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terça-feira, janeiro 27, 2009

Moscas Felizes

É extraordinária a vida. Aliás, o que é a vida? Lembro-me de um livro sobre o tema. Como não poderia lembrar-me de um livro sobre o tema? Mas, realmente, quanto das nossas vidas é perfeitamente aleatório? Quanto está absolutamente fora do nosso controle? Quanto é surpreendentemente bom? Ou surpreendentemente mau?

Por exemplo, hoje eu passei ao lado de uma mulher deslumbrante. Nada de especial teria esse facto, não fosse ela realmente mulher - e deslumbrante. Mas... diria que no cenário errado. Isto é - no meu. No subúrbio, onde as gentes se vestem mal, tratam mal da sua aparência, estão chateadas, deprimidas, com o país, com o trabalho, com o Benfica, com tudo. Mas lá estava ela, como se transplantada para este solo estranho desde uma rua florentina. Tudo errado. Mais não fosse, é o meu cenário. E, de alguma forma, mulheres assim não fazem parte do meu cenário. Ou eu do cenário delas.

Nunca vos aconteceu, passar por alguém tão solar?



Às vezes a vida anda por lugares estranhos, e a melhor vida anda por lugares estranhos. Às vezes encontramos pessoas surpreendentes nos lugares que cremos conhecer. A vida... é complexa, ainda mais complexa numa sociedade ocidental absolutamente afogada em tecnologia. Por exemplo, conseguem lembrar-se do tom de toque do vosso telemóvel? É triste, não é?

Todos nós subestimamos o aleatório na vida. E o aleatório parece hoje dominá-la, com tanta confusão, tanta alienação do normal. Regras simples já não se aplicam. As pessoas podem dizer que é a Política, os políticos, a UE, a Civilização, mas... se tudo isso fosse corrigido, amanhã a vida tornava a ser complexa, intrigantemente aleatória. Basta lerem a última entrevista de Berardo ao 'Público', onde ele diz que, do dia para a noite, toda a técnica que usava nos seus negócios foi arrasada, deixou de fazer sentido. A tabuada já não sai.

Melhor é mesmo perceber que muito da vida está escondido sob o acaso, gostemos ou não. Talvez hoje mais do que nunca, não sei ao certo. Não é nada de novo na determinação das nossas vidas. Mesmo na Biologia existe o 'bottleneck effect'.

Mais bem seremos, por muito que não gostemos, apenas moscas, como dizia William Blake. Se formos moscas felizes, então já nos podemos considerar vencedores.

The Fly

Little Fly,
Thy summer's play
My thoughtless hand
Has brushed away.

Am not I
A fly like thee?
Or art not thou
A man like me?

For I dance
And drink, and sing,
Till some blind hand
Shall brush my wing.

If thought is life
And strength and breath
And the want
Of thought is death;

Then am I
A happy fly,
If I live,
Or if I die.

William Blake (1757-1827)

sexta-feira, dezembro 12, 2008

Elogio a Sophia

Talvez, se me perguntassem de repente pelo meu poeta favorito, eu me saísse com o seu nome. É certo que continuo um fiel de Cesário, mas Sophia de Mello Breyner Andresen (e todos sabemos o seu nome completo), tem dos poemas mais... limpos da nossa língua. É magnífica. É um acto de higiene mental, lê-la. Uma redenção do mundo. E pergunto-vos se para algo mais existe a Poesia.

Sophia disse, creio, ser o (seu) Porto 'a nação dentro da nação'. Até lhe darei razão nessa fé, mas mais importante para mim será dizer que Sophia é a Língua Portuguesa dentro da Língua Portuguesa. Se se tivesse que começar do zero este nosso mágico idioma, seria sempre com ela. Seria com a sua Poesia que se ensinaria Português a um marciano. Pessoa - se bem que igualmente pristino (ortónimo) - não é nunca tão sincero (ou não é nunca sincero), como Sophia. Sophia escreve e é. E por isso resume a enorme complexidade da Língua Portuguesa, sintetiza e comprime o universo. E traz luz sobre os nossos.

