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domingo, maio 03, 2009

Lusitania Ranger I

É certo - havia os posts anteriores. Mas, pensei, porque não um Terence Hill e um Bud Spencer? Hum? Não pode ser - mauzinho demais. Aquela sensação que o Bud Spencer está sempre a distribuir chapadas toscas aos rufias, na ânsia de ir finalmente acabar a cerveja (o nome Bud, aliás, também é homenagem à Budweiser). Não há ali 'finesse', é só despachar. E o Terence só se ri.

Depois... depois há o mestre. Mas Bruce Lee era - é - perfeito demais. Não posso lançar uma fúria dessas em Portugal. Assusta-me só de pensar nas consequências.

Por isso, Chuck, o Generosità vai mesmo contratar-te. É verdade. Agora, sempre que houver uma situação revoltante, vou passar a pedir-te o obséquio de concretizares a ligeira indisposição - via sola de bota texana. Pode ser? Ok, pá.

É uma boa escolha - a combinação certa de 'tavas a pedi-las' com inverosimilhança.

Apresento-vos, pois, o novo xerife da Lusitânia. Vamos lá testar. Chuck: 'BPN'. Como é que é?



Nem mais. Vamos lá pôr ordem neste Faroeste.

domingo, abril 26, 2009

Monstros vs. Aliens

Ainda não sei em que partido votar nestas eleições europeias. Mas acho piada o anúncio dos candidatos de cada parte ter sido feito pela mesma altura em que estrou o filme: 'Monstros vs. Aliens'. Lá isso acho.

segunda-feira, abril 20, 2009

O Tsunami Vem Do Outro Lado

Aquilo que sempre me irritou mais nas questões portuguesas é a perda de tempo. O tempo está a correr vertiginosamente para o país se preparar a enfrentar uma severa crise económica.

Como de costume, porém, não faltam futilidades, amíude por pessoas que não percebem o que se passa em torno do país.

É que o problema é interno - mas não é só interno! Tanta preocupação com o cá dentro - se o tsunami pode estar aqui ao lado.

Vale a pena ler o artigo. Vejam bem que os americanos (!) se preocupam sobre se a deflação espanhola os pode afectar. Os americanos. E nós? Bom - se amanhã jogar o Benfica ou o Sporting não é problema. Voltamos à autarcia - porque não?

Tempos houve em que alguns portugueses estiveram incomodados com o sucesso da Espanha de Aznar. Pois aí têm um país longe da glória, pleno de sinais alarmantes.

"Be careful what you wish for".

sexta-feira, abril 17, 2009

Didn't Need To Hear That

Portugal vive um momento absurdo da sua história. Assim uma espécie de deserto existencialista. Estou certo que Camus adoraria escrever sobre este Portugal.

Quando se vive no absurdo, quando não há regras ou limites distintos, a estupidez momentânea - essa que passa pela mente num 'vibe' - sente-se em casa. Dorothy: estamos definitivamente no Kansas.

Dei comigo a pensar nisto no outro dia quando ouvi uma rapariga dizer um palavrão de camionista. Ou de puto rebelde que quer chocar os pais. Não é que eu não diga palavrões, ou seja sexista - e daí talvez eu seja um bocado sexista nesse aspecto. Mas o chocante ali foi a gratuitidade e o 'out of the blue' da coisa. Enquanto os demais cumprem regras de convivência e civilidade, há quem as fure, e deite cá para fora o que não deve. Uma espécie de incontinência verbal.

Esta incontinência, parece-me, está muito em voga, em virtude justamente desse 'normal absurdo', e vai além do palavrão gratuito e chocante, para chegar à excentricidade repetida da falta de lógica, ou de moralidade básicas (mesmo para humor). Tem, assim, outro sinal patognomónico - a boutade. Em suma, delicia-se com este deserto de lucidez que se tornou Portugal.

