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quarta-feira, dezembro 31, 2008

Olivus 2008: Jornal/Revista/Colunista

Que não vos iludam estes prémios. O panorama da imprensa portuguesa continua paupérrimo, em crise desde há muito. Cheio de 'enlatados', 'condensados' e 'produtos de marca branca' . Ah, que saudades da 'boa mesa'!...

Melhor Jornal: 'Público', apesar das minhas críticas, e embora não o leia como antes. Parece que a crise económica pode obrigar o jornal a largar toda a gordura que eu desde o princípio critiquei. Quem sabe se eu ainda não ganho na teimosia?

Melhor Revista: novamente, a 'Sábado'. Ainda criativa e irreverente. A 'Visão' melhorou.

Melhor Colunista: vou dar o prémio este ano ao José Pacheco Pereira, uma vez que Miguel Sousa Tavares o ganhou o ano passado (parece que a coisa vai mesmo rodando por estes dois). Mas faço-o sobretudo pela erudição - tenho a mesma opinião que Baptista Bastos: JPP fala muito melhor do que escreve. Nele há sempre este dilema: lucidez e pedagodia na oratória, e uma certa sofreguidão, um ataque de 'bulimia intelectual' nos textos (espaço ou estilo?). Ainda assim, excelente divergência de temas - e incomparável profundidade. Miguel Sousa Tavares - o melhor a clamar quando tal se pede - partilha a melhor prosa com Pedro Mexia, tendo este último talvez a mais consistente 'bagagem' cultural contemporânea, e uma boa divergência de temas. Interessantes sugestões e 'dedo na ferida' de João Pereira Coutinho (incidentalmente, considerado no Brasil um dos, senão mesmo 'o' melhor colunista).

Olivus 2008: Televisão

Apenas duas notas:

'Conta-me Como Foi' teve os melhores desempenhos de toda a ficção nacional, na minha opinião. Miguel Guilherme e Rita Lello mantiveram um nível que me parece inusitado, mesmo se eu tivesse pouco interesse na série em si. 

O melhor telejornal continua a ser o da Sic Notícias, com grande destaque para a condução de Ana Lourenço (de uma ponderação, pequeno domínio do tema e sentido de oportunidade inigualáveis), bem como de Mário Crespo (e basta a menção, porque o sex-appeal simplesmente não é o mesmo).

Olivus 2008: Filme do Ano

Decidi (os estatutos assim o permitem) suprimir o Olivus Award para Música, e converti-o em Filme do Ano. Porquê? - porque, não sendo um cinéfilo propriamente dito, muito menos sou um apreciador refinado de música. Em termos musicais, pertenço à escola: "Don't know much about Art, but I like that!" (aponta para mapa de emergência do museu, pensando que se tratava de um Paula Rego).

Já em termos de cinema, há uma enorme diferença: é exactamente o mesmo, embora eu me atreva a opinar.

Oiçam... o Óscar manda nos prémios dele - e eu mando nos meus.

[***]

Pois bem. De novo deixando piadas, e passando a assuntos sérios, há um filme que merece, 'far and away' o prémio, e refiro-me obviamente ao "Batman: The Dark Knight".


Nada direi da realização, nada direi da produção, nada direi da iluminação (?). Mas facilmente se percebe a qualidade dos actores (estamos a falar de um filme que se dá ao luxo de ter Michael Caine e Morgan Freeman como actores secundários), sobretudo pela suprema (excessiva?) dedicação de Heath Ledger ao papel de Joker.

Quer o admitamos, quer não, o advento da morte de Ledger veio dar ainda mais força artística a este personagem, para o tornar inesquecível. Esperemos que não tenha sido essa a intenção de Ledger - nem mesmo a Arte se sobrepõe à Vida. Pelo contrário - deve celebrá-la. E a sua morte é uma tragédia que nada justificaria.

Assumindo-a embora, acontece que as próprias idiossincrasias de Joker, com a sua cara oculta, parcialmente desfigurada, contribuem para que, na mente do espectador, se suma para sempre Heath Ledger. Substitui-o uma personagem... uma sua obra de Arte. É como se não fosse bem Heath Ledger que faz de Joker, mas outrém. De repente, parece até que não há actor, quase como se um Joker existisse. É como se Ledger tivesse pensado em tudo, e quisesse confundir o antes e o depois, o vivo e o não-vivo - com uma criatura estranha pelo meio.