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Politicamente Correcto ou Amizade?

Dou comigo a pensar em como, tantas vezes, tendo - tendemos - a desculpar em demasia as pessoas da nossa geração. A nossa geração é, sejamos claros, grande parte daquilo que nos define. Mas... quer dizer, julgo que há uma certa tendência para cair no politicamente correcto de desculpar tudo a todos - só por termos a mesma idade. De desculpar omissões, comportamentos, má-educações, cobardias, etc. E, paradoxalmente, tendemos a criticar, por vezes, os nossos próprios pais.

Ora, é claro que existe aí um grande paradoxo, uma grande injustiça. Não há porque desculpar tudo aos nossos coetâneos (nem aos nossos pais, já agora, porquanto a gratidão se imponha). A amizade não é desculpar tudo - a amizade é justamente uma relação de confiança em que as pessoas cumprem regras, inevitavelmente - ou ela rompe-se. Todo o contrário, portanto. Será que, quanto mais tendemos a aceitar cegamente tudo nos nossos co-geracionais, mais tendemos a criticar gratuitamente, por exemplo, os próprios pais?

Será que conseguimos avaliar por um qualquer padrão que apliquemos a pais, e amigos - mas antes de mais a nós mesmos?

Não vale a pena deixar coisas básicas para ser 'aceite'. Mais vale estarmos sós.

segunda-feira, novembro 17, 2008

Com ou Sem... Pecado?

Talvez mais importante que a questão 'com ou sem Amor', sobre o sexo se deva perguntar 'com ou sem Pecado?'. Com ou sem o sentido de Pecado? Simples, natural... ou envolvendo algo mais?

Porque, infelizmente, as pessoas não são todas iguais, lá tiveram que meter as noções de Pecado e de Culpa para o meio da coisa. Males necessários...

Quem sabe se, sem exageros de Amor, ou exageros de Pecado, não estaremos no estado mais natural e puro de algo que tentam sempre complicar?

sexta-feira, novembro 14, 2008

Geração Faroeste

A propósito dos alunos de uma escola que receberam com ovos a ministra da Educação, dou comigo a pensar como se poderia baptizar esta geração... É que a "geração rasca", que precedeu a minha, tinha um elemento de comparação que a desfavorecia. Uma qualquer concepção juvenil (salazarista) de juventude, de gentil-juventude, com gosto por cultura, suponho.

Veio então a "geração rasca" abrir terreno, depois a minha - talvez mais certinha, em ligeira "correcção" - e seguiram-se cerca de duas gerações... insípidas. Alheias ao impostante. Imersas no fútil. Vazias. Passando de SMS pela vida. Sem referências, para além do Ronaldo. Cresceram sem limites.

Mas dou comigo a pensar que esta geração nasceu numa era que tecnologiamente potencia e multiplica a obscenidade da... estupidez.

E tenho como única explicação, naturalmente, o próprio país. Esta geração nasceu num Portugal onde não existem regras. E, sobretudo, onde não existe castigo.

Assim, pois, nunca se sentiu limitada. Se quem faz crimes não é castigado - porque é que eles haviam de ser. Se não há temor, não vergonha. Se não há vergonha, tudo é permitido. Quem diz coisas estúpidas, não tem vergonha nisso. Quem faz coisas estúpidas não tem vergonha nisso.

Esta geração é um subproduto do seu tempo. Nasceu num país sem regras, e sem contornos. Não acredita na lei - na escrita e na não-escrita. Nasceu no Portugal do Faroeste. É uma geração de Faroeste.

segunda-feira, novembro 10, 2008

Sistema Nervoso (Demasiado) Simpático II

O segundo problema de um sistema nervoso demasiado simpático, é já não o de ser simpático e sofrer com o mundo. Mas de ser demasiado simpático com os outros.

Acontece que acolhe demasiado os problemas, limitações, as circunstâncias dos outros. Sofre com o que não tem que sofrer, interioriza o que não deve interiorizar.