Um dos temas favoritos da boutade é, nesse mantra de 'espantar o burguês', a sexualidade. Nomeadamente das formas de perversão da sexualidade*. Clássico: dar a entender (levando nós uma 'sheltered life') que certas realidades chocantes existem bem vívidas, e que nós nos cruzamos com elas todos os dias.

Se alguém perguntar por factos - não há. 'Fact-checking' é só um estrangeirismo manhoso usado por indivíduos de óculos que perdem tempo com blogs. Se alguém aprofundar a conversa (uma surpresa, aliás, dado que o tema é supostamente 'para não mexer ainda mais', a não ser por uma espécie de desejo necrófilo), é-se sempre desviado, sobretudo com a justificação subentendida de 'não nos perturbar mais' com a dura realidade - quando o maquiavelismo está, exactamente, em deixar tudo suspenso, difuso, ambíguo. À boa maneira portuguesa, o subjectivo é senhor do objectivo.

Seja pelo palavrão gratuito, seja pela boutade de conteúdo explícito, perverso, incompleto, configura-se na sociedade portuguesa, no microcosmos de uma conversa aquilo a que eu gosto de chamar o 'movimento streaker'.

Tens um pensamento perturbador? Conheces uma notícia sórdida? Então manda cá para fora, quando as pessoas estiverem a comer ou a pensar em coisas sérias! É despires tudo e mostrar 'your stuff' para o público. São os teus quinze minutos de fama, a libertação! Uuuuiiiiii! Bora lá.

A gente tira logo o preconceito do civismo e mostra a realidade nua e crua aos olhos preservadinhos desses copos de leite! Nem interessa se sabemos da coisa, ou se ela é verdade! Estamos com a coisa a roer na mente. Os jornais e a televisão também não seguram as cuecas - porque haveríamos de o fazer? Interessa é que fica na retina essa corrida em pêlo pela falsa moralidade! Está cá fora... Uff... Que alívio!

Ah, todos os 'streakers' portugueses fossem como este senhora, com o perfil ideal para a primeira 'streaker' de Wimbledon...



Na verdade, a metáfora mais ajustada seriam aqueles senhores barrigudos em meias, fugindo de outros senhores fluorescentes, com "ultra-mega-über-casino.com" toscamente pintado nas costas. Urghhh... "didn't need to see that".



E o mesmo se aplica na perfeição aos 'streakers' tugas hodiernos: urghh... "didn't need to hear that".

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

O Segredo Tuga

Depois do êxito d'"O Segredo", venho propôr à Rhonda Byrne uma sequela: 'O Segredo Tuga', ou 'The Tuga Secret', em bestselleriano.

Ora, constato que o Universo desconhece a grande força do Segredo Tuga. Donde, procedo à explicação daquilo em que consiste. Hum? Mas assim já não é segredo? Meu amigo: a Rhonda vendeu uns milhões de 'copies', não foi só uma. Entendidos? Ela lá terá o seu segredo para transformar este num 'bestseller', como merece.

Mas dizia eu que o Segredo Tuga, sendo uma força do Universo, é desconhecido. Nem mesmo Newton o intuiu. Acontece o seguinte: o tuga leva sempre consigo um segredo. Um plano secreto. Pode ter vários níveis, mas o que interessa é que a maior parte não sabe desse plano. Embora cada um, nessa tal maior parte, tenha o seu próprio plano.

Pode ser o plano secreto de vender um banco que é oferecido pelo Estado aos espanhóis, ou pode ser o plano secreto de não dizer a ninguém onde se comem as melhores bifanas antes dos jogos do Belenenses. É preciso é que muita gente não saiba - porque senão os outros tugas - que têm faro - tomam conta da coisa. Um segredo é um segredo.

Pois bem. O tuga mantém-se aguerridamente fiel ao seu segredo, de novo: o melhor sítio para a pesca da sarda, ou o desvio para evitar as filas da manhã, o esquema para ganhar as apostas na BetandWin, ou a dica clandestina para as acções que se deve comprar. Esse segredo 'ninguém lho tira'. E o tuga também não abre mão dele.

O jovem português, no desenvolvimento até ao macho adulto, muitas vezes se depara com os tugas, e pergunta-se, inevitavelmente, se não deveria ser como eles, arranjar assim um segredo para trazer consigo, para embandeirar. Dependerá de quantos 'não sejas parvo' ouvir nesse percurso. 'Olha, faz assim - estás a ver? Pois, pá. E os gajos nem sabem de nada.' A socialização é fundamental. E assim se chega a uma nação em que a subespécie 'tuga' povoa grande parte do território por onde antes passavam 'portugueses'.

'Eu é que não sou parvo', diz o tuga muitas vezes. Os especialistas dividem-se acerca da finalidade desta declaração do proto-macho tuga. Será um rito de acasalmento? Sentir-se-ão as contrapartes femininas atraídas pelos tugas, os machos que não são parvos?

Alguns defendem mesmo que a Evolução está incompleta se não tomar em conta o tuga. Sucede-se ao Homo sapiens sapiens: é o Homo sapiens sapiens... non parvus (subespécie do Homem que sabe não ser parvo - também conhecido como homem Media Markt). E que depois regenera o Homo sapiens sapiens, em determinadas condições climatéricas.

Mas voltemos à vantagem competitiva dos machos 'tugas': o seu Segredo. Note-se que Portugal abunda em segredos tugas: como fazer a melhor lampreia ('fica só entre nós'), como não ser levado nas oficinas ('eles costumam fazer isto...'), como comer de graça num restaurante, como entrar sem esperar para as discotecas, o blog de onde roubar ideias para os próprios artigos*, etc., etc.

O ultra-macho tuga tem um armazém muito considerável de segredos, que partilha somente com os tugas mais próximos de si, naquilo a que os antropólogos chamam: a 'ilhas tugas', ou também as 'aldeias tugas', numa outra versão.

A quantidade, incalculada, de segredos tugas que existe em Portugal permitiria, seguramente, à Srª Byrne escrever mais uns quantos livros. Talvez o mundo precise desses segredos para o seu desenvolvimento. Quem nos diz que não pode ser relevante para um outro cidadão deste mundo saber como escolher o melhor bacalhau, como evitar o sabor a 'bedún' na carne de borrego, ou ter o número do único tipo no concelho de Vila Velha de Ródão que desenrrasca quando o quadro de electricidade for abaixo, hum? Quem nos garante?

Ele há muita sabedoria tuga aí para ser comercializada. Embalada e exportada. É um grande recurso natural - isso não é segredo para ninguém**.

*Não, não, eu estou ileso. Malgrado a enorme qualidade dos meus posts. Quer dizer, já mereciam uma tentativazinha de plágio, não?

**E ele até há tugas cujo segredo - cada vez menos secreto - é o de fazerem blogs.

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

The Low-Hanging Fruit e o Último a Rir

Excertos da carta que o gestor de fundos Andrew Lahde escreveu aos seus investidores, antes de se reformar com o dinheiro que fez após uma subida de 888% no seu fundo, por ter apostado contra o crédito a habitação subprime.

"Today I write not to gloat. Given the pain that nearly everyone is experiencing, that would be entirely inappropriate."

“I was in this game for the money. The low hanging fruit, i.e. idiots whose parents paid for prep school, Yale, and then the Harvard MBA, was there for the taking. These people who were (often) truly not worthy of the education they received (or supposedly received) rose to the top of companies such as AIG, Bear Stearns and Lehman Brothers and all levels of our government. All of this behavior supporting the Aristocracy only ended up making it easier for me to find people stupid enough to take the other side of my trades. God bless America."

Pergunto-me por onde andará todo o jet-7 financeiro luso nestes dias...

domingo, fevereiro 01, 2009

O Sancho Barriga-de-Cerveja e o Dr. Quixote

Outro dos cromos portugueses favoritos é o nosso 'Sancho Pança'. Calma - dizes bem. Era espanhol, estás lá. Mas de certezinha que foi inspirado aqui em nós e a gente já não se lembra. Já se sabe como são os espanhóis. A gente forma um país, lá se lembram eles de fazer um também. Vai a gente feitos tontos pelos mares fora, e achamos meio mundo, pois seguem eles a mesma ideia. Fizemos o 25 de Abril, com toda a confusão, pois... lá foram eles inteligentes o suficiente para não repetir os nossos erros. Vá lá.