O enredo do filme, para mais, é bom, por exemplo, na exploração da natureza humana com o dilema da aniquilação mútua (situação dos barcos), mas, sobretudo, no sacrifício de Batman, a sua maldição à clandestinidade para manter, nas pessoas - no 'mainstream' - uma ilusão de esperança. Também de ilusões, de esperanças, vivem as sociedades humanas. E, por entre a racionalidade, o hábito, também dos seus próprios heróis.

Confesso que, tantas vezes, o meu estilo de filme não é mesmo este. Parecia-me ter demasiada acção (no meu caso 'demasiado' é practicamente uma perseguição de carros), demasiado fogo-fátuo por cima de vacuidade do enredo, fluindo com interrupções na qualidade... Grande - grande - surpresa: "Batman: The Dark Knight" 'limpa' tanto os elogios do 'comercial', como do 'intelectual'. E arrisco dizer que, além de filme do ano, tem lugar, necessariamente, numa reflexão sobre o cinema que se fez esta década.

terça-feira, dezembro 30, 2008

Olivus 2008: Livros do Ano

Reparem, como apontou Francisco José Viegas no seu 'A Origem das Espécies', no facto de o 'Ypsílon', suplemento cultural do 'Público', na lista dos melhores livros de 2008, não incluir um único título de Ciência ou Filosofia.

Tendo passado pela lista análoga da 'Actual', do 'Expresso', e reconhecido igualmente pouca não-ficção (creio que também nenhum título de Ciência ou Filosofia) vou, para os meus livros do ano, escolher dois tomos que são, justamente, não-ficção.

Faço-o, antes de mais, pela questão elementar: foram, que me recorde (e do pouco que infelizmente li), os que mais me marcaram. E depois, claro, sempre dou a 'pinta' de ler imenso - seja de ficção ou não-ficção. "Keeping up appearances". É sempre importante.

Os livros pertencem ao mesmo nível de qualidade, estão ex-aquo, apesar da numeração.

1. "Outliers", de Malcom Gladwell


É difícil encontrar uma etiqueta temática para este livro. Psicologia pop? Talvez. Ensaio/ciência sociológica popular? Quem sabe.

Tal como nos seus anteriores 'The Tipping Point' e 'Blink', Malcom Gladwell volta a produzir um livro surpreendente, criativo na abordagem, compilando uma série de factos dignos de nota numa teoria. Acerca de quê?, perguntam vocês - e bem. Pois, acerca de algo que a maior parte das pessoas procura na sua vida: sucesso.

'Outliers' é o termo inglês que se refere ao ponto estatístico que escapa à média. No caso concreto da análise de Gladwell, os casos das pessoas com sucesso nas suas vidas, consensual. Quais são os factores que são comuns a todos os casos especiais, a todas as pessoas brilhantes e que 'conseguiram'? A um Bill Gates, a um atleta, a um cantor famoso, etc.? Nas palavras de Gladwell, qual é a 'ecologia' do sucesso?

Gladwell identifica alguns factores comuns aos conjuntos de casos que apresenta. Alguns muito interessantes, na verdade. Como o 'efeito Mateus' (a partir do episódio bíblico), que ocorre com os atletas - e alunos - nascidos nos primeiros meses do 'cut-off' anual para a segmentação dos grupos. Essas crianças têm maior probabilidade de ter sucesso na sua vida (dado igual componente genética, quantidade de trabalho, etc.), concluiu. Acontece que, nas primeiras idades, uma diferença de poucos meses é muito significativa. Assim, um jogador de futebol, por exemplo, que nasça em Janeiro (supondo que o 'cut-off' de captação é em Janeiro) tem maior probabilidade de evoluir para um profissional do que aquele que nasce em Dezembro. Ocorre aquilo que se chama uma 'self-fulfilling prophecy', ou um 'feedback positivo', uma espécie de 'vitória busca vitória', de tal forma que o menino Aquário - mesmo se não for à partida o melhor, se torna o melhor, em virtude dessa série de sucessos acumulados.

Os factores enumerados, que incluem também (que pena que a cultura de Gladwell não chegue aí...) uma outra versão da célebre frase de Gasset: 'El hombre es él y su circunstancia', seja na oportunidade em termos do tempo histórico para se nascer, seja no contexto cultural que nos marca (sobretudo na mudança desse mesmo contexto, como no caso de um emigrante, ou na vantagem de hábitos antigos em tempos modernos; sobre esta última, uma curiosa reflexão sobre a cultura do arroz no espírito trabalhador do chinês, e no mandarim a conferir vantagem em Matemática).

Sejamos claros: haverá algo no livro que é superficial, seguramente. Mas o caso que Gladwell expõe é suficientemente interessante para ser atentamente lido. É como uma colecção tratada de estudos científicos e livros que apresentam ideias diferentes sobre a realidade, que fazem notícias de jornal - desconexas entre si.

Porquanto haja o perigo de falibilidade de alguns postulados após a sua análise, 'Outliers' suficientemente 'thought-provoking' para merecer este prémio. É criativo, neo-prespectivista (inventei agora, porque eu também posso ser criativo), e está claro, bem escrito o suficiente para que se o leia de uma ponta à outra.

Nota: se bem que publicado recentemente, este livro está já disponível na tradução portuguesa.

2. "The Drunkard's Walk", de Leonard Mlodinow



Muitíssimo mais consistente no seu tema é este livro de Leonard Mlodinow, que trata sobre a aleatoriedade nas nossas vidas. Por mais que pareça conversa de bêbado a sair da taberna (embora não seja daí que venha o título), as nossas vidas são mesmo muito condicionadas por fenómenos aleatórios, e, pior, nós condicionamo-las por fenómenos que a nossa mente crê seguirem um determinado padrão, quando a Ciência pura e dura prova a sua aleatoridade. O grande problema - o de sempre, talvez - é que, enquanto seres humanos, não conseguimos 'funcionar' sem a certeza do controlo - e a nossa sociedade é simplesmente aleatória, complexa demais, para que a possamos inteligir. Não somos nós que não encontramos o padrão - ele simplesmente não existe.

Ninguém quer acreditar nisso, claro. Mas Mlodinow, começando com uma (refrescante, para mim, já que era esse o único tema em Matemática de que eu gostava) revisão sobre Probabiliades e Estatística - um pequeno 'primer' - dá depois exemplos muito consistentes, que abarcam a Medicina, a Justiça, a Finança, mesmo - citando mesmo algumas fontes comuns a Gladwell - o sucesso pessoal, e que expõem a miserável incerteza das nossas vidas neste complexo entorno hodierno.

O livro está bastante bem escrito - é rigoroso, lúcido, como próprio de um cientista - mas igualmente espirituoso. Pessoalmente, achei-o brilhante, e muitíssimo esclarecedor. Afinal, eu sempre tive essa teoria a priori: a sorte, a 'Lady Luck', dá 'nós' no caminho que nunca pensaríamos possível, com a boca cheia de 'trabalho', 'esforço', 'qualidade intrínseca'. Não seria por outra razão que tenho em boa memória filmes como 'Sliding Doors', ou 'Match Point'.

Completo, lúcido, a espaços impressionante. Ainda bem que tive a sorte de comprar este livro.

[***]

Ambos lidos no original inglês, como deve ser; quilometragem em Inglês: 909 páginas.

Olivus 2008: Publicidade

O Olivus deste ano para a publicidade vai para uma singela frase, daquelas que a Sic Radical passa entre programas e anúncios, como se nada fosse, mas que, em sintonia com o estilo ou a razão de ser dessa estação eu achei simplesmente genial. A frase é somente esta: "Não emigres".

Dela se pretende subentender, claro, que a Sic Radical sempre daria umas razões - supostamente pela qualidade da sua programação - para evitar que uma pessoa entre os seus 18 e 30... deixe este país. É brilhante porque capta o 'zeitgeist', o espírito deprimido, sem horizonte, arquitectando seus planos em silêncio, de uma juventude abafada pelo país, que não encontra espaço no país.

Uma nota, ainda assim, para este anúncio da Zon. Eu sei, eu sei. Mas eu sou o tal fã do Rigoletto (e é tão singela e verdadeira a letra: la donna è mobile, deveras), e algum dia já pensei em algo parecido. Portanto... fica a menção honrosa. 