E não deve, simplesmente, porque o sistema nervoso alheio é parassimpático, isto é, está além dessa ingénua simpatia. Como tal, não tem em consideração as mesmas cortesias, não permite a mesma margem de manobra nos julgamentos de nós que faz. A nossa gentileza raia o servilismo, e a falta de resposta do outro lado raia a ofensa intolerável.

Não restam dúvidas da pequena maldição que é ter um sistema nervoso (demasiado) simpático. A maior parte safa-se bem com as regras do seu, parassimpático. Talvez seja possível, nesta era de evolução científica, fazer a conversão. Talvez a isso sejamos - inevitavelmente - obrigados.

quinta-feira, novembro 06, 2008

Higiénico, Vivaz e Ecuménico, Mas... O Sonhador Certo?

Como disse num post anterior, Obama é um presidente higiénico, vivaz e ecuménico.

Não pretendo - e apesar do poema anterior - que me rotulem de 'obamista'. Demasiado cauteloso, permaneço no 'wait and see'.

E, por isso, vou desde já lançar-vos uma primeira questão. É lícito que se considere o 'sonho americano' chegar à Casa Branca? Ou o sonho americano é, antes, de realização pessoal, em termos de riqueza, de performance, de deixar nome, de ser lembrado? De ser milionário, cientista famoso, médico, etc.?

É que um posto de chefia como 'sonho' é algo de ligeiramente diferente. Mesmo na representação do povo.

quarta-feira, novembro 05, 2008

Game Over, New Deal

E pronto. 'Game over, Bush.'

Vitória de Obama que entusiasma o mundo. Que faz 'tabula rasa' - de tal forma é o oposto de Bush (negro - ou mestiço, se preferirem - multi-racial, com um QI assinalável, passou pelo 'mundo de baixo', e tem origens africanas - e mesmo islâmicas). Dois pólos.

A mudança é tao grande que, naturalmente, só pode, como dizia Nuno Rogeiro, por o conta-quilómetros do táxi 'bode expiatório' a zeros. E acaba um período. Uma era de vazio, ao contrário do que tantos pensavam.

Antes de mais, uma era de vazio de valores:


[1]. A legitimidade de um líder.

Decorre da primeira figura de uma naçao, de um sociedade, que tenha legitimidade para a governar. Antes de mais, legitimidade democrática, é certo. Mas também legitimidade pessoal. Por exemplo, não convém a um preguiçoso defender as virtudes do trabalho. Da mesma forma, alguém que manda uma geração para a guerra deveria, no mínimo talvez, não se ter escusado a um guerra que tivesse tocado à sua geração. Como fez Bush. Num mundo correcto, teria sido McCain a liderar a guerra no Iraque - cujos frutos ainda é cedo para apurar - porque poucos políticos teriam a sua legitimidade. Mas eu ainda me lembro da minha estupefacção ao ver McCain, um herói com todas as letras, preterido em 2000 por um homem algo estranho, com pouco brilho, de um país onde a inteligência, naquela altura, pelo progresso científico avassalador (na Biologia, sobretudo, estávamos ainda a sair da revolução na Genética), impressionava. Quer dizer, para nós que estávamos à espera da universidade nada havia no mundo como o meio universitário americano. Era ali que o magma fluía. E, no entanto, surgia aquele homem, de uma simplicidade nem sequer inteiramente genuína. Quase um menino folgazão, que, no caso português, teria pertencido à Associação de Estudantes, praxado e bebido Super Bock ao pequeno-almoço, depois se aninhando nas empresas do pai, para agora ir liderar o país. E falam eles do Santana Lopes.

Mais tarde eu daria algum crédito a Bush. E a História pode com ele ser muito mais benevolente que aquilo que nós somos, agora. A invasão do Iraque, malgrado outras motivações, pode criar um tampão muito importante na região. Como dizia o Pacheco Pereira, essa devia ter sido a motivação desde o primeiro momento.

