alguém parece distante à nossa interpelação e presença, chateada, está assim por nossa causa? Ou é de outra pessoa essa responsablidade? É que o resultado é o mesmo - o mesmíssimo. Está ali alguém a lamber as feridas de um atrito com outra pessoa, ou a controlar a ira connosco?

É sempre uma situação equívoca. Passamos a ter que ver muito bem onde pisamos, para o caso de sermos nós. Mas bom, são as relações humanas - sempre assim foram.

A Corrida Para a Felicidade

Diz-me um amigo, que não via há longo tempo, que se vai casar. Fico extremamente feliz por ele - sou sempre a favor da felicidade alheia. Acho extraordinário, nestes tempos, um tão precoce compromisso. De todo o desaprovo, só o elogio. Mas fica sempre a sensação de ainda faltar tanto - tanto - para aí chegar um dia.

Suponho que cada qual faz a corrida para a felicidade como pode, tão depressa quanto lhe é permitido. Ou quão depressa se esforça por correr - fica a dúvida.

Zelo em Pêlo

E eis que, hoje, no refeitório do hospital, por entre a multitude de batas a devorar pratos dúbios, gira com toda a leveza pelas mesas uma musa de calções brancos, curtíssimos, e as pernas bronzeadas, por si só superando toda a outra gula. Morena, camisola azul. Belo efeito.

E eu que estou sempre a defender que não se deve entrar de bata no refeitório... Mais uma razão. Durante o Verão, deveria ser obrigatório. Agradeço a solidariedade desta colega, o seu zelo pela Saúde (e felicidade) pública.

Muito obrigado.

Caso Perdido, Não Caso Isolado

É isso - é verdade. Gostava que mais mulheres errassem comigo. É que eu sei que elas se iam queixar - 'ele é um cafageste'. Otário? Falta de maturidade? Rabo de saia? Cheiro a cholé? Suor exagerado? Mal-vestido? Indeciso? Gordo (já me devia ter lembrado desta)?

Bom, mas... e depois? Elas também erram com outros que têm tantos ou mais defeitos. E depois? Não posso ser um caso perdido?

Era só para reforçar. Fazer o favor de errar aqui. Muito agradecido.

sexta-feira, agosto 01, 2008

Água em Marte

Uma notícia que me recordo de ser várias vezes repetida é a da água em Marte. Parece que há água em Marte, há gelo em Marte, há grande probabilidade, etc. Várias vezes julgo até ter ouvido a notícia literal: 'há água em Marte'.

Espero que desta seja de vez.

quinta-feira, julho 31, 2008

You Got Women On Your Mind IV

Alguém faz o favor de desligar, uma vez por todas, esta música? Muito obrigado.

Pede o Desejo, Dama, Que Vos Veja

Pede o desejo, Dama, que vos veja:

Não entende o que pede; está enganado.

É este amor tão fino e tão delgado,

Que quem o tem não sabe o que deseja.

Não há cousa, a qual natural seja,

Que não queira perpétuo o seu estado.

Não quer logo o desejo o desejado,

Só por que nunca falte onde sobeja.

Mas este puro afecto em mim se dana:

Que, como a grave pedra tem por arte

O centro desejar da natureza,

Assim meu pensamento, pela parte

Que vai tomar de mim, terrestre e humana,

Foi, Senhora, pedir esta baixeza.


Luís de Camões (1524-1580)

Próxima Estação: Ilha dos Amores, Bairro de Tétis

Há aqui um fenómeno do Entroncamento que eu não sei bem explicar. Como é que as miúdas giras/mulheres atraentes saem todas na estação do Lumiar, menos na da Quinta das Conchas? Quer dizer, que apelo feminino tem aquela zona de Lisboa para ali se concentrarem? Será os 'croissants' do "Trenó"? É ver os poucos rapazes que resistem por Agosto, desconfortáveis, lá dentro deles saltando e gritando: 'Hei! Estou aqui! Estou aqui'. Ridículos.

Espera... ou então isso é só meu reflexo no vidro da carruagem.

O Preço do Petróleo (E da Vida?)

Reparem como, de repente, o aumento do preço dos combustíveis é a justificação perfeita para tudo, ou quase tudo em sociedade.

A economia não cresce por causa do preço do pretóleo, a bolsa desce por cuasa do preço do petróleo, a TAP tem prejuízos enormes por causa do preço do petróleo, que não pela 'rasquice' da sua gestão (ver aqui), os camionistas fazem greve por causa do preço do petróleo, as pessoas vão a Espanha por causa do preço do petróleo, anda tudo infeliz por causa do preço do petróleo, o Moutinho vai para o Everton por causa do preço do petróleo (ele não o consegue pagar, coitado), e aquela chapada que eu dei ao outro otário, bom... estava stressado por causa do preço do petróleo.

Se eu fosse desses, e tivesse namorada, era uma boa altura para cometer uma traição conjugal. 'Desculpa, sabes como é, isto do preço do petróleo.. andava a mexer com a minha cabeça'.

E se, de repente, tivéssemos aí um período de petróleo baratíssimo, por acharmos uma jazida enorme no Saara? Como é que a gente se justificaria então? 'Eh pah, já viste o preço dos coiratos? Quem é que aguenta isto? Ainda no outro dia fui abastacer a pança e mais a de dois amigos e tudo custou-me €20. Um escândalo. Quem é que aguenta isto?'.

Party

E se o Presidente da República, na declaração que vai hoje, surpreendentemente, fazer ao País, falasse da emancipação do 'Movimento Mérito e Sociedade', recentemente constituído como novo partido político ('party' em inglês), e desse conselhos para as folias lusitanas de Agosto num só discurso? Como seria essa declaração?


Wake Me Up When September Begins

Trabalhar em Agosto na cidade tem algo de bipolar no tratamento que temos dos outros - e, que, também, lhes dispensamos. Em Agosto, as pessoas estão todas contentes porque há calor. O calor traz mais facilmente o perdão, a felicidade miúda. Mas, por vezes, em Agosto, as pessoas apercebem-se subitamente de que não estão a viver as vidas paradisíacas que deviam algures. E ficam chateadas com isso. E ao calor, esse ressentimento gera ira, numa resposta, num tom, numa omissão.

É assim Agosto. Remodelando a frase dos Green Day: 'Wake me up when September begins'.


I Wanna Be a Bar Man

E é como se a Bar Rafaeli dissesse: 'O quê? Mas estás a fazer estágio em Agosto? Não me gozes...', e se risse, se risse infidavelmente, com toda a sua desinquieta energia.