Olivus 2008: Figura do Ano

Voltamos aos Olivus Awards, meus amigos. Começemos com a 'figura' ou 'pessoa' de 2008, porque a 'personalidade' que ganha o prémio, essa já sabem - é mesmo a minha (é lerem as regras se houver dúvida).

Ok. As graçolas ficam por aqui. Vamos lá então a coisas sérias.

I. Internacional:
Barack Obama

•
Escolha natural, e sê-lo-ia somente pela ruptura cultural, pela página da História que já escreveu. É, com efeito, um político arguto, que parece ponderado na abordagem aos problemas, mas ao mesmo conciliatório, ecuménico. É a sua expectativa, porém - uma vez que da sua acção ainda nada se pode concluir - que vem este prémio. Por todas as razões, vamos esperar que a acção esteja ao nível das expectativas.

2009 vai obrigá-lo a jogar as cartas que aparenta ter na manga. Nesse jogo, de nada adianta dizer que 2009 será aquilo que se espera, ou que a crise ainda vai piorar. A janela de esperança que representa, não só para os EUA, mas também para o mundo, exige-lhe o que prometeu: mudança. Exige-lhe inteligência e criatividade. Exige-lhe resultados.

Mas faço uma ressalva, chamo a vossa atenção a uma curiosidade… “maldosa”. Ei-la: discurso de vitória eleitoral de Obama centrou-se na capacidade de realização do ‘american dream’, partindo do princípio que o seu feito – porquanto histórico – representa, justamente, o ‘american dream’. Ora, eu - se bem que não seja americano - não podia estar em maior desacordo. Na minha concepção histórica o "motivo onírico" americano aplica-se à conquista de riqueza, à conquista intelectual, mas não tanto à conquista de poder.

Um presidente deve ser instrumental, isto é, ser um veículo, permitir aos seus concidadãos usufruirem da possibilidade de se sublimarem, de realizarem esses ‘american dreams’, essas conquistas. O poder, em termos do que é a democracia americana (como exemplar nação democrática), não pode - não deve - estar dissociado do serviço.

Mas enfim, esperemos que ele consiga superar com actos esse ‘faux pas’. Esperemos que sim – para o bem de todos nós. Here’s hoping things work out for you, Mr. Obama.

II. Nacional: Cristiano Ronaldo/Nélson Évora

Parece-me, igualmente, natural a escolha de Cristiano Ronaldo como personalidade nacional, não pelo que faz pela nação propriamente dita, mas antes pelo que nalguma representação nacional faz a nível internacional.

No meio do vazio, da ausência de rumo, tanta vez, que caracteriza a nossa era para muita gente, Ronaldo aparece com uma super-motivação, uma força imparável, uma ambição e realização espantosas. Para muita gente, por ridículo que possa soar, ele aparece um pouco como "vida no vazio", um enigma que apaixona a vida aborrecida, banal, condicionada, cerceada, de tanta gente. Aparece como um motivo do humano. Era melhor que fosse Rembrandt - mas não é assim que as coisas funcionam.

A paixão de Ronaldo pelo futebol, a sua entrega ao jogo, fá-lo um símbolo. No futebol não há chefe, não há dinheiro, não há amor, não há certeza, não há dois jogos iguais. Há só artistas, um parêntesis cénico, uma obra de arte dinâmica e colectiva, um exercício de possibilidade que qualquer ser humano compreende. Por exceder no futebol, por entusiasmar tantas pessoas, Cristiano Ronaldo merece este prémio. A Bola de Ouro é o mero corolário do seu esforço e dedicação. Fez ouvir e ler-se a palavra 'português' - gostemos mais ou menos dele - mais do que qualquer outra pessoa em 2009. E, tendo-o feito por motivos eminentemente positivos, mais que merece esta distinção.

Partilhará, contudo, o troféu que o Generosità, na minha pessoa, lhe oferece, com Nélson Évora, que, talvez mais, alegrou o próprio país. Sobretudo porque foi o único que, confrontado com a maior fasquia, no caso particular, a cumpriu. Disse, ou deixou que muitos dissessem - e fez. 

Para mais, fê-lo na pior situação - quando todos os colegas olímpicos desiludiram na sua meta (excepção feita, notavelmente também, a Vanessa Fernandes), e a crítica devastadora (o atípoda da exaltação esperançosa antes de os atletas entrarem no avião) se acumulava. De tal forma que Évora - actuando mais tarde - foi um 'tudo ou nada' para a missão olímpica portuguesa. Foi a última fronteira para a desilusão e o achincalhar de toda a missão. E ele, sob essa pressão acrescida, foi o tudo, e salvou tudo. Ter conseguido - perante o mundo, perante os portugueses e, também, perante o pessimismo e a desilusão dos portugueses, fazem de Nelson Évora o símbolo do ano, o vencedor português do ano. Daí o prémio, daí os parabéns - que assim exige o nome deste espaço.

domingo, março 30, 2008

[Recovered] Olivus 2007: Publicidade

Faltou-me atribuir um prémio ao passar o ano. Faço-o agora, malgrado o grande atraso. Mas, sendo esta a primeira vez que os prémios são atribuídos, e, especialmente, tendo o regulamento sido da minha lavra, não há problema.

Julgar anúncios não é fácil, há anúncios muito bons em várias vertentes, seja no seu humor, seja no "faro", no apanhar do "não dito" da sociedade portuguesa. Por exemplo, ao longo do ano passado, a senhora que foi responsável pelas várias campanhas do BES (o burro Euribor, etc.) esteve, a meu ver, brilhante. Teve ainda o discernimento de ir buscar o Pedro Górgia para um anúncio, ele que tem o que eu chamo de "humor inerte" - só olhar para ele dá vontade de rir.

Também, mais recentemente, esta campanha do Pingo Doce, em rebelião contra os cartõezinhos, pontinhos, descontinhos, papelinhos, e promoçõezinhas foi um "ovo de Colombo" - é claro que as pessoas não têm capacidade, nas suas vidas de trabalho e stress, de acomodar esses regulamentos estapafúrdios. Experimentem dar-lhes honestidade e constância, "for a change". Igualmente brilhante.

Mas, claro, o anúncio que eu elejo para me lembrar de 2007 peca por ter passado muitas vezes na televisão por alturas do Natal, o que vicia um pouco a memória. Para mais, está um pouco banalizado pela repetição. Ainda assim, o anúncio do perfume "Armani Code" é a minha escolha para o ano que passou. Curto, seco, mas insinuando tudo - Armani, nem mais. Consegue-o mercê da combinação coreográfica de toques, olhares, e pontos da música de fundo. Mercê dos olhos verdes da bela modelo sueca Mini Anden ao som do empolgante "Scandalous". A mensagem e a intensidade fechadas, condensadas em poucos segundos. Como o esplendor de um perfume condensado num frasco.




(Mini Anden)



domingo, janeiro 06, 2008

Olivus 2007: Livro do Ano

Passaram-me pelas mãos dezenas de livros ao longo do ano. A minha cadência de leitura, pergunto-me mesmo se o meu tempo, a minha paciência, não chegaram para ler mais que uma ínfima parte. Por isso não vou eleger um livro para um conjunto de categorias. Mas posso bem arriscar escolher um livro do ano. Aí não tenho grandes dúvidas: o vencedor é Orlando Furioso, o clássico de Ludovico Ariosto, traduzido do italiano pela especialista Margarida Pequito, com a chancela da Cavalo de Ferro.


Nunca antes este absoluto clássico da literatura mundial fora integralmente traduzido para português. A sua versão final data de 1532, e tem 46 cantos e cerca de 40.000 versos rimados. Rimas - e aí esta tradução torna-se impressionante - que esta tradutora conseguiu manter na passagem para português. Leio numa entrevista que o fez ao longo de um ano inteiro, em regime quase monástico. Já várias vezes eu ouvira referências a este clássico, do qual Camões chegou a copiar frases (sim - pensam que o luso plágio é de agora?). Um conselho pessoal, e generoso (conferir nome deste blog): comprem-no. É preciso saber reconhecer ouro quando se o vê à nossa frente. E quem sabe quando volta a oportunidade.

