quarta-feira, julho 16, 2008

'Maskéstamerda???'- Requiem Pela Barbárie

O meu espírito obsessivo joga mal com o temperamento da maior parte das pessoas. Repetidamente, vou confirmar pequenas informações, do género de datas, horas, etc, minudências que fazem a diferença no calendário e na planificação. Primeiro, porque sou cronicamente distraído. Depois porque tantas, tantas vezes têm sido alteradas ao bel-prazer de alguém (que nunca eu).

Ainda assim, sou recebido com a resposta muda de que tudo aquilo são coisas que estão disponíveis algures, que não mudam nunca, que eu devia saber, o tal 'tinha a obrigação'. E isto mesmo de pessoas a quem pago serviços, quer dizer, não só naquele favor 'à la função pública'. Pois se busco somente a confirmação?...

'Que frete'. 'Este indivíduo pesadíssimo outra vez... oh não.' Então... então mas eu não estou no meu direito? Tenho que assistir à volatilidade da organização a que pertenço sem poder, ao menos, precaver-me contra ela? Isto é demais. Mas enfim, o que é que não é demais nestes tempos?

Ah, que saudades do homem do Campo, abruptamente entrando pela Civilização lisboeta adentro, vociferando os seus 'raistapartam' e 'maskéstamerda???'... Já não há poesia assim.

Direito a Ser Traste (Silly Season)

Uma das coisas recorrentes ouvir em mulheres, e mulheres atraentes, é um lamento, a certo ponto, dos seus 'erros' com os homens. Pode ser uma coisa mais íntima, e secreta (que até não é abertamente assumido) ou mais bem um tema de conversa repetido, auto-flagelante, martirizante. Os homens por quem elas se deixaram enganar, que elas nunca pensaram ser assim, que as desiludiram. E eu oiço tudo sem pio, claro. Serei o amigo certo, que não se mete nessas coisas. Serei?

É que, caramba, tenho que pensar: mas que homens são esses? É que eu gostava de ter mais mulheres a errar comigo, a desiludirem-se comigo. Não acho a coisa bem, honestamente. Então eu não tenho direito a ser chamado de 'traste'? A ser mal-dito nas minhas costas no discurso entre elas? A maledicência quando nasce deve ser para todos, minhas amigas. Até vou deixar aqui uma crítica predilecta, para servir de inspiração: "O Pedro é bom na cama, sim, mas como pessoa... ui!". Porque não? Não se riam, se faz favor. Não se riam. Assim estragam tudo.

segunda-feira, julho 14, 2008

Tiros no Escuro

Um dos inusitados problemas de estar no Campo, à noite, é que, ao ouvir algures tiros na noite, e fora da época, não sabemos nunca ao que é tal coisa. E não deve ser coisa boa.

Embora, valha a verdade, a televisão mostre que, pela Cidade, a coisa não anda muito diferente...

Ética do Trabalho

É engraçado reparar - para quem conheceu outro país - como chegámos a um paradigma, como sociedade, em que as pessoas vivem o trabalho demasiado. Criticam de sobremaneira quem não trabalha, fazem sacrifícios pessoais que julgam imensos (e eu não o estou a negar) pelo seu trabalho, pensam no trabalho.

Mas, na realidade, se formos ao pormenor, as pessoas até trabalham, na sua maioria, menos que os seus antepassados. E, sobretudo, têm muito menor prazer naquilo que fazem. O trabalho tornou-se maquinal, mero ganha-pão, fonte do precioso dinheiro.

A questão essencial é que aumentaram exponencialmente as opções do não-trabalho, do lazer. É verdade que já antes quem não queria trabalhar se divertia, e a frase de "***** e vinho verde" (passe a obscenidade) vem de longe, muito longe. A questão é que as pessoas têm muito mais vidas de sonho que não estão a viver.

Não é só uma questão de jogar à bola, andar no engate, comer e beber até não poder mais. É ser isto ou aquilo profissional e socialmente (a tal ansiedade do 'status'), viver algures, ir àqueles sítios, conhecer aquelas pessoas, ter aquelas experiências.

Há demasiadas vidas oníricas que passam ao lado. E isso gera frustração. A frustração torna o trabalho mais maquinal, mera fonte do dinheiro, que permite a bissectriz a essas vidas de sonho. E assim o trabalho perde realização pessoal e, claro, perde qualidade. Ninguém ama mais aquilo que faz, antes o tolera para perseguir aquilo que ama, ou que pensa que ama.

Uncanny

E, de repente, vejo o que parece ser o Paulo Madeira, na televisão a interpelar em francês, e num estilo 'cocky', o embaixador francês em Portugal sobre a libertação de Ingrid Betancourt. Que estranho, penso comigo. Mas, bom, o Humberto Coelho também se casou com uma francesa... Olha para a cultura destes centrais do Benfica, hã?... Sim senhor. E logo o Paulo Madeira. Mas espera, não pode ser. Ah, afinal foi só o Nuno Rogeiro que cortou o cabelo. Uncanny resemblance...

Carácter Garúpeo (It Wasn't Me)

Eis-nos, portanto, no Verão. Subcutâneas, todas as folias e pequenas parvoíces. Preguiças e iras mansas, sob o calor. Talvez por isso, nestas alturas, haja gente a publicar coisas nos seus blogs, que pareceriam dissonantes... ou talvez não. E, perante a desfeita, há somente duas hipóteses explicativas: ou a ousadia resulta, efectivamente, de uma folia estival, como tantos têm, de um sobressalto irritado pela falta de uma sesta, que o sol exige, ou... é feita com toda a intenção, a coberto dessa complacência. "Olha só para isto... Bom, deve ser da silly-season".





Mudando agora para algo totalmente diferente, eis um estudo comparativo sobre a evolução do traseiro, ou do lado B, de Michelle Hunziker, há uns dias apresentada aos leitores do Generosità (rever aqui). A questão justifica-se porque Michelle foi a madrinha, emprestado a sua... presença ausente, a sua segunda pessoa, digamos, à marca de lingerie Roberta. Que mais tarde iria, justamente, recorrer ao forte carácter garúpeo (inventei agora) de Natalia Bush, que também passou pela nossa redacção (pois foi). Ei-la abaixo.



Ora bem, e estas doutas imagens parecem falar connosco, não? Há como que uma pergunta que delas emana. Deixem-me interpretar: "Sabem qual é a única coisa mais desavergonhada que este blogger? Os seus leitores fiéis".

Vemo-nos quando, depois desta, me salvar das malhas da Justiça (hum... será que a Justiça usa Roberta?...)

P.S.: Tenho a alegar em minha defesa o seguinte: 'It wasn't me'. Alguém anda a usar o meu nome, e a abusar da minha excelsa reputação intelectual, para publicar neste blog posts que vão em contra de tudo aquilo que eu não gosto.

domingo, julho 13, 2008

Non Mollare Mai/O Nome e a Coisa

É para mim verdadeiramente difícil responder a um elogio assim, por parte do PGuerra. A verdade é que me tenho habituado a escrever no blog para praticamente ninguém, e não tenho feedback algum. Até vivo bem com essa realidade. É como se cada post fosse um pouco uma mensagem numa garrafa vazia, que eu atiro para o Pacífico.

Às vezes, por isso, se cria uma grande distância entre o que está escrito, a 'persona' que daí se intui, e aquela que se encontra pelos dias. Daí eu ter sempre avisado que não respondo, no mundo físico, por aquilo que está publicado no espaço virtual.

A minha preserverança no blog, contudo, nada tem de monástica. Aliás, quem ler os posts da série 'Pecado Original' perceberá que eu tenho, realmente, muito pouco de monástico (graças a Deus). A verdade é que sempre concebi ter neste blog um laboratório de escrita, um espaço de liberdade criativa, que me permitisse experimentar e e evoluir. Talvez, quem sabe, algo que eu sentia vedado no mundo físico. Eis porque, também, me reservo o direito de aqui escrever as coisas mais estapafúrdias, esquizofrénicas, mesmo obscenas. Eis porque me reservo o direito de aqui errar a meu bel-prazer.