Ingratidão

Repassando o anterior post, percebo porque muitas vezes acabo por limitar alguns actos pessoais de liberdade: por ser acusado de ingratidão. Mas... realmente, a partir de onde somos realmente livres? O que demos, o que devemos? A quem? Eis uma pergunta de que amiúde me lembro.

O que, claro, está em nada justifica ou desculpa Moutinho e Barroso - situações de ingratidão grosseira.

Moutinho/Barroso F.C.

A situação de Moutinho no Sporting lembra-me bastante a de Durão Barroso, quando saiu para a União Europeia. Em ambos os casos há uma justificação qualquer, que não o próprio egoísmo (as dificuldades financeiras de Moutinho, a importância para Portugal de um Presidente da Comisão Europeia português), que não a verdade também de que preferem ser príncipes - ou lacaios - lá fora, a serem reis no seu país, o que é um elemento importante de análise.

A ambos voto o mesmo castigo: o da memória. Da mesma forma que acho inaceitável que o capitão e, recentemente, a cara de todo o marketing do Sporting, se vá assim - porque quer - achei inaceitável que Durão Barroso deixasse o país como se nada fosse, como se não tivesse responsabilidades maiores que qualquer putativa influência portuguesa algures na burocrática Europa. Se for, eu não desculpo Moutinho. Da mesma forma que não votarei em Barroso. Vale de pouco ou nada? Vale o que vale. Todas as coisas consideradas, ficar com €20 milhões por um trinco e dispensar um primeiro-ministro até então de qualidade média não é incontornável. Se dá pena? Dá. A ingratidão é feia. Mas ninguém morre por causa disso.

quarta-feira, julho 30, 2008

A Doença do Beijo

Por acaso, e ainda a propósito do beijinho, reiterar que, porquanto critique as senhoras com tanto creme facial, e a obrigação do 'beijinho', nem assim me furto a ele. Mas isso não me impede de escrever as minhas revoltas no blog.

De qualquer forma, é bem verdade que eu sou algo socialmente disfuncional no teatro do beijinho. Perco-me, não raras vezes. Não há regras definidas. Por exemplo, se chegamos a um grupo de várias raparigas, cumprimentamos sempre todas, ou um 'olá' basta? É que aquilo dá muito trabalhinho, meus amigos. Tal como uma rapariga a vários rapazes.

Depois esta coisa da função social do beijinho sempre me intrigou. É claro que é aglutinante, reconfortante, e isso é bom. Mas, por exemplo, em Itália, as pessoas cumprimentam-se com aperto de mão numa primeira fase, e só depois evoluem para o beijo, quando há um maior conhecimento. Convenhamos que, por cá, nós dispensamos logo a beijoca a quem nunca vimos na vida.

É que o beijo, queiramos ou não, tem sempre uma ínfima partícula de intimidade, de contacto. Eu nunca quis beijar raparigas ou mulheres quando estava suado (o que, quem me conhece sabe acontecer facilmente) por achar que isso era desagradável para elas. Honestamente. E sempre me parecia que alguns 'pseudo-garanhões' se aproveitavam desse mecanismo social para se aproximarem de uma rapariga, que lhes dava distância. Assim que, por um qualquer acaso, a barreira do beijo estivesse conseguida, ela estava fisgada.

Não me digam que nunca notaram nisso. Atentem nessas miúdas 'difíceis', Ice Queens, estudantes da Católica, com uma mirada de desprezo ainda nem dissemos nada. Vencida a barreira do 'beijinho' o patamar é totalmente diferente...

O que, também interessante, nos leva a discutir a importância da sorte nas relações afectivas (um tema para uma série de longos posts...). O que é que um gajo faz com mérito para subir ao patamar 'pós-1ª beijoca'? Zero, muitas vezes. Conhecia um amigo ou amiga dela. A 1ª beijoca é a via para o conhecimento - e nestes casos, sem conhecimento prévio não há absolutamente nada.

Eis uma sociedade que cria um mecanimo agridoce, que tanto serve o objectivo individual como o gregarismo. É como uma doença, esta coisa. É a nossa mononucleose social, a nossa 'doença do beijo'.

As Quatro Garantias

Pergunto-me se o post anterior, se bem que jocoso, poderá ser interpretado como cruel. Afinal, já se sabe que há quatro coisas que em Portugal é desumano negar a quem quer que seja: um copo de água, um café, a capacidade para sentir inveja e, claro, um beijinho.

Repelente de Beijos

O que eu, nas minhas incursões filosóficas, nunca consegui perceber, é o creme facial. Quer dizer, porque é que algumas mulheres mais velhas insistem, mesmo ao calor abrasador, em usar creme facial nauseabundo, mais nauseabundo e enjoativo ao calor? E as que o fazem nunca são meigas: há uma camada gordurosa que reluz e se distingue todo o dia. Se o aroma não me convence - de todo - a estética e o propósito da coisa passam-me totalmente ao lado. Só me lembro da anedota do meu colega de infância (usar sotaque alentejano):

'- Maria, porque é que estás a pintar os beiços?
- Para ficar mais bonita, home!
- Então porque é nã ficas?'

A sério, a algumas mulheres - e isso também é um facto intrigante - parece escapar a enorme beleza feminina que está no natural. E não lhes dá chatice nenhuma...

Mas voltando ao creme, deixo aqui uma exortação às mulheres mais velhas que gostam de reflectir os outros na bochecha de tanto creme mal-cheiroso que aplicam: não me obriguem a cumprimentar-vos com beijocas. Tal como eu não beijo ninguém se estou suado, para não ser 'pesado', vamos combinar avisarem-me, ok?: 'Hoje não, Pedro. Deixa estar. Hoje tenho o meu repelente de beijos [risos]". E pronto.

Bulimia de Viajante

Olhando para o padrão de viagens, de vivência das viagens da geração da minha irmã, percebo como circulam por tantos lugares do planeta gente jovem, dormindo nos buracos melhores ou piores que arranjam, para satisfazer um desejo feérico, que passa por, conhecendo alguns locais, passear, ver, ouvir, rir, sair à noite e dormir. São os trota-mundos 'desenrrasca'. Vivem dos mesmo elementos: PC, TV, amigos, inglês melhor ou pior, Easyjet, descontos, telemóveis. E fazem muito mais viagens - nunca a quantidade de locais per capita na história pessoal foi tão grande.

Reparem como é um padrão de viagem todo ele diferente do que acontecia há alguns anos, ainda não algumas décadas. Esta gente adquiriu desde cedo como que um vício de velocidade e "amassment" de locais visitados, daquilo a que eu chamo de 'bulimia de viajante'. Quer dizer, nenhum deles, escravo dos mesmos exactos elementos que compõem a sua vida em casa, saboreia outro país. Nenhum respira, se pergunta, pega nos elementos de outra língua, de outra cultura, de outra geografia. Não há paisagem - só imagem. Viajar para eles é ter imagens diferentes.

E ninguém saboreia. Todos comem à pressa com medo que se acabe, e com medo de não ter espaço para comer mais. Todos se passeiam tendo por base as mesmas urbanas regras (como se tudo fosse, no fundo, urbe), com os mesmos óculos de sol, os mesmos esquemas através da página de Internet, do contacto no telemóvel, com o mesmo espírito ardente de viver 'a noite' de outro país, seja pela experiência em si, seja pela exploração deles mesmos fora de portas - e, sim, entenda-se da vertente relacional, ou, mais frequentemente, puramente sexual. Ninguém o admitirá - mas é isso mesmo que se passa. Vão à procura de histórias para contar, amigos/contactos para manter no estrangeiro, dinheiro a gastar o menos possível, e, claro, de 'get some tonight'. O dormir, se possível, no dia seguinte. Senão, que se lixe - 'awake is the new sleep'.

Eu provavelmente não teria nada contra esse estilo - e sobretudo nada tenho em contra da procura de novos amores, ou calores. Mas nunca concordarei que não há quase como que uma espécie de desespero parvo, de espírito de manada, de falta de paciência para cultivar outras valências, outras velocidades por detrás de tudo aquilo. Só ninguém me convencerá que não há nesses viajantes basculantes muita - muita - falta de personalidade. É como um registo, não de fim de século, mas de princípio, a fazer lembrar os anos velozes do ante-guerra mundial, mas espalhado por toda a Europa (espero com toda a convicção que a semelhança seja unicamente superficial).

Dinheiro, sexo, contactos. A isso é reduzida a vida em todo o lado. E parece que as pessoas andam a aprendê-lo cedo demais.

Globalized

A minha irmã, tendo feito Erasmus em Itália, achou por bem dividir o quarto com uma turca e uma irlandesa. Todo a favor. Uma mistura de latitudes e religiões algo exótica, mas todo a favor.

Acontece que a rapariga turca veio justamente visitá-la por estes dias estivais. Miúda encantadora, muito simpática e educada. O seu pai, aquando da visita da minha irmã à sua casa, algures na Anatólia, segundo percebo, enviou-me, através dela, uma camisola do Galatasaray.

Como pessoa cortês que sou, decidi enviar ao senhor, agora que a filha passava por cá, uma camisola do mais representativo clube lusitano - refiro-me ao Sporting. Parece que houve um Jardel que jogava aí antes de ir rapar o cabelo para o Galatasaray.

Ficou muito agradecida, a rapariga. Que o pai ia adorar. Não tem de quê. Sempre a fazer pela glória hospitaleira do meu povo.

Não resisti, contudo, a indicar-lhe um pormenor que fazia toda a diferença, e que tornava aquele um presente 'not without a sense of irony': no interior da camisola aí estava: 'Made in Turkey'. Vejam, pois, como a camisola teve que viajar pelo Mediterrâneo até beijar o Atlântico, só para regressar novamente à origem. É este o mundo em que vivemos.

Caras-Metade

É estranho pensar como a natureza das relações é importante para o nosso bem-estar pessoal, e para a nossa serenidade.

É por isso, suponho, que se eu fosse religioso, e a minha primeira oração fosse a de uma namorada para mim, a segunda seria, certamente, a de um namorado para a minha irmã.

Não - por cá não mora nenhum Gonçalo Mendes Ramires, pelo contrário. Ia ser um descanso (como eu, emparelhado, o seria para ela) - é a minha convicção.

Gostava de saber o que é que dirias a isso, Eça.

terça-feira, julho 29, 2008

Incha... Desincha e Passa

Pergunto-me se alguma vez na História da Humanidade terá havido tanta disparidade entre a atracção, o apelo ao sexo, e o acto propriamente dito. Não deve ter havido nunca tanta gente a estalar de sensualidade (eu arrisco dizer que as miúdas da minha adolescência não eram como as de agora... se não parecesse bota-de-elástico em vez de discernimento analítico). Mas... parece que tudo se fica por aí. Acreditem - não é só por experiência própria que o digo...

Há aqui uma decaláge muito interessante. A riqueza e o bem-estar, a Saúde generalizada, trouxeram uma classe média que se pode perfeitamente perder em ligações mais ou menos perigosas. Mas acabo por constatar que entre a promessa, o quase tão perto que nem parece real, e o real propriamente dito, vai uma distância enorme, e essa é a verdade. Pergunto-me se devido a uma espécie de sucessiva desilusão, de desapontamento com o real face ao onírico. Não sei.

Mas tudo bem. É o Verão. Como dizem as velhotas de aldeia, a época em que tudo 'incha, desincha e passa'.

Os Impostos Atraem-se

Penso em ir de carro ao Algarve. Preciso de abastecer o carro, pagando ISP, IVA e IVA sobre ISP. Depois, seguir pela auto-estrada. Mais €20 de portagem para cada lado. Dou comigo a pensar quanto dinheiro tenho que levar para umas refeições, que teria que comprar. Antes, 2000$00 era um almoço já a fugir para o caro, hoje €10 quase não dá para um. E temos um IVA de 20%, só para não haver dúvidas que se gasta dinheiro à séria.

E eu, que sempre fui um nefelibata, um contemplativo, e distraído, dou comigo a ir ao supermercado e a perceber que, realmente, com €20 não se compra quase nada. Isto não pode acabar bem...

Mas mesmo que o petróleo não estivesse a tocar máximos, uma crise podre de longa, e uma inflação mal percebida, os impostos tiram-nos demasiado dinheiro. É como se, obscenamente, não tivessem mesericórdia pelo aumento do custo de vida. É como se não bastasse levar o mesmo que antes - têm que levar mais. Parece que não há vedar a este vício de cobrar pelo Estado. E, pensando comigo, acabo a formular mais uma lei para a vida: 'Os Impostos Atraem-se'.

segunda-feira, julho 28, 2008

You Got Women On Your Mind III

Estava a pensar noutro post, mas esqueci-me dele. Começei a pensar de novo em mulheres. O que é que hei-de escrever agora?

You Got Women On Your Mind II

É por isso que vale a pena acrescentar a versão de Shaggy, onde a estética, passe a voluptuosidade mulata, estará mais próxima de como a coisa deve ser.

Raparigas e mulheres, ânsias e saberes, olhares e corpos. Maldito Verão.


You Got Women On Your Mind I

E nada mais tenho a dizer sobre o Verão. É como se esta canção estivesse a passar sucessivamente na minha cabeça, a cada decote, a cada deslumbre de costas imculadamente bronzeada, a cada... bom fiquemos por aqui. Maldito Verão.



P.S.1: Como a menção ao inebriante feminino se mistura com um vídeo-clip de grandes planos a burgessos mal-vestidos, a barbas, patilhas e narinas, é algo que só a magia da música pode explicar. Bem podiam eles pensar em mulheres que a coisa, não fosse pela música, nunca passaria dali. É como se, passados 30 ou 40 anos, ainda apetecesse dizer: 'Bela música, mas tomem um banho - a sério. Vão ver que elas preferem.'

P.S.: Ah... women. On your mind - can't help it.

Time Travel: A Cara da Voz Off

Uma das poucas razões porque me deparo perante uma telenovela por alguns magros minutos, por uma novela portuguesa (nas brasileiras é microsegundos), é a de ter a curiosidade presa por algo que nada tem a ver com a cena emitida: antes pelo seu som. Mais concretamente, por algumas vozes.

É que há vários actores que chegaram às novelas de produção nacional (e refiro-me sobretudo às da TVI) depois de, por vários anos, terem permanecido no anonimato. Não no anonimato total, que também os há, mas depois de terem exclusivamente emprestado a sua voz - fazendo de 'voz-off' - dos meus (e vossos) desenhos-animados de infância. É uma sensação muito estranha, e curiosa, como que uma curta viagem à infância. E pelos caminhos da memória tentamos localizar o desenho-animado, a manhã concreta, a hora a que passava, em que olhávamos, fascinados.

Essa memória remota liga agora uma cara àquela voz tão antiga, a uma voz que parecia não ter cara, não ter gente, ser só a própria voz.

Pára o tempo, de repente. Feita a pequena viagem-surpresa, é hora de mudar de canal. Afinal, continua a ser uma novela da TVI.

Time Travel: Os Imortais

Eis o genérico de uma das melhores séries de que me recordo. Quem não se lembra de Duncan MacLeod? Belos tempos, de boa televisão, e temas criativos. Saudosismo dos 90'? Talvez, quem sabe... Foi a minha década, afinal.



P.S.: Não percebo como aquela gente da Sic Radical, tão afoita a repor séries medíocres, não se lembra de trazer de volta 'Os Imortais'. Sucesso garantido, meus caros. Suponho que não tenha a mesma magia, profundidade, e cadência que um excelso 'Curto Circuito'. Otários.

domingo, julho 27, 2008

Esquizofrenia Bizantina II

O problema da esquizofrenia bizantina dos nossos dias é só e apenas o mesmo: a Natureza. Deixem os bombeiros demasiado ocupados a discutir de quem é aquela noite no quartel, e um fogo violento traz o castigo como uma surpresa. Deixem médicos entretidos pelos corredores de um hospital, a fazer tempo para se irem a seus consultórios, e a doente morre naquela noite, porque ninguém o pressentiu, analisou devidamente.

A questão é que há funções, profissões, vitais, onde uma falha tem piores consequências. E, não raramente, essas funções estão entregues, num Estado paquidérmico, a secções sem rei nem roque. Devia haver liderança do lado desses sectores, e mais noção - do resto da sociedade - de que a maior responsabilidade corresponde maior remuneração. Quem não quer ou não consegue - não faz.

Mas a coisa acaba sempre com um estudo, justamente a remunerar principesca e obscenamente os grandes escritórios de advogados e consultoras, porque aqueles quadros de Arte Contemporânea, fatos, e BMs não se compram sozinhos. E também é durinho estar num escritório todo o dia só com boa mobília e ar condicionado. Nem sempre há café à altura.

Brinquem à vontade, que a Natureza vem aí. Não se esqueçam: "Chassez le naturel, il revient au gallop".

Esquizofrenia Bizantina I

Um dos sinais claros de decadência da sociedade - e neste caso inspiro-me na nossa, portuguesa, é o esquecimento das prioridades, do fundamental, do básico. Chamo-lhe a "esquizofrenia bizantina". Olhem em vosso redor: quantos casos não conhecem de gente que discute e se consome em questiúnculas quando o fundamental passa ao lado?

Vejam se não encontram enfermeiros a escusar-se a fazer algo, por não ser o seu turno. Ou médicos num hospital, que, assim que o ponto está picado, se vão. Ou políticos de 3ª e 4ª linha nas câmaras que desviam ardilosamente pequenas porções de dinheiro, assignadas a coisas importantes. Ou professores que deixaram de querer inspirar alunos, que fazem das aulas o suplício das suas investigações e culturas, ou - pior - das suas vidas mundanas, iguais às de todos os outros que não precisam ser criativos e inspiracionais. Ou polícias que rastejam incomodados pela zona que patrulham, em vez de procurarem o que está mal, confrontá-lo, assegurar que, naquele perímetro, nada de mal acontece, em vez de estarem a pensar na esquadra, na sua casa, nas suas escapadelas, na sua não-função. Ou adolescentes que experimentam sexualmente por absoluta revolta com o mundo, porque não vale a pena esperar por este mundo, e a televisão não mostrar ninguém que pense o contrário? Ou colunistas presos nas próprias colunas por cordéis que nem suspeitamos? Ou futebolistas que se esquecem de que são a selecção de 1/milhão de avos de pessoas, que se comportam como mercenários? Ou de velhos que estão abandonados por toda a gente, em finais de vidas tão tristes que não há palavras? Ou crianças que não têm, qualquer dia, protecção especial, que são sujeitas a mundos adultos que não estão preparadas para compreender?

Mas não. Não há problemas. Não há obscenidades. Olha, está ali aquela brasa na televisão, ui... E o Ronaldo está de férias acolá. E a Bruni lançou um CD novo. E amanhã há bola. Não exagerem. Não há problemas, eu não os vejo. E se os vir- mudo de canal.

A Segunda Derrota, o Tsunami do Ânimo

Pior que uma derrota pessoal - e isto não é um cliché de filme série B - é a não-reacção, a entrega. A absoluta falta de criatividade pessoal para conceber uma maneira de dar a volta, de vingar, ou mesmo só de minorar essa derrota. Eis a palavra-chave: criatividade.

A falta de luta pela redenção, sem nada sacrificar da nossa opinião de nós mesmos, da nossa auto-estima, o encontrar de um ânimo pessoal particular, que nos dê objectividade e discernimento, é, sim, a verdadeira derrota. Eis como o problema nunca advém da primeira derrota - antes da segunda. Como um tsunami, em que a segunda vaga é muito mais destrutiva que a primeira.

They Can't Take That Away From You II

Pequeno precalço no calendário - mas continua a faltar um mês e uma semana para estar aqui. O tempo está a contar.

quarta-feira, julho 23, 2008

Mrs. Robinson



Boa tarde, Mrs. Robinson -
Todo o prazer
Em a conhecer.
E às malhas em que teceu intrigas
E que despe...
Como às minhas inocências,
Demasiado antigas
Para as não reconhecer.



Mas... engane-me ainda
Como se eu soubesse escolher.
Por favor.
Nas malhas em que me prende
Os sentidos
Há mais diabos que os seus -
Acredite.

Porque, Mrs. Robinson,
Mesmo que eu soubesse
Escolher...
Nunca pensou
Que eu pudesse só querer
Antes, esse prazer
De a conhecer?

Pedro Oliveira


Irrequieto, Constante e Feliz: O Adeus a João Pinto

Um adeus sentido a João Pinto. Pequenas notas: sempre me pareceu gostar, verdadeiramente de 'jogar á bola', sempre me pareceu estar muito confortável na sua portugalidade - de tal forma que escolheu fazer carreira em Portugal, ao contrário de seus co-aureogeracionais, sempre me pareceu um pouco mais genuíno em campo (de tal forma que raiava a agressão).

Constantemente irrequieto em campo, constante também na sua vida, na sua carreira. Sem deslumbres ou quimeras, passando pela vida como pelo jogo - com esforço, simplicidade, discernimento, e... prazer, felicidade.

Para a história, o melhor golo de cabeça que me lembro de ver (a desafiar a Física), no melhor jogo de sempre, para mim da selecção.

Estupidimetria

Tenho a noção de como o que escrevo é, recentemente, alterado pelo calor. Mas os posts, mesmo assim tostados, são para ser escritos. A vós a paciência.

Batman

A propósito do blog, e daquilo que eu escrevo no blog, tenho repetido que não gosto de misturar o 'real' com o 'virtual'. Partindo do princípio que todas as pessoas com quem lido diariamente sabem do blog, peço que percebam que ele é escrito por uma espécie de 'alter-ego' criativo, como que um Batman, entretendo Gotham City (Brandoa, em português) a partir da sua Batcave.

Serenidade

Explicava eu como, na sociedade actual, de competição e stress constante, é sempre necessário a um rapaz, a um homem, ter uma contra-parte feminina na sua vida. Porque senão - assim vai a teoria - com os níveis de testosterona nos píncaros do desassossego, não faltam pequenas agressões no dia-a-dia que os possam concretizar em algo desagradável.

Escolher uma parceira, para nos garantir essa serenidade de espírito é evitar, ao tomar o pequeno-almoço de manhã no café, pensar 'Este gajo serviu-me o café a escaldar de novo. É hoje que lhe vou à cara'. Ou, à tarde: 'Aquele gajo olhou duas vezes para mim. Está f*****'.

Sem mulheres não há, provavelmente, paz, não há serenidade. E a coisa aqui é toda ela afectiva - está além do sexual. O sexual, convenhamos, é fácil de resolver nestes tempos.

O problema, claro, está na pessoa que, por sortes na vida, temos a oportunidade de acolher, e ela a nós. Nessa pessoa é feito um investimento demasiadamente importante, como o ela o faz em em nós. Mas que esse é um destino inescapável, para a maioria, numa sociedade civilizada e intelectualizada, tenho-o como praticamente certo.

terça-feira, julho 22, 2008

O Momento Chimpanzé

Já o disse algures, neste blog: como humanos (e a expressão não é minha) somos, assustadoramente, um híbrido: somos chimpazés intelectuais. Às vezes mais chimpazés, outras mais intelectuais.

Serve esta recapitulação para vos falar daquilo a que chamo 'momento chimpanzé', no sentido de um assomo, justamente, da porção mais primeva e bruta da natureza humana. Ora, o momento chimpanzé é um desvio momentâneo do comportamento socialmente, correcto, para revelar instintos primários. Tem várias modalidades, mais ou menos graves, mas pretendo aqui tratar um favorito pessoal (porque nele incorro), perfeitamente inofensivo, e que chamarei de 'esgar ao decote'.

Antes de continuar, um apelo à vossa total complacência estival para as linhas que se seguem. Muito obrigado.

Ora bem, o 'esgar ao decote' é um movimento súbito, um desvio da linha do olhar de um indivíduo do sexo masculino para o decote de outro indivíduo, do sexo feminino. Já estão escandalizados? Esperem que a coisa piora.

É assim mesmo. De repente a cabeça dele está descaída, os olhos fixos num decote à sua frente. E o pior é que, na maior parte das vezes, ela nota, e ele nota que ela nota. Que me perdoem a honestidade, mas todos sabemos que esses desvios involuntários, masculinos (creio que exclusivamente masculinos) para uma porção do corpo feminino - acontecem. Literáriamente, poderíamos dizer que o 'esgar ao decote' seria uma sinédoque: consiste em tomar a parte pelo todo. Os olhos ficam, desconcertantemente, presos numa área que lhes é interdita, e o tempo pára até ao ao alarme da vergonha (para quem ainda o possui).

A mim, que desde logo me confesso padecer deste mal, a coisa acontece-me sobretudo em jantares. De repente, desocupado de conversas com quem quer que seja, os olhos viajam por vários lugares, e acontece pararem, sem aviso, a sua viagem, no lugar onde não devem. É como se estivessem a fazer um 'scanning', à Robocop, do ambiente para registo na 'drive', e, na inocente contemplação, e não se apercebessem de que, num segundo, nada é já inocente - ou pelo menos aparenta não o ser.

Era uma vez, portanto, um ingénuo sr. Robocop, a inventariar, a 360º, a realidade em torno de si. 'Log In': [Prato], [talheres], [metade de carcaça com migalhas na mesa], [faca suja de manteiga], [prato com azeitonas], [copo de sangria meio-cheio], [toalha laranja], [jarro de sangria], [amigo X, ao meu lado, falando com amiga Y, à minha frente], [K falando para G, do doutro lado da mesa], [R olhando para o ménu], [D rindo-se com a amiga F], [quadro foleiro sobre a parede ocre], [candeeiro por cima da amiga Y à minha frente], [seios de Y], [seios de Y], [seios de Y?], [seios de Y!!!], [WARNING: DESVIAR OLHAR], [WARNING: DESVIAR OLHAR], [vazio embaraçado], [vazio embaraçado].