Mas servimos muita vez de ensaio para eles, e a coisa não vale. Por isso digo que, com toda a probabilidade, o D. Quixote e o Sancho Pança podiam ter sido portugueses, ou o Cervantes ter copiado o 'Livro das Aventuras Mui Curiosas, Da Galanteria e Dos Amores de D. Afonso Quintano, Fidalgo da Pernancha (E Seu Fiel Escudeiro Sancho Bragança)', escrito por Miguel de Abrantes, e lamentavelmente perdido num incêndio, por volta do séc. XV.

O certo é que não falta por aí um ou outro 'Sancho Pança', versão tuga. É um 'fura-vidas', um 'Zé Pequeno' (não confundir com o 'Zé Piqueno' da 'Cidade de Deus'), doutorado na ratice e na manha. É a modos que um encantador de serpentes. Anda aí a flanar no mundo da gente grande e preocupada, indo buscar 'o seu', a sua vitoriazinha, a sua satisfaçãozinha, de que os outros não sabem, e que, quando muito, partilha somente, com os seus companheiros de profissão, escudeiros da cidade. É quando vão todos ao Casino de Lisboa que comparam as suas histórias de (fura-)vida.

Mas o Sancho de hoje - vamos chamar-lhe 'Sancho Barriga-de-Cerveja', na verdade, continua o mesmíssimo do 'Livro das Aventuras...' do Miguel de Abrantes. E na vida profissional, naturalmente, trabalha com um tal de Dr. Quixote.

O Dr. Quixote vem de boas famílias e tem gostos e exigências refinadas. Tem ambições que o Sancho não compreende bem - mas que também não é dele compreender, afinal. Basta dizer-lhe que sim, que uma Dulcineia é uma mulher de se morrer por ela (mesmo que morrer, consistindo tal em grande incómodo, seja algo que Sancho não faz por ninguém), e que é preciso sempre ir em frente carregar contra os inimigos (mesmo que ele saiba que os inimigos são moinhos de vento).

Mas - lá está. O Dr. Quixote não precisa de encontrar o que quer que seja. Ele precisa é de pensar que encontra. E por isso lá vai Sancho dando-lhe ânimo, a sua fidelidade. Confirma-o com muitos 'sim, senhor' e 'tem toda a razão', oferecendo as suas opiniões 'embora não saiba nada, ao contrário do Sr. Dr.', e que, regra geral, vão sempre no mesmo sentido das opiniões do Dr. Quixote - tal é a amizade que os une. E é justamente no interesse dessa amizade, de que se nutre o alto espírito de Dr. Quixote, quando fala sobre 'os gregos', ou sobre 'a Civilização', que Sancho procura preservar quando explica que terá sido, certamente, a Justina - mulher a dias - a levar o toucinho da arca para o marido, quando na realidade é Sancho que se 'abotoa' com ele, para as deliciosas pândegas antes da visita ao Casino de Lisboa.

Bem quer o Dr. Quixote saber do toucinho. Ele passaria fome pela sua amada. Nem nota. No fundo, o Dr. Quixote pensa que Sancho 'nunca atingirá o seu nível mental', e Sancho pensa que o Dr. Quixote 'nunca sonhará que foi ele a surripar o toucinho'. Eis como uma amizade permite, de uma lado, um ego pleno, do outro, uma barriga cheia.

Não, esta é uma amizade forjada nos céus. Assim haja sempre, enquanto houver Portugal, para cada Dr. Quixote, um Sancho Barriga-de-Cerveja.

sexta-feira, janeiro 30, 2009

O Pudor

Embora a razão subjacente não seja demasiado intrigante, falar de uma revista masculina, ou uma 'lad's mag' parece ainda um facto excêntrico.

Eu não sou um consumidor propriamente dito - compro uma ou outra edição de uma portuguesa que eu acho deslumbrante - como foi o caso da Joana Freitas e da Bárbara Taborda, mas acho que por vezes ainda se confunde estas revistas com os produtos 'subprime' no fabrico de um estereótipo.

Pessoalmente, deixem-me dizer claramente: tenho imensa curiosidade pela adaptação à realidade nacional. Quem são as nossas mulheres mais sexys é um tema que me interessa. A líbido barata satisfaz-se com qualquer porcaria, se quiserem ir por aí... Quando do que é cá da terra se diz ter outro encanto, é porque nem só de instintos neandertais se faz essa curiosidade.

Ainda assim, é um facto que o esterótipo - mesmo que numa mera piada, persiste. Não digo que sejam santos os consumidores dessas revistas, haverá de tudo. Digo apenas que para os instintos mais básicos, menos nobres - não falta, convenhamos, material...

Os italianos chamaram tiramisù ('tirami': levanta-me, 'sù': para cima) a uma doce que 'levanta o espírito' (sem piada brejeira - per favore). É mais ou menos isso que eu vejo numa revista masculina 'mainstream'. Uma curiosidade e um sorriso malandro, uma revista diferente, que corta o dia-a-dia, da mesma forma que o Eça dizia (quem sabe criticando portugueses como eu) que os decotes das senhoras cortavam a seriedade das conversas dos homens no salão. Eu gosto de ver uma GQ ou um FHM no meio dos jornais 'sérios'.

Meus caros, basta folhear a GQ, onde escrevem Miguel Sousa Tavares, Miguel Esteves Cardoso, Maria Filomena Mónica, João Pereira Coutinho, etc. Não me venham também dizer que isso é uma revista ordinária.

Ah, e deixo aqui uma sugestão. Qualquer dia, de alguém que comprar uma revista tal até se pode dizer: ui... queeee...



Mas 'Marie Claire' é de homem.

quarta-feira, janeiro 28, 2009

Venha Cobre!

Ouve-se as pessoas: dinheiro. Ouve-se a rádio: dinheiro. Corta aqui, manda para ali. Eles vão para lá por - dinheiro. Eles estão mas é a zelas pelo dinheiro, que lá investiram. Ouve o que te digo. Ninguém paga a ninguém... Ela está mas é interessada no dinheiro dele. Uma pessoa sem dinheiro não faz nada. Nada! Estas luzes ligadas custam dinheiro, ouviste? Se eu tivesse dinheiro... Como é que se vai pagar isso? Hum? Com que dinheiro?


domingo, janeiro 18, 2009

Tanto Mar

E pedir a Chico Buarque a paz aqui, em Portugal?


sábado, janeiro 17, 2009

Os Nazis da Sopa e a Portugalidade

Um dia, viajava este vosso blogger pelo metro de uma alegre metrópole lusitana. Como ainda há duas com metro, vocês vão ter que ficar na dúvida. Como? É bem perguntado: porque sim.

Pois bem, alegremente ia eu - dizia - nessa alegria do silêncio e do 'não me incomodes' mútuo que caracteriza tal meio de transporte quando, à minha frente começo a ouvir uns batuques de tambor. Eram três jovens que faziam uma festa de rumor exótico, no final da carruagem. Aí se haviam sentado, pegado nos tambores e ensaiado - alegremente.

Geralmente prefiro o silêncio, mas a questão é que eles não tocavam mal, e para mim isso bastou: o alegre tamborilar era superior ao morcão silêncio. Estava-se bem. O metro lá continuou - alegremente. A certa altura, numa paragem, entram dois polícias, vestidos a rigor com o seu estilo "Armani SWAT". O clássico negro e cabedal, com um 'POLÍCIA' escrito a branco, etc.. - seguramente incomodando alguém, seguramente descansando alguém, com a sua presença.