Sempre tentei, contudo, resistir a usar o blog para o desporto favorito de quem escreve: dizer mal de outrém, destilar o veneno que se acumula pelos dias. Não é que eu não diga mal de outrém, não é que eu o nunca tenha feito ou não volte a fazer no blog. Não é que eu não tenha mais que razões. Mas este blog surgiu 'first and foremost' como um projecto artístico. E isso dá-lhe uma nobreza especial, que também não convém beliscar demasiado.

Embora tente colocar o que aqui escrevo com alguma marca de qualidade, não faço disso uma obsessão, porque o fim, neste caso, é infinitamente mais importante do que o meio. E essa é a razão por detrás da publicação de poesia e outros textos de cunho mais... pessoalmente comprometedores, que a maioria não tem a coragem de publicar, de arriscar a vergonha da condenação alheia.

Eis-nos chegados então à questão: sendo um escape criativo, o blog tem qualidade ou não? Não sei ao certo. Eu tenho orgulho nele. Acho-o divertido e refrescante, como sempre pretendi. Acho que pode ser provocador, no bom sentido. E isso basta-me.

E merece reconhecimento da blogosfera? Também não sei. Neste momento, dispenso esse reconhecimento. A blogosfera vive muito ensimesmada em questiúnculas de comadres, e pouco preocupada com a qualidade. Eu não me importo de continuar como até agora: por simples prazer e desporto, sem qualquer ganho ou reconhecimento. O que, claro, parece uma estupidez nos tempos que correm. Mas eu tenho os meus objectivos, as minhas próprias motivações.

Este blog nasceu há cerca de 2 anos atrás, pouco depois de eu ter assistido a uma conferência do Pacheco Pereira sobre blogs. E houve uma frase que ele nela proferiu que me ficou na memória:

"O que é bom, mais cedo ou mais tarde, chega ao 'mainstream'. Não tem sentido a ideia de que alguém está, secretamente, a fazer o melhor blog do mundo".

Hoje essa frase soa-me a um desafio: eu quero fazer, à margem do 'mainstream' o melhor blog do mundo. É uma espécie de teimosia pessoal, de provar errado um pioneiro, um especialista, uma referência.

Apesar dessa vontade, não sei já quanto tempo mais irá existir. Um blog vive da cadência com que é actulizado, para além, obviamente, da qualidade com que é actualizado. E talvez, no futuro próximo, não possa manter esta disciplina de publicação. Ou, quando não disciplina, necessidade.

É sempre assim feito um projecto: às vezes satisfaz-nos, outras exige-nos. Este blog é um projecto pequeno, não merece tanto elogio de obra feita. Mas é um projecto, ainda assim, e eu tenho tentado mantê-lo além das duas semanas de vida que normalmente teria. A princípio esperava mais posts dos meus colegas de blog. Mas também, por os conhecer bem, respeito os seus constrangimentos. E a ideia de fazer um blog de autor também não me aflige. O importante é mesmo fazer, é mesmo escrever.

A verdade é que gosto de pensar que não desisto nunca do que gosto realmente. Posso desistir daquilo que não gosto, onde só a obrigação me prende. Mas não daquilo que gosto. 'Non mollare mai'. Nem que chovam picaretas. E, recentemente, até têm chovido bastantes na minha vida.

Mas volto à premissa incial: é para mim difícil responder a tal elogio por parte do PGuerra. Já não me é, contudo, perceber porque é que o faz. E não estou a falar da minha qualidade pessoal. Pelo contrário, falo da dele. A pergunta que se deve fazer é: quantas pessoas da nossa idade, nesta sociedade voraz e egoísta têm a capacidade, a nobreza de espírito de assim elogiar? Poucas, muito poucas mesmo. O PGuerra é capaz de o fazer porque está acima da média, e é mais honesto com os outros que a média, como sempre foi. Eis aí a confirmação daquilo que eu sempre soube - que ele era o parceiro ideal para este blog. É que, perante uma noção do que é a realidade das coisas, há-os que guardam para si suas análises positivas, e há-os que as convertem em congratulação. No segundo grupo, a que pertence o PGuerra, estão as pessoas generosas. Pois é - que têm a virtude, e a coragem, da Generosidade. Vejam, pois, como ao fim de contas, o 'nome' bate certo com a 'coisa'.

sábado, julho 12, 2008

Pedro Duarte

Há muito que já não escrevia neste blogue. Os afazeres vão se multiplicando e o tempo não estica, infelizmente.
Não sei se é inusitado existir um post com o nome de um dos autores do blogue, mas também não me importa... o blogue é pluralista e plural... e pareceu-me que fazia sentido.
Este era para ser um projecto partilhado mas tem vindo a ser assegurado quase exclusivamente pelo Pedro Duarte (eu diria uns 99%).
Posso não escrever, mas leio sempre.
E leio não porque sinta qualquer obrigação ou remorso, do género, não escrevo lá nada mas vou supervisionar para ver como param as modas. Não, leio, simplesmente, porque me dá prazer.
Leio porque encontro aqui textos notáveis, visões argutas da realidade que embora sendo sujectivas, muitas vezes reflectem o que eu penso. No quotidiano, nos pormenores, é que está o ganho, e como bom observador o PDuarte retrata-os como ninguém. Pode soar mal o elogio, mas só o faço porque é merecido.
Dos muitos blogues que já li, leio, ou já vi, este é um dos melhores, e de certo não é pelo que eu cá escrevo. Não, o mérito é do PDuarte. Quanto mim, sou da opinião que só o Estado Civil de Pedro Mexia é tão bom, mas capta um público e uma realidade diferentes.
É pena que este blogue não seja mais conhecido, algo que a sua qualidade justificava de sobra. A modéstia do seu autor principal não o permite, se bem que acho que está na altura de transpor essa barreira. O que aqui vem escrito merece ser partilhado, e a nobreza dos textos do Autor merece ser conhecida. De certo que, o reconhecimento que depreendo pelos textos do blogue, não seja alcançado na área onde o PDuarte navega por ora, lhe adviria daquilo que ele sabe fazer melhor, escrever.
Já não o vejo à algum tempo, mas este blogue funciona tambem para mim como um diario de bordo, para saber ou pelo menos inferir de como se vai passando a vida do Pedro. A leitura é obrigatória, e eu não dispenso, nem mesmo a poesia, e eu que só conseguia gostar da de Pessoa.
Espero que continues, se a escrita não te der o reconhecimento que por si só justifica, ao menos serve para me alimentar a alma.
Pelo menos tens um leitor fiel que espera que a caneta e a tinta nunca acabem... seria uma pena a tua qualidade ficar fechada numa gaveta (ou num blogue)... não sou suficientemente egoista... outros merecem ler o que de bom aqui se faz.
Numa palavra: continua.

Obrigado.

Espanha

É impressionante o poderio que a Espanha vem conseguindo a nível desportivo, não lhes escapa nada...

Campeões europeus de futebol. Nadal a ganhar Roland Garros e até, pasme-se, Wimbledon. Têm Gasol e são campeões mundiais de basquetebol.
São campeões de hóquei patins em tudo.
Ganharam há não muito o europeu de andebol... TÊm Contador, que ganha o Tour e o Giro...
Têm o Barça e o Real...
É o dominio absoluto... já lá vão os tempos em que as únicas alegrias eram dadas por Indurain...
Há quem diga que agora é que se está a colher os frutos do fenómeno de massas que foi Barcelona92. Não creio que seja só isso. Tudo advém de uma visão própria da sociedade e da forma como se encara a posição que se tem no Mundo, um dia talvez escreva a fundo sobre isto, por ora, fica só a nota.

PS: Se o Bambi não estivesse onde está, e aonde nunca deveria ter chegado... hoje haveria uma cimeira do G9 e não do G8. Mas enfim....não se pode reescrever a história.

sexta-feira, julho 11, 2008

Menopause Prison

Estou farto do barulho de mulheres. Sobretudo do barulho das mulheres erradas. Não oiço um único som, doce, natural, melífluo, das raparigas que acho giras - não conheço nem uma.

Uma vez que sempre vivi muito para o trabalho, dou comigo constantemente rodeado de mulheres quarenta e cinquentonas, com toda a acidez menopáusica, com todo o pormenor castrador, a palavra no final da frase, o tom gélido, a condenação do erro como uma obscenidade. Oiço só o som do desespero, do cinismo, da hipocrisia e crueldade. É como se um ouvido sedento por Vivaldi sofresse à lágrima todos os dias com giz a magoar um quadro de ardósia...