Mas informações sobre esta obra aqui.

quarta-feira, janeiro 02, 2008

Olivus 2007: Música

Ao ouvir as Xaile, tive somente um comentário a fazer. Foi mais ou menos: "Maskéiistoou???". Estranhamente interessante, porém. Primeiro estranha-se, claro. Gosto de as lançar no Generosità agora no Inverno, para apressar a vinda da deusa Ceres. Quanta mais novidade e frescura, melhor. Novos tempos precisam-se.



Uma loira, uma ruiva e uma morena (qual é palavra? "sassy"? - exactamente, é mesmo isso). A diversidade e a alma da mulher portuguesa. Se souberem seguir o seu caminho, não ligando a comentários cínicos ("espécie de Spice Girls para militantes do BE"), têm potencial. Cessem quezílias e passados, e escutem - fala a Natureza.

Aposta Generosità. Mais informação aqui. E aqui.

terça-feira, janeiro 01, 2008

Olivus 2007: Personalidade Nacional

Para mim, claramente Vanessa Fernandes. Sim, também tem sido escolha noutros balanços. Não me interessa. Eu até diria que não faz muito o meu tipo de pessoa. Não me esqueço do seu "em Pequim vou partir tudo" depois das primeiras boas prestações nos jogos de Atenas 2004. Sou mais fã do atleta humilde. Mas ela realmente, tem "partido tudo" desde então. E a arrogância, quando é suportada por resultados, quando não é gratuita, deixa de ser arrogância para ser auto-estima e convicção. Há que reconhecer que ela é uma desportista excepcional, e primeira representante do país no atletismo. O que ela faz requer muita abnegação e vontade de vencer - uma disciplina muito superior à de 99% dos futebolistas. Há que respeitar isso acima de tudo.

Olivus 2007: Televisão

Necessariamente, Gato Fedorento. Escolha repetida, bem sei. Mas a minha, ainda assim. Foi o programa mais influente ao longo do ano. Não existe ali o humor genético de Herman, nem o seu "one man show", mas vale a pena, apesar de tudo. O que eu acho na análise dos Gato Fedorento é que existe uma conjuntura que os ajuda. Um sucesso é sempre maior se em seu redor as pessoas não têm grande optimismo. Depois, esta sociedade de repetição favorece-os, estranhamente. Os seus sketches são repetidos "ad nauseum" na net, e na própria televisão. Mas acontece que estão bem feitos, têm uma certa qualidade que os faz resistir a essa repetição. Ao dedicarem-se a fazer cada pequeno projecto com qualidade, a re-visão traz às vezes um pormenor que se não notou, uma noção de qualidade superior à que se teve com o primeiro visionamento. Não os acho brilhantes - não podem ser porque são consensuais, não fazem ondas. Mas, numa "arte" muito volátil, cheia de "picos", souberam manter um registo constante bastante bom. O próprio Eduardo Cintra Torres, que os declarou acabados com o "Diz Que É Uma Espécie De Magazine", teve que dar o braço a torcer e elegê-los para o melhor de 2007.

Pessoalmente, gosto também muito de rever os Friends, para mim a melhor série de sempre. De resto, valeram a pena algumas entrevistas de Mário Crespo e Ana Lourenço (faz falta João Adelino Faria) na Sic Notícias. É justo mencionar tão bem alguns Prós e Contras, no início do ano. Por grande mistério, o programa tornou-se muito menos interessante com o passar do ano. Alguns pormenores interessantes no RTP Memória, cuja programação me parece sempre algo inconstante.

No global, acho a televisão portuguesa muito pior que há 5, 10 anos. Menos filmes e documentários de qualidade (saudades da melhor RTP2, do "Lugar da História", do "5 noites, 5 filmes"). E parece que mesmo o cabo não salva a coisa. Não sou grande fã das novas séries "Grey's Anatomy", "House" (cujo conceito de Medicina me repugna), etc. Falta inteligência (sim - mesmo ao House), verve (sim - mesmo ao House), falta originalidade. Não só as banalidades de "boy meets girl". Falta uma espécie de novo "X-Files". Faltam séries "de culto", não só de massas.