E, não só Bush valia mais que aquilo que eu cria (embora eu nunca tenha sido fã dele, já naquele então, em 2000, eu apreciava McCain particularmente, houve outra coisa que com ele se tornou mais óbvio: é que o presidente, a figura cimeira é muitas vezes meramente instrumental. Eu pensava, na minha ignorância, que tinha que ser uma grande pessoa. Ainda mais numa grande nação, como a americana. Mas... afinal não era assim. Havia uma série de gente a pensar a vida da sociedade, ideólogos, 'think tanks', etc., pelo que o presidente era mais um pormenor - era instrumento de uma ideologia.

E tudo fazia, enfim, algum sentido. Bush não tinha estatura pessoal para líder. Mas talvez, então, ele estivesse ali como veículo de uma ideologia - conservadora, ou neo-conservadora, se quiserem. Havia algo maior que ele. Um país, uma sociedade, uma política. E isso jogava bem com o facto de ele, para um líder, não ser particularmente orgulhoso ou egocêntrico, mas até acessível.

Era essa então a legitimidade de Bush - impossível a legitimidade pessoal - a de um 'projecto' maior que ele. Mas até essa legitimidade, até esse conjunto de valores iria por água abaixo.


[2]. A legitimidade de um visão política.

Veio a crise financeira no final do seu mandato. Pela cartilha liberal que o tinha guiado antes, Bush teria que ter deixado os bancos falir. Era duro, mas era assim. E as regras são mesmo para cumprir - à maneira 'hard' conservadora. Mas... não foi isso que aconteceu. As circunstâncias impuseram-se aos valores, tudo mudou. Os empresário que tivessem falido antes já não sentiam que viviam num mundo duro, mas justo. Era duro para alguns, e nada mais.

Eis assim como, nunca alcançada a primeira legitimidade, por este pormenor maldito, no final do seu mandato, Bush perdeu essa 'segunda' legitimidade também. E é por isso que hoje sai um homem vergado pelos eventos.


[3]. A legitimidade de uma nação.

Há, no entanto, ainda uma outra, uma 3ª legitimidade que Bush comprometeu: a do seu país como paladino da Civilização Ocidental. Embora seja difícil conter as reacções ao 11 de Setembro, que foi algo sem precedentes, ou mesmo controlar aspectos humanos da guerra, em que todos os demónios se soltam, aquilo que aconteceu em Abu Grahib e Guantánamo, não só colidiu com o sistema de valores ocidental, americano. Não só retira legitimidade ao país em posições de princípio futuras. Mas também, de forma preocupante, pode colocar em perigo soldados americanos em situações futuras. Foi algo da mais extrema gravidade, portanto.

[***]

Apesar de tudo isto, e digam o que disserem, é cedo para julgar correctamente Bush. Ele governou por anos sem precedente. Enfrentou realidades muito complicadas. Falta perceber o seu legado - Voltará a prosperidade do seu tempo? Haverá um dia um Iraque diferente, nação democrática, emancipando toda a região?

Mas agora é o tempo da mudança de tom, com Obama. Há indicações positivas, mas também grandes - grandes - dúvidas. É refrescante, mas o mundo aí anda perigoso. E complicado.

Obama aparece como higiénico, vivaz e ecuménico. Esperemos que tudo lhe corra bem.

sábado, outubro 25, 2008

A Moralidade Descartável

Estava-me a lembrar de alguém que tem uma curiosa capacidade: a da moralidade descartável.

Imaginem alguém que é capaz de, nunca cumprindo um código moral, desfraldar a sua bandeira quando é preciso - isto é, quando é preciso para reclamar de algo, para conseguir o que pretende. E que, para tal, se assegura de 'dar umas pinceladas' dessa moralidade, de vez em quando. Mesmo que a maior parte do tempo siga os próprios intentos - em sentido contrário.

Assim, por exemplo, se tivermos um indivíduo que advogue o vegetarianismo, pode ele criticar doutamente aqueles que comem carne, pode até dar o exemplo mais beato, numa refeição, de se ficar pelo pão com manteiga, porque naquele restaurante só se come cozido à portuguesa e chanfana. E, no entanto, quando sai com os seus amigos, incorre nos mais suculentos coiratos, ou recheados hambúrgueres.

