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quinta-feira, abril 23, 2009

As Imagens Transbordam

As imagens transbordam fugitivas
E estamos nus em frente às coisas vivas.
Que presença jamais pode cumprir
O impulso que há em nós, interminável,
De tudo ser e em cada flor florir?

Sophia de Mello Breyner Adresen (1919-2004)

sábado, março 07, 2009

Bebido o Luar

Bebido o luar, ébrios de horizontes,
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.

Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.

Por que jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Por que o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

O Judeu Errante

Hei de seguir eternamente a estrada
Que há tanto tempo venho já seguindo
Sem me importar com a noite que vem vindo
Como uma pavorosa alma penada

Sem fé na redenção, sem crença em nada
Fugitivo que a dor vem perseguindo
Busco eu também a paz onde, sorrindo
Será também minha alma uma alvorada

Onde é ela? Talvez nem mesmo exista…
Ninguém sabe onde fica… Certo, dista
Muitas e muitas léguas de caminho…

Não importa. O que importa é ir em fora
Pela ilusão de procurar a aurora
Sofrendo a dor de caminhar sozinho.

Vinicius de Moraes (1913-1980)

domingo, fevereiro 08, 2009

Esta Coisa Nossa 1

Fernando Pessoa

Teu canto justo que desdenha as sombras
Limpo de vida viúvo de pessoa
Teu corajoso ousar não ser ninguém
Tua navegação com bússola e sem astros
No mar indefinido
Teu exacto conhecimento impossessivo.

Criaram teu poema arquitectura
E és semelhante a um deus de quatro rostos
E és semelhante a um de deus de muitos nomes
Cariátide de ausência isento de destinos
Invocando a presença já perdida
E dizendo sobre a fuga dos caminhos
Que foste como as ervas não colhidas.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

sexta-feira, janeiro 30, 2009

O Primo em 13º Grau

Uma dedicatória ao meu primo em 13º grau.

Neste caso, 'Monte da Casta' de 1999, na flor da idade para ser bebido. Um bom tinto.


Soneto del Vino


¿En qué reino, en qué siglo, bajo qué silenciosa
Conjunción de los astros, en qué secreto día
Que el mármol no ha salvado, surgió la valerosa
Y singular idea de inventar la alegría?
Con otoños de oro la inventaron. El vino
Fluye rojo a lo largo de las generaciones
Como el río del tiempo y en el arduo camino
Nos prodiga su música, su fuego y sus leones.
En la noche del júbilo o en la jornada adversa
Exalta la alegría o mitiga el espanto
Y el ditirambo nuevo que este día le canto
Otrora lo cantaron el árabe y el persa.
Vino, enséñame el arte de ver mi propia historia
Como si ésta ya fuera ceniza en la memoria.

Jorge Luis Borges (1899-1986)

terça-feira, janeiro 27, 2009

Moscas Felizes

É extraordinária a vida. Aliás, o que é a vida? Lembro-me de um livro sobre o tema. Como não poderia lembrar-me de um livro sobre o tema? Mas, realmente, quanto das nossas vidas é perfeitamente aleatório? Quanto está absolutamente fora do nosso controle? Quanto é surpreendentemente bom? Ou surpreendentemente mau?

Por exemplo, hoje eu passei ao lado de uma mulher deslumbrante. Nada de especial teria esse facto, não fosse ela realmente mulher - e deslumbrante. Mas... diria que no cenário errado. Isto é - no meu. No subúrbio, onde as gentes se vestem mal, tratam mal da sua aparência, estão chateadas, deprimidas, com o país, com o trabalho, com o Benfica, com tudo. Mas lá estava ela, como se transplantada para este solo estranho desde uma rua florentina. Tudo errado. Mais não fosse, é o meu cenário. E, de alguma forma, mulheres assim não fazem parte do meu cenário. Ou eu do cenário delas.

Nunca vos aconteceu, passar por alguém tão solar?



Às vezes a vida anda por lugares estranhos, e a melhor vida anda por lugares estranhos. Às vezes encontramos pessoas surpreendentes nos lugares que cremos conhecer. A vida... é complexa, ainda mais complexa numa sociedade ocidental absolutamente afogada em tecnologia. Por exemplo, conseguem lembrar-se do tom de toque do vosso telemóvel? É triste, não é?

Todos nós subestimamos o aleatório na vida. E o aleatório parece hoje dominá-la, com tanta confusão, tanta alienação do normal. Regras simples já não se aplicam. As pessoas podem dizer que é a Política, os políticos, a UE, a Civilização, mas... se tudo isso fosse corrigido, amanhã a vida tornava a ser complexa, intrigantemente aleatória. Basta lerem a última entrevista de Berardo ao 'Público', onde ele diz que, do dia para a noite, toda a técnica que usava nos seus negócios foi arrasada, deixou de fazer sentido. A tabuada já não sai.

Melhor é mesmo perceber que muito da vida está escondido sob o acaso, gostemos ou não. Talvez hoje mais do que nunca, não sei ao certo. Não é nada de novo na determinação das nossas vidas. Mesmo na Biologia existe o 'bottleneck effect'.

Mais bem seremos, por muito que não gostemos, apenas moscas, como dizia William Blake. Se formos moscas felizes, então já nos podemos considerar vencedores.

The Fly

Little Fly,
Thy summer's play
My thoughtless hand
Has brushed away.

Am not I
A fly like thee?
Or art not thou
A man like me?

For I dance
And drink, and sing,
Till some blind hand
Shall brush my wing.

If thought is life
And strength and breath
And the want
Of thought is death;

Then am I
A happy fly,
If I live,
Or if I die.

William Blake (1757-1827)

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Boa Acção do Dia 1

Ora leiam este poema: 'poeminha do menino triste', aqui. (há que baixar a página com o cursor).

terça-feira, dezembro 16, 2008

Bucólica

A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;

De casas de moradia
Caídas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;

De poeira;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.

Miguel Torga (1907-1995)

sexta-feira, dezembro 12, 2008

Elogio a Sophia

Talvez, se me perguntassem de repente pelo meu poeta favorito, eu me saísse com o seu nome. É certo que continuo um fiel de Cesário, mas Sophia de Mello Breyner Andresen (e todos sabemos o seu nome completo), tem dos poemas mais... limpos da nossa língua. É magnífica. É um acto de higiene mental, lê-la. Uma redenção do mundo. E pergunto-vos se para algo mais existe a Poesia.

Sophia disse, creio, ser o (seu) Porto 'a nação dentro da nação'. Até lhe darei razão nessa fé, mas mais importante para mim será dizer que Sophia é a Língua Portuguesa dentro da Língua Portuguesa. Se se tivesse que começar do zero este nosso mágico idioma, seria sempre com ela. Seria com a sua Poesia que se ensinaria Português a um marciano. Pessoa - se bem que igualmente pristino (ortónimo) - não é nunca tão sincero (ou não é nunca sincero), como Sophia. Sophia escreve e é. E por isso resume a enorme complexidade da Língua Portuguesa, sintetiza e comprime o universo. E traz luz sobre os nossos.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Cuidado Não Te Apanhem a Chorar

Dedicado às pessoas que andam pelo Metro de Lisboa, arrastando cansaços, por vezes escorregando olhares. Em compras, ao frio, ao desespero. Quem sabe no ventre da Terra que mundo ainda há lá em cima? No metro o país é o mesmo - e não se pode olhar directamente para ele. É uma mulher deslumbrante, que se não pode olhar. É uma quimera que sai, nesta, naquela estação - nunca a nossa. Nós devemos continuar, sem olhar. E então, mesmo no ventre da terra, há uma luz que espanta os olhos que se desviam, e não sabemos se é já a tempestade. Não - foi só um relêmpago nos carris. Foi só electricidade, o mesmo de sempre. E, como sempre, aquela rapariga esgueirou-se na outra estação. Não deu para lhe dizer que talvez fosse ela Portugal, talvez levasse ela o país. Não deu para lhe dizer. Estranhamos as pessoas estranhas do metro. E continuamos. Ao frio, e à incerteza. Em cada qual. O silêncio é o pacto que fizemos, é o requiem por qualquer coisa, ou espera em respeito de qualquer coisa. E Portugal, de repente - como o relâmpago que parecia - talvez não seja aquela bela rapariga, que olhou em diante. Talvez sejamos nós, que escusamos olhar-nos. Talvez Portugal seja magnífico, talvez uma maldição. Talvez nunca o saibamos - talvez Portugal seja a estação a que nunca vamos, embora saibamos bonita. Embora tenhamos sempre a convicção de que, se for preciso, lá saberemos ir ter.

