sexta-feira, novembro 14, 2008

Let's Go, Baby! Let's Go!

Voltemos à atracção. Do lucro. E de tudo o resto.


Sessão de ontem em Wall Street.



Sessão de ontem.*

Poderá haver alguma especulação nisto que vos apresento. Mas a especulação é mesmo assim. Não é uma certeza.

*Irina Sheik: excelsa foto vilmente roubada ao ''E Deus Criou A Mulher" - um blog fundamental.

Geração Faroeste

A propósito dos alunos de uma escola que receberam com ovos a ministra da Educação, dou comigo a pensar como se poderia baptizar esta geração... É que a "geração rasca", que precedeu a minha, tinha um elemento de comparação que a desfavorecia. Uma qualquer concepção juvenil (salazarista) de juventude, de gentil-juventude, com gosto por cultura, suponho.

Veio então a "geração rasca" abrir terreno, depois a minha - talvez mais certinha, em ligeira "correcção" - e seguiram-se cerca de duas gerações... insípidas. Alheias ao impostante. Imersas no fútil. Vazias. Passando de SMS pela vida. Sem referências, para além do Ronaldo. Cresceram sem limites.

Mas dou comigo a pensar que esta geração nasceu numa era que tecnologiamente potencia e multiplica a obscenidade da... estupidez.

E tenho como única explicação, naturalmente, o próprio país. Esta geração nasceu num Portugal onde não existem regras. E, sobretudo, onde não existe castigo.

Assim, pois, nunca se sentiu limitada. Se quem faz crimes não é castigado - porque é que eles haviam de ser. Se não há temor, não vergonha. Se não há vergonha, tudo é permitido. Quem diz coisas estúpidas, não tem vergonha nisso. Quem faz coisas estúpidas não tem vergonha nisso.

Esta geração é um subproduto do seu tempo. Nasceu num país sem regras, e sem contornos. Não acredita na lei - na escrita e na não-escrita. Nasceu no Portugal do Faroeste. É uma geração de Faroeste.

terça-feira, novembro 11, 2008

Em Sede

Um dos melhores requintes do jargão da advocacia é o 'em sede de...'. Tudo tem uma sede. Era interessante elaborar sobre isto. Mas agora não tenho tempo. Tenho que ir jantar - em sede de refeição (i.e., a cozinha).

As Linhas

Todos os dias se anuncia 'linhas de crédito' para as PME. Aquilo aparece por todo o lado.

'É um Big Mac, um Cheeseburger e uma linha de crédito, s.f.f.. Ah - e um pacote de batatas médio.'

'Então mas queres ir dar uma volta? Tenho uma bela linha de crédito só para nós, sabes...?'

'Viste o Sporting ontem pá? Não há direito. Pior que os árbitos são os fiscais de linha de crédito, pá. Impressionante.'

'Mas não vais à festa?' 'É que não tenho nenhuma linha de crédito para levar...'

Agora a sério, se anda a sair disso quentinho todos os dias, eu precisava de uma. Honestamente. Eu sou uma PME - este blog tem os seus custos. Mereço alguma consideração.

Kein(e)... Deutsch(e)!

Teste de Alemão (tão incipientezinho...) esta semana. Mas já dá para fazer piadola. E em vez de dizer: 'kein Deutsch' (nenhum Alemão, i.e., 'não falo Alemão'), que era o que eu deveria dizer, faço o trocadilho para me queixar de não me calhar 'keine Deutsche': nenhuma alemã!

Acho que não estou ainda a dar pontapés à língua - mas nunca se sabe. É tão bonito fazer piadas foleiras noutra língua.

Isto às tantas precisava de umas explicaçõezitas para o teste... Hum...




Lehrerinnnen! (Professoras!).

Não - não é só a BMW... Pois não.

Como é que se diz 'tardo-adolescente' em alemão...? Sei lá. Porquê?

segunda-feira, novembro 10, 2008

Mutt Like Me

É muito difícil, realmente, não ter uma profunda simpatia por Obama. Eu permaneço algo céptico no domínio das políticas, mas, como escreveu o Pedro Mexia no seu blog, espero poder defendê-lo, com alguma coerência, quando mais tarde angariar 'desiludidos'.

Mas esta frase, acerca do próximo cão para a Casa Branca (também conhecido como 'First Dog'), dever ser um rafeiro, porque, diz Obama, também ele é, de alguma maneira, um 'mutt' (pela mistura rácia, de continentes, de mundos sociais, e pela ascenção 'inusitada' ao topo) - tenho que me rir dela. Tenho que me rir com ele.

Eu, que também gosto de rafeiros, que também tenho um bocado desse desassossego de rafeiro, que também gosto da mistura, tenho que me rir com ele. Porque eu sou um 'rafeiro intelectual', ou omnívoro intelectual, sei bem da natureