terça-feira, setembro 30, 2008

Meio-Mundo

As pessoas não percebem bem que, quando eu digo que quero "viajar e conhecer meio-mundo", me refiro, exactamente, à metade do mundo que é feminino. Não devia ser assim tão difícil de captar.

Ciclotímico

O problema de um ciclotímico (culpado!) é que, de vez em quando, sente-se picado. Haverá uma razão, mas ele nem sabe bem de onde vem aquilo. E então é como aqueles touros que são largados na arena - tem que marrar contra qualquer coisa. Não sabe o que é aquela gente toda a gritar, e aquelas toalhas rosas em frente ao focinho. Apetece-lhe só marrar contra qualquer coisa.

E o problema é que, às vezes, marra contra o que não deve, que provavelmente não tem nada que ver com a picada que sente. Nada mesmo. Mas é um touro ciclotímico, dessa ganadaria lusitana, e tinha que marrar. Por isso, de tanto marrar mal, um dia só lhe restam cabrestos - para voltar ao mesmo sítio de onde partiu.

domingo, setembro 28, 2008

Quem Se Ri Por Último?

Ele há coisas curiosas nesta vida. Desde cedo, em Itália, eu simpatizava com o Inter. Assim, de caras. Gostava da cor do equipamento (que as escolhas têm estas razões idiotas a princípio), gostava sobretudo de Ronaldo, que nesse então andava por lá. Gostava, sei lá. Nem sei bem explicar.


Tenho simpatia por outras equipas italianas, é certo. Mas fiquei com a 'fama' de interista, e não a consigo já sacudir. Não é algo como o Sporting, se eu quisesse mudava, e quis mesmo fazê-lo, quando da conquista do penúltimo 'scudetto', por rebelião contra as folias gastadoras, tudo o contrário do que fazia o Sporting, e tudo o contrário do que eu defendo.

Mas, na verdade, não consigo sacudir ainda bem a coisa. Especialmente agora, que está lá aquele que, para mim, é de facto o melhor treinador do jogo (juntamente com Marcelo Lippi e Alex Ferguson), embora discorde de algumas abordagens, bem como um dos melhores jogadores, que está no pódio (juntamente com Messi, Ronaldinho, Ronaldo e Kaká): Ibrahimovic, e o meu jogador português favorito (além de Moutinho): Ricardo Quaresma.

Portanto, Inter, nada te prometo. Mas que vou seguir com interesse, lá isso vou. Afinal, depois de tantos anos a ouvi-las por causa da gestão alucinada e das sistemáticas derrotas, malgrado mastodônticos orçamentos, acho que mereço.

Ah, e já agora, acho que, também, por exemplo, a minha dedicação merecia ter conhecido essa musa interista que é a Debora Salvalagio, antes do namoro (ainda dura?) com o português Pelé (sacana!), porque, dizia ela, até andava à procura de homens intelectuais (mas porque é que elas nunca me chegam a conhecer?):


Ui. Mas enfim, isto tudo (ui!) para dizer que, nestes dias, é tudo isto o Inter.

É que nem é preciso sequer mencionar o Figo, vejam bem a coisa. Mourinho, Ibrahimovic, Quaresma e Salvalaggio: um mestre, um melhor-do-mundo, um mágico e uma musa. Haveria, realmente, que re-editar as conversas de secundário acerca do Inter.

Eu até diria, para concluir, que quem se ri por último ri melhor. Mas, na realidade, quem anda com a Salvalaggio é o Pelé, pelo que, tanto os meus críticos como eu, na minha glória revanchista, ficamos soterrados pela constatação de que deveríamos ter investido as nossas vidas a tentar ser jogadores da bola. É que talento não faltava.

sábado, setembro 27, 2008

Reading List 6


"Mon Histoire des Femmes", de Michelle Perrot. Esta senhora, historiadora francesa de lastro, escreveu, uma sua história das mulheres. Sua, diz-nos, porque alarga o espectro do estudo - de que é pioneira - para, até, elaborar uma história do género, das relações entre sexos, integrando a masculinidade.

A História que nos é ensinada é sobretudo uma história de homens, feita por homens. Na realidade, porém, toda a História começa nas mulheres, e é, aliás, sustentada pelas mulheres. É a exploração por esse mundo - imenso - do silêncio das mulheres, da sua condição, das suas valências, às suas paixões e conquistas.

Por exemplo, já alguma vez tinham pensado no facto de as mulheres escreverem muito menos memórias do que os homens? Mais facilmente levam consigo as suas vidas do que eles. Não precisam de marcar o mundo tanto quanto os homens - porquanto tenham seus desejos, defeitos, virtudes e ambições.

Não posso deixar de referir alguns pormenores tão interessantes como uma explicação com sentido biológico para o que seria uma "bruxa" medieval, ou mesmo a razão para que alguns termos sexualmente explícitos fossem ditos em latim ao longo dos tempos (sim, esses em que vocês estão a pensar).

Um livro muitíssimo interessante, fundamental para qualquer um - como este vosso blogger - que goste de mulheres. Alguém disse um dia que onde a generosidade é a qualidade mais masculina, onde a feminina é a humanidade. As mulheres, atenção, são tembém diferentes, mas eu sempre apreciei nelas (para além de outros óbvios) a sua humanidade.

Au bonheur des dammes, mes amis! Au bonheur des dammes! Que para outra coisa (espero eu) não andamos cá.

Kilometragem em francês: 230 páginas.

sexta-feira, setembro 26, 2008

Reading List 5

"Sostiene Pereira", de Antonio Tabucchi. Uma narrativa interessante acerca de como um homem de cultura, no Portugal salazarista, se vê envolvido - malgrado a sua vontade de distância - na política. Tem, sobretudo, uma técnica literária elaborada, bem gizada, criativa. Boa leitura, desde logo, para desenvolver o conhecimento da língua. Daria origem ao filme de 1995 "Afirma Pereira", com Marcelo Mastroianni, de que faz parte o seguinte excerto.



Kilometragem em italiano: 214 páginas.

quinta-feira, setembro 25, 2008

Ah...Italia...

E daqui, do Generosità, um pedido encarecido ao governo de Berlusconi para tentar ainda mais - e não deixar falir a Alitalia.


A Fuga Das Galinhas

Patrão fora, dia santo na loja. Se o galo não está, as galinhas esvoaçam, furiosas, como se elas fossem donas do pedaço. Andam a destabilizar o equilíbrio todo da capoeira. Quando não há galo, é a fuga das galinhas - para a frente.

E quem se lixa são os franganotes.

Treinador Dona-de-Casa

Alguém me dizia, a propósito de Paulo Bento, ser um excelente 'treinador dona-de-casa'. Isto é, que consegue fazer omoletes quase sem ovos. Mas que, agora que chegou a abundância, e tem a cozinha cheia, não sabe organizar tanta fartura. Há algo de verdade nisto, se virmos como Paulo Bento ainda não percebeu que agora já tem jogadores para deixar grande parte do sistema de rotatividade anterior. Está na hora de ter um onze mais... previsível, e de o ir substituindo. Embora, claro, lhe dê todo o benefício da dúvida, porque o merece. Mas terá que provar, nos próximos tempos, que ele sabe gerir 'vacas magras' sem se deslumbrar e confundir com 'vacas gordas'.

Taxista Voador

Ele há taxistas de Lisboa que pareceriam ter inspirado o mito do 'holandês voador', o navio fantasma condenado a assombrar os oceanos, sem jamais voltar a casa. Estou-me a lembrar de um taxista que vinha assim, a flanar pelas estradas marginais de Lisboa, com este vosso desafortunado blogger, e que eu diria ter um prazer quase insano em cortar assim as estradas, como o 'holandês' as ondas. Mas... pensando bem, até parecia haver ali algo mais de holandês, nomeadamente no que diz respeito a algumas substâncias proibidas... (ele 'voaria', quem sabe, de muitas formas). Por acaso, era também bastante simpático e, de alguma forma que em retrospectiva me espanta, até fomos a falar agradavelmente. Até gostei da viagem.

Está tudo bem - voltei do mar seguro, é o que mais importa.

Esquizofrenia Bizantina

Eu quero lá saber onde são feitos o raio dos Magalhães! Estou-me borrifando! Eu quero é que se discuta se um ensino básico nestes moldes - tão distinto do tradicional, de que sou apologista - vai dar resultados às pessoas. Eu digo que não, que isto é tudo pífio e desnecessário, que estamos, verdadeiramente, a roubar futuro àquelas crianças.

Que se discuta tão apaixonadamente, como no Abrupto do Pacheco Pereira, uma perfeita 'merdazeca' que não interessa para nada, a não ser expor a mentira a um governo que se sabe já mentiroso é, realmente, um sinal dos tempos. Um sinal de esquizofrenia bizantina. Tudo o que é importante, grande, passa ao lado deste miserável, mesquinho e acobardado 'mainstream' de opinião.