Olivus 2007: Jornal/Revista/Colunista

Melhor jornal: "Expresso", apesar de tudo. Apesar de menos interessante, com um caderno principal "sofrível" (haja Sousa Tavares), e uma "Única" banalíssima (ofensiva para a "Revista" de outros tempos), tem ainda o melhor suplemento cultural e o melhor suplemento de economia (a milhas do "Sol"). Sempre útil o caderno de "Emprego".

Quanto ao "Sol" padece de, como algures escreveu Pacheco Pereira, querer ser tudo, para acabar a não ser carne nem peixe. Quis ir buscar os orfãos do "Independente", os fiéis de Saraiva no "Expresso", os saturados do excesso de informação, os que buscam frescura na leitura de fim-de-semana, mais que mera revisão da semana anterior. Com uma revista "Tabu" mais interessante que a "Única", Saraiva perdeu-se no seu egotismo, e a sua originalidade de clarividência, no "Expresso", ficou, na nudez do "Sol", só superficialidade, só truísmo. Para além dos ridículos artigos sobre as suas vicisstiudes pessoais. Como se alguém "gave a damn", honestamente. Saraiva, amigo, quer andar a fazer teses de doutoramente em redor dos seus episódios rotineiro? Lance um blog, é o meu conselho (mas escreva de forma mais... sexy - não há paciência). A redacção do jornal sofre de uma espécie de complexo nepotista, na defesa do próprio Saraiva (sobretudo quando Sousa Tavares foi criticado por Pulido Valente - logo Mário Ramires comparou o episódio com uma crónica de Sousa Tavares a arrasar o livro de Saraiva sobre a vida no "Expresso", como se fosse comparável) - e isso só os desqualifica como mentes independentes.

O "Publico" quis-se fazer moderno e perdeu um leitor. Nunca mais li o jornal com a regularidade de outros tempos após esta renovação gráfica. A este modernismo eu chamaria, em relação ao jornal anterior, "pornografia da imagem". Enche-se o jornal de imagem, perde a compreensão do conteúdo. Para além da mania de tornar o jornal num pseudo-blog, com "links" no topo de cada página para outras notícias. Um dia ainda hão-de perceber que o formato anterior era muito melhor, e as pessoas já andam cheias de imagem pela televisão e pelo pc. Ninguém quer isso no seu jornal. Um jornal é um meio, não um fim, não um objecto a guardar. Com tanto "bling", o inconsciente até critica o leitor por deitar tanta bela imagem e boa folha para o caixote. Esta é uma luta pessoal, e terei apenas comigo alguns outros puristas. Eu digo que o "Público" tem que ceder e retroceder. A ver vamos quem ganhará.

Revista: "Sábado". A mais criativa, de muito longe. Consistente no seu estilo. Muito boa a explorar a vida real, prática dos portugueses, que esteve durante muito tempo alheada do "etéreo" das revistas de referência. Vai buscar, muito astutamente, os temas de que os portugueses falam entre si. É cusca. Sabe que os portugueses gostam de ler os pormenores mais comezinhos, da rotina do dia-a-dia da pessoa, seja um humorista ou um banqueiro, e isso interessa o leitor para o resto do tema. Conseguem assim aligeirar sem banalizar. Melhor publicação a surgir no panorama mediático português dos últimos anos. Não é a "Sábado" que precisa de melhorar, o seu estilo está correcto. à volta é que os outros não fazem a função que lhes compete.

Colunistas: tento ler, sempre que "os apanho": Pacheco Pereira, Vasco Pulido Valente, Miguel Sousa Tavares, Pedro Mexia, António Pinto Leite e Ferreira Fernandes. Esporadicamente, Marecelo Rebelo de Sousa, em que a quantidade de pormenores pessoais e os "diabinhos" ao serviço do que anda o homem à procura não compensam a diversidade, qualidade e destaques merecidos (para mim, pelo menos). No meu top pessoal estaria Pacheco Pereira na profundidade, mas vou escolher Miguel Sousa Tavares pela proximidade ao meu gosto pessoal, pela conjunção de espírito, discernimento, e, ultimamente, até mesmo algum estudo. O colunista que mais me faz dizer "na mouche - é mesmo isto".

De qualquer forma, não há um registo brilhante, uma certa frescura. Falta gente jovem a despontar, gente com talento e inteligência a emeergir pelo meio desta gerontocracia de "opinion makers" (Sim, sim, estou disponível! "Maria"?... hum, talvez não... fico-me pelo Generosità).