Dedicado a essas pessoas de hoje. Poema de Jorge Sousa Braga.

Portugal
Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir como se tivesse
oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de
África
só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo uma mentira
que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar
àparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera um futuro de
rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver se contraía a febre do
Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr uma pérola que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
Estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu
mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentugal
e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete Salazar estava no poder nada
de ressentimentos
um dia bebi vinagre nada de ressentimentos
Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca

Jorge Sousa Braga

domingo, dezembro 07, 2008

Exílio

Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

Ansiedade

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjectividade objectiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um eléctrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espectáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espectáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...
Sim, o porvir...

Fernando Pessoa/Álvaro de Campos (1888-1935)

segunda-feira, novembro 24, 2008

Memória, Gratidão, Esperança

Comemora-se hoje o Dia Nacional da Cultura Científica. Que saibamos a lição dos Tempos: só a Ciência pode melhorar o ser humano. Só a Ciência nos permitiu subir acima da guerra por um mesmo pão.

Só a Ciência, tão magnífica, suprimiu a dor ao parto, evitou uma morte. E outra. E outra morte evitou. E ainda outra.

Mil vezes a Ciência venceu a Morte. Milhões e Milhões de vezes. Como a honramos hoje? Estamos perdidos nos nossos pequenos, egoístas mundos. Não sabemos os princípios - nem sequer as histórias. E é triste a vida assim. É triste a vida presa por SMS, televisão, computador.

Pessoas morreram para que tu- sim, tu - e eu possamos hoje estar vivos. Pessoas dedicaram-se a um mester - científico, médico. Não os oiças quando falam de guerras e dinheiros. Falam do mesmo de sempre... Se não estás hoje numa cama, com dores que não percebes, a agonizar, agradece ao milagre da generosidade humana: à Ciência, à Medicina. Pensa só um segundo nisto. E depois vai.

Hoje é também o dia do centenário do nascimento de Rómulo de Carvalho, ou António Gedeão, esse que foi, com todo o direito, e da forma que mais lhes é discreta, um grande português.



Poema para Galileu

Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano, aquele teu retrato que toda a gente conhece, em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce sobre um modesto cabeção de pano.Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.

Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.

(Não, não, Galileu! Eu não disse Santo Ofício. Disse Galeria dos Ofícios).
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença. Lembras-te? A ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria... Eu sei... Eu sei... As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia. Ai que saudade, Galileu Galilei!

Olha. Sabes? Lá na Florença está guardado um dedo da tua mão direita num relicário. Palavra de honra que está! As voltas que o mundo dá! Se calhar até há gente que pensa que entraste no calendário.

Eu queria agradecer-te, Galileu, a inteligência das coisas que me deste. Eu, e quantos milhares de homens como eu a quem tu esclareceste, ia jurar - que disparate, Galileu! - e jurava a pés juntos e apostava a cabeça sem a menor hesitação – que os corpos caem tanto mais depressa quanto mais pesados são.

Pois não é evidente, Galileu? Quem acredita que um penedo caia com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia? Esta era a inteligência que Deus nos deu.

Estava agora a lembrar-me, Galileu, daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo e tinhas à tua frente um guiso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo a olharem-te severamente.

Estavam todos a ralhar contigo, que parecia impossível que um homem da tua idade e da tua condição, se estivesse tornando um perigo para a Humanidade e para a civilização.

Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscava os lábios, e percorrias, cheio de piedade, os rostos impenetráveis daquela fila de sábios. Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas, desceram lá das suas alturas e poisaram, como aves aturdidas - parece-me que estou a vê-las - nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.