Se a seguir a isto vier algum período virtuoso, quem me dera fazer 'fast-forward'...

quarta-feira, setembro 24, 2008

À Espera da Cavalaria

A nossa vida está bombardeada pelo bizarro. Por uma miríade de miséria humana, na televisão, no PC (onde não faltam sites manhosos, chocantes, intrusões obscenas na nossa sensibilidade), por uma série de atropelos a algum... saudável decorrer daquilo que seriam as pessoas normalmente - pensamos nós.

O problema é que, tantas são as bizarrias humanas, que surge a necessidade de as entender, de as explicar. Fica demasiado curta a manta a quem pensar somente "maluco", "pervertido", "assassino", etc. Se tantas são as variações e tanta a miséria humana como a entender? E, sobretudo, como a entender e sair... com a sanidade mental intacta?

Tentamos talvez fazer um qualquer 'upgrade'. Aquilo que considerávamos 'bizarro' antes está num âmbito mais reduzido. Fomos aceitando - talvez demais - certas coisas. Porque não podíamos, por regras de sociabilidade, confrontar as pessoas com isso, porque a sociedade não funciona para as castigar, pelo que seja. Fomos aceitando. De tal forma somos confinados pelo bizarro que estamos em pequenos fortes, vendo os índios lá fora, e estamos amargurados de ter que sair para esse mundo, que já não conhecemos, não sabemos o que andam os outros realmente a fazer, se são desses índios de que nos fala a televisão, se não.

Nós estamos cada vez mais confinados. Eles, os índios, estão à vontade, claro. Aquela terra já era deles antes - conhecem-na bem, não têm medo. Nós, que tínhamos - e temos - princípios, vemo-los aproximar e não sabemos, realmente, qual será a próxima cena do filme. Sem o confessar, pela trivalidade dos dias, desejamos ardentemente que venha aí a cavalaria. Para acabar com a desordem destes índios.

O problema que está por resolver - e que queremos afastar da nossa mente - é que podemos ter que ser nós a fazermo-nos cavalaria. Quem sabe.


You Are Now Leaving 'Dignidade'

Uma pergunta que mormente ecoa nos meus pensamentos diz respeitos aos limites da nossa dignidade. Está visto que nos inserimos numa sociedade onde ela é atropelada por todos os lados, uma sociedade de uma violência mansa, passiva, não-declarada, omissa. Mas que se acumula, que deprime, dia após dia. E que não sai dali.

Desde logo deprime, como sociedade, o facto de o próprio país estar mal. De os outros portugueses poderem estar mal. E de não haver (donde se pede a Manuela Ferreira Leite que começe a fazer o seu acto, a fazer oposição - pelo menos isso) luz ao fundo do túnel. Só mais do mesmo. Nada mais que isso.

Face a esta sociedade violenta para alguns jovens, a sua inserção no mundo laboral - sobretudo - exige uma série de cedências, naquilo que consideramos como certo, correcto, em prol de um bem maior. No caso, a própria sobrevivência, futuro. Leia-se dinheiro, salário. Eu não sou marxista, não falarei de 'prostituição', palavra demasiado forte. Mas o certo é que há jovens que se sujeitam a ambientes de trabalho insalubres, e não digo que sejam explorados, mas são ignorados, instrumentalizados, elementos na engrenagem do cinismo. Há uma noção clara que as coisas não deviam ser assim, mas tudo é aceite. Os silêncios, as omissões, as pequenas e insinuantes crueldades. Às vezes à verdadeiras 'obscenidades por omissão' (acreditem que eu sei do que falo), face a coisas gravíssimas (estou-me a lembrar, por exemplo, da certificação quanto à segurança e integridade física de um jovem) e depois, no dia seguinte, há que sorrir, falar, beber café como se nada fosse. Não - é preciso dizer não. Não se pode ter medo de impôr limites quando eles têm que ser impostos.

A verdadeira questão, no fundo, é a mesma de sempre. A noção subsconsciente de que este é um país pequeno, de que 'what goes arround' pode bem 'come arround', faz com que se calem verdadeiras bestialidades. De novo, eu sei bem daquilo que falo.

Há um pormenor, no entanto, que convém reter para própria protecção. Lembro-me de, há alguns dias, ter ouvido ao treinador do Manchester United, a propósito de não sei que situação, esta frase: 'There's nothing wrong in getting mad for the right reasons'. Se a Justiça (e o esforço sincero) estiver do vosso lado, não hesitem em clamar - contra qualquer opressor que seja. A Justiça é o único motivo que pode justificar todo e qualquer berro. O problema de sempre é ter a certeza de que ela está connosco.

Vida 'By Proxy'

Também conhecido como demasiado PC, e demasiada televisão. Demasiadas vidas dos outros, vitórias dos outros, palavras dos outros. Demasiado consumo de vidas alheias. Parca produtividade pessoal.

É um estilo de vida destes tempos - 'by proxy'.

Contemporaneidades

Desde logo percebi que podiam trazer algo de novo. Animados pela revanche aos Gato Fedorento - e talvez mais genuínos - os Contemporâneos têm já um estilo, vão ganhando um espaço. Ainda sem o um brilhantismo que "fique", têm bastante qualidade, merecem uma menção no Generosità (é uma ambição de carreira para a maior parte dos artistas, como sabem). Não posso, porém, deixar de assinalar sobretudo a qualidade de Nuno Lopes (Bruno Nogueira é também talentoso).

É, contudo, necessário perceber o quão justa, creio eu, é a palavra "revanche" nesta situação: é que o humor deste grupo parece-me menos jovial, mais realista, que o dos Gato Fedorento. Há um Markl que, seguramente, se sente um pouco revoltado por não ter sido apanhado na onda dos Gato Fedorento, e que quer recuperar tempo perdido. E depois há um conjunto de humoristas que, certamente, se rebelam contra a hegemonia eu eucalíptica dos Gato Fedorento nos últimos tempos (que pode estar para acabar) e que querem expressar o seu talento, recorrendo a maior... violência humorística, se necessário.

De qualquer forma, a evolução tem sido espantosa. No último episódio dei comigo a rir como um perdido com alguns dos sketches. Dos disponíveis no YouTube, tomei a liberdade de seleccionar alguns para vocês.






A Tesoura Está Na Mão Deles

"- O que é que dirias a alguém que te chame cobarde?
- Devias ver os tipos que eu deixo cortarem-me o cabelo..."

terça-feira, setembro 23, 2008

Pecado Original 30





A propósito do último post, uma dedicatória à felina Michelle Pfeiffer. Gata, mesmo. Mas a manter o respeito - só com o mero olhar. Não é uma mulher que se deixe enganar... Cuidado às hienas - esta é uma leoa.

Terramoto BCP

Ainda a propósito do livro 'Terramoto BCP', lembrei-me - não sei porquê - desta singela música, como 'soundtrack' de uma explicação - num filme (eis uma sugestão) - da coisa.


segunda-feira, setembro 22, 2008

As Cadeiras Meninas do Papá Tirano (Deixem-nos Só Dar Uma Volta...)

O problema de alguns professores é estarem casados com as suas matérias. Melhor, é terem nas matérias que ensinam filhas dilectas, que querem preservar em toda a sua pureza, dos abandalhados pretendentes - nós, os estudantes.

Nós somos os rapazes que vamos lá a casa (à sala de exame) cantar a canção do bandido, que, por muito bem que cantemos, só queremos mesmo é dar uma voltinha, 'curtir' com ela. Mas não - o pai-professor protege a filha dilecta de todas as pretensões, das luxúrias dos alunos. Se querem 'levar' a filha (o passe à cadeira) têm que casar com ela! Têm que a conhecer de trás para a frente. Saber quais são os seus sabores de gelado preferidos. Saber quantos anos tem a sua cadela. Saber todas as equações, derivações, aplicações.

Mas se nós só queremos dar uma voltinha, fazer a nossa cadeira e ir à vida... Com toda a gente feliz, claro. Temos os nossos mínimos - somos gente decente. Porque vêm estes idiotas pais tiranos assim a reclamar que a filha deles 'não é dessas', dessas cadeiras fáceis, oferecidas sem perguntas rebuscadas e traiçoeiras. Que em vez de distinguirem a vileza do gentil desejo, pretendem secar toda a luxúria, reclamar todos os sacrifícios - exigir desse pretendente a marido quase a santidade!

Que grandes empata-f****! (como diz o povo, sabiamente).

sábado, setembro 20, 2008

Voz da Cidade: Quando A Estética É Uma Ética

Acabei de ver (acreditem, não é costume) o 'Voz do Cidadão' da RTP1 conduzido pelo institucional Paquete de Oliveira. Vi, muito simplesmente, porque tratava do 'Liga dos Últimos', nomeadamente das reclamções de alguns portugueses em relação ao mesmo.

Curiosamente - ou talvez não - foram entrevistar somente portugueses urbanos, citadinos. Entre vários deles perpassava uma assumida vergonha por ver algo assim na televisão. Por verem portugueses que eles consideram indigentes, nesse submundo que é 'a província'. Há um resíduo de razão na crítica: alguns repórteres são obviamente sacanitas, e gozam mansamente das pessoas que entrevistam, por as acharem 'cromos'. Mas, meus caros, fossemos a avaliar as reais razões porque fazemos tanta coisa na vida, sobretudo um projecto artístico como é um programa temático de televisão e ficaríamos seriamente desiludidos.