É aí que o Robocop tem um assomo de vergonha e culpa angustiante, que o levam a aumentar o ritmo cardíaco e a sudorese palmar. É aí que o Robocop é humano, demasiado humano. Tantos anos de Civilização a tentar programar o chimpanzé, e o chimpanzé foge assim, dança provocativamente em frente a nós, aproveitando um descuido.

Vem depois a fase do 'Damage Control'. Entenda-se: ela percebeu ou não? Geralmente, percebe sempre. É uma chatice. A questão que realmente me intriga na coisa é que este fenómeno embaraçante é absolutamente indiscriminado. Por exemplo, acontece-me sucessivamente com raparigas, ou mulheres, que não têm, para mim, um certo apelo. Quer dizer, que não são impactantes, não me despertam tanta curiosidade.

Vou só fazer aqui um aparte: para o caso de me considerarem pedante, perceber que eu, como rapaz (por um momento ia escrever homem) não tenho a pretensão de aguçar qualquer curiosidade feminina. Quer dizer, há algumas que se interessam - misteriosamente - mas depois, ao ver a peça mais ao perto, logicamente mudam de ideias.

Digo somente que, se fosse possível - e correcto - assignar um 'coeficiente de atracção' imparcial (sabendo eu do quão miserável é o meu, masculino), às mulheres, acontece-me mais esta 'fuga do símio' com as que não, tendo toda a dignidade de mulheres embora, não me obrigam a tão alta classificação. O que não deixa de ser curioso.

É como se o chimpanzé, fugindo, ainda por cima o fizesse por forma a lixar-me ainda mais. Quer dizer: no extremo absurdo de uma rapariga até se sentir... lisonjeada, o sacana do macado só me compromete com quem não deve. Raios o partam.

É assim que a coisa funciona, de facto, meus amigos. O chimpanzé está sempre lá. E não me venham rapazes que leiam este texto dizer que a eles não, que eu bem vejo como isto não me acontece só a mim. Anda para aí muito chimpanzé encapuçado, é a verdade. É uma selva, lá fora. Uma verdadeira selva.

domingo, julho 20, 2008

Conhece as Pedras da Calçada - Conhece o Teu País

Ainda a propósito da tal 'Obrigação de Saber', pergunto-me se essa será, na nossa sociedade intelectualizada (mas pouco intelectual, por vezes), a derradeira moralidade. Quer dizer, uma moralidade pela sexualidade, neste 'day and age' já não faz efeito. Durante muito tempo o tentou a Igreja Católica. Se pegarmos na obra de cada qual... bom, numa sociedade de 'showbiz', que glorifica 'Big Brothers' e Cirstianos Ronaldos (leia-se êxitos instantâneos), acho difícil. Depois, há muita gente, demasiada, que se sabe ou suspeita fazer má obra, sem por isso ter o mínimo castigo (houve em tempos uma coisa de Justiça, mas deve ser um mito).

Portanto, o comportamento em sociedade das pessoas não é sujeito ao juízo moral devido. É uma coisa do nosso tempo, em termos de regressão da sociedade, mas também decorre da própria complexidade que se ajuntou a essa sociedade. Se antes um ladrão roubava um pão, e era óbvio, hoje desvia dinheiro do Estado - e ninguém o detecta.

Podemos considerar o aspecto físico, e a riqueza pessoal. Mas esse 'capital pessoal', nas várias formas, não é verdadeiramente, uma questão sujeita à moral. Uma pessoa pode ser extremamente rica ou extremamente atraente sem para isso fazer o menor esforço. Sem ter mérito ou culpa, portanto. E a questão da moral anda toda à volta do mérito e da culpa.

Talvez reste a 'obrigação de saber'. 'Eu não o posso recriminar por isto, ou aquilo, ou aqueloutro (demasiados telhados de vidro por aí), mas espera... ele tinha a obrigação de saber isto'. Saber=bom=mérito. Não saber=mau=culpa. E, como sempre em Portugal, a moral é aproveitada para o 'bota-abaixo', mais do que para o elogio. Quer isto dizer que muito mais vezes o mérito passa sem elogio que a culpa sem uma recriminação.

O problema, realmente, está na difusão do que se tem, realmente que 'saber', e na avareza com que o conhecimento fundamental é transmitido... É que há muitas lacunas onde tropeçar. É como se determinado corpo de conhecimento fosse a típica calçada portuguesa. Parece simples, e bem bonita. Suave, convidativa. Mas... não convém a ninguém entusiasmar-se a andar por ela. Não correr, não pensar que se é 'o maior'... Há sempre uma pedra solta a amandar ao chão quem gosta de tentar correr por aí.

Da mesma forma, por mais consistente que seja o domínio de um tema, há sempre quem tenha um facto solto para com um 'obrigação de saber' (tentar...) amandar-nos ao chão. E esse é um problema, sobretudo, para a juventude. É o paradigma da 'obscenidade do erro', no extremo oposto do 'nacional-porreirismo'. São como dois afluentes, vindos de direcções diametralmente opostas, a desaguar num mesmo rio. E às vezes as pessoas jovens basculam de ambiente para outro, como joguetes dessas diferentes 'ordem das coisas'.

Ofender a Inteligência

Um fenómeno curioso de observar é o de um certo conflito de gerações, quando os filhos tentam enganar os próprios pais. Não é algo raro, esse fenómeno, nem de agora. Mas os filhos, quando não mentem, mormente ocultam a verdadeira intenção por detrás das suas escolhas aos próprios pais. Às vezes quase há a tentação de trair a própria geração, e avisar: 'cuidado! olhe que o seu filho/sua filha está a ofender a sua inteligência! Eis aquilo que, verdadeiramente, está por detrás do que ele/ela lhe diz'.

Não tenho presunções de ser perfeito, claro. Mas a cada dia que passa percebo que, nesse capítulo, pelo menos, sou melhor que a média. E ninguém me furta esse orgulho.

sábado, julho 19, 2008

I Call It Art, Actually

Agora sim. Depois do último exame - espero - dentro de alguns meses, posso então publicar este post, de carácter mais lúdico e estival, caros telespectadores. De carácter... garúpeo. Uma publicação - curiosa ambiguidade - retroactiva.

P.S.: Remeter crítcas, injúrias e processos judiciais para o mail devidamente não identificado ao lado, como sempre. Muito agradecido.

Republicano

No outro dia alguém me dizia que eu 'tinha jeito' (não sei exactamente porquê), e que devia seguir 'política' (assim, com P pequeno). Eu disse que não, obrigado.

Há somente uma nação pela qual eu tentaria uma carreira, e uma candidatura. Mas não consta que alguém nessa tal 'República da Cerveja' ande à procura de um primeiro-ministro.

sexta-feira, julho 18, 2008

Triângulo das Bermudas

Se uma árvore cai na floresta e ninguém vê, será que caiu mesmo?