E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual conforme suas eminências desejavam, e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal e que os astros bailavam e entoavam à meia-noite louvores à harmonia universal.

E juraste que nunca mais repetirias nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma, aquelas abomináveis heresias que ensinavas e escrevias para eterna perdição da tua alma.
Ai, Galileu!

Mal sabiam os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo, que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços, andava a correr e a rolar pelos espaços à razão de trinta quilómetros por segundo Tu é que sabias, Galileu Galilei.

Por isso eram teus olhos misericordiosos, por isso era teu coração cheio de piedade, piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos a quem Deus dispensou de buscar a verdade.

Por isso, estoicamente, mansamente, resististe a todas as torturas, a todas as angústias, a todos os contratempos, enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas, foram caindo,
caindo,
caindo, caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente, na razão directa dos quadrados dos tempos.

Rómulo de Carvalho/António Gedeão (1906-1997)

(nota: bold meu)

sexta-feira, novembro 14, 2008

As Pessoas Sensíveis

As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão".

Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

segunda-feira, outubro 27, 2008

De Torga a Obama

E pronto. Vamos lá então para a última semana e tal dias antes do primeiro patamar de solidez, a primeira definição. E então seguir para o próximo problema. E vou ter que publicar este poema de Torga outra vez. Espero que em despedida deste 'zeitgeist' (espírito do Tempo).

Dies Irae

Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.

Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.

Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.

Oh! maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grades cinzeladas,
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!

Miguel Torga (1907-1995)

terça-feira, agosto 12, 2008

Balada do Bom Cavaquista

que eu sempre fui bom cavaquista
nem é preciso repeti-lo:
anos depois já só se avista:
tanto canário, tanto grilo,

tanto gorgeio, tanto trilo

que de promessas se guarnece:

um mundo e outro, isto e aquilo,

e o povo tem o que merece.


vi engrossar de boys a lista,
vi saltitar mais do que esquilo,

de galho em galho ser artista,

e armar o estado em crocodilo.

voracidade? era do estilo.

economia? ai que arrefece!

vi Portugal vendido ao quilo

e o povo tem o que merece.


vi muito pássaro na pista
já de asa murcha e intranquilo,

já sem alface nem alpista

e já sem grão dentro do silo,

secou a teta e o mamilo,

chegou a hora, chega o stress.

há vários anos que eu refilo,

e o povo tem o que merece.


senhor, na entrada deste asilo,
mordeu-se a isca da benesse

e o povo tem o que merece.


Vasco Graça Moura

quinta-feira, julho 31, 2008

Pede o Desejo, Dama, Que Vos Veja

Pede o desejo, Dama, que vos veja:

Não entende o que pede; está enganado.

É este amor tão fino e tão delgado,

Que quem o tem não sabe o que deseja.

Não há cousa, a qual natural seja,

Que não queira perpétuo o seu estado.

Não quer logo o desejo o desejado,

Só por que nunca falte onde sobeja.

Mas este puro afecto em mim se dana:

Que, como a grave pedra tem por arte

O centro desejar da natureza,

Assim meu pensamento, pela parte

Que vai tomar de mim, terrestre e humana,

Foi, Senhora, pedir esta baixeza.


Luís de Camões (1524-1580)

segunda-feira, julho 07, 2008

Há Sempre Alguém Que Diz Não

Pensando, muito seriamente, até que ponto este poema vai - ou não vai - definir muito do resto da minha vida.

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio -- é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

Manuel Alegre (1936 - )

terça-feira, junho 17, 2008

Dies Irae

Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.

Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.

Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.

Oh! maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grades cinzeladas,
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!

Miguel Torga (1907-1995)

sexta-feira, abril 04, 2008

O Menino de Sua Mãe

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado-
Duas, de lado a lado-,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! Que jovem era!
(agora que idade tem?)
Filho unico, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino de sua mãe.»

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço… deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
“Que volte cedo, e bem!”
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto e apodrece
O menino da sua mãe.

Fernando Pessoa (1888-1935)