Em geral, o panorama nos jornais e revistas portugueses, que me desculpem, é pobre demais para ser verdade. Quem os lê há alguns anos como eu, embora jovem, vê perfeitamente uma perda de densidade, de esforço por simplicar o que é difícil, a falta criminosa de originalidade, de variedade. Tanto factõide internacional traduzido até mete pena. Tanto "profissional" da escrita táo superficial... não vive de todo aquilo que escreve. Escreve como aparte da sua vida. Em Portugal, isso não faz sentido. Falta um novo Miguel Esteves Cardoso, uma nova Filomena Mónica, falta o "Público" dos 90, falta gente jovem do "Independente", falta um "Expresso" mais generoso e interessante. Não é o "Sol" ou o novo "Público" que lá vão. Assim, vejo-me a perceber porque é o Correio da Manhã o jornal português com maior tiragem. Tem notícias a sério, por mais escandalosas que sejam, e alguma opinião dieferente, até com alguns escritores como José Luís Peixoto e Gonçalo M. Tavares. Panorama muito triste, realmente. Mercantilização excessiva, padronização excessiva, repetição excessiva.

Olivus 2007: Figura do Ano

Nicolas Sarkozy. Pela capacidade de fazer reformas, pela inteligência emocional, pela convicção, pelo carisma. Por ser a derradeira figura da direita europeia neste momento.Por ir buscar conceitos caducos como honra, respeito, sentido de comunidade, sentido de Justiça. Por não ter medo. Por não ter medo de enfrentar a canalhice. Por acreditar no seu país, na sua comunidade, nas suas pessoas. Por ser um homem de acção e, tudo somado, dar um líder, na verdadeira definição do termo. E, depois, claro, por ainda ter o bom gosto e o desplante de fazer Carla Bruni apaixonar-se por si. Bravo!

Começa este semestre a presidência francesa da UE. E os desafios para Sarkozy serão cada vez mais complexos. Conseguirá resistir? Não nos desiludirá? No final de 2008, se ainda existir este blog, faremos contas.

Olivus Awards

Não tendo (ainda) enriquecido como Alfred Nobel, não tendo (ainda) qualquer impacto na sociedade, não tendo (ainda) uma vivência do mundo, não tendo (ainda) uma cultura e erudição fabulosas, pareceria estúpido estar a criar prémios para o melhor de 2007. Mas há uma razão bastante forte para o fazer, e é talvez a razão que mais explica o ser humano: porque me apetece. Ah, e porque estou na posse de um blog. Não é qualquer idiota que tem um blog, atenção. É preciso passar por provas duríssimas, algumas envolvendo inclusive a inalação e expiração de azoto, e oxigénio, entre outros gases raros.

Vejo-me assim como parte de uma elite, e só posso reclamar o direito supremo aos meus Olivus Awards. Em coerência absoluta com a razão que presidiu à sua génese, as categorias e a selecção dentro das mesmas obedecerá às directivas rigorosas do "porque me apetece". Donde, as categorias poderão mudar com o tempo (na ilusão de que este blog sobrevive mais um ano). O douto júri, composto, entre outros, por mim e por mim mesmo, assegurará a idoneidade destas escolhas. Todo o processo obedecerá aos estatutos, redigidos em sede própria, por Pedro Duarte.

Os congratulados com a eleição ver-se-ão presenteados com um prémio pecuniário no valor de P.D. 2 000 000, i.e., dois milhões de pedro-dólares, correspondentes (câmbio a 1 de Janeiro de 2008) a 1 000 000 de microeuros. De acordo com os estatuos, é também estipulado que "vencedores que correspondam ao perfil communmente referido como 'mulheres', ou 'raparigas', dentro das categorias de 'gira', 'sexy', 'boa-comó-milho', 'interessante' ou mesmo 'querida' poderão exercer o direito de escolha em relação a um evento de degustação nocturno, vulgo 'jantar', com o próprio júri, deliberado pela Assembleia reunida a 1 de Janeiro de 2008 sob a égide de Pedro Duarte, composto por Pedro Duarte, em observação dos desejos do benfeitor e mecenas Pedro Duarte".