Na minha opinião o programa é brilhante. É fresco no panorama televisivo. É bem feito. É certo que captura a gente de aldeia. Mas são perfeitamente ignorantes os portugeses urbanos que os consideram indigentes, e que têm mesmo repulsa em os verem (pergunto-me se o problema será eles existirem ou serem vistos) na televisão. Percebam de uma vez: as pessoas do Campo não se exibem tanto como as da Cidade. Não são tão presumidos. É certo que há pobreza também. Mas sobretudo não há necessidade de qualquer pseudo-estética que seja.

A verdade é que, entre aquela gente que tão brutamente fala, e tão mal veste, há portugueses que, em vários casos, vivem melhor que os urbanos que perturbam pela sua presença na televisão. E que têm mais dignidade que eles - sim: mais dignidade. Porque é mais digno uma vida rural que uma vida de funcionário em teias de hipocrisias, controles mútuos, contagens de quem é que come quem, de quem faz menos, e a quem toca a responsabilidade.

Eu gosto daquela gente. Conheço-a desde pequeno. Há de tudo, como em todo o lado. Eu não estou aqui em defensor dos oprimidos, mas sinto alguma ofensa. Não quero fazer de moralista com os outros, mas não posso admitir que eles o façam por outros meios. É fina a barreira entre a genuína preocupação social e o pequeno nojo travestido de caridade.

Apesar de tudo, prefiro os sacanitas que fazem o programa. Podem achá-los cromos e rir-se deles por dentro, mas não os desprezam assim. Vou continuar a ver o programa e a rir-me com el (ver aqui). A estética, meus caros, não é uma ética.

Zé Chunga

Até que enfim, alguém colocou aquele que é, para mim, o melhor (se me falhar a memória, estará, seguramente, no top3) dos sketches de Herman José. Outros tempos, suponho. Ainda se lembrarão, vocês, deste genial Zé Chunga?


"-Diz-me, qual é a tua profissão?"

"-Sou jovem. A minha profissão, sou jovem. E acumulo - com arrumador de carros."

"-Ah... um melómeno."
-E pah. Pisa. Aonde? E pah, pisa que isso deixa gosma!"

Quantas vezes não repeti este sketch. Falta do Boião também o "um rato, um rato!", do "vocês não explicam... a malta irrita-se".

Mexillone

Mas isto das canções italianas não é mania, ou presunção. O que não falta são êxitos de igual craveira na nossa história musical recente. Não digam que não.


E este novo sucesso, de um grande, e absolutamente impagável. Eis o grande Quim, no seu estilo. O mundo pode estar a acabar que o Quim continua no mesmo. É uma força da Natureza.

Splendido Splendente

A música, perguntam vocês, que não me sai da cabeça? É esta.

Cuidado que a Rettore está quase a sair do ecrã.



Vidas Inteiras, Como as Palavras

No metro, à minha frente vai um casal de velhinhos. Velhinhos, com todos os -inhos a que têm direito. Ele à minha frente, ela no primeiro assento do banco ao lado. Tinha apenas percebido neles aquela doçura de uma vida gasta, uma cumplicidade que só a Morte, num suspiro, separará. Ali, pareciam tão entregues um ao outro, tão iguais, mirrados, numa comunhão entre os outros, apesar dos outros, cuidando desses outros.

Perdido nesta impressão, a velhota olha para ele e diz-lhe, tão simplesmente: "De condução é o problema do trânsito. Aqui é sempre esta merda."

Ainda pensei estar no meio de um filme. Será que o Stifler estava escondido em algum sítio?

Há alturas em que eu gosto muito, muito de ter um blog.

sexta-feira, setembro 19, 2008

La Casa Sarebbe Dove C'é Quella Donna E Varebbe La Pena

É decadentista até ao osso - mas a nossa sociedade está em clara decadência e nós recusamo-nos a aceitá-lo.

Colocado por Pedro Mexia no seu Estado Civil - far and away, o melhor blog nacional.



Decadentista embora, é bela demais esta composição. Não fiquem colados ao decadentismo meus caros, mas também - porque não - saibam apreciar a Beleza.

"(...)
Val la pena esser solo, per essere sempre più solo?
Solamente girarle, le piazze e le strade
sono vuote. Bisogna fermare una donna
e parlarle e deciderla a vivere insieme.
Altrimenti, uno parla da solo. (...)
"

Há tanto Cesare Pavese que falta ler.

segunda-feira, setembro 15, 2008

Hate To Say I Told You So...

Eu, realmente, tenho a mania que sei coisas, mas darem-me razão logo no dia a seguir? 'Bastonadas nos dentes (ver aqui)'? 'Bastonadas nos dentes'? Isto dito por um dirigente do Catania (Sicília). Que acha uma falta de respeito Mourinho dizer que podia ter ganho por 5-1, mas que estas 'bastonadas nos dentes' não são 'incitamento à violência, apenas um modo siciliano, colorido, de convidar Mourinho a ter respeito pelos outros.' ("Nessun incitamento alla violenza, ma soltanto un modo di dire colorito siciliano per invitare Mourinho a avere rispetto degli altri").

E há mais:

"Poteva evitare di dire ciò che ha detto e rispondergli sarebbe troppo facile. Dico solo che noi non siamo un popolo che si può imbonire con le chiacchiere e quindi Mourinho la smetta di fare il chiacchierone. Mourinho farebbe bene a guardare i suoi problemi, a quanto costa lui e la sua squadra alla sua società. Mi auguro che vinca perché se non vince, si deve prendere la sua bella valigetta e andarsene via al suo paese".

Basicamente: 'não te armes em chico-esperto, Mourinho, ou então pega na mala e andor para o teu país'. Nada meiguinho, hein? Mas, de novo, Mourinho foi avisado por este blogger.

P.S.1: A primeira reacção é a de ir lá defender o Zé. Mas Mourinho está - tenho-o repetido várias vezes - a ser estúpido. Aquele estilo vai muito mal com Itália. Agora, há uma diferença fundamental: é que Mourinho tem o direito a ser estúpido, mas ninguém - ninguém em nenhum país que seja - tem o direito a ameaçar a sua integridade física. É uma ligeira diferença.

P.S.2: Quando Mourinho regressou ao Porto, há algum tempo, depois de ter ido para o Chelsea, muniu-se de guarda-costas. Na altura terá dito qualquer coisa do género 'quando se vai a Palermo é preciso protecção'. Irónica, esta vida. Quem sabe não tenha que ir agora à verdadeira Palermo, com verdadeira protecção.

Mou: Fino Adesso

Mourinho (ou Morigno, Mou) so far: uma supertaça ganha com sorte, um empate e uma vitória em casa com o Catania, mercê de 2 autogolos. Bem sei que nesta era furiosa todos querem logo tudo, quando uma equipa demora a formar (mas é também esta era furiosa que os faz milionários do dia para a noite, so...). Mas é preciso Mourinho estar ciente de uma coisinha, que ele despreza da maneira como trata todas as nações da mesma maneira: assim que ele falhar (e mesmo que não falhe, baste que não entusiasme ou não 'pague' no campo os cheques que passa com as bocas nas conferências) eles saltam-lhe para cima - que nem lobos. A posição de 'allenatore' é, em Itália, muito... 'speciale'. E ele está na equipa certa para ser um treinador estrangeiro, mas na errada para levar com os ódios das outras todas... E recordemos que o Inter vem de ser campeão, numa época a jogar com autoridade, está tudo este ano contra eles. Donde...

Vamos crer que não. Que tudo vai resultar bem. Que o Inter vai ganhar, jogar bem, que Mourinho vai ser inteligente o suficiente para ser mais 'mellow', mais diplomático, menos cortante. Mas que ele foi avisado neste blog há já bastante tempo - lá isso foi.

P.S.1: E que Scolari lhe está a dar, no Chelsea uma chapada de luva branca, a ele e a muita gente (incluindo este modesto 'opinion-maker'), lá isso está.

P.S.2: Quem sabe se, na verdade, esses fenómenos Mourinho e Ronaldo dependeram muitíssimo mais das suas equipas Chelsea e Manchester United para o seu sucesso que aquilo que pensam? Ui... E se o fenómeno da selecção portuguesa dos últimos tempos dependeu muitíssimo de Scolari (Ui!: 'Eles fartavam-se de dizer mal do homem, mas o certo é que...').

sábado, setembro 13, 2008

Reading List 4

"On Art and Life", de John Ruskin (1819-1900). Este livro está, na realidade, composto por duas reflexões em separado, que são, de facto, dois capítulos de outros dois livros, aqui coligidos ao abrigo desta colecção "Penguin Great Ideas". "The Nature of Gothic" fazia originalmente parte do livro "The Stones of Venice", vol. 2,, publicado em 1853 e "The Work of Iron in Nature, Art and Policy", um seu 'lecture', foi publicado no "The Two Paths", em 1859.