Do respeito geral, contudo, não se livra. Até porque vive dele. Diz que faz umas outras coisas menos recomendáveis, e que não participa ou fura a sociedade. 'Mas reparem no seu empenho para salvar os animais... Tocante.'

Usa, assim, de uma moralidade descartável, incompleta, que defende quando lhe aprouvém. É assim daquelas moralidades que se vendem nas bombas de gasolina. Quando passa por lá, compra mais uma recarga, juntamente com o seu desportivo e um o ambientador para o carro.

Ele há várias dessas moralidades salvíficas, a bom preço: vegetarianismo, aquecimento global, direitos das minorias, o clube de futebol, a luta pela elevação de Ermesinde a concelho, a defesa dos ornitorrincos, ou a demarcação da zona produtora de pastéis de Tentúgal. Ele há várias.

E assim, usando uma moralidade descartável, se atinge a perfeição: não se tem que trabalhar para que haja uma legitimidade, mas pode-se criticar quem se quiser. Eles não sabem, ou não podem apontar o dedo quanto à falta de ligitimidade.

As moralidades a longo prazo, de vida são, na realidade, uma parvoíce: só dão trabalho, para pouco mais. Nada como a moralidadezinha descartável.

Afinal, não se está a inventar nada de novo. Que já o Eça, com o seu conselheiro Acácio, paladino dos bons costumes, que se acostumou demasiado à criada, se referia à coisa. E pode-se, por isso, dizer 'acaciana' essa tal de 'moralidade descartável'.

quarta-feira, outubro 22, 2008

"A" Quinzena: Keep Your Pants On

Hoje as bolsas desceram de novo. Provavelmente, a tendência não se irá inverter até ao primeiro patamar de solidez: as eleições americanas. Um dos grandes problemas da crise é o de, justamente, surgir a meio destas eleições.

Até lá, ninguém mexe no coldre. Até lá, ninguém pia. Depois, logo se vê. Depende. De quem for eleito, como, qual a sua equipa, qual a primeira impressão, quais as primeiras medidas. Vai ser a segunda parte de um mês de nervos. "A" quinzena.

It's gonna be a bumpy ride. Keep your pants on.

domingo, outubro 19, 2008

Injecção de Verdade

E se, de repente, os governos anunciassem uma injecção de Verdade no sistema? Para restaurar a confiança, para dar solidez (já não liquidez) às instituições? Isso, sim, seria uma revolução.

Off-Shores e Confiança

A questão dos off-shores, para mim, é que está verdadeiramente na raíz da falta de confiança na sociedade. Porque perverte a maneira 'limpa' de ganhar dinheiro. Portanto esses sábios económicos, que tanto elaboram sobre a necessidade de confiança, e em coerência lançam dinheiro no sistema, para a restaurar, poderiam pensar se, talvez, a existência de um circuito de dinheiro que escapa à sociedade em geral, de contornos imorais, não diminui, justamente, essa confiança.

Felicidade

Espero que o post anterior não soe demasiado moralista, ou 'padreca'. Eu sou a favor da as pessoas serem livres para fazerem o que quiserem. É só uma comparação.

Não pretendo criticar comportamentos - apenas ajuizar certos fenómenos de acordo com o que eu acho que é uma sociedade a funcionar, de acordo com o que eu acho que é o patamar dessa coisa a que chamam... felicidade.

A Bolsa e A Consciência

A propósito do que levou à actual crise dou comigo a pensar que a economia financeira está para a economia real, para o capitalismo, como a pornografia está para o sexo: é a idealização da coisa como ela é - mas nunca deixa de não ser a coisa como ela é. É o mais simples, primário, darwiniano - é o modelo que produz o deslumbre juvenil da coisa. Mas não é a coisa.

É uma ilusão que tem a capacidade de criar muitos seguidores, que acreditam que é essa a via para vencer na vida, ou que acreditam que é essa a via para o sexo como ele é. E não faltam histórias daqueles que triunfaram por essas vias - são motivo de inveja. Foram mais espertos - não tiveram que trabalhar ou 'aturar' mulheres (ou elas 'aturar' homens - sim, que isto toca aos dois sexos).