E se alguém foi a Bora-Bora, e eu me estou positivamente borrifando - será que foi mesmo?

A nossa indiferença é o triângulo das Bermudas da vida dos outros. Pode fazer desaparecer, como se nada fosse, a mais entusiasmante viagem.

quinta-feira, julho 17, 2008

Síndrome Choldríco

De súbito, reparo que tendo a ser mais crítico com o país (condição fundamental da portugalidade), com os modos e as pessoas, antes de almoço. Depois de almoço parece tudo mais suportável. É como se o 'choldrismo' atacasse pela manhã, fosse pré-prandial. Terapia: tomar 2 Patriotex Rapid ao pequeno-almoço. Se a coisa piorar, fazer 1,143 mg de Lusitanol ao deitar.

Ou então ler. Também resulta.

quarta-feira, julho 16, 2008

'Maskéstamerda???'- Requiem Pela Barbárie

O meu espírito obsessivo joga mal com o temperamento da maior parte das pessoas. Repetidamente, vou confirmar pequenas informações, do género de datas, horas, etc, minudências que fazem a diferença no calendário e na planificação. Primeiro, porque sou cronicamente distraído. Depois porque tantas, tantas vezes têm sido alteradas ao bel-prazer de alguém (que nunca eu).

Ainda assim, sou recebido com a resposta muda de que tudo aquilo são coisas que estão disponíveis algures, que não mudam nunca, que eu devia saber, o tal 'tinha a obrigação'. E isto mesmo de pessoas a quem pago serviços, quer dizer, não só naquele favor 'à la função pública'. Pois se busco somente a confirmação?...

'Que frete'. 'Este indivíduo pesadíssimo outra vez... oh não.' Então... então mas eu não estou no meu direito? Tenho que assistir à volatilidade da organização a que pertenço sem poder, ao menos, precaver-me contra ela? Isto é demais. Mas enfim, o que é que não é demais nestes tempos?

Ah, que saudades do homem do Campo, abruptamente entrando pela Civilização lisboeta adentro, vociferando os seus 'raistapartam' e 'maskéstamerda???'... Já não há poesia assim.

Direito a Ser Traste (Silly Season)

Uma das coisas recorrentes ouvir em mulheres, e mulheres atraentes, é um lamento, a certo ponto, dos seus 'erros' com os homens. Pode ser uma coisa mais íntima, e secreta (que até não é abertamente assumido) ou mais bem um tema de conversa repetido, auto-flagelante, martirizante. Os homens por quem elas se deixaram enganar, que elas nunca pensaram ser assim, que as desiludiram. E eu oiço tudo sem pio, claro. Serei o amigo certo, que não se mete nessas coisas. Serei?

É que, caramba, tenho que pensar: mas que homens são esses? É que eu gostava de ter mais mulheres a errar comigo, a desiludirem-se comigo. Não acho a coisa bem, honestamente. Então eu não tenho direito a ser chamado de 'traste'? A ser mal-dito nas minhas costas no discurso entre elas? A maledicência quando nasce deve ser para todos, minhas amigas. Até vou deixar aqui uma crítica predilecta, para servir de inspiração: "O Pedro é bom na cama, sim, mas como pessoa... ui!". Porque não? Não se riam, se faz favor. Não se riam. Assim estragam tudo.

segunda-feira, julho 14, 2008

Tiros no Escuro

Um dos inusitados problemas de estar no Campo, à noite, é que, ao ouvir algures tiros na noite, e fora da época, não sabemos nunca ao que é tal coisa. E não deve ser coisa boa.

Embora, valha a verdade, a televisão mostre que, pela Cidade, a coisa não anda muito diferente...

Ética do Trabalho

É engraçado reparar - para quem conheceu outro país - como chegámos a um paradigma, como sociedade, em que as pessoas vivem o trabalho demasiado. Criticam de sobremaneira quem não trabalha, fazem sacrifícios pessoais que julgam imensos (e eu não o estou a negar) pelo seu trabalho, pensam no trabalho.

Mas, na realidade, se formos ao pormenor, as pessoas até trabalham, na sua maioria, menos que os seus antepassados. E, sobretudo, têm muito menor prazer naquilo que fazem. O trabalho tornou-se maquinal, mero ganha-pão, fonte do precioso dinheiro.

A questão essencial é que aumentaram exponencialmente as opções do não-trabalho, do lazer. É verdade que já antes quem não queria trabalhar se divertia, e a frase de "***** e vinho verde" (passe a obscenidade) vem de longe, muito longe. A questão é que as pessoas têm muito mais vidas de sonho que não estão a viver.

Não é só uma questão de jogar à bola, andar no engate, comer e beber até não poder mais. É ser isto ou aquilo profissional e socialmente (a tal ansiedade do 'status'), viver algures, ir àqueles sítios, conhecer aquelas pessoas, ter aquelas experiências.

Há demasiadas vidas oníricas que passam ao lado. E isso gera frustração. A frustração torna o trabalho mais maquinal, mera fonte do dinheiro, que permite a bissectriz a essas vidas de sonho. E assim o trabalho perde realização pessoal e, claro, perde qualidade. Ninguém ama mais aquilo que faz, antes o tolera para perseguir aquilo que ama, ou que pensa que ama.

Uncanny

E, de repente, vejo o que parece ser o Paulo Madeira, na televisão a interpelar em francês, e num estilo 'cocky', o embaixador francês em Portugal sobre a libertação de Ingrid Betancourt. Que estranho, penso comigo. Mas, bom, o Humberto Coelho também se casou com uma francesa... Olha para a cultura destes centrais do Benfica, hã?... Sim senhor. E logo o Paulo Madeira. Mas espera, não pode ser. Ah, afinal foi só o Nuno Rogeiro que cortou o cabelo. Uncanny resemblance...

Carácter Garúpeo (It Wasn't Me)

Eis-nos, portanto, no Verão. Subcutâneas, todas as folias e pequenas parvoíces. Preguiças e iras mansas, sob o calor. Talvez por isso, nestas alturas, haja gente a publicar coisas nos seus blogs, que pareceriam dissonantes... ou talvez não. E, perante a desfeita, há somente duas hipóteses explicativas: ou a ousadia resulta, efectivamente, de uma folia estival, como tantos têm, de um sobressalto irritado pela falta de uma sesta, que o sol exige, ou... é feita com toda a intenção, a coberto dessa complacência. "Olha só para isto... Bom, deve ser da silly-season".





Mudando agora para algo totalmente diferente, eis um estudo comparativo sobre a evolução do traseiro, ou do lado B, de Michelle Hunziker, há uns dias apresentada aos leitores do Generosità (rever aqui). A questão justifica-se porque Michelle foi a madrinha, emprestado a sua... presença ausente, a sua segunda pessoa, digamos, à marca de lingerie Roberta. Que mais tarde iria, justamente, recorrer ao forte carácter garúpeo (inventei agora) de Natalia Bush, que também passou pela nossa redacção (pois foi). Ei-la abaixo.



Ora bem, e estas doutas imagens parecem falar connosco, não? Há como que uma pergunta que delas emana. Deixem-me interpretar: "Sabem qual é a única coisa mais desavergonhada que este blogger? Os seus leitores fiéis".

Vemo-nos quando, depois desta, me salvar das malhas da Justiça (hum... será que a Justiça usa Roberta?...)

P.S.: Tenho a alegar em minha defesa o seguinte: 'It wasn't me'. Alguém anda a usar o meu nome, e a abusar da minha excelsa reputação intelectual, para publicar neste blog posts que vão em contra de tudo aquilo que eu não gosto.

domingo, julho 13, 2008

Non Mollare Mai/O Nome e a Coisa

É para mim verdadeiramente difícil responder a um elogio assim, por parte do PGuerra. A verdade é que me tenho habituado a escrever no blog para praticamente ninguém, e não tenho feedback algum. Até vivo bem com essa realidade. É como se cada post fosse um pouco uma mensagem numa garrafa vazia, que eu atiro para o Pacífico.

Às vezes, por isso, se cria uma grande distância entre o que está escrito, a 'persona' que daí se intui, e aquela que se encontra pelos dias. Daí eu ter sempre avisado que não respondo, no mundo físico, por aquilo que está publicado no espaço virtual.

A minha preserverança no blog, contudo, nada tem de monástica. Aliás, quem ler os posts da série 'Pecado Original' perceberá que eu tenho, realmente, muito pouco de monástico (graças a Deus). A verdade é que sempre concebi ter neste blog um laboratório de escrita, um espaço de liberdade criativa, que me permitisse experimentar e e evoluir. Talvez, quem sabe, algo que eu sentia vedado no mundo físico. Eis porque, também, me reservo o direito de aqui escrever as coisas mais estapafúrdias, esquizofrénicas, mesmo obscenas. Eis porque me reservo o direito de aqui errar a meu bel-prazer.

Sempre tentei, contudo, resistir a usar o blog para o desporto favorito de quem escreve: dizer mal de outrém, destilar o veneno que se acumula pelos dias. Não é que eu não diga mal de outrém, não é que eu o nunca tenha feito ou não volte a fazer no blog. Não é que eu não tenha mais que razões. Mas este blog surgiu 'first and foremost' como um projecto artístico. E isso dá-lhe uma nobreza especial, que também não convém beliscar demasiado.

Embora tente colocar o que aqui escrevo com alguma marca de qualidade, não faço disso uma obsessão, porque o fim, neste caso, é infinitamente mais importante do que o meio. E essa é a razão por detrás da publicação de poesia e outros textos de cunho mais... pessoalmente comprometedores, que a maioria não tem a coragem de publicar, de arriscar a vergonha da condenação alheia.

Eis-nos chegados então à questão: sendo um escape criativo, o blog tem qualidade ou não? Não sei ao certo. Eu tenho orgulho nele. Acho-o divertido e refrescante, como sempre pretendi. Acho que pode ser provocador, no bom sentido. E isso basta-me.

E merece reconhecimento da blogosfera? Também não sei. Neste momento, dispenso esse reconhecimento. A blogosfera vive muito ensimesmada em questiúnculas de comadres, e pouco preocupada com a qualidade. Eu não me importo de continuar como até agora: por simples prazer e desporto, sem qualquer ganho ou reconhecimento. O que, claro, parece uma estupidez nos tempos que correm. Mas eu tenho os meus objectivos, as minhas próprias motivações.

Este blog nasceu há cerca de 2 anos atrás, pouco depois de eu ter assistido a uma conferência do Pacheco Pereira sobre blogs. E houve uma frase que ele nela proferiu que me ficou na memória:

"O que é bom, mais cedo ou mais tarde, chega ao 'mainstream'. Não tem sentido a ideia de que alguém está, secretamente, a fazer o melhor blog do mundo".

Hoje essa frase soa-me a um desafio: eu quero fazer, à margem do 'mainstream' o melhor blog do mundo. É uma espécie de teimosia pessoal, de provar errado um pioneiro, um especialista, uma referência.

Apesar dessa vontade, não sei já quanto tempo mais irá existir. Um blog vive da cadência com que é actulizado, para além, obviamente, da qualidade com que é actualizado. E talvez, no futuro próximo, não possa manter esta disciplina de publicação. Ou, quando não disciplina, necessidade.

É sempre assim feito um projecto: às vezes satisfaz-nos, outras exige-nos. Este blog é um projecto pequeno, não merece tanto elogio de obra feita. Mas é um projecto, ainda assim, e eu tenho tentado mantê-lo além das duas semanas de vida que normalmente teria. A princípio esperava mais posts dos meus colegas de blog. Mas também, por os conhecer bem, respeito os seus constrangimentos. E a ideia de fazer um blog de autor também não me aflige. O importante é mesmo fazer, é mesmo escrever.

A verdade é que gosto de pensar que não desisto nunca do que gosto realmente. Posso desistir daquilo que não gosto, onde só a obrigação me prende. Mas não daquilo que gosto. 'Non mollare mai'. Nem que chovam picaretas. E, recentemente, até têm chovido bastantes na minha vida.

Mas volto à premissa incial: é para mim difícil responder a tal elogio por parte do PGuerra. Já não me é, contudo, perceber porque é que o faz. E não estou a falar da minha qualidade pessoal. Pelo contrário, falo da dele. A pergunta que se deve fazer é: quantas pessoas da nossa idade, nesta sociedade voraz e egoísta têm a capacidade, a nobreza de espírito de assim elogiar? Poucas, muito poucas mesmo. O PGuerra é capaz de o fazer porque está acima da média, e é mais honesto com os outros que a média, como sempre foi. Eis aí a confirmação daquilo que eu sempre soube - que ele era o parceiro ideal para este blog. É que, perante uma noção do que é a realidade das coisas, há-os que guardam para si suas análises positivas, e há-os que as convertem em congratulação. No segundo grupo, a que pertence o PGuerra, estão as pessoas generosas. Pois é - que têm a virtude, e a coragem, da Generosidade. Vejam, pois, como ao fim de contas, o 'nome' bate certo com a 'coisa'.