Como terão facilmente depreendido, o primeiro é uma reflexão sobre o estilo gótico, ao passo que o segundo versa sobre o ferro, como material essencial para uma sociedade, uma nação, nos três domínios que a caracterizam: o Arado, a Corrente, e a Espada (o Pão, a Lei e a Guerra). Devo dizer que achei particularmente interessante a sua visão da beleza que existe no estilo gótico, por natureza imperfeita, em oposição à beleza clássica, grega, de necessária perfeição.

De qualquer forma, a princípio, e durante uma boa parte do livro, parecia estar perante um desilusão. Havia ali considerações sobre um estilo arquitectónico e uma matéria-prima que aborreciam bastante. Percebi, contudo, que era em apartes, considerações mais abrangentes, que Ruskin mereceu ter estes dois capítulos sob a égide do 'Great Ideas'. Atentemos nestas duas passagens, a primeira relativa ao primeiro capítulo, de 1853:

"It is verily the degradation of the operative into a machine, which, more than any other evil of the times, is leading the mass of nations everywhere into vain, incoherent, destructive struggling for a freedom of which they cannot explain the nature to themselves. Their universal outcry against nobility, is not forced from them either by the pressure of famine, or the sting of mortified pride. These do much, and have done much in all ages; but the foundations of society were never yet shaken as they are this day. It is not that men are ill fed, but that they have no pleasure in the work by which they make their bread, and therefore look to wealth as the only means of pleasure. It is not that men are pained by the scorn of the upper classes, but they cannot endure their own; for they feel that the kind of labour to which they are condemned is verily a degrading one, and makes them less than men."

e a segunda retirada do segundo capítulo (1859):

"By far the greater part of the suffering and crime which exist at this moment in civilized Europe, arises simply from people not understanding this truism - not knowing that produce or wealth is eternally connected by the laws of heaven and earth with resolute labour; but hoping in some way to cheat or abrogate this ever-lasting law of life, and to feed where they have not furrowed, and to be warm where they have not woven. (...) The law of nature is that a certain quantity of work is necessary to produce a certain quantity of good, of any kind whatever. But men do not acknowledge this law; or strive to evade it, hoping to get their knowledge, and food, and pleasure for nothing: and in this effort they either fail of getting them, and remain ignorant and miserable, or they obtain them by making other men work for their benefit; and then they are tyrants and robbers."

Segunda metade do séc. XIX. Pois é.

Kilometragem em língua inglesa: 402 páginas (inclui 'Reading List 2', de novo por picuinhice; "On Art and Life" tem 98 páginas).

sexta-feira, setembro 12, 2008

Rigth Here, Right Now 1

Adoro passar férias em Setembro, longe da confusão lisboeta. Aliás, deixei o meu secretário pessoal instruído para responder, com toda a cortesia, às requisições lisboetas que houver no entretanto.


Não há nada como receber os nossos amigos em férias. Hoje ao almoço revi esses, de longa data, que vão pelo nome de Trincadeira e Aragonês. É sempre um prazer estar com eles.

quinta-feira, setembro 11, 2008

On Hold

Uma coisa que me faz impressão nas estruturas estatais e proto-estatais (por exemplo, os partidos políticos) são as expectativas. Muitos portugueses não o saberão, mas neste momento, há muita gente nessas estruturas que investiu muitíssimo das suas vidas - o seu tempo e energia - em expectatias. Nomeadamente, em expectativas de ocuparem melhores lugares na hierarquia, na expectativa de estarem mais perto de um qualquer micro-poder, mais perto de uma qualquer fonte de financiamento. Há muita gente mesmo. Não é gente que tenha investido a vida em esforço, trabalho, técnica. Antes, procurou ganhar créditos. Esteve tanto tempo ali. Foi sempre ela que tratou. Está em tal lugar na ordem para. A esta gente passa ao lado a vertigem, a competitividade do mundo de fora, do mundo privado. Elas apostam nos seus créditos, e têm essa expectativa - que eu acho curiosa - de que se lembrem do que fizeram, ou passaram. Quer dizer, na sua mente não passa, realmente, a possibilidade de uma tabula rasa ou uma súbita dança de cadeiras que lhes roube todos esses micro-esforços diplomáticos, panegíricos, de pequenas acções, e os pulverize à sua nudez: a de não terem qualquer qualificação que seja para o mundo do trabalho. Um membro de um partido de 4ª linha, num concelho qualquer do País, espera que alguém, no futuro, se lembre de como ele foi sempre fiel ao partido, andou de café em café, a perguntar pelo cão deste, a perguntar pela saúde do outro, para ser o próximo a ser chamado para um lugar. Espera que esse "esforço de fidelidade" seja assim compensado. É claro que, quando o não é, há sempre uma nota ou outra que não convém divulgar...

Mas o chocante, realmente, é como as pessoas investem as suas vidas nestas expectativas de integração nas estruturas não-privadas da sociedade, assim se escusando a trabalhar verdadeiramente. E é chocante também como os portugueses que pagam essa factura (não me posso incluir, por ora) toleram isso. É que nada nestas estruturas estatais e partidárias é movido pelo mérito pessoal, antes por uma história de dedicação, amor ou pseudo-amor à camisola, e, no fundo, a mais simples e lusitana ambição de todas: a de um posto pouco exigente, que dê pouco trabalho, que exponha e responsabilize pouco, confortável, o mais duradouro possível e o mais bem pago possível.

Disclosure: Esta crítica, faço-a não estando eu próprio inserido no mercado de trabalho, o que sei me retirar legitimidade. A motivação que me anima, mais que justiceira (embora em parte também seja) é a de retratar. E a de permitir atentar, a quem leia o texto, nesse facto singelo, que é o de uma pessoa investir a sua vida em pequenas acções à espera que se lembrem delas, quando tudo pode mudar de repente. E isso a todos deve dar que pensar.

O Tamanho do Capricho

Acho que a ambição de ter algum dinheiro na vida, no meu caso, tem mais a ver com a satisfação de pequenos caprichos. Não sou pessoa de grandes caprichos. Mas apreciava muitíssimo ter os meus pequenos garantidos.

Every Move You Make

Há grandes vantagens em viver com os pais. Sejamos francos: desde logo financeiras. Talvez porque a minha é uma geração de tesos. Seria bom que, não tendo nós princípio de cheta, a cáfila que vive à conta dos nossos pais (não, agora não estou a falar de nós, filhos), enche os bolsos, e gere o País (antes me refiro ao povo/polvo do Estado!), ao menos fizesse as coisas por forma a não haver demasiados problemas. Mas isso era pedir demais não era?

Depois, viver sozinho é duro. Tem o seu encanto inicial, de liberdade, mas, sobretudo se se trabalha para poder viver sozinho, a certa altura há uma erosão. Somos animais gregários, quanto a isso nada há a fazer.

Também não desdenhamos os seus conselhos. E eles têm muitos dos defeitos e virtudes que teremos nós próprios no futuro. Estamos sempre a aprender, embora os mais inteligentes de nós se recusem a ser cópias.

Mas, caramba, há grandes desvantagens também. Nomeadamente, o escrutínio constante, e o ser chamado à pedra pelas coisas mais exasperantes. Algumas delas passam o limite do respeito pela privacidade, pelo indivíduo que nos consideramos já. São as coisas mais pequenas, mais insignificantes. Faz tudo parte de um registo, de hábitos, de gastos, de frases, de saídas e entradas. Mas porquê? Porque não se interessam eles por outros temas - infinitamente mais apaixonantes - que os próprios filhos, nesta idade em que eles dão mais que bem conta de si?

Aliás, até temos para nós que somos os maiores. Que já andámos por sítios, vimos gentes que lhes provocariam pele de galinha, que já passámos por experiências que, no tempo deles, seriam impossíveis. E que, mercê da era tecno em que fomos criados, já vimos coisas, sites, filmes, etc. que lhes fariam lavar os olhos mil vezes se com tal se deparassem. Somos os maiores, realmente.

O ideal, suponho, seriam pais muito protectores no início da vida, e depois uns pais ultra-liberais (e já agora, ricos e generosos) para mais tarde. Mas não, geralemente os pais possessivos não deixam de o ser e os pais ausentes também não. Não há meio termo. E quem se lixa somos nós, os filhos.

O Doping da Palavra

"José Mourinho rientra nella categoria eletta degli allenatori motivatori alla Helenio Herrera, di quelli cioè capaci di convincere con il doping della parola un brocco come Tagnin di essere il migliore al mondo." Aqui.

Já há bastante tempo que eu próprio - sem muita cultura de 'Calcio' - sabia que a comparação com o HH aí viria, mais dia menos dia. Para quem não se lembrar, Helenio Herrera, argentino, e histórico treinador de Barça e Inter, é tido como o criador do 'catenaccio'. Chegou, também, por curiosidade, a treinar o Belenenses, numa altura em que o clube teria outro patamar.