Nesta ilusão juvenil estará algum do problema do nosso tempo. É a ilusão do fácil. E tem muitíssimos seguidores. Mas continua a ser uma ilusão, uma esquizofrenia da realidade. Da mesma forma que o dinheiro raramente se cria assim, o sexo raramente se faz assim.

O problema é haver uma sociedade que permita vitórias pelo fácil. Porque quem se habitua ao fácil, num ápice esquece as razões do difícil. E num ápice passa à perversão.

Mas é sempre o instinto humano ir para o fácil, e a tentação de ser mais esperto é inevitável. E é por isso que anda tanta gente a tentar seguir esses dois modelos. E por isso um dia a bolsa rebenta, e por isso um dia a consciência rebenta.

Off-Moral

Seria interessante se, de uma vez, os líderes internacionais se concentrassem em produzir uma boa justificação para a existência de off-shores. Não me refiro - atenção - ao acto de enfim os suprimirem. Mas antes ao facto de que, tendo eles que gerir sociedades com base numa Moral, conseguirem justificar minimamente a existência dessas aberrações, que não servem senão para dar prazer perverso a yuppies, ou manter pequenos estados.

terça-feira, outubro 07, 2008

When Push Comes To Shove

É nas alturas de crise - como a que se quer controlar - que se vê como as coisas são na realidade. Que se vêem as verdadeiras cores. Que se vê uma Europa desunida, que não se encontra (por exemplo, veja-se o fundo de salvação comum que foi vetado pela Alemanha). Esta crise pode muito bem ser um ultimato à própria Europa: ou evolui para um modelo mais comum - e as nações têm que o aceitar caladas - ou então, quem sabe, pode bem desagregar-se. Não me espantaria.

Get Real

Uma coisa intrigante nesta crise financeira é que, como o jogo se tornou global, e se descontrolou por ser global, os efeitos dramáticos parecem mais globais. Quer dizer, a americanização do mundo, no facto da economia influenciar os destinos das nações, talvez não tenha, realmente, precedentes. A globalização do capitalismo, que o desresponsabiliza - e é a raíz desta crise - fará com que também, os efeitos mais dramáticos da própria crise se sintam da mesma forma por todo o mundo. Quer isto dizer pessoas nervosamente coladas aos números das bolsas, deprimidas, tomando acções extremas talvez. Pensemos assim: onde antes uma percentagem pequena da população vivia nervosamente a bolsa, hoje essa percentagem é muito maior. E, talvez, onde antes uma percentagem grande sofria em termos de economia real, essa percentagem está ainda para ser aferida. É diferente uma crise no princípio do sec. XX de uma no princípio do sec. XXI. Veja-se, por exemplo, o mero pormenor de avanço na produção de alimentos. O problema nem é da economia real, que pode hoje ter um nível como nunca antes. O problema está no liberalismo, e no primado da economia financeira, facilmente internacional, sobre as vertentes da economia real. Não faz qualquer sentido. É como dizer que nunca podemos produzir tão bem como hoje, mas como não podemos gastar tanto quanto deveríamos, o sistema entra em colapso. Ora isto é ilógico, e ridículo - e tem que ser revisto.

O que está visto - e eu sempre suspeitei - é que havia algo estrnanho no ar, quando, há uns meses andavam aí a dizer que havia imensa liquidez a nível mundial, que o mundo estava a crescer a um excelente ritmo. E eu, que sou céptico, não antecipando o espectro temporal para o desenvolvimento de nova actividade económica, nem a antevisão da diversificação cada vez maior da economia - com a população mundial a aumentar - pensei algo estar errado. Mas, caramba, o que é que um farmacêutico sabe de economia?

quarta-feira, setembro 24, 2008

You Are Now Leaving 'Dignidade'

Uma pergunta que mormente ecoa nos meus pensamentos diz respeitos aos limites da nossa dignidade. Está visto que nos inserimos numa sociedade onde ela é atropelada por todos os lados, uma sociedade de uma violência mansa, passiva, não-declarada, omissa. Mas que se acumula, que deprime, dia após dia. E que não sai dali.

Desde logo deprime, como sociedade, o facto de o próprio país estar mal. De os outros portugueses poderem estar mal. E de não haver (donde se pede a Manuela Ferreira Leite que começe a fazer o seu acto, a fazer oposição - pelo menos isso) luz ao fundo do túnel. Só mais do mesmo. Nada mais que isso.

Face a esta sociedade violenta para alguns jovens, a sua inserção no mundo laboral - sobretudo - exige uma série de cedências, naquilo que consideramos como certo, correcto, em prol de um bem maior. No caso, a própria sobrevivência, futuro. Leia-se dinheiro, salário. Eu não sou marxista, não falarei de 'prostituição', palavra demasiado forte. Mas o certo é que há jovens que se sujeitam a ambientes de trabalho insalubres, e não digo que sejam explorados, mas são ignorados, instrumentalizados, elementos na engrenagem do cinismo. Há uma noção clara que as coisas não deviam ser assim, mas tudo é aceite. Os silêncios, as omissões, as pequenas e insinuantes crueldades. Às vezes à verdadeiras 'obscenidades por omissão' (acreditem que eu sei do que falo), face a coisas gravíssimas (estou-me a lembrar, por exemplo, da certificação quanto à segurança e integridade física de um jovem) e depois, no dia seguinte, há que sorrir, falar, beber café como se nada fosse. Não - é preciso dizer não. Não se pode ter medo de impôr limites quando eles têm que ser impostos.

A verdadeira questão, no fundo, é a mesma de sempre. A noção subsconsciente de que este é um país pequeno, de que 'what goes arround' pode bem 'come arround', faz com que se calem verdadeiras bestialidades. De novo, eu sei bem daquilo que falo.

Há um pormenor, no entanto, que convém reter para própria protecção. Lembro-me de, há alguns dias, ter ouvido ao treinador do Manchester United, a propósito de não sei que situação, esta frase: 'There's nothing wrong in getting mad for the right reasons'. Se a Justiça (e o esforço sincero) estiver do vosso lado, não hesitem em clamar - contra qualquer opressor que seja. A Justiça é o único motivo que pode justificar todo e qualquer berro. O problema de sempre é ter a certeza de que ela está connosco.

quinta-feira, setembro 11, 2008

Et Semper Idem

Passam hoje 7 anos desde o 11 de Setembro de 2001. 7 anos. Parecem já 7 anos? A mim não. Mas eu sei que foi um princípio, um princípio de uma história que pode nunca acabar mesmo. Quando os EUA chegarem ao cabecilha odiado, qual medusa, outros surgirão. Não há um inimigo claro. E isso, na história da Humanidade, coloca-nos em confronto com uma guerra cega. Uma guerra em que sofremos - todos de alguma forma sofremos, embora muito mais os americanos - sem antevisão clara do fim. Não parece ser possível uma vitória absoluta. Quando se pensava que a guerrilha era o grau zero da guerra, o terrorismo puxou dos galões. É o terrorismo o grau zero da guerra. É um inimigo difuso, e pior, um inimigo potencialmente inderrotável. O que adia indefinidamente aquilo que caracterizou outras guerras: o fim - essa redenção colectiva, essa harmonia e aproximação, essa paz. Assim... assim está sempre lá - no inconsciente, a existência gravíssima de um conflito.

Detesto, abomino assumir esta postura mais pessimista, mas seria desonestidade intelectual não o fazer: esta é uma guerra que não nos dará paz tão depressa. Em todos os sentidos da expressão.

terça-feira, agosto 19, 2008

Eclipse Eclesiástico

Será que alguém ainda nota o total eclipse da Igreja em Portugal. Não pretendo tomar parte. Mas alguém repara como, de súbito, terminou - pura e simplesmente - de ter qualquer poder sobre a sociedade. Parece que só o F do futebol é eterno.

(Fora da televisão, fora do coração.)