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domingo, abril 26, 2009

Momentos 18

O guarda Jacinto era famoso pelo primor com que se vestia. Trazia a farda sempre impecavelmente engomada, e nunca andava com o coldre minimamente desviado de uma posição canónica.

Aquando da sua passagem pelo Departamento de Estupefaccientes, o seu rigor na composição dos elementos foi também aplicado na apresentação à imprensa dos resultados das apreensões da polícia. Fazia questão de apresentar as drogas por ordem alfabética, alinhava os pacotes, e dispunha as armas de acordo com princípios muito estrictos, e que os sucessores na função viriam a reproduzir.

Havia alguma paz de espírito na visão de estupefaccientes e armas assim ordenadas. Como se de alguma forma transmitissem a inevitabilidade da Ordem, a inexorabilidade da rectificação dos elementos - o castigo do Crime.

A sua técnica rapidamente se espalhou e tornou popular um pouco por todo o mundo. Foi baptizada de 'Feng Chuí' - e ainda hoje continua a ser desenvolvida.

terça-feira, abril 14, 2009

Momentos 17

Vergílio Elicíto era um agricultor pacato. Gostava de bons nabos, boa cenoura, boa couve. Não gostava que lhe elogiassem a horta, porém. Tinha medo que fosse por cobiça e que lhe 'pantassem' um mau-olhado.

Um dia porém, Elícito pensou em deixar de uma vez a sua aldeia. Teve uma ideia. 'Tenho uma ideia, mulher!', disse ela à mulher Joaquina. 'Vou ficar rico! Vais ver!'. E partiu para a Cidade.

Na volta, Vergílio vinha, de facto, mudado. Conduzia um carro de alta cilindrada, e vestia fato de bom corte. Bateu à porta e chamou Joaquina 'Viste, mulher? Eu não te disse que ia ficar rico?'. 'Oh homem!, ai valha-te Deus', disse Joaquina, com ambas mãos na face.

A mudança da sorte de Vergílio - ocorrida somente em dois meses e meio - levantou muitas perguntas na aldeia. Ninguém sabia ao certo que negócio fantástico tinha sido aquele. Havia conversa de venda de vinho a martelo, ou mesmo da venda dos direitos para um 'reality show' campesino. Ninguém sabia ao certo - e ele escusava-se a esclarecer os curiosos. 'Cá coisas minhas, compadre!', costumava responder à pergunta certeira.

E desde esse dia ficou cunhado na aldeia, em referência a riqueza de origem não inteiramente clara, o termo 'enriquecimento Elícito'.

quinta-feira, março 19, 2009

Momentos 16

Daquela toca às vez saíam barulhos estranhos. Gritos, desesperos, desabafos. Mas a família Lapin, coelhos que se haviam instalado naquela fresca e escondida zona do bosque havia algum tempo, tratava com serenidade todos os vizinhos. Dizia-se que os Lapin viviam bem - embora aquele não fosse bairro de mamíferos abastados. Era uma parte da bosque sem grande agitação - com o "ecossistema em equilíbrio", como dizia o patriarca Júlio Lapin, rindo-se.

Mesmo a origem aparentemente estrangeira do nome criava desconfiança. A isso se juntavam os gritos, as ofensas que saíam da toca, e que eles ouviam. Ruído que não se coadunava com o porte distante e polido dos Lapin no trato dos vizinhos... Havia um mundo dentro da toca, que apenas transparecia para fora, e tornava a vida de fora como que um acto de teatro.

Felício Lebre não percebia aqueles lagomorfos. Via-os a ter que sair da toca para apanhar as suas ervas, as suas raízes, e via-os bem alimentados. Nem sempre ele se podia gabar do mesmo. "Mas o que farão estes coelhos...?". A distância a que o remetiam não lhe permitia investigar mais sobre o assunto. Mas várias vezes concebia com alguma raiva aquela vida tranquila, de pêlo luzidio, enquanto que ele tinha que escapar a tantos predadores para manter o seu covil. Por vezes detestava aqueles coelhos, tão insistentes no trato frio, empurrando a sua curiosidade.

Um dia, porém, houve um furão que chegou àquela parte distante da floresta. Criou-se o pânico. Prevenidos, porém, os Lapin defenderam-se como puderam, os Lebre também. Depois de muito esforço, no final do susto, o furão já distante, Júlio Lapin não evitou olhar olhos nos olhos Felício Lebre. "- Isto é inadmissível!". Com alguma surpresa, Felício retorquiu: "Pois é, pois é... Esperemos não se repita". Júlio Lapin estendeu-lhe então a mão, e cumprimentou-o. Mais sereno perante tais situações-limite, Felício estava composto, e aquele cumprimento despertou em si um pequeno sorriso. Viu nele a ponte que necessitava para o futuro. "- Afinal sempre teve que dar a pata a torcer", diria depois a Juta, lebre sua esposa.

Daí em diante começaria a fazer conversa com os Lapin sempre que se encontravam fora da toca, retorcendo o seu teatro de cortesia, face às discussões pouco edificantes que lhes conhecia. "- Pois é...", disse numa tarde ao Vivi Texugo, dono de uma taberna do outro lado do bosque, "verás Vivi - eles ainda vão ter que vir aqui comer erva à minha pata. Vais ver! Eu sei do que eles são feitos...". Ria-se então, acompanhado por Vivi, amigo de longa data, à difusa luz, reflectida pela sua plumagem coçada, amarela. "- Bendito furão aquele, Vivi. Bendito furão!".

domingo, março 15, 2009

Momentos 15

O sr. Cordeiro era um ovino singelo, de quem se dizia com justiça, e graça miúda: 'não faz mal a ninguém!'. Gostava de acordar cedo pela manhã, mastigar um punhado de erva 'nem demasiado verde, nem demasiado seca', ler placidamente o 'Correio da Lã'. Nem sempre dormia bem, e tinha que estar atento à sua saúde, por via das dúvidas.

O seu trabalho era simples, sem complicações. Trabalhava num notário perto de sua casa. Era pontual. Dizia mesmo a brincar que as outras ovelhas poderiam acertar os relógios do escritório pela sua entrada, mas nenhum dos seus colegas percebia bem quem fora o 'Manuel Cante' nem a 'Quónisbeaurgue' de que falava.

Era um bom profissional, e os utentes gostavam dele. Tinha sempre um sorriso - "é o meu carimbo", gostava de dizer - para oferecer com um papel. Não se lhe conheciam romances. Constava que a sua vida era mesmo aquilo que parecia: o de ajudar a manter a paz no rebanho, a felicidade de todas as ovelhas, perdoando as ovelhas negras, evitando que os jovens borregos seguissem por maus caminhos. Era uma alma em paz, ou uma paz de alma.

Mas tudo mudaria aquando dos ataques dos lobos. Em raides sucessivos, predavam sobre o rebanho. O pânico instalou-se, a vida quotidiana mudou. Tudo agora parecia um interlúdio até ao próximo ataque, de que ninguém saberia o momento. As ovelhas passaram a ser consumidas pelo medo omnipresente, e a tensão envenenou o dia-a-dia.

Os anos passavam agora mais pela cara de todos, pela do sr. Cordeiro também. Apesar de tudo, ia tentando fazer a sua vida nos mesmos exactos moldes, tentando ser agradável - não prescindindo dos seus sorrisos. Essa simpatia e placidez, no entanto, capturava agora em si a ansiedade dos seus colegas. "Como pode ele estar com aquela cara da forma que as coisas estão?", diziam. E por isso, tão somente, o sr. Cordeiro passou a sofrer discriminação e assédio por parte dos seus colegas.

"O que é que queres, meu filho? Estás à mão de semear...", disse-lhe um dia seu tio, o dr. Carneiro. Mas o sr. Cordeiro recusava a acomodar-se, seguir o mesmo estado de pânico dos colegas. Fazia até maior ênfase em partilhar o seu amor pela vida, e insistia no mesmo hábito de não criar inimigos. "Mas olha que uma ovelha sem inimigos, é como se não existisse..." avisá-lo-ia seu tio.

No turbilhão de emoções, e do desespero convertido em pequena agressão, o sr. Cordeiro lembrou-se de uma história muito antiga, que lhe contara o seu bisavô, um ovino da velha guarda, sério e vetusto, que tivera a fortuna de conhecer enquanto borrego.

Recordava-se desse avô lhe confiar um segredo bem guardado na família. Dizia ele que os Cordeiros provinham de uma linhagem muito antiga, e que inclusive tinham sangue caprino muito distante. Não, porém, um sangue caprino qualquer, mas de um caprino famoso, que a História consagraria como "Bode Expiatório".