Mundo Cão

O mundo que o 11 de Setembro criou é um mundo mais cínico, mais sacana, a todos os níveis. É um mundo mais individualista e egoísta. Contribuiu para este estado de coisas em que se diz: "- Vamos criar uma empresa!" "- Não, não te metas nisso. Os chineses andam aí a limpar a matéria-prima toda. E depois andas uma vida inteira a trabalhar quando os tubarões fazem milhares de milhões com off-shores". "- Então, vamos viajar!", "- Pois, mas lembra-te de deixares o teu testamento, que esses terroristas não brincam". "- Vamos... vamos cultivar-nos. Saber mais de Ciência, História, Cultura!", "- E quem é que te paga isso?". "- Tudo bem. Mas... vamos à procura de um amor!", "- E achas que isso vai durar quanto tempo". "- Mas eu sonho em ter filhos!", "- E vais deixar-lhes este mundo?".

Et Semper Idem

Passam hoje 7 anos desde o 11 de Setembro de 2001. 7 anos. Parecem já 7 anos? A mim não. Mas eu sei que foi um princípio, um princípio de uma história que pode nunca acabar mesmo. Quando os EUA chegarem ao cabecilha odiado, qual medusa, outros surgirão. Não há um inimigo claro. E isso, na história da Humanidade, coloca-nos em confronto com uma guerra cega. Uma guerra em que sofremos - todos de alguma forma sofremos, embora muito mais os americanos - sem antevisão clara do fim. Não parece ser possível uma vitória absoluta. Quando se pensava que a guerrilha era o grau zero da guerra, o terrorismo puxou dos galões. É o terrorismo o grau zero da guerra. É um inimigo difuso, e pior, um inimigo potencialmente inderrotável. O que adia indefinidamente aquilo que caracterizou outras guerras: o fim - essa redenção colectiva, essa harmonia e aproximação, essa paz. Assim... assim está sempre lá - no inconsciente, a existência gravíssima de um conflito.

Detesto, abomino assumir esta postura mais pessimista, mas seria desonestidade intelectual não o fazer: esta é uma guerra que não nos dará paz tão depressa. Em todos os sentidos da expressão.

Intoxi-Lição

Poucas coisas como uma intoxicação alimentar nos dão a tão necessitada humildade. Porque se a cabeça pensa "- Vou dar a volta ao Mundo, conhecê-lo e às pessoas que o fazem. Vou percorrer montanhas, escapar-me em aventuras, conhecer amigos, mulheres", a barriga responde: "-Não... Não tenhas ideias. Ficas mas é aí agarradinho à porcelana para veres como, no final, nem te lembras sequer de que terra és...". Auch.

Queirosiano

"Da árvore que caiu ao chão qualquer um pode fazer lenha" é um sábio ditado espanhol. Porque não é o meu estilo assim fazer lenha, vou pedir aos leitores do Generosità (Zé Carlos: um beijo para tua mana) que acreditem quando digo (digo, escrevo) que há muito que estava para fabricar um post a dizer que sou contra Queirós na selecção. E não gosto de o fazer depois da derrota contra a Dinamarca.

A propósito, foi uma bela derrota. Fazem tão bem esses banhos de humildade... "Princípios do Leva-Trombismo" é um livro que recomendo às gentes da selecção, de vez em quando. Diz que é do Masoch, mas eu, por acaso, nunca li.

Agora, eu também não gostava de Scolari. Que vos dizer? Sou um gajo exigente. E até Monica Bellucci não se lembrar de responder às mensagens, também não me vou comprometer com ninguém.

Bom, mas falando do Queirós. Digo, falando mal do Queirós. O homem - e eis o problema - é difícil de prescrutar. O que motiva Queirós? Não será uma fé religiosa, suponho. Também não um amor a algo que o levante da cama todos os dias. Mais bem parece, entre o sorriso mal-consentido, com espécie de ira sempre pronta, que o homem tem um ajuste de contas de algum tipo a fazer. Digamos que um ressentimento antigo. Com o quê não sei - não me perguntem. Mas é o que eu diria. Basicamente, não deslindo em Queirós os ânimos certos para comandar... o que valeria 'peanuts', caso o homem fosse bom naquilo e ganhasse. Mas... com todo o respeito, sr. prof., não parece ser isso que está - ou vá - acontecer pois não?


Não responde, não é? Eu cá, que me desculpem, Queirós continuo com o Eça de, não Carlos.

La Isla Bonita

É certo que elogiei o "Confessions on a Dance Floor", que achei muito acima do registo médio de Madonna. Talvez eu até nem a aprecie especialmente. Mas a melhor música dela, a mais singela, mais melódica, menos sofisticada é esta. Eu sei, eu sei. Mas é a que eu escolho. E nos meus posts mando eu.

Gollum Nutrido

Que ele não era exactamente apolíneo já se sabia. Mas agora, dizerem dele que é um "Gollum nutrido", não - isso é cruel demais.

quarta-feira, setembro 10, 2008

Realidade Nacional

Custa-me a admití-lo, mas desde há uns tempos que os jogos da selecção me aborrecem muitíssimo. Simplesmente, deixei de ter paciência. Antes havia a alma de um Rui Costa, a filigrana do futebol de Figo. O esforço de João Pinto. Agora, há somente uns putos estúpidos, deslumbrados e arrogantes, que se pavoneiam pela selecção, quando lhes dá jeito, noutras envolvem-se, mas com pouca profundidade.

Ninguém sente a selecção até ao osso, como ainda há pouco tempo acontecia. Todos querem é brilhar mais, um pouco mais, se tanto. Não há um maestro, um capitão. Que Cristiano Ronaldo seja feito capitão, passe a sua qualidade, é para mim uma piada.

Mas enfim, é a selecção que temos. No livro que falei, no post 'Reading List 3', a autora termina com uma frase que lhe terá dito o 'capitão da indústria' António Champalimaud: "para quê defender o capital nacional, se o país vai acabar?". Supondo que, em vez de catastrofismos, Champalimuad se referrisse argutamente a esta era globalizada, em que o dinheiro, poder e contactos só mudam de língua e os países se parecem distinguir por meros centros regionais, legislativos e executivos, para quê querer uma selecção de futebol, se o país já não existe?

O Cliente Que Tem Sempre Educação

Deve haver poucas coisas piores que ter um tratamento 'à função pública' de entidades que não são função pública, que são Estado, a que, neste caso, inclusive, se lhes paga. Há ainda demasiado nariz empinado, a tentar, a procurar o limite de quem, por educação (e talvez outras motivações) tem pudor em jogar a carta do 'é o meu dinheiro'.

terça-feira, setembro 09, 2008

Reading List 3

"Terramoto BCP", de Maria Teixeira Alves. Uma cronologia lúcida, rigorosa e inteligente de todas as peripécias, todos os meandros que explicam o curso do BCP nos últimos anos.

Surpreendente na profundidade, não só das intrigas e enredos, mas também no arguto perfil psicológico dos intervenientes (entre as várias considerações sobre o célebre comendador escolho esta, acerca dos 'amigos': "(...) tem da amizade uma ideia paternalista"), e mesmo não intervenientes ("Marcelo Rebelo de Sousa acima de tudo é um vendedor de ideias, algumas certas, nem todas. Mas é tolerável que quem seja chamado a falar sobre tudo, com o tom crítico que lhe é esperado, dê, de vez em quando, uns tropeções. Depois é inteligente demais para se levar a si próprio a sério, o que explica que ponha a generosidade à frente da honestidade intelectual.").

Para quem tem interesse em conhecer o maquiavelismo do mundo financeiro português - e eu sei que há alguns de vocês que têm - leitura fundamental.

Kilometragem em língua portuguesa: 418 páginas.*

*Contagem que inclui, por picuinhice, o livro 'Reading List 1' ('Terramoto BCP' tem 222 páginas)

domingo, setembro 07, 2008

Terra de Cegos

Uma coisa que eu acho extraordinária na glorificação que a nossa sociedade faz de futebolistas: aquilo é fácil. Acreditem: jogar à bola é fácil. Porque quem tem qualidade pessoal, tem-na em qualquer mester, o de jogar à bola, que me desculpem a expressão é cagativo.

Porquê? Porque meus caros, fintar é a satisfação imediata - é a vitória logo ali. Muitíssimo mais complexo é vencer noutros campos de batalha. Difícil é ser como nós, estudantes de algo, mal ensinado por uma sociedade a quem não interessa que os jovens saibam demais, para ir disputar lugares contados, em estruturas laborais espartilhadas por corporações. Não, que me desculpem. O que o Cristiano Ronaldo faz, tendo qualidade pessoal, é fácil. Difícil é preserverar como nós, andar a tolerar tudo aquilo que nos parece fundamentalmente errado, lançar garrafas para o oceano, sem saber se alguém as ler, lançar os nossos esoforços e dores no futuro sem saber se valerão de algo.

Difícil é ter uma profissão simples nesta sociedade 'cuidado onde pisas'. Fintar não: fintou, está passado, vitória, ponto. Há a satisfação logo ali. Nós... nós temos que adiar a satisfação demasiado tempo. E alguns não aguentam mesmo, essa mera promessa de alegria, face às pressões e dores do presente. Cedem.