Que merda, isto - sinceramente. Esta não é uma situação natural - um rapaz novo rodeado de mulheres na desilusão da menopausa. Nada de bom pode sair daqui, é essa a cruel verdade. Nada de bom. Depois queixem-se. Eu lavo daqui as minhas mãos.

They Can't Take That Away From You

Falta um mês e meio para chegar aqui. O tempo está a contar.

quinta-feira, julho 10, 2008

O Zé Urbe e a Obrigação de Saber no País do Não-Erro

Ainda a propósito dos erros, e de como eles surgem, vou aqui registar um tema recorrente: o conhecimento, a cultura.

Eu não tenho qualquer problema em medir a minha cultura, no sentido mais clássico, com qualquer pessoa da minha geração. Absolutamente nenhum. Mas, claro está, a cultura é uma coisa profundamente democrática e fluída. Obedece, contudo, a diferentes valorizações, dependendo da pessoa. Por exemplo, eu facilmente sou criticado com um suspiro pelo Zé Urbe por não saber onde se tira um qualquer documento, sem no entanto me conceder o luxo de me divertir introduzindo na conversa uma referência a Tântalo, ao falar de burocracia. E o que diz Zé Urbe sobre o Tântalo? Não, não era jogador da bola...

O que me leva à questão do que é, realmente, o cânon das nossas vidas, o 'basic'. O que é que 'é uma vergonha' não sabermos? Isso está mal definido, a coisa varia com a pessoa. Pessoalmente, gostava muito de ter tido na faculdade a cadeira de 'Introdução à Obrigação de Saber'. Em vez disso, tive uma introdução à Economia e Gestão. Acho que perdi, em retrospectiva.

Mas eu gostava de ter tido essa cadeira. Devia ser optativa. E não consigo encontrar o equivalente do Apostol em livro. Será que não há em português? Mas em que outro país se usa a expressão? 'Introduction to The Duty of Knowing'? Não encontro.

É que isso deve ter passado na TV para muita gente e eu, por acaso, perdi. Raios. Assim vou ter que ir descobrindo pelo caminho, a cada erro. Danados dos outros, que viram o programa e sabem tudo o que é fundamental. Como eu gostava de dar essa resposta pedante: 'Você tinha obrigação de saber'. Seria um sonho feito realidade.

E pronto. Amanhã é outro dia neste país do Não-Erro.

Paternalitica

Um fenómeno curioso quanto à minha pessoa (é um tema recorrente deste blog), diz respeito ao fenómeno de ter coetâneos a gozarem com os meus erros. Por várias razões, é frequente serem paternalistas comigo, por vias mais ou menos encapuçadas, mas que hoje servem somente para me garantir entertenimento intelectual.

A coisa não varia muito. "Então tu não sabias...", "Só tu...", "Mas como é que tu..." [risos]. Dependendo da pessoa, claro, o veneno por detrás das palavras. Mas eu conheço as palavras melhor que eles...

A questão, que eles só mais tarde na vida perceberão totalmente, é que eles comentam paternalisticamente erros que eu próprio confesso - antes, faço gala de divulgar. Que eles os têm de calibre igual ou pior - assim vou ouvindo, intuindo pelos anos. Ainda assim, passe esses telhados de vidro, ei-los galifões, professores Marcelo em terceira mão.

A questão que sempre lhes escapará é que eu não falo dos meus erros para lhes enviar 'soft balls', com que possam brilhar na tacada e sacudir frustrações. A questão é que eu tendo a assumir os meus erros, e a viver com eles. Felizmente, têm sido risíveis, mais que graves. E enquanto assim for, não há problema. Não há aqui masoquismo nem - acreditem... - falta de inteligência. Há, quando muito, excentricidade.

E eles nunca perceberão isso. Pois é - erro deles.

Solidão



"I walk a lonely road
The only one that I have ever known
Don't know where it goes
But it's home to me and I walk alone"

Ir Aos Colchões

Há algo de parecido entre um conjunto de mulheres de meia idade, trabalhando há algum tempo juntas, e uma cidade partilhada por mafiosos: de vez em quando, é preciso limpar o 'mau sangue'. Há um tempo de 'go to the mattresses'. Começa tudo a disparar entre si, saltam os exageros, até a conciliação e a nova ordem. Assustadora, a semelhança.

quarta-feira, julho 09, 2008

Umbiguismo

Volta ao tema, de quando em vez, a problemática da minha barriga. A minha resposta, essa, é invariável: estou muito confortável com ela, obrigado. Eis a questão: esta não é uma barriga qualquer. Não é uma barriga feita a 'junk food' e 'couch-potating'. É uma barriga composta a (muita) boa cerveja, alguns vinhos (obscenamente, para a tenra idade) excelsos, muito queijo e presunto do bom, e uma miríade orgásmica de boa comida, nacional e internacional. Ora bem, dada a situação nestes termos, acho que é fácil de perceber que eu também não posso, vilmente, separar-me de algo tão elaborado e tão surpreendentemente valioso. E estou na área da Saúde por alguma razão, para me assitir - ou seria para assistir os outros?...

Base de Refugiado

Hoje ouvia o 'Pessoal e Transmissível' de Carlos Vaz Marques, em que era entrevistada uma senhora, actriz, se bem me recordo, refugiada em Portugal aquando da guerra dos 90s na sua ex-Jugoslávia natal. A certa altura, por razões que me ultrapassam, eis que começa a descrever na entrevista, qual Filipa Vá Com Deus, a receita de um prato tradicional dos balcãs. Apresenta, porém, a coisa com vegetais cortados, a fritar no óleo do tacho para se obter um... 'refugiado'. Acto contínuo, emendou a mão no seu português com bom humor: 'refogado'. E o que é que este blogger tem para dizer da inusitada confusão semântica? Deliciosa, meus caros - deliciosa.

terça-feira, julho 08, 2008

Pobre Pedante

É como se o último poema, para quem me conhecer, dissesse: 'O velho imundo que dá comer aos pombos junto à estrada jejuará até que lhe paguem um Gambrinus'. Não, é só um poema qualquer. Nem mesmo eu reclamo tanto pedantismo.

Playboy

Uma portuguesa no Verão, uma italiana no Inverno,
E segue à mais natural paixão o afago mais terno.

Homens de todas as estações
São homens de todos os prazeres,
Homens de todas as mulheres.

Pedro Oliveira




P.S.: A primeira convidada não é portuguesa. Brasileira, adivinharam. Mas, pergunto eu, não serão algumas brasileiras que 'aparecem' neste mundo de imagem publicada, justamente as portuguesas, belíssimas, que - por ora, pelo menos - não se atrevem ainda a ocupar esse patamar no nosso país, por pudor?

Sensualidade Estival, Sorte de Todas as Estações

Uma coisa para mim intrigante nas mulheres, no Verão, é que andam todas infinitamente mais apetecíveis, é certo. Mas também, de algum modo, não mais disponíveis. É como se exibissem a sua sensualidade numa montra. A distância que se sente é tão gélida como no Inverno. E a sensação que fica é exactamente a mesma: só dá para falar sequer com elas se estivermos no seu meio, como amigos, estudantes do mesmo curso, o que seja. Isto é, só dá para as conhecer mediante um factor de sorte, muito particular. E esse, meus caros, continua a ser um problema de todas as estações do ano.

P.S.: As referências que aponto aqui a um dos sexos, serão, provavelmente, igualmente aplicáveis aos homens, por queixa delas, suponho. Talvez. Muito honestamente, não sei avaliar se há diferença ou não, embora tenha a convicção de que os homens parecem sempre mais receptivos a qualquer abordagem, mais bem elas a não fazem... De qualquer forma, a coisa, honestamente, pode muito bem não ter a ver com diferenças entre sexo, só com os 'de cima' e os 'de baixo' de cada sexo. Mas, claro está, como aquilo que me interessa não vai mudar, continuarei no mesmo tom. Quem não goste, que se queixe no seu próprio blog.

segunda-feira, julho 07, 2008

Há Sempre Alguém Que Diz Não

Pensando, muito seriamente, até que ponto este poema vai - ou não vai - definir muito do resto da minha vida.

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio -- é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

Manuel Alegre (1936 - )

quarta-feira, julho 02, 2008

Verão II: Mudar a Corrente

Gostava de propor aqui um inquérito aos leitores do Generosità. É o seguinte: quero saber quantos de vós estão na mesma exacta situação que eu, no que a mulheres diz respeito.

Já se sabe que há mulheres e mulheres, e ser excessivamente romântico é ser estúpido. Não ter romantismo em si, por outro lado, é canalha. Ora bem, a mim acontece-me esta triste situação: parece que todas as miúdas giras, de olhar inebriante, de decotes perfeitos, de pele tisnada, suave, de risos estonteantes, secretos, de 'toillettes' só aparentemente simples, de pernas com uma presença que entra pelo nosso dia, de vidas ricas, de curiosidade pela inteligência, de dúvida prazenteira vão para um lado. No metro, na rua, no pseudo-trabalho, etc. Elas vão para um lado - que não o meu. Que não o meu! Sempre no sentido contrário. Não conheço nem uma!

Já no meu lado, comigo, a falar comigo, juntam-se bizarramente mulheres na zona amarga dos 40, solitárias, com problemas pessoais, a transportá-los para o emprego (onde lido com elas), a, positivamente, lixarem-me a merda do juízo, sob o calor. Ele há de tudo, acreditem.

Como é que é possível esta situação? É como um rio que tivesse duas correntes contrárias. E eu não conseguisse sair da merda de uma, para enfim fluir pela outra. Esbraçejo, esbraçejo, mas a corrente onde eu ando é muito forte, caramba - não abdica de mim.

Mas que é isto? Não, não pode ser. Eu hei-de trocar de corrente. O quanto isso me irá custar, ainda não sei ao certo - mas é um facto que acontecerá, mais tarde ou mais cedo.

Podem enviar as respostas a este inquérito para o mail que eu não tenho indicado ao lado, quando clicarem sobre o meu nome. Muito agradecido.

terça-feira, julho 01, 2008

Verão

Como falar do Pedro e da cerveja no Verão? Talvez haja alguém que descreva a coisa como ela é.



sábado, junho 28, 2008

Basta!

Espero que, agora que é a Monica Bellucci a dizê-lo, acreditem: basta de dietas, senhoras. Acreditem - não é por aí o caminho para a vossa felicidade...

quarta-feira, junho 25, 2008

Mandamentos do Bibliófilo

Se existissem, lá estaria concerteza: 'Não cobiçarás o livro do próximo'.

segunda-feira, junho 23, 2008

Tough Love

Sem mulheres não há perdão. E conseguir perdoar os outros homens - eis uma medida de quanto se gosta, realmente, de mulheres. Mais além das dedicatórias gráficas, ou textos encomiásticos.

Pecado Original 29





Ora, e já que estamos (não estamos? Estou eu!) numa de elogiar mulheres suíças, vamos lá tratar um tema mais vivaço. Refiro-me a La Hunziker, ou Michelle Hunziker, modelo e 'showgirl', que, tendo nascido no cantão italianófono da Suíça, se mudou para Itália para arregalar os olhos do povo em geral, e os de Eros Ramazzotti, de Antonio Cassano, ou do Lippi júnior (entre outros, seguramente), em particular. Confesso que sempre que a vejo a apresentar o que quer que seja a acho com uma simpatia excessiva, ingénua - e enjoativa. Mas, realmente, 'who cares'?

Porque não, pergunto eu na minha humildade, permitir que Michelle arregale também os olhos dos leitores do Generosità? Eu e o meu primo Joaquim seguramente merecemos esse obséquio. Ei-la aqui, apanhada (que bela palavra) em férias, algures longe demais. Lá onde existe a felicidade - a voluptuosa, loira, esbelta e vital felicidade. Poderia dizer algo mais de interessante sobre Michelle, um certo depoimento que denota grande honestidade - mas isso vão ter que procurar vocês...

O Maestro (parte II)

Realmente, a eliminação de Portugal é algo de desagradável. E a causa próxima é, para mim, absolutamente cristalina: a perda de João Moutinho no meio-campo. Isto é, a perda do meio-campo.

Repassando as coisas, talvez não seja assim tão desagradável a eliminação de Portugal. Ou antes - não me trucidem - há aspectos menos maus. Desde logo, parou o efeito mediático que, provavelmente tornaria ainda mais irresistível a venda, por parte do meu clube, daquele que, para mim, como jogador português, está ao nível de Ronaldo (cuidado com essas pedras, olhem que isso magoa!), e digno sucessor de Rui Costa (mas blasfémia aonde? - é um jogador fundamentalmente honesto, como o foi Rui Costa):



Ok, eu não nutro ilusões. Eu sei que, eventualmente, o meu jogador favorito sairá do meu clube. Até lá, porém, é aproveitar. Até porque convém perceber esta coisa tão simples: Miguel Veloso dificilmente será mais jogador em Portugal: para ele é vital sair. Moutinho sabe ser grande cá dentro - e seguramente sê-lo-á também lá fora. É certo que não dá o espectáculo de Ronaldo, mas tem uma fusão de carácter, regularidade, técnica e táctica que o tornam um jogador - a seu tempo - também fabuloso. E há que recordar que, tendo 21 (!) anos é o capitão do Sporting e tem centenas de jogos nas pernas.

E, fosse eu capaz de não pessoalizar toda a questão que apresento no blog, evitaria estar a reproduzir as palavras que passam pela minha mente: "Sacana! Mais novo que eu e tão grande jogador. Sacana!". Com todo o respeito. É o maior.

A Sequóia e os Pilrriteiros

Relendo o artigo que publicou Vasco Graça Moura aquando da saída de Cavaco Silva do Governo, a conclusão, a frase final que alguém me contara, e que ficou na na retina:

"Este homem foi um estadista grande de mais para a mediocridade de um País entretanto transtornado pelo ódio, pela vociferação e pela vontade do ajuste de contas. Tomei de Alexandre O'Neill o título deste artigo [Um Adeus Português]. Vou buscar uma imagem de Jorge de Sena para o seu remate: este homem é uma sequóia num jardim de pilrriteiros."

Acho curioso pensar no tempo que marcou Cavaco Silva, e continuo a achar o personagem muito interessante. Talvez já não o admire como antes... Foi um grande político, e um patriota, isso é certo. Tentou fazer o que pensava justo, como podia. Marcou um tempo, ficou na história. Apesar disso, diverte-me pensar como esta marca literária, esta frase, ficou mais vincada em mim que o resto. Afinal, eu sei apenas vagamente o que foi "o resto".

Quem sabe, talvez venham por aí tempos em que aprenderemos a dar muito valor novamente a esse "resto".

Exótica Inteligência II

Acho curioso pensar em como é mais comum as raparigas acharem atraentes homens mais velhos, estabelecidos e maduros.

Porquê? Ah, meus caros: simples resposta. Porque elas tendem a valorizar e a achar sensual essa misteriosa coisa a que chamamos, sem já a perceber bem, de inteligência. Na nossa sociedade, a inteligência e a cultura são exóticas. E o exotismo pode ser, conforme os tempos, irresistível.

Exótica Inteligência I

Já não sei ao certo se achar uma mulher mais velha irresistivelmente atraente é um sinal de decadência da sociedade, de decadência pessoal, ou simplesmente do calor absurdo e, claro, do subcutâneo desespero.

quarta-feira, junho 18, 2008

Clausura: Saudades do Silêncio

Eis a palavra que mais soa na minha cabeça, permeando barulho citadino, trabalhos maquinais, má-educação e canalhice, ausência de beleza e frescura, trânsito, aridez emocional, velhice, ausência de divino, desilusão com o próximo, projectos por cumprir, pressões de vária ordem, de várias partes, descompensações de exigência pessoal, notícias enervantes, cautelas, esforço psicológico - "saco cheio".

Clausura: silêncio, recolhimento, reflexão. Fechar as portas durante uns tempos, depois voltar.

O Paradoxo do Começo

Ocorre-me esta semelhança paradoxal entre mulheres bonitas e empregos: em ambos é valorizada (talvez inconscientemente no caso feminino) a experiência prévia.

Ora, como começar a angariar uma história de experiência prévia se ninguém dá a oportunidade de começar?

O Ovo e a Galinha

Um homem faz-se enquanto tal porque está ao lado de uma mulher excepcional, ou merece-a porque se cumpriu antes enquanto homem?