Eis que um dos polícias presentes é interpelado por uma senhora mais idosa que ia à minha frente. Como eu não podia deixar de reparar (embora seja assumidamente cusco), só fiquei a perceber tudo depois: ela pediu -lhe para mandar calar os adolescentes que ritmavam no seu recato antes que, suponho, alguém começasse a baloiçar de argola de ferro em argola de ferro, como se de lianas de tratasse. É um perigo real.

Nisto, o polícia lá foi interpelar os músicos primitivos, e, com alguma estupefacção, a coisa ficou por ali. Digo-vos eu - e os mais inteligentes ficam na mesma a duvidar se é certo ou não - que havia uma certa melodia, uma certa qualidade. Não maçava, era alegre. Digo-vos eu.

Perguntei-me, pois, o que motivara assim aquela senhora a fiscalizar aqueles jovens, a trazer consigo essa vontade de os calar. Parecia-me uma insignificância. Parecia uma maneira absurda de cortar a alegria alheia.

Noutra situação, pouco após, vi alguém perder as 'normais estribeiras', de novo por causa de... coisas insignificantes. A tensão que pesa sobre as pessoas - todos sentimos a espaço tensão - mas parece-me haver demasiada... 'bulha' por pormenores. Não vejo, tantas vezes, uma porção que seja dessa energia investida no que realmente importa.

Mas este síndrome, o de fazer tempestades em copo de água, próprio de tempos nervosos, só me recorda o 'Soup Nazi' do Seinfeld, que, quando embirrava com algum pormenor de alguém, lhe negava desde logo a afamada sopa.



A piada da coisa (e aí começa a relação com a portugalidade) é que há uma história segundo a qual Seinfeld se teria inspirado para o personagem numa viagem que fez a Lisboa. Mas provavelmente, como verão se procurarem na Wikipedia, terá sido mesmo num vendedor de sopa nova-iorquino.

Há por aí alguns 'Nazis da Sopa' a chatearem-nos a cabeça. De todas as idades. Há por aí gente que se move, repara, protesta, julga - por 'coisinhas'. Às vezes penso se será uma coisa meio masoquista, espécie de 'death wish'. Como quem deseja ter outros problemas - esses sim, sérios.

sexta-feira, janeiro 16, 2009

A Solução

Estava aqui a pensar que talvez desse para resolver a crise se vendessemos o Mourinho e o Ronaldo aos estrangeiros... Era tão bem feito. Vinham para cá os trocos, e eles ficavam com eles. Por que é que o Ronaldo não pode ser alemão, ou o Mourinho tailandês? Hum? Não era uma grande ideia? Quanto é que não valia? E se fosse preciso punha-se o Sr. Aníbal da mercearia a treinar o Inter, ou mesmo o a D. Estrudes da repartição a centrar para o Berbatov. Porque não? Hum?

Gosto muito de urdir estas considerações sobre Economia. Não sou muito pior que a maior parte dos comentadores, valha a verdade.

sábado, dezembro 20, 2008

A Dialéctica do Espírito: Um Conto de Natal

Estás preocupado com a crise. Não sabes bem exactamente o que é, como te vai afectar. É uma crise estúpida. Caramba, tu bem avisavas. Mas aconteceu. E há sempre os banqueiros que se safam escandalosamente, os políticos para quem fica tudo na mesma. Um nojo. Mais um suspiro. Mais um dia.

Chegas de manhã ao teu emprego absolutamente miserável e lixado com a vida. 'Isto é tudo uma m****!' dizes para ti depois de cumprimentares cordialmente o Sr. Carlos, porteiro.

Quando chegas ao teu andar, finalmente, vais fazer a única melhoria possível dessa manhã - beber café. Descobres que ('f***-se!!!') a singela máquina escolheu esse dia para deixar de funcionar. Já não convém saíres, porque, assim que entraste o teu chefe disse: 'Bom-Já-Tens-Ecomenda-Antes-Dez-Era-Para-Ser-Depois-Mas-Mudou-Prazo-Senão-Lixados. Já bebeste café? Vai lá, mas não te demores'.