Pensou se seria essa herança genética a lançar sobre si a fácil pequena agressão. Afinal, os destinos não mudavam com os tempos. Às vezes sonhava que estava a ser julgado no tribunal do rebanho, em que alguém dizia: "Meretíssimo: este ovino que tendes perante vós é o culpado da nossa desgraça". "Mas como, sr. advogado, se ele não é nenhum lobo?", replicava o juíz. "Pois bem, meretíssimo - mas também não é nenhum cão de guarda. Ninguém pode ter uma aparência tão tranquila e plácida perante os acontecimentos correntes, se não for ele mesmo parte do problema!". "Agarrem-no! Agarrem-no!", gritavam então as ovelhas exaltadas na sala de audiência. "Ordem no tribunal! Ordem no tribunal!", exigia o juíz martelando sobre a mesa.

O sr. Cordeiro acordava então, sobressaltado, a lã suada. Fitava o céu do curral alumiado pela parca luz do luar, recuperava os nervos, e tentava dormir novamente, contando seres humanos.

Momentos 14

Levantando as mãos em direcção à luz fluorescente do seu laboratório, o Dr. Sobral deu uma gargalhada. Ninguém o ouviria, àquela hora da noite. Ninguém distinguiria a luz quase de loucura nos seus olhos. Tinha conseguido, tinha resolvido o parodoxo - enfim. Reviu as equações de novo, e ainda outra vez. Riu-se ainda mais intensamente. Nunca se sentira tão eufórico - e estava sozinho, sem vivalma para se espantar com aquele furor. Mas estava certo - sabia-o. Conseguira deduzir o algoritmo final. A História estava a ser feita: doravante todos aqueles que o desejassem poderiam ter sol na sua eira, e chuva no seu nabal. E o Dr. Sobral - depois de uma disputa com um colega polaco, que terminaria nos tribunais - foi justamente glorificado como o descobridor da pedra filosofal da Agricultura.

Momentos 13

O menino Fábio de outrora era já um homem. Já não ia aturar mais as ordens, e os caprichos de seus pais. Já não ia tolerar mais qualquer intromissão no seu destino. Não - aquilo acabava ali e agora. E por isso decidiu explorar o lado negro, experimentar o proibido, conhecer o sabor do limite. Olhou para o relógio da cozinha: eram quase 19h. Esperaria ainda mais algum tempo. Mas então chegaria a hora, do tudo ou nada. Olhava para as laranjas na fruteira diante de si, repassando a promessa a si próprio. Não as comeria de manhã, nem à tarde, como tantas vezes repetiam os seus pais - mas à noite. Seria homem o suficiente para o cumprir. O Fábio obediente, respeitador, polido e empático morria ali. O futuro diria em breve se algum outro Fábio viveria.

sábado, março 07, 2009

Momentos 12

Clérigos de um lado, clérigos do outro. Vestiam hábitos sem cinturão - o dia era de festa. Ainda estudantes, à espera de serem ordenados (o dia mais sonhado), os dois grupos iriam entre si disputar o título de melhor matina cantada. Demonstrando a competitividade do encontro, um dos lados começou a entoar o Ameno à rebelia. O outro lado respondeu prontamente, boicotando os tempos.

Eram assim célebres pela sua dureza estes confrontos entre os estudantes eclesiásticos. Os dois edifícios, da facção dominicana e franciscana fitavam-se à espera deste tradicional dia - o dia em que os representantes da respectiva república estudantil se enfrentavam.

Alguns dos estudantes dessas classes viriam a conseguir grandes feitos, e a atingir a celebridade. Um deles foi Anselmo "Suíço" Ribas, jovem dominicano, e figura cimeira da sua república estudantil. Mais tarde, ser-lhe ia atribuída a fundação de um novo país, a que deu o nome dessa casa, onde teria passado os anos mais intensos da sua juventude: República Dominicana.

Momentos 11

Foi apenas quando Rodolfo, o castor mais pequeno e discreto daquele lado do rio, passou para a outra margem, integrando a outra comunidade, que Caronte, o castor mais veterano se apercebeu do que tinham perdido: eram magníficos os diques construídos por aquele castor sobre quem se falava baixinho. Intuía no seu trabalho uma criatividade especial. Mas agora ele tinha ido para sempre, sem uma palavra. Se conseguiriam reproduzir um dique tão perfeito como aquele que Rodolfo deixara para trás, não o sabia. Mas sentia-se amargurado por aquela desfeita. E era precisa cada vez mais, a protecção contra os predadores, o acesso fácil a alimento no Inverno. Foi aí que os jovens castores conceberam um ditado, que repetiriam até avós: "Não se é um génio até passar para a outra margem."

quarta-feira, março 04, 2009

Momentos 10

António fazia rimar estilo com esquilo. Era um roedor garboso, direito, altivo, embora algo sorumbático, metido consigo mesmo.

Saltava de ramo em ramo com grande agilidade, e técnica perfeita, de capricho estético. Muitos admiravam essa agilidade, secretamente a invejavam. António devia estar consciente dessa admiração, mas talvez por isso mesmo não se misturava de igual forma com o resto dos esquilos. Permanecia altivo, isolado, artisticamente subindo pelos mais finos ramos.

Alguns esquilos atribuíam essa distância ao facto de ser afortunado, no que respeitava ao acasalamento roedor. Havia-se recentemente juntado com a magnífica Cora Esquila, a esquila de pêlo mais luzidio daquele bosque e arredores. "É um esquilo regalado", diziam entre si, em confissão. A muitos tinha Cora desfeito o pequeno coração de esquilo, e era para eles estranho vê-la com António, por mais que António fosse dos poucos a conseguir, não só nozes, mas também os frutos das árvores em que os havia.

Caía mal, no entanto, com o resto dos esquilos, aquela altivez. Porque parecia ainda mais desnecessária, considerando a benção - assim pensavam de Cora Esquila - que tinha conseguido. Para mais, era frequente ouvir António sussurrar, enquanto beliscava uma noz, um "otário..." ou "paravalhão" a um amador esquilo que se aventurava, sem sucesso, por um ramo mais fino.

Os outros esquilos não gostavam de ouvir isso, e trocavam entre si, justamente, essa descontentamento, nas tardes que passavam pela taberna do velho Marmota. Por vezes, a cerveja ajudava a aparecer mais lesto o azedume, e com ele uma maldição: "Diz que não come insectos, nem nozes caídas, só as nozes maduras e melhores frutos. Pois ainda um dia há-de cá vir pedir insectos, ou nozes para o Inverno, que a gente nesse dia diz-lhe como é que é".

Tudo isto o velho Marmota ouvia e guardava consigo em silêncio. Por vezes, enquanto estava recolhido a hibernar no Inverno, punha-se a pensar nestes ressentimentos, e como podiam os simples esquilos encontrar, no meio da placidez daquele bosque, tais rixas.

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Momentos 9

Júlio Pata Negra descendia de uma grande linhagem de orgulhosos suínos. Tinham sido eles, os Pata Negra, com o seu esforço, a montar o negócio de restauração de toda aquela zona. Lembrava-se de tantas tardes de convívio... E era isso que mais o magoava, ver tudo assim desmoronar-se sem razão. Mas os negócios andavam mal, e Júlio assinou os papéis à sua frente. Fumou depois uma cigarrilha, e pensou no quanto a vida tinha mudado, desde os seus tempos de leitão, no quintal perto daquele escritório, guinchando com felicidade em frente à antiga fábrica.

'Não, os tempos mudaram muito'. Repetiu. 'E preciso ter em atenção a minha saúde. Já não sou o porco viçoso de outros tempos... Hoje estou aqui, amanhã posso apanhar o lagartão ou a peste, e ir desta para melhor. Não, é preciso ter uma perspectiva das coisas.'

Júlio Pata Negra levantou-se e foi vestir o seu casaco. Passou pela porta, olhou algumas vezes para a grande sala de refeições, escura, vazia, com os quadros familiares silenciosos, criticando-o. Prosseguiu então para a garagem, desligou o alarme do seu carro, e entrou.