Gratidão a posteriori ou conquista a priori?

Works Magic

Ainda a propósito do tema "mulheres", um conselho, ou um aviso: muita cautela com o poder imenso do melhor chocolate suíço. Works magic. Assutador. A eles, que não o usem maquiavélicamente. A elas, que não se deixem instrumentalizar. A ambos, que aproveitem as delícias que vida vos oferece.

O Regresso do Rei (Versió Catalana)

Por mais que o admire, e especialmente por ser português, a relação de grande amor ao seu clube por parte de Rui Costa não é um caso único. Do outro lado da península, Rui Costa es diu 'Pep' Guardiola - o puto que fazia de apanha-bolas aos ídolos, e depois conquistou o coração dos adeptos. É o novo treinador do Barcelona. Curioso como o melhor da geração de 90' anda a voltar a casa.

Nerd To The Bone 2

Porquê estas sucessivas opiniões e ensaios sobre mulheres? Bom, nunca ouviram dizer que o cientista acantonado numa festa, sem meter conversa com nenhuma mulher, é justamente aquele que vai para casa escrever um artigo científico explicando porque não conseguem os homens meter conversa com mulheres?

E Deus Criou a Mulher

Já que se anda neste vício de análise feminina (era isso ou falar dos combustíveis), ao menos recorrer a especialistas, como a senhora Perrot, que escreveu este interessante livro, comprado de fugida em Genebra:


A Rainha Vai Nua

Há coisas sobre as mulheres que só elas ousam dizer numa conversa entre sexos. E às vezes também, só elas ousam pensar.

Falava no outro dia com uma amiga sobre uma mulher com tiques de personalidade muito difíceis de digerir. Solteirona, e com a idade avançada, sob o espectro do não-retorno. E encontrando noutros aspectos da vida o "surrogate" para não ser mãe. Mas, por muito que andem à volta da coisa, há poucas maneiras de substituir o que é natural - e isso nota-se. Foi a minha amiga que saltou a conversa para um comentário clássico - entre conversas masculinas. "Ela tem é falta de homem". Vindo dela, soou desconcertante - mas também estranhamente libertador.

A mesma amiga critica-me alguns dias mais tarde por eu ser tacitamente contra esse hábito de pintar as unhas. Pois é. Pois sou. Quem é que falou aí em Salazar? Calma. Mas qual bota-de-elástico?... Então não posso não gostar de ver mulheres com unhas de cores berrantes - e às vezes num trabalho tão imperfeito que realmente só pode prejudicá-las? Não é que eu não goste de mulheres com unhas pintadas. Nada tenho contra cores suaves, de todo. Custa-me, sim, ver o encanto de certos vermelhos e pretos. Para não recorrer ao náuseo roxo. Pergunto-me muitas vezes se eu próprio tenho legitimidade para criticar. Raramente o faço. Acontece somente que tendo a gostar mais de mulheres que não pintam as unhas - e é só isso. Como se existissem mulheres óbvias para homens óbvios, e mulheres discretas para homens discretos. Não vamos meter tudo no mesmo saco.

De qualquer forma, e retomando a tese inicial, eis que a minha amiga me acusa, a certa altura de conotar o pintar as unhas com as "mulheres da vida". Tão repugnante me pareceu a associação - dado o banal que é o enfeite em si - que fiquei novamente surpreso. Não faço, de modo nenhum essa violenta correlação. Como expliquei acima, as minhas razões são originais. Agora, divirto-me em reparar como, mais que um preconceito da minha parte, existe um preconceito contra a minha posição. Isto é, não se pode ser contra, sem ser conotado com essa razão. Vêem como as coisas às vezes são, curiosamente, tão circulares? Mais que praticar o preconceito, sou eu vítima dele! E, só para esclarecer as coisas, quando eu acima falo de mulheres "óbvias" - da mesma forma que falo de homens "óbvios" - refiro-me a um conceito de normalidade, muito mais amplo que esse bas-fond.

Mas eis de novo o tipo de comentário que eu, creio, nunca puxaria para a conversa com ela. E, provavelmente, nem sequer entre homens o faria.

Sacudir a Culpa

É curioso reparar em como, desde Eva a Pandora, passando pela irmã do Zidane, os homens tendem a atribuir às mulheres tudo o que de mal acontece na sua vida. No fundo, era o que dizia o profeta.

terça-feira, junho 17, 2008

Dies Irae

Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.

Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.

Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.

Oh! maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grades cinzeladas,
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!

Miguel Torga (1907-1995)

domingo, junho 15, 2008

Generosità: Maintenance Report

Desconfio que podem existir alguns vírus a colocar publicidade no blog. Não estou certo, terei que verificar. De qualquer forma, desde logo apresento as minhas desculpas por algo que seja (muito) fora do normal.

Não haverá problema de maior, contudo. Não é nada que não esteja acautelado.

Pecado Original 28


Extremamente bem impressionado com as mulheres suíças (quem diria que havia coisas ainda melhores que os chocolates, relógios, bancos?), fica aqui a homenagem àquela que será talvez a sex-symbol suíça mais bem conhecida de todos os tempos: Ursula Andress.


Honneur

Em jeito de agradecimento pela exemplar hospitalidade suíça, admito que não lhes fica nada mal este vitória sobre Portugal. Desde logo, do ponto de vista de futebol jogado, é provavelmente merecida...

Fica bem puxar pelos galões da honra, de dar essa alegria ao país. Como no seu lema nacional: "Unus pro omnibus, omnes pro uno", ou "um por todos, todos por um".

Cheiro Setembrão

Veio mais cedo o cheiro que antes era setembrão, a a terra seca libertada pela chuva... Entra pelo blog adentro... Não o sentem?

Como os Salmões

"Eh pá, honestamente. Aquilo é um ambiente tão 'feminino', tão 'ar condicionado', tão 'cuidado senão pisas-me' que eu sinto-me elefante em loja de porcelana. Às vezes até parece que sinto os colhões a subirem, a fazer o caminho de volta. Como os salmões."

Orishas

Já que não os conseguimos apanhar no Rock in Rio (com inefável pena, eram os meus preferidos nesse dia), que ao menos no Generosità haja a sonoridade desconcertante, porque poderosa sem deixar de ser suave - como um charuto cubano - dos Orishas.


Ao Balcão

Uma das coisas curiosas em trabalhar numa farmácia é perceber a extraordinária amplitude na possibilidade do erro. Podem não acreditar, mas existe uma burocracia absolutamente insana a cumprir - o estalinismo no seu melhor - por causa das comparticipações a receber do Estado. A probabilidade de errar em vários aspectos - sejam de ordem burocrática, sejam na vital correspondência do medicamento com a receita, e na melhor terapia para o doente - é enorme.

Juntemos a isso uma farmácia cheia de gente a olhar para nós, com toda a pressa para sair dali, e o cansaço por estar constantemente em pé, e eis que a consciência, o dever de fazer tudo bem, gera um stress muito próprio. A que, devo avisar, os cardíacos se devem escusar. Acreditem. É como fazer malabarismo. No ar estão suspensas as bolas de receita correcta, comparticipações a fazer, entidades oficiais, número de medicamentos, objectivo, dosagens, stocks, preços, indicações, dinheiros, facturas, etc., etc.. E nós não podemos deixar cair nada no chão. Nada mesmo. E parece que a nossa formação está tão longe de tudo aquilo que assusta. E depois há a cortesia profissional, a defesa contra a chico-espertice alheia, a estranheza pelas pessoas, de tipo tão variado, que é preciso atender. Mas há momentos engraçados, pessoas muito simpáticas, incipientes aplicações de raciocínio clínico.

A esse propósito, contudo, devo dizer que esta é realmente uma era líquida para a Medicina, e a Clínica. As certezas, os dogmas parecem esfarelar-se. Façamos marcha-atrás. Antes o médico era reverenciado e as universidades guardiãs do Saber. Hoje tudo está democratizado, e o doente sabe (ou pensa que sabe) muito sobre a sua condição, e tende a bombardear o médico, ou o farmacêutico com as perguntas mais ridículas. Eu sei lá se não há problema em comer abacaxi às 3 da tarde quando faz esse medicamento! O problema é que a honestidade é algo de fundamental nesta área. Um erro é fatal, e nestes pormenores ridículos existem por vezes questões de relevo. É como se 99% das questões fossem, com efeito, inúteis, mas o 1% fosse perigoso demais para as ignorar. Uma falta de atenção, concentração, esforço de raciocínio em Saúde pode ser fatal.