Sabes que a vida está complicada quando não te sobram asneiras para dizer numa manhã. Lembras-te do teu avô que vivia no Campo - isso sim, era vida. Que pena o ecrã do computador não poder falar contigo. É estranho não o fazer, por ser um tão fiel amigo, e agora precisavas das palavras de um fiel amigo. Talvez a sua qualidade seja a de estar calado perante os teus caprichos. Talvez esse silêncio o torne agora tão inútil.

Mas, por algum milagre, além do monitor os teus colegas estão contentes. Estranhamente felizes, num tom de conversa ameno. Luminosos. Pegas em ti, e juntas-te a eles. És bem recebido. Ausentas-te só um segundo com uma piada, e fazes a encomenda que era preciso. Um instante. Quem diria. Tornas à conversa. Sentes as tuas dores a deixarem - como se nada fosse - os teus ombros. Ris-te. E percebes que a todos une, de alguma forma, e para tua surpresa, o espírito do Natal.

No final do dia, renovado pelo convívio no escritório como nunca antes, despedes-te de todos. 'Feliz Natal' para um lado, 'Bom Ano' para o outro, até mesmo um 'Não, se calhar são vocês que ganham o campeonato este ano'.

Toda a gente ri. Mas então alguém se lembra de acrescentar ao generoso 'Divirtam-se!' sorridente, um acrescento de verdade, que faz cair o sorriso: 'Se conseguirem, com esta crise... Vamos lá ver' [olha o chão].

Ias dizer uma asneira. Duas até. Tinha que ser, não podia ninguém não o lembrar. Era só mais um bocado, estavas quase a sair. Não ias ficar com o espírito maculado de novo.

Mas que se lixe. Decidiste ir para casa com o espírito de Natal. O espírito da crise virá, sabes bem. Mas há sempre um Natal a seguir a cada crise, dentro de cada crise. Há sempre um dia, pelo menos, em que ninguém ganha ou perde. Natal é natal. Não está cotado, não é emprestado, e ninguém te o pedirá.

Mas decidiste aceitá-lo sem remorsos, contra ti talvez. E acabas a pensar que, talvez, quem sabe, essa seja a melhor definição para o que é o Natal.

terça-feira, dezembro 16, 2008

Mário Soares

Depois digam que não foram avisados. Aqui.

"Portugal também não deve ficar indiferente. Com as desigualdades sociais sempre a crescer, o aumento do desemprego que previsivelmente vai subir imenso, em 2009, a impunidade dos banqueiros delinquentes, o bloqueio na Justiça, e em especial, do Ministério Público e das polícias, estão a criar um clima de desconfiança - e de revolta - que não augura nada de bom. Oiçam-se as pessoas na rua, tome-se o pulso do que se passa nas universidades, nos bairros populares, nos transportes públicos, no pequeno comércio, nas fábricas e empresas que ameaçam falir, por toda a parte do País, e compreender-se-á que estamos perante um ingrediente que tem demasiadas componentes prestes a explodir. Acrescenta-se o radicalismo das oposições, à esquerda e à direita, que apostam na política do "quanto pior melhor". Perigosíssima, quando não se apresentam alternativas credíveis..."

domingo, dezembro 07, 2008

Co/Re-Incidências

Diz que o Oliveira e Costa tinha um bunker na Vidigueira. Devia ser por causa do sol. E Dias Loureiro já esclareceu que, embora estivesse em Dallas, naquele dia de 1963, e, por acaso, levasse consigo uma carabina ('os tempos eram, naturalmente, mais perigosos'), tinha ido somente entregá-la ao seu primo Zé Júlio, emigrante, e provar as tartes de maçã que fazia a mulher deste - incidentalmente, muito boas.


quinta-feira, novembro 27, 2008

Um Novo 25 de Abril: O Desastre Anunciado

Se Portugal evoluísse para uma situação de ruptura social - como há pessoas esclarecidas que aventam poder acontecer - e se gerasse um novo 25 de Abril, um dos efeitos desastrosos seria, naturalmente, o de agravar a crise económica geral. Por muitas razões, mas, antes de mais, por este simples facto: a nossa economia tem uma grande contribuição por parte do sector turístico. Já pensaram no absoluto desastre que seria uma nova revolução em Portugal? E não tenham ilusões - demoraria muitíssimo tempo a debelar.