Na viagem a caminho de casa, repassou a sua vida. Os casamentos, as escapadelas, as viagens, os sabores. 'Foi extraordinário', pensou. Pena que tudo acabe assim, a mulher e os filhos deixando-o nesta altura. Pensou nos seus antigos amores, apetecia-lhe falar com alguém. De súbito, um nome acorre à mente, o de uma namorada de juventude, com a memória de uma relação excessiva, que não resultaria em nada. Mas Júlio, quanto mais pensava nela, mais a queria nos seus braços. E então, se bem que estivesse sozinho, disse alto que iria falar de novo com ela. Prometeu-o a si mesmo, iria procurá-la - e iria juntar-se com ela. 'Miséria: serás a última porca que amarei na vida.'

Momentos 8

Rapa, a cadela da Sr. Júlia, olhava para os seus treze cachorros entusiasmada. 'Hão-de ter um grande futuro, Rex'. Rex era o seu marido, que lia entretido o 'Matutino Canino', virando as páginas devagar. 'Talvez, querida, talvez. Eu também estou esperançoso', e sorria. 'Afinal, eles dizem aí por todo o lado que este é um mundo-cão.'

Momentos 7

As galinhas continuavam a sua marcha em frente à casa do lavrador. Gritavam e empunhavam cartazes com slogans de protesto. As exigências do sindicato eram simples: subsídio de verdura quinzenal, igualdade entre poedeiras e não-poedeiras perante a lei, e contagem do número de ovos postos, não só de pintos, na avaliação da produtividade.

quinta-feira, novembro 06, 2008

Momentos 6

António olhava para Graciete, e Graciete olhava para António. Não sabiam como explicar o facto de terem desaparecido todos os filhoses que estavam naquele tabuleiro, sobre a mesa da cozinha. E o barulho do ‘Migas’, o seu gato, dormindo a sono solto com o ventre dilatado, ali perto, não ajudava à sua concentração.

Não foi senão daí a alguns minutos que tudo se conjugou nas suas mentes.

Momentos 5

Tinham ambos ficado com aquela estranha sensação do ‘eu conheço aquela cara de algum lado’. Tomando alguns segundos para a dúvida continuaram, porém, os seus assuntos. Curiosamente, tanto Dr. Jekill como Mr. Hyde detestavam essa irritante impressão. Tinham essa característica em comum.

Momentos 4

Naquele corredor vivia-se um ‘stand-off’ à maneira do Velho Oeste. De um lado o Dr. Antunes, do outro o Dr. Lopes. Longo o corredor, e vazio, disputariam janelas, fotocopiadoras, cactos. Olhariam para os papeís que tinham em mao mais que uma vez. Em desespero, até para o relógio. Perderia o desafio aquele que que olhasse o outro primeiro. Que nao aguentasse, e primeiro deixasse escapar o ‘tudo bem?’. Dependendo da distância do disparo, poderia ser fatal – se o outro nao respondesse. Era preciso manter a calma até ao ponto certo. Era duro aquele corredor, e já haviam perecido vários em frente àquela máquina de água. Era duro aquele corredor.

Momentos 3

‘- O que é que estão estes cérebros em cima da mesa a fazer? E aqueles membros dispersos?! Foi assim que eu te eduquei? Olha para essa bata toda suja! Parece que vives nas barracas! E aqueles projectos, aqueles papéis? Quero tudo aquilo arrumado antes de jantar! Que pocilga, este laboratório. Parece que só estás bem entre a confusão! O que é que estás a fazer? Um monstro? E já foste aos Correios como te tinha pedido? Não fazes nada de útil!... Olha para esta desarrumação.’

Por sorte, o criador do Frankenstein não teve uma mãe portuguesa. Ou o desespero tê-lo-ia impedido de completar a sua criação.

Momentos 2

Ela era uma senhora à maneira antiga. Tomava chá, nunca café. Lia, e não incorria em televisão. Levantava-se cedo, e deitava-se cedo também. Achava ‘horrível’ muita coisa, criticava o mundo com a sua empregada. Gostava de ter os cristais bem dispostos na prateleira. E achava que se aprendia ‘imenso’ com as crónicas do Arq. Saraiva na Tabu.

domingo, outubro 26, 2008

Momentos 1

Olhando incrédulo o chão lá fora, do seu 13º andar, e aquele do fim do Sr. Silva, o Dr. Júlio teve um momento de lucidez, e prometeu-se nunca mais proferir a frase: '... donde, face aos seus problemas cardíacos, eu aconselho-o a cortar no álcool ou na actividade sexual. É escolher: cerveja ou mulheres.'