Mas eis que, ridiculamente, em simultâneo, existe cada vez menos dúvida filosófica, capacidade de interpelação a nós mesmos se a regra está certa ali, se a parte ou o todo são o problema. A ignorância, de facto, tem por filha dilecta a arrogância. É tão triste ver fugas para a frente, um "não sei ao certo, mas aposto que é assim, e ponho todo o meu ser nisso. Ai de quem contestar." Tanto pé de barro...

Falta talento, enfim - e isso diz tudo. E o talento na Saúde das pessoas é algo de primordial. Perguntem à maioria da população portuguesa, e ela vos dirá o quão preza essa arte. Eu tinha a mania que tinha essa capacidade de raciocínio em mim, e fiz a minha função. Candidatei-me antes a Medicina, e não fui aceite. Tenho a minha consciência tranquila. Nunca poderei ser enquanto farmacêutico o que seria enquanto médico - faltaram os mestres - mas posso ser mais livre, ter uma vida totalmente diferente. Às vezes, olhando a maneira como as coisas são feitas, ainda tenho a impressão que estejam fundamentalmente erradas... Mas já não é a mim que compete mudá-las. Convém somente ser o melhor farmacêutico possível, puxar por toda a qualidade, mesmo sem o reconhecimento social que tem (e justamente) um médico.

São assim difíceis e intrigantes estes dias. Mas o treino é de ouro. E está quase completo.

Reading List 2



"Leonardo", por Martin Kemp, especialista britânico. Uma boa apresentação geral, mais que uma biografia propriamente dita. Inícios, motivos, obras, alusões, impressões. Um livro que se diria ligeiro, estivesse em português. 246 páginas em inglês, claro, fazem-no mais duro. Primeiro livro de um tema, um personagem direi antes, que se tornará recorrente, depois de uma "provocante" viagem a Itália e a algumas de suas obras.

Intermezzo: Confundir a Confusão

Maracaibo.

"(...)Si ma c'era Pedro
con la verde luna
l'abbracciava sulle casse
sulle casse di nitroglicerina(...)"


Instantâneo 1

Ele não torcia tanto por Portugal, a não ser quando a equipa ganhava. Antes fazia gala da sua equipa ser a Itália. Esguio, fino como quem passa pela estupidez alheia, os olhos azuis, grandes e vivos - como todo ele fosse olhos - não alimentava conversas fátuas, e ao balcão daquele café pedia, naturalmente, uma "bica curta". Com o obséquio de o fazer em português, porquanto não soubesse italiano. Mas era fluente no estilo, e isso bastava. Assim andava, esgueirando-se pelos dias estúpidos dos outros, vivendo talvez confortavelmente de um subsídio de desemprego, bebendo café, e torcendo pela "sua" Itália, esquecendo a ingrata gravitas da vida, que o prendia àquela árida terra a que os outros portugueses chamavam de "Odivelas".

Zé Morandi

Ele há coisas curiosas. Uma delas é como ser possível haver na minha aldeia um sósia perfeito do Gianni Morandi. Só não tem a mesma voz. Ah, estes países verticais...


Intermezzo: Confundir a Confusão

Uff... Vida confusa e veloz. Fazer uma pausa, confundir a confusão.


sexta-feira, junho 13, 2008

Regime

Eu confesso-me, realmente, um grande admirador de mulheres. Mas não dá para lidar com o desejo de algumas em controlar a vida de alguns homens. E não digam que estou a inventar.

Em coerência, não tenho qualquer desejo de controlo sobre a delas. De todo, acreditem. Mas esse traço feminino, repuxado pelo calor obsceno do Verão, e pelas dietas sazonais (sistema nervoso em "breakdown") pode levar ao paroxismo masculino. De repente temos perante nós um SS a vociferar coisas incompreensíveis, em posturas que não aturaríamos a nenhum homem. Mas ali ficamos na dúvida como reagir.

E eis que nos damos conta do quão preciosa pode ser, por vezes, a companhia masculina. Todos temos problemas parecidos, afinal.

Encore Une Fois!



Oh la la... Nous avons gagné encore une fois, mon ami. Et la selection aussi! Super...

Missão cumprida. Eu já fui dar o meu apoio à selecção, contra a República Checa. Passo agora a bola aos próximos portugueses.

Esta foi bem mais entretida. Na noite do jogo, eu não podia mais sair da Suíça, e hoje já estou a trabalhar como normal. Histórias. A relatar bientôt.

terça-feira, junho 10, 2008

The Times They Are A-Changing

Inadmissível. E muito, muito preocupante.

Fellini

Mas antes... só mais um pequeno elogio da erudição: Fellini sobre o que é Arte.


Out There

Mais uma ida à barafunda, à aventura. Com diferentes contornos, é certo. Como é que era mesmo?

A Relatividade das Coisas

Dou comigo a pensar que tudo é, realmente, dependente de uma perspectiva, se tivermos a capacidade de a descobrir. No outro dia, com uns amigos, fomos abordados por 3 gandulas, um deles apresentando-se carinhosamente com as palavras "Vê lá se queres ver a minha 9.", e apontando para o bolso. Educadamente, declinámos.

Naqueles diálogos memoráveis, a certa altura um deles pergunta-me se eu estou nervoso. Eu disse-lhe que não, e bebi mais um golo da cerveja que tinha a meio. Talvez por algum audaz desprezo, talvez uma tentativa ingénua de "contra-bluff", mas seguramente por causa de uma coincidência muito simples.

No dia anterior, eu tive, como parte das minhas funções na farmácia, necessidade de medir a tensão arterial a um esquizofrénico (escreverei esse dia em detalhe num outro post). Sem saber que ele era esquizofrénico. Essa sim, foi uma experiência de nervos. E seria difícil explicar, verdadeiramente, àquele cordial chunga da "9." que eu não podia estar mais nervoso com ele - o meu nível basal tinha sido muito bem testado no dia anterior. Ele teve azar - foi só isso.

Exortação ao Destino

Uma característica nas outras pessoas (quem sabe se eu não a terei às vezes também) é a imprudência. Não há coragem na imprudência, há somente demissão. De pensar, de se esforçar, de puxar para que algo aconteça. Há só o "deixa arder...", o horrível "deixa arder...".

E esta época estival presta-se a isso, claro. É como se houvesse uma exortação ao Destino, desafiando-o a trazer tudo o que de pior tem, para que tente abater-nos, fulminar-nos com um raio, passar-nos por cima com um carro. Há quem lhe chame desespero ou depressão, ou mesmo tipicamente português. Eu chamo-lhe humano e sinal dos tempos. E não gosto desse sinal.

segunda-feira, junho 09, 2008

Crónicas do Zé Piolho 1

O Zé Piolho nasceu um dia. Cerca de dois dias antes, ou talvez dois dias depois, do mundo começar. Diz que havia umas coisas antes do Zé Piolho, mas o Zé Piolho diz somente: “chaval, não estejas com histórias”, sempre que alguém se lembra de falar em História ao Zé Piolho.

segunda-feira, junho 02, 2008

Uma Novidade

O tempo de vida que nós desperdiçamos a ver televisão... É muita da nossa existência na Terra. Mas enfim - fá-la por vezes mais feliz, e é isso que todos queremos.

Time Travel: Melrose Place

Deste ainda me lembro menos. A não ser, claro, da Heather Locklear. E não sabia que lá estavam já a Marcia Cross e a Kristin Davis. As coisas que um escarafunchador lusitano descobre. Desta série lembro-me sempre do meu espanto perante aquela vida de condomínios fechados. É verdade - éramos assim tolos naqueles anos, como diria o Eça. Agora, que havia ali muita... qualidade feminina, havia concerteza. Revendo os genéricos, os homens parecem todos iguais, maxilar quadrado, "all-american", excepto aquele com cara de cavalo, mas que eu acho que ficava sempre bem servido. Era o "sensível", apanhado em ataques românticos de uma vizinha quando ia inocentemente despejar o seu saco de lixo. Será que existem condomínios destes em Portugal? Deve ser em Ermesinde. Tenho que insistir: Heather Locklear, Marcia Cross e Kristin Davis juntas. Já viram bem? Bonito serviço.