Ainda para mais que agora começa a aparecer (veja-se a nova clínica Maló na Madeira) aquilo que eu desde há muito defendo como um cluster fundamental para o país: o turismo clínico. Pessoas que vêm ser operadas a Portugal, com todas as condições. Se temos uma boa tradição médica, e uma grande indústria, elementos para turismo, porque é que, infelizmente, não temos líderes com o mínimo de visão, para juntar as duas coisas?

Mas, realmente, um novo 25 de Abril seria desastroso. Mas, caramba, se já os romanos diziam que 'não se governam nem deixam governar', que novidade é que haveria numa outra revolução?

quinta-feira, novembro 20, 2008

O Portugal Queirosiano

Alguém que nunca gostou de Queirós dizia-me, sobre os tempos do Sporting, que, como treinador, Queirós começava a época a dizer que os jogadores estavam ainda vindos da pré-época, para justificar os maus resultados. Depois - como os maus resultados continuavam - começava a dizer que estavam cansados pela carga de jogos.

Vi hoje declarações suas a dizer que, agora sim, está elucidado quanto aos jogadores e à equipa. Passe a deselegância, e o bode-expiatorismo, atentem nesta maravilha: agora que está a pouco de não garantir a qualificação, sabe qual a equipa ideal.

Queirós é assim como o Conde de Abranhos, um génio que se tarda em revelar. Ah, mas aquela testa, aquela testa... Não! Algo de genial tem que sair dali, mais tarde ou mais cedo. Mesmo que depois de estar a selecção eliminada, que o génio não muda com as latitudes da idiotice alheia!

terça-feira, novembro 18, 2008

Quando Se Escrever Sobre Este Tempo

Há uma parte que não vem daí, e eu critico. Critico em mim, e critico na minha geração. Critico-nos, jovens.

Mas uma grande parte que vem de outro sítio. Vem da demissão. Da carga que deixam aos mais novos. E depois de um 11 de Setembro, duas guerras (mesmo se de outros, sabemos que elas estão lá), terrorismo, crise económica portuguesa, país envelhecido, 'realpolitik', supressão de valores, ausência de Justiça, onda de crimes, mais crise portuguesa. E, depois, uma recessão mundial.

Jumentos podemos alguns, às vezes ser. Sou o primeiro a dizê-lo. Mas é demasiada a carga sobre os nossos ombros. É essa a miséria de Portugal, pelo meio das suas qualidades: não tem homens, não tem, subitamente, gerações. Velhos fazem vidas de novos, novos fazem vidas de velhos.

Mas são muitas pontas soltas para atar. São muitas. Não admira, portanto. Não admira.

E a culpa, nos melhores entre nós, não é nossa. A culpa não é nossa.

Talvez não seja demais escrevê-lo, dizê-lo outra vez: a culpa não é nossa.

quinta-feira, novembro 06, 2008

Frei Tomás

Facto curioso esse, de em Portugal termos alguns belos espécimes de liberal que é professor universitário a soldo do contribuinte numa universidade pública. Facto curioso, deveras. Nada tenho contra os liberais, reparem: só contra a incoerência.

domingo, novembro 02, 2008

Avante, Camarada!

Curioso o à-vontade de Jerónimo de Sousa em ultrapassar a fila das outras pessoas que iam ver a estreia de 'Ensaio Sobre a Cegueira' de Saramago, apanhado no CQC.

Bem lhe disse, com a arte de colher o momento, José Pedro Vasconcelos: 'Avante, camarada, avante!'.