Não, o que o Cristiano Ronaldo faz é cagativo. Jogar à bola é cagativo. Sendo bom, claro. Ter qualidade, potencial, e investí-lo numa profissão intelectualmente exigente, numa sociedade desconfiada e castradora, isso sim, é difícil. Fintar idiotas até eu consigo fazer. Ter o nosso ego, euto-estima, dependente de coisas muito menos imediatas é que custa. E eu não aceito a estupidez de um mundo, de um Portugal que não percebe puto de nada, que não percebe a diferença.

OPAsedelo

Todos vocês já viram, devido à crise recente, imagens das reuniões das assembleias do BCP. Há ali uma reunião solene de solenidades, de homens com ar monásticos, misturados com homens de inteligência muito reflectida, muito epicuristas, muito raposos. Há por ali muita conaissance, muita ironia, finura.

Tudo aquilo se junta num ambiente certamente difícil de se estar à vontade. Como que bacteriologicamente puro. Há ali uma guerra tácita de sensibilidades no píncaro, um jogo – exigente – de pormenores, e muito olho para o pormenor. Suponho que essa capacidade de jogar o jogo psicológico faz parte do que na banca se chama ‘trabalho duro’.

Pois bem, perante essa assépssia eu às vezes consigo ver além da porta que se vai fechar, de entre em breve. Depois do disparar dos flashes, das filmagens para a televisão, tudo sob o olhar vigilante de Paulo Teixeira Pinto, os jornalistas são informados que devem sair. ‘Meus senhores…’ – alguém dirá. ‘Por favor…’.

Mesmo antes que a porta se feche um deles acabou de beber água do seu copo. E, ainda com a mesa impecavelmente composta, poisa o copo, com receio que escorra uma gota, e que algum dos outros note. Se tivesse mais que um som abafado ao encontrar a mesa, seria ainda sumido pelo da porta, que se fechou naquele preciso instante.

“Porra. Tava a ver que os gajos nunca mais iam embora. António: bota aí a música, caraças.”, diz Paulo, em jeito de alívio.

“Falas bem, puto. Falas bem. Tenho aqui um granda som. Escuta isto.” António coloca um CD numa qualquer entrada, oculta à mesa, e clica no rato. Ao olhar concentrado segue-se um semi-sorriso.

Paulo reconhece de imediato a melodia. “Royalistic… Granda som, chaval. Deixa-me cá mas é desapertar a gravata, que isto está a asfixiar-me. E vou tirar estes óculos. Olhem lá, o que é que a gente tem que decidir hoje?”

“Acho que é aquela cena de expandir os balcões na Polónia.” Responde-lhe António.

“Ui. Não podemos decidir isso prá semana, Toni?”

“E pah, convinha ser já hoje, que depois os gajos dos económicos metem essa notícia ao lado dos nossos maus resultados do trimestre.”

“Pois é, tens razão. Então mas isso o deve ser ali o Zé e o Pipo Pinhal a decidir, não?” Paulo envia um olhar para os dois, que falavam, perto do móvel com a televisão, do outro lado da mesa, para onde se tinham levantado.

“Nem mais.”

“Ouviram?” Paulo chama-os ao fundo da sala. “O que é que vocês tão a fazer?”.

“Tamos aqui a começar o processo de decisão. Eu digo para expandir, mas o Pipo é contra. Só há uma maneira de tirar teimas: melhor de 3 jogos de PES.”, responde José.

“Ok, boa.”

“Shotgun no Messi!” grita de repente Filipe Pinhal.

“Fogo, Pipo. Ficas sempre com o gajo. Fica lá com o Cristiano desta vez.”, protesta José.

“Não. Shotgun é shotgun.” Não há grande prazer de vitória sequer em Filipe – aquela era a regra, e nada mais havia a dizer.

“Ok, pronto. Bora lá”, anui José.

Paulo ri-se, uma outra pessoa, agora sem os óculos ovais: “Estes gajos… Enfim. Viste-me ali a dardejar olhares para os gajos, Toni? Adoro fazer aquilo. Parece que sou o Ciclops, a mandar raios. É para manter tudo na ordem. Como quem diz [mão aponta para o espaço]: ‘hei – eu estou atento’”

“Brilhante, Paulo. Brilhante.”

“E pah… Mas que cheiro é este” interrompe Paulo de repente, transfigurando-se. “Alípio, és tu?”. Alípio é o único perto deles, naquele topo da mesa, e está comprometedoramente calado. “Não me faças essa cara de santo. Até parece que era aprimeira vez!” Alípio esboça uma pequena alteração facial, mas depois continua a jogar Minesweeper no seu PC.

“Olha pró Christopher.” Paulo voltou-se novamente para António. Olham agora os dois para Christopher, que dedilha o telemóvel. “Deve ser outra vez a namorada… Christopher! Deixa lá a gaja um segundo, meu. Fogo. Granda melga.” Paulo sorri. “Aquele gajo com as miúdas…” Christopher continuou, andando e teclando, até responder “Isso é só dor de cotovelo.”

“O que é que vocês estão aí a ver no PC?” Paulo dirige-se agora ao grupo de cinco administradores concentrados em frente a um dos écrans, em que suspiros, silêncios e pequenos risos se misturam de forma suspeita com os olhares fixos no écran – sem no entanto haver um silêncio que seja longo demais. Até que se riem todos, e desviam o olhar enfim. “Mete o outro, mete o outro”, alguém diz. “Não me encharquem o sistema de vírus, hã?!” avisa Paulo.

De repente, entra pela porta adentro João Baião. “Olha quem ele é. Tás bom João?”, é cumprimentado.

“Tudo na maior.” Responde efusivamente João Baião. “Vamos lá animar isto.” Veste um estranho fraque branco, brilhante.

De repente entra um macaco falso e uma série de bailarinas pela sala. Nenhum dos administradores estranha o facto.

João Baião tem na mão um microfone. Começa a cantar: “O Big Show está no ar…” Há uma música aos berros a que dançam todos.

“Ueh, ueh!”, gritam ritmadamente. “Venha cá.” João Baião dirige-se a alguém. Seria a mim? “Sim, você, pequeno accionista. Venha cá.” A cara de João Baião parece agora maior. “Não saia daí. Ainda não está a hora de ir à cada de banho mandar a sua mais-valia e a credibilidade da CMVM pelo cano abaixo. Não saia daí!”. “Ueh! Ueh!” gritam todos na sala agora diferente, toda branca e fortemente iluminada.

Acordo de repente. Que sonho estranho... Deve ter sido dos amendoins. Nunca se deve misturar amendoins com OPAs. Fica-me de lição.

sábado, setembro 06, 2008

The Web Revolution Continues

Não posso elogiar suficientemente a Google por ter criado o Chrome (que ainda não experimentei) e o divulgar em open-source. É certo que vai ganhar muitíssimo dinheiro com isso, e terá uma valorização bolsista estupenda. E depois? Absolutamente merecida, meus caros.

A Google aproveitou, ou forçou, se quisermos, uma altura de síntese, de redução, de eliminação da areia na engrenagem muito necessitada. Deixaram de haver motores de busca - passou a haver o Google. Criou o Gmail, o Google Earth, etc. Não só "limpou" toda a confusão que havia antes - a reduziu a uma fonte - como teve a estupenda capacidade de criar aplicações nunca antes vista, com um espírito "user-frindly" que não estupidificava - apenas simplificava. Havia respeito pelo utilizador. Havia um caminho totalmente oposto ao da agressividade Miscrosfotiana. Brilhante. Mil vezes os meus cumprimentos. Nunca esquecerei o meu espanto ao ver no Google, desde logo, um motor insuperavelmente eficaz, desde logo, mas também - tanto tempo para chegarem lá - com anúncios discretos. Elegante - suma tecnologia com sumo bom-senso.

Eis porque já não se diz "search the web", só "google it". Os meus parabéns à Google por manter vivo o espírito dos pioneiros da Web - e só podem agradecê-lo aqueles que sentem que foi a Web, antes de tudo o mais, a dar-lhes liberdade.

Tempera-Prandial

Antes de almoço, todo ele era iras, fúrias, rugidos e deveres. Tudo era motivo, tudo insatisfação. Tudo andava em torno do mesmo desrespeito constante - por si, de alguma forma. Antes de almoço, "o Inferno" eram "os outros". Aquilo que eles não faziam, o mero acto de existirem.

Depois de almoço, a voz era serena, já não rugido. Depois de almoço soltava-se a racionalidade, a erudição mesmo. Havia uma placidez de acordo com a idade, enfim. Uma antítese.

Antes de almoço ele era Antigo Testamento, depois de almoço era Novo Testamento. Era, no fundo, tempera-prandial.

sexta-feira, setembro 05, 2008

They Can't Take That Away From You IV: Zihuatanejo




Eis chegado o dia. Eis chegado o novo cheiro à Terra Prometida. Eis a viagem acabada. Bem-vindos a Zihuatanejo. Hope: They can't take that away from you.



terça-feira, agosto 26, 2008

Inspiração

Sem gente jovem não há inspiração. Precisamos uns dos outros, dos melhores, em competição, em partilha - à vez. Sem isso não há inspiração. E este país seco, desidratado da sua juventude - e a gerar velhos precoces -não pode queixar-se de perder a sua 'alma mater' criativa.

Antecipação da Sorte

E acabo por reparar como o Cristiano Ronaldo (sim, que esta sociedade portuguesa intoxica-se desse misto inveja/orgulho/desdém pelo seu campeão, e eu tenho que contrariar a coisa), tem, para compensar um mau arranque de época, uma redenção absolutamente fortuita.

Veja-se que na época passada, o seu mau começo foi compensado, na lotaria da Champions, com uma eliminatória contra o Sporting. Justamente o que o médico prescreveria: 'Cristiano, você tem que arranjar assim uns gajos com quem esteja mais que à vontade para os mandar abaixo e recuperar a auto-estima. Mas olhe - não se esqueça de lhes pedir desculpa pelos golos que marcar!'. São estes médicos que me lixam.

Este ano está-se mesmo a ver o que acontece: o Manchester quebra, o Ronaldo, mesmo que entre em força, provavelmente também, recebe críticas sobre ter pensado no Madrid (embora no caso dele as críticas sejam um bom estímulo), e depois de uns meses em decréscimo, surge a notícia que o vai levantar outra vez para o resto da época: ser considerado o melhor jogador do mundo.

Lucky bastard.

Moagem Especial - Lote Diavolo

Começo a perceber, nesta idade, as prioridades da minha vida. O meu "Paraíso" e o meu "Inferno". A nível profissional, o "Inferno" começa com mau café. O mau café - queimado, sem aroma, aguado, ou forte em excesso é a mãe de muitos males. Na verdade, o mau café é como uma blasfémia, um desrespeito absoluto. Uma falta de vergonha e atenção.

segunda-feira, agosto 25, 2008

Sexy É Desafio

Sem mulheres sexy não há homens inteligentes. Sem aquele arder inteligente nelas, não vale a pena o esforço da parte deles. Sem elas, há só homens, só mulheres. Sexy... não - sexy é inteligente. É um desafio. E a inteligência é mesmo para isso - suplantar desafios.

Morenas Fora de Horas

Parece que é quando não devem, no trabalho, em ocasiões formais, que me aparecem pela frente as mais irritante, desconcertantemente inebriantes morenas. Ao calor do Verão, há uma força magnético-parva a atrair. Parece um turbilhão inevitável. Se eu perder o equilíbrio por um minuto que seja serei colhido pelo redemoinho. É que justamente nessas alturas não dá, não pode ser, raios. É sempre fora de horas, que aparecem as mulheres de que gostamos. Sempre fora de horas.

Cultivar-se A Bordo do Titanic

Eu tenho um imenso prazer pela Cultura, pela leitura, viagens, curiosidade. Mas.. enfurece-me este sentimento de, face aos problemas actuais da sociedade em que me insiro, tudo isso parecer bizantinice, jogar às cartas enquanto o Titanic se afunda.

Maldita sociedade, que não se porta suficientemente bem para eu poder estar dela isolado, tranquilamente, a ler, a pensar, a escutar, a viajar.

Web Generation

Somos filhos dos anos 90. Eu, particularmente, aprecio a década, algum positivismo e idealismo tecnológico. Nada é melhor exemplo do 'salto em frente' que constituiu que o próprio PC, a partir do qual vocês lêem estas linhas. O PC foi, e continua a ser, uma revolução a todos os níveis. É a nau que nos permite explorar o oceano da web. Agora viajamos quando queremos, sozinhos. Antes, nas agruras de um país periférico e isolado, era bem diferente.

Nós fomos a geração que teve essa massa mágica nas mãos. Era só nossa. Os nossos pais nada sabiam desse mundo dos 'computadores'. Eramos nós que lhes escrevíamos documentos, cartas, enviávamos um mail - e assim justificávamos o próprio computador. O poder estava nas nossas mãos. Um dia a coisa começou a escapar-nos. De repente, eles já conseguiam fazer as coisas mais simples. E a própria evolução tecnológica os ajudou muitíssimo, mercê da sua deriva 'user-friendly', da estupidificação de tudo.

Até ao ponto em que o PC começou a ter elementos de estilo, de imagem, de apelo estético (vejam-se os Apple, por exemplo). Já tinha muito menos raciocínio, dificuldade, areia na engrenagem. Já era só reduto dos 'especialistas'. Nós só víamos o preço, a marca, o écran brilhante. Era um produto, já não uma paixão. E os adultos começaram a entrar por essa paixão adentro. Como se atreveram?...

A web foi dos melhores exemplos na história da Humanidade como a força da juventude, da novidade, consegue confundir - por completo - o mundo adulto. Esse é um exemplo que brilha a ouro na História.

Eu não trocava ter pertencido à geração pioneira da Web por nada. Gostei muito da minha plácida década de 90' também por causa dela. E nem era um grande especialista. Mas a minha curiosidade nunca teve limites. E agradeço à Web por me ter ajudado a libertá-la. Como uma vez ouvi dizer a Pacheco Pereira numa conferencia sobre blogs que me ficou na memória: a Web é a 'biblioteca da Humanidade' de que falava Jorge Luís Borges, fascinado. Tem tudo: do mais excelso ao mais bizarro, que produz a alma humana. Está cheia de partículas atómicas numa vida, como de lixo. A Web somos nós.

Surpresa Menos Que Desagradável

Sempre tive este vício de olhar para o chão ao andar. Não sei porquê, não me perguntem. Tenho dias especialmente... cabisbaixos, não sei ao certo se será uma consequência de humores. Mas dou comigo a fazer essa bissectriz para o chão, há uma linha transversal no meu olhar, para quem me visse de perfil.

Nada disso seria problemático - mais que estranho - se não fossem as mulheres (são sempre elas o problema). Ora, eis que, de súbito, pode aparecer uma mulher. E depois, dizem vocês? Pois é. É que, com uma mulher em estilo estival pela frente, a transversal já não visa o chão. De repente, estão os olhos sitos num decote. E o chimpazé todo contente, o intelectual envergonhadíssimo.

E como explicar que não é sacanice, enganar dizendo que não há qualquer desespero? Não há maneira. 'Aquele hoje, devia estar com vontade' (risos), pode dizer-se ao café. Mas não, não é bem isso, ou eu não estaria a olhar para o soalho com tanta paixão, noutras ocasiões. É um tique, de há muito tempo. E quando aparecem mulheres pela frente, parece outra coisa. Mas não vale a pena elaborar na questão. Quem sabe, às vezes, até possa ser uma surpresa um pouco menos que desagradável - para ambas as partes.

25 de Abril (Ao Quadrado)

Já alguém se apercebeu que é preciso fazer um 25 de Abril contra esta geração que está falicamente a ocupar tudo e a sugar todo o dinheiro da gente honesta? A geração do 25 de Abril, essa mesmo.

Não sei porquê, estou-me a lembrar do 'Animal Farm' do Orwell. Não sei porquê.

They Can't Take That Away From You III

Não, não me esqueci. Nem um dia me esqueço. Falta pouco mais de uma semana para estar aqui.



Nada Doce

Não tem problema - adoro na mesma. Pelo menos, não há perigo de ficar diabético.


Sometimes There's Nobody Left To Talk, And He's Always Around

Este senhor anda por aí à muito tempo. Não é que eu seja fã, não lhe tenho essa simpatia, mas reconheço a sedução. Dá para ter umas conversas interessantes. E anda tudo, todos, por intenção ou omissão, a puxar essas conversas. Uma chatice.

Pergunto-me se esta coisa dos euros tem afectado as almas. Às tantas, até ele se queixa da inflação.



Please allow me to introduce myself
I'm a man of wealth and taste
I've been around for long, long years
Stole many man's soul and faith

And I was 'round when Jesus Christ
Had his moment of doubt and pain
Made damn sure that Pilate
Washed his hands and sealed his fate

Pleased to meet you
Hope you guess my name
But what's puzzling you
Is the nature of my game

I stuck around St. Petersburg
When I saw it was a time for a change
Killed the Czar and his ministers
Anastasia screamed in vain

I rode a tank
Held a general's rank
When the blitzkrieg raged
And the bodies stank

Pleased to meet you
Hope you guess my name, oh yeah
Ah, what's puzzling you
Is the nature of my game, oh yeah
(woo woo, woo woo)

I watched with glee
While your kings and queens
Fought for ten decades
For the gods they made
(woo woo, woo woo)

I shouted out,
"Who killed the Kennedys?"
When after all
It was you and me
(who who, who who)

Let me please introduce myself
I'm a man of wealth and taste
And I laid traps for troubadours
Who get killed before they reached Bombay
(woo woo, who who)

Pleased to meet you
Hope you guessed my name, oh yeah
(who who)
But what's puzzling you
Is the nature of my game, oh yeah, get down, baby
(who who, who who)

Pleased to meet you
Hope you guessed my name, oh yeah
But what's confusing you
Is just the nature of my game
(woo woo, who who)

Just as every cop is a criminal
And all the sinners saints
As heads is tails
Just call me Lucifer
'Cause I'm in need of some restraint
(who who, who who)

So if you meet me
Have some courtesy
Have some sympathy, and some taste
(woo woo)
Use all your well-learned politesse
Or I'll lay your soul to waste, um yeah
(woo woo, woo woo)

Pleased to meet you
Hope you guessed my name, um yeah
(who who)
But what's puzzling you
Is the nature of my game, um mean it, get down
(woo woo, woo woo)

Woo, who
Oh yeah, get on down
Oh yeah
Oh yeah!
(woo woo)

Tell me baby, what's my name
Tell me honey, can ya guess my name
Tell me baby, what's my name
I tell you one time, you're to blame

Oh, who
woo, woo
Woo, who
Woo, woo
Woo, who, who
Woo, who, who
Oh, yeah

What's my name
Tell me, baby, what's my name
Tell me, sweetie, what's my name

Woo, who, who
Woo, who, who
Woo, who, who
Woo, who, who
Woo, who, who
Woo, who, who
Oh, yeah
Woo woo
Woo woo

quinta-feira, agosto 21, 2008

Bolero

Falta Bolero a este blog. É admirável a simplicidade com que Bolero transmite sensualidade pela música. Não por acaso, é considerada uma das melhores músicas para... sexo.

Mas aqui está em traje de gala, com Karajan e tudo. Favor respeitar, saborear.




quarta-feira, agosto 20, 2008

Cool It

Sensatez

Eu acho que as mulheres portuguesas são sensatas, razoáveis - é só de tempos a tempos que pedem aos homens o impossível. Só de tempos a tempos.

Falta de Comunicação

É como se os olhos deles dissessem que vêem demasiado à distância as raparigas, mulheres, que nunca conhecem - mas que desejam - e com isso justificassem o porquê de continuar a procurar, de trocar de parceira sucessivamente (ou de o querer fazer).

É como se nos olhos delas, que se comprometem, houvesse a dúvida, sobre se aquele é realmente melhor parceiro, o parceiro ideal, aquele a quem prestar uma fidelidade... inata. Que é coisa mais delas do que deles. E se, por acaso, depois encontra? E se, por acaso, depois se depara com a dor de perder essa inegualável felicidade a dois - na idade certa?

Falta de coragem ou desespero suficiente. Falta de comunicação.

The Real Deal

Será este?

terça-feira, agosto 19, 2008

Eclipse Eclesiástico

Será que alguém ainda nota o total eclipse da Igreja em Portugal. Não pretendo tomar parte. Mas alguém repara como, de súbito, terminou - pura e simplesmente - de ter qualquer poder sobre a sociedade. Parece que só o F do futebol é eterno.

(Fora da televisão, fora do coração.)

Antecipar a Rentrée 9

Quanto tempo demorará o anunciado novo jornal generalista de Martim Avillez Figueiredo a ver a luz do dia (até que enfim!).

Antecipar a Rentrée 8

Quais as manifestações que vão surgir - cedinho, cedinho - e por que razão?

Antecipar a Rentrée 7

Quão insuportável será a carga publicitária do novo programa dos Gato Fedorento, e que nova solução encontrarão para as críticas de exaustão de um estilo, agora somente mais plastificado, 'à la SIC'?

Antecipar a Rentrée 6

Quanto tempo levará José Mourinho a arranjar um inimigo de estimação em Itália - do género que nunca até agora teve?

Antecipar a Rentrée 5

Quantas declarações progressivas, em escala, fará Manuela Ferreira Leite a partir de Setembro? E qual o estilo - mais ou menos agressivo - que lhe reserva Sócrates?

Antecipar a Rentrée 4

Quanto tempo será necessário para o sub-rendimento de Ronaldo no início de época do Manchester United ser abertamente criticado?

Antecipar a Rentrée 3

O primeiro 'Prós e Contras' será sobre o falhanço dos olímpicos portugueses ou sobre o clima de insegurança nacional?

Antecipar a Rentrée 2

Quanta chuva de críticas será precisa para Jesualdo Ferreira perder todo o estado de graça?

Antecipar a Rentrée 1

Quais serão as coisas fantásticas que se seguem?


segunda-feira, agosto 18, 2008

Femina/Ego

Continuo a gostar de livros, e noto-me perfeitamente a embrutecer por não ler o mínimo. Culpa, desde logo, dos facínoras do grafismo do Público (não - ainda não desisti). Bastardos.

Mas, desde logo, gostar de livros é uma condição importante para se gostar de mulheres. Bilhar grande? Não - sigam este raciocínio.

Ora, se só pode amar a leitura quem sente prazer intelectual, temos que considerar inteligentes as pessoas dotadas dessa capacidade. Todos até aqui? Ok. Continua: se são pessoas inteligentes as que lêem livros, a sua curiosidade quanto ao sexo oposto (e só vou considerar aqueles que, lendo livros, preferem o sexo oposto), logicamente, recai também em pessoas inteligentes. É que a inteligência, e o prazer intelectual têm um problema simples: a impaciência - para com a estupidez.

Inteligência busca inteligência. E, pergunto eu, que homem que se diga gostar verdadeiramente de mulheres não as diz inteligentes? Não, estão enganados. Esses não gostam de mulheres - gostam de corpos, do prazer sensual - necessariamente transitório. Esses têm um desassossego sexual constante, não chegam quase a saborear. Homem que ama mulheres - como pessoas - ama mulheres inteligentes. O que é difícil, claro. É muito mais fácil a estupidez. Mas isso não é amar mulheres - é amor-próprio.

Estão muito melhor servidas de homens as mulheres cujos companheiros têm prazer de inteligência - e que a estimulam. E é por isso que eu, para além do puro amor ao livro, não posso deixar de ler - na esperança que elas se apercebam desse facto.

domingo, agosto 17, 2008

Séc. XXI

A crise na Geórgia demonstrou a absoluta inocuidade da União Europeia, que já vinha da guerra no Kosovo.

Subitamente, todos fazem contas de cabeça: quantas são as superpotências deste mundo, séc. XXI? EUA (por quanto tempo mais não se sabe), Rússia e China.

Eu diria que é fazer figas para que Rússia e China não se encontrem nos seus interesses, que tenham suspeita epidérmica de parte a parte. Porque... enquanto os 'two wrongs' fizerem 'one right' não há problema maior. Alguém mediará a coisa de maneira sensata.

Mas a China é diferente da Rússia: o seu modelo proto-capitalista faz com que a noção de trocas comerciais e interdependência com o mundo a limitem. Agora a Rússia, mercê do maldito petróleo, continua isolada para o que quiser e bem lhe apetecer.

Eis como a busca de uma solução alternativa para o petróleo será, por tantas razões, o Graal do séx. XXI. Não pode deixar de ser de outra maneira.

sábado, agosto 16, 2008

Urbanização

Um fenómeno que muito me impressiona é o da 'lisboetização' das pessoas, gente jovem, do Campo, que vão para a urbe. De repente, começam com todos os tiques de manter a distância, não dar confianças, ter a vida ocupada, agendada ao segundo. Que tristeza...

Gente que antes era verdadeira e simples fica postiça, lisboeta. Porque em Lisboa ninguém nos dá margem de manobra, ninguém dá benefício da dúvida. Com o tempo, começamos também nós a não dar aos outros. Mas, caramba... fora da urbe poder-se-ia desbobinar essa postura - não?

Enfim - tiques de ex-capital de Império. Como se mantivesse um Império por mero truque mental. Quem saiba - talvez resulte.

Sacana do Velho

É claro que me incomodam gajos novos a cobiçar as mesmas miúdas giras que eu. Mas isso... que lhe fazer? É a natureza das coisas. It's a free market out there - elas é que escolhem. Agora, homens mais velhos a babarem-se por raparigas, a lerem concentrados as suas fotos nas revistas... caramba! Get a life. Ou então reconheçam que já a tiveram.

Deve ser por isso que cada vez se ouve menos 'O sr. X é muito simpático' para ouvir antes 'sacana do velho...'.

terça-feira, agosto 12, 2008

Non Mollare Mai: Descobertas

A desta revista "The Scientist", subtitulada "magazine of the life sciences". Mês de Junho, Darwin na capa e um prometedor 'Evolution's real problem'. Boa pescaria.

S.O.S. Music

A música pode salvar uma alma. Mas é preciso acreditar nela. "Are you going to Scarborough Fair?", Simon e Garfunkel, banda sonora do "The Graduate". Eu sei que já não há tempo para músicas assim, para filmes assim. Pois bem - façam tempo.


Apolítico

Que não se intua pelo último post, poema de Vasco Graça Moura, qualquer inclinação política da minha parte. Cada vez sou menos '-ista' de quem quer que seja. Cavaco foi Cavaco, e tem o seu dever cumprido. Talvez mesmo este Cavaco já não o reconheça aquele que elegia como líder Vasco Graça Moura.

O poema está aí por eu o ter encontrado depois de ler uma menção a ele no blog de Pedro Mexia, Estado Civil.