Time Travel: Beverly Hills 90210

Ok. Desta não me lembro tão bem. Mas lembro-me muito bem da Jennie Garth, como da Tiffany Amber Thyssen, que veio depois. E isso vale ouvir de novo a música do genérico. Honestamente, eu via pouco disto. Mas basta-me o que me lembro.


Time Travel: Parker Lewis

Pergunto-me se o Parker Lewis dava na TV de manhã ou à tarde. Alguém se lembra? Julgo que era de manhã. Se calhar esteve nos dois horários. Surpreende-me pensar que seria difícil, hoje em dia, reproduzir algo como este programa juvenil: com qualidade, mas sem cruzar a linha. Havia uma certa... moralidade? Com o universo da net, e as magras esperanças de um futuro, as novas gerações estão mais ácidas e sabidonas que a minha. Pode ser que eu esteja enganado nisso, quem sabe. Agora, que havia mais "estilo" e vida juvenil, maior separação entre jovens e adultos, havia. E, no entanto, os últimos anos têm sido tão confusos: não são somente os jovens a fazer de adultos, são também os adultos a fazer de jovens. Só para o caso de a coisa dar para o torto, ou não, vamos recordando o estilo "cool" de Parker Lewis, dessas primeiras juventudes, que parecem nunca ter sido experimentadas pela Humanidade antes.


Nota: As minhas desculpas pela insuficientes qualidade do vídeo acima, mas foi o único genérico da série que encontrei. Tentarei não repetir a desfaçatez.

domingo, junho 01, 2008

Time Travel: A Minha Geração No Campo, No Écran, No Coração





Agora que eles vão deixar os relvados, a homenagem aos dois melhores futebolistas portugueses da minha geração: Luís Figo e Rui Costa. Qual deles o melhor? Difícil dizer. Figo teve uma melhor carreira, do ponto de vista objectivo. Rui Costa, contudo, manteve melhor a essência do jogo. Estou ainda para saber qual deles tem razão na sua abordagem, ao jogo e à vida: a 'realpolitik', o pragmatismo desapaixonado, o individualismo de Luís Figo, ou o espírito de grupo, a nobreza, no sentido mais antigo, de Rui Costa. Talvez Figo seja mais um "women's man" e Rui Costa um "men's man". Quem sabe. E talvez, também, este país, esta equipa, seja feita, às vezes, da soma dessas diferentes virtudes - como desses diferentes defeitos - num relvado. Diz que então surge essa coisa antiga de "poesia".

Estiveram ambos na melhor equipa nacional de que me lembro: a do Europeu de 2000. E o jogo do 3-2 contra Inglaterra terá sido, talvez, o que mais me marcou de todos os da selecção.

Foram enormes, cada um a seu jeito. Enfrentaram as dificuldades da vida (quem se lembra delas?) de maneira diferente - e venceram. Menos exuberantes ou explosivos, estes foram dos últimos genuínos "lusitanos". Tiveram que respeitar mais regras, mais tempos. Olhem para Cristiano Ronaldo: é quase um jogador brasileiro... Quem sabe isso seja bom. Quem sabe, a partir de determinado ponto de desenvolvimento, os dois países estejam mais parecidos. E no entanto, algo se perde. Há sempre algo que se perde.

Outros virão. Melhores, piores - quem sabe? Estes foram os que marcaram a minha geração - e por isso são insuperáveis.

Time Travel: Tutti Frutti

E desta? Quem é que se lembra desta? Pois é, meus amigos: o "Água na Boca". O que é que disseram? Pois é. É bem verdade. E vocês pensavam que o Damon Albarn estava a olhar para onde?

Time Travel: It's a Century's Remedy

Ainda se lembram desta, meus caros? Ah, aqueles serenos anos 90', entre a queda do Muro e o começo da era terrorista. Definitivamente, uma das melhores décadas da Humanidade. Vale a pena recordar algumas coisas.


quinta-feira, maio 29, 2008

Atrás do Balcão da Farmácia: 3 Ps + 1

Paroxismo, Provação, Preserverança: são palavras exageradas para situação, mas as que ocorrem à mente. É o que ocorre quando as pernas gritam abafadas, suas dores de um dia em pé, onde sobre elas são gizados raciocínios complexos, esforços de diplomacia, de civilidade, de educação. Onde sobre elas, sobre o esforço físico, é erigido o esforço psicológico. Esforço - eis outra maneira de hiperbolizar. Ah, soubéssemos nós o que é o esforço. E soubéssemos nós o que são dificuldades. E soubéssemos nós o quão a vida é difícil.

Há as velhas irritantes, demasiado à vontade com elas mesmas, e que portanto não vêm qualquer problema em consumir o nosso precioso e intenso tempo de vida, ou tossir para cima de nós, ou reclamar egoisticamente algo mais. São as "Jaba The Hut" com que há que lidar. Há as pessoas que desconfiam, "borderline" confissão, da inexperiência que "cheiram". E há as que, raras, não resistem a mandar as duas pedras que têm em cada mão. Felizmente, as poucas que se afoitaram escolheram o novato errado. Valem, por isso, as pessoas de coração, de doçura e cortesia, de paciência. As que percebem que a mais básica premissa na nossa mente é mesmo a sua Saúde, o seu dinheiro, que tudo seja realmente feito "como deve ser".

Mas, além dos 3 Ps que, acima, compõem o tripé de uma hipérbole, há ainda um novo. Houve um P que, ontem, iluminou o meu dia, de novato em farmácia suburbana, como eu nunca julgara possível. O nome que a senhora desejava na factura tinha os três primeiros banais. Mas depois havia o apelido, e a senhora, preparada que estava para o ter mal-entendido, repetiu-o, soletrou-o. E eu, de cada vez, não podia acreditar. "Pratt: pê, erre, à, tê, tê". Não podia ser... Não podia ser, aquele apelido, ali, tão fora do contexto de onde eu o conhecia. Como podia haver algo remotamente relacionado com Hugo Pratt naquela farmácia, plantada num caótico subúrbio lusitano? Não podia ser. E eu não podia resistir. "É da nossa família. Somos descendentes". O quê??? Família do Hugo Pratt, o criador de Corto Maltese e um dos nomes primeiríssimos de toda a BD mundial??? E lá me confessei, lá perguntei algo mais, lá continuei a impressão da factura e o processo do troco, parvo no meu deslumbre.



Das duas uma: ou me pregaram a mais refinada e malévola peta (mas não é que as feições da senhora até têm algo de parecido?), ou houve ali um raio de Sol, desse a que só os que gostam de cultura, e admiram a inteligência conseguem sentir na pele, a irromper sobre a rotina, o amadorismo, o "casting" para uma profissão, o tactear pela natureza humana ao balcão. Eu vou acreditar na primeira e repetir: extraordinário. Simplesmente fabuloso.



O Trigo e o Joio

Eles falavam do "O.C.", e acho que devo ter gostado moderadamente da primeira época. Como fiz para esse mito que, para mim, é o "House". Também falavam dele, aliás. E do "Lost". E do "24". Se me permitem: blaargh... Nem pensar, meus caros. "Sopranos"? Reconheço que tinha qualidade, como reconheço um tema que não me interessa, um excesso de violência gráfica e verbal - nunca fui fã. "Donas de Casa Desesperadas"? Não brinquemos... "Grey's Anatomy"? Simplesmente enjoativo. "Prison Break": talvez mais 'give me a break'. "CSI"? Nem me meti nisso. "Dexter"? Não vi, mas o conceito está muito, muito longe do meu estilo.

De todas estas séries se tem falado nos últimos anos, e todas achei, contra a corrente, medíocres. Alguém há-de me perdoar este pedantismo. Agora... há provas de que não é o meu gosto refinado em excesso.



Californication. Simplesmente genial - já tem uma prateleira à sua espera. Ele há qualidade que emerge, de tempos a tempos, pela rotina. Por mais popular que seja a rotina. Mas, lá está, eu detesto a rotina. Como, não por mera coincidência, o detesta Hank Moody.

Se mais não valesse, é o regresso do grande David Duchovny. Como dizia um anúncio à série: "de X a XXX-Files".

domingo, maio 25, 2008

De Corpo e Alma








Acho mal os treinos de Portugal estarem cheios de jornalismos da treta e barraquinhas de aldeia e não terem estas coisas. Quer dizer, há lá melhor maneira de concentrar os jogadores que mandar uma miúda em biquini pelo treino? Eu digo que não. É certo que tenho assistido a poucos treinos, mas se houvesse miúdas de biquini assim certamente teria assistido a mais. Só mesmo o Gattuso para ficar impávido e sereno perante a coisa.

Desde logo, acho que os italianos têm aqui uma vantagem injusta sobre nós. Caramba, nós devemos ter jornalistas portuguesas que podiam fazer isto pelos nossos jogadores. Depois queixem-se do rendimento. Ninguém duvida que existe talento, mas falha sempre a concretização...

Fim-De-Semana

E pronto: mais um belo fim-de-semana. Mal posso esperar pelo próximo.


quinta-feira, maio 22, 2008

Nerd To The Bone 1

Diz ele ao passar por alguém, em tom de alguém conhecido, numa rua conhecida. “- É X!”. Olha. É X. E quem é este X que espanta, e assim provoca este deslumbre de reconhecimento?

Cláudia Vieira? Cristiano Ronaldo? José Mourinho? Vanessa Fernandes? Cavaco Silva? Belmiro de Azevedo? Rita Andrade? Liliana Queirós? Raquel Strada? Isabel Figueira? (Espera… estou-me a perder aqui para o final).

Não, meus amigos. X era o Nuno Crato, professor universitário de Matemática, colunista de Ciência no Expresso e participante na mesa do 4xCiência na RTP-N. É triste? Discordo. A questão não é que eu o reconheça (que desde logo o merece). A questão é que eu também reconheço os outros (ou, mais importante, talvez – as outras).

Ainda assim, reminescências da costela “nerd”. And proud of it.

A Ler



Eis a nova revista Ler, de novo sob a direcção de Francisco José Viegas. Agora com periodicidade mensal.

Leiam-na, é o meu tão simples conselho. Vale a pena. Relembro que vos fala um desencantado com a imprensa portuguesa contemporânea.

Best of Santana

Anteontem, passei, no zapping, pela entrevista de Santana Lopes na Sic Notícias. E, olhando para o homem e para os argumentos, lembrei-me de que já lhe pretendia dedicar uma música aqui no Generosità. Uma música que podia, justamente, ser cantada por ele. E que, apesar do requinte sacanita de Eric Burdon, dos The Animals, sempre lhe ficava melhor que o "Menino Guerreiro".



"But I'm just a soul whose intentions are good
Oh Lord, please don't let me be misunderstood..."

segunda-feira, maio 19, 2008

Is There a Doctor In House?

Uma das coisas engraçadas de trabalhar no ramo da Saúde é comprovar na prática a teoria de House: toda a gente mente. Toda a gente mesmo. Há um aproveitamento do stress especial que rodeia a assistência, um princípio de dúvida especial - a Saúde é um bem supremo, qualquer erro é fatal, e a ponderação de um pode ser a oportunidade de outro. Que pena ser assim. E eu nem gostava muito da série. Sempre achei aquilo uma folia do diagnóstico diferencial levado ao extremo. Sempre achei aquilo uma perversão da profissão, da arte clínica. Mas eis-me outra vez nos saudosismos do artesanal. Raios - sempre de volta ao mesmo queixume.

Requiem Para Um Jogo

Talvez o meu problema com o futebol, tal como ele está, decorra essencialmente desta necessidade que seja o sorvedouro das paixões da sociedade. Tanta pressão é posta sobre o jogo, que o jogo é cada vez mais uma indústria. Há já alguns anos a esta parte, assistem-se a vencedores absurdos da Liga dos Campeões, a futebol enlatado - como o do Chelsea de Mourinho - glorificado como arte, a falta de tempo, falta de paciência. Não me revejo nesse jogo. Não é aquele que eu gostava de ver e jogar. Tão distante está do artesanal que não possui um átomo de arte. Mas isso, afinal, é o paradigma dos tempos modernos.

Vejam por exemplo a recente vitória do Sporting ao Benfica na Taça. É certo que foi um jogo justo, e até eu me chateei com benfiquistas que inventaram arbitragens ou penaltys num jogo, ímpar no Sporting, em que não houve uma expulsão, um penalty, um livre - só golos corridos. Agora, escapa aqui o fundamental - como sempre. Se a vitória fosse do Benfica o mecanismo de reacção seria exactamente o mesmo. Ou ainda ninguém percebeu, de uma vez por todas, que numa sociedade deprimida, quando uma metade ganha assim um jogo entra em euforia parva, e a outra metade entra em depressão hipersensível? Eis como um epifenómeno no futebol revela a energia social insana que sobre o jogo é depositada.

E é justamente isso que o assassina.

Afinal o Mal é De Família

Notícia "fait-diver" do La Vanguardia. Parece que o mal também ataca os "hermanos". E depois diz o Pacheco Pereira que a coisa é um problema português. Está mais bem internacionalizado. Não faz mal. Mais fica para aqueles que, como eu, cada vez se sentem mais divorciados do futebol. E sem pena nenhuma disso.

Pero Que Lo Hay, Lo Hay

Isto da verdade é uma coisa que dói um bocado. Mas vale sempre mais essa dor que viver a mentira. Ora leiam lá estas declarações. Diz exactamente a verdade, Carod-Rovira. Existe paternalismo do estado espanhol em relação a Portugal. E eu estou perfeitamente à vontade para o dizer, gostando sinceramente do país vizinho. Pero que lo hay - lo hay. É mesmo assim. E a culpa, realmente, é dos nossos políticos, que se "ajeitam". E depois chamam à coisa "diplomacia". Curioso. Meus caros, vejam se acordam e cheiram o café. A sorte é a coisa não ter, por enquanto, problemas. Quando o "empurrãozinho" se tornar "cotovelada" basta ver para onde é que a Espanha vai. Aí é que a verdade irrompe violentamente por um surpreso "afinal...". Fica aqui o aviso.

P.S.1: o facto de que Saramago negue esse paternalismo só o confirma

P.S.2: Está enganado Carod-Rovira ao considerar que hoje, não fossem as vicissitudes da História, poderia ser a Catalunha independente e Portugal região espanhola. Há mais tomates nessa salada. E a coisa de dar jeito a Portugal que Espanha se fragmente... meu caro, não vá por aí. Não deixar que a Espanha seja paternalista, é uma ajuda, puxar-nos para essa carroça já não nos interessa. Amigos, amigos, nações à parte.

P.S.3: Assumir esta postura é, curiosamente, a que mais me diverte. Chateia os políticos portugueses, metade deles subservientes, outra metade com uma diplomacia de "raposão" que não se sabe bem no que resulta (eu digo que em nada). E depois, claro, chateia os políticos espanhóis, que vêm assim lixadas as suas contas para este lado. Dava para tomar uma "copa" com o Carod-Rovira. E já ando com saudades daqueles "bocadillos" de presunto.

domingo, maio 18, 2008

Ele Há Coisas Simples

Há coisas que eu, realmente, não percebo em José Pacheco Pereira (JPP), por muito que faça questão de o elogiar em vários domínios. Ora, neste texto, volta JPP a criticar o... onanismo emocional (perdoem a força da expressão), a exploração dos sentimentos mais básicos, por parte da televisão. Mas, afinal, o que é que queria JPP? A sociedade é livre nesse sentido, como ele sempre reclamou, e bem. É livre e popular. E isso a prazo significava sempre que iria ser açambarcada por e, sobretudo, para o homem-massa de Ortega y Gasset. Onde é que está a surpresa, caramba? Qual o espanto? Como quer JPP que por lá seja veiculada hoje a "virtude"? É a lei do dinheiro, da quantidade, do "scaling-up". E ele conhece-a muito bem. Estava à espera de algum código de conduta por parte dos "media"? É sempre residual. Basta atentar no modelo americano, que tantas vezes elege, para perceber - de uma vez por todas - que a coisa, quando muito, tem tendência somente para piorar.

Ele há coisas simples, verdadeiramente simples, a que parecem cegos alguns homens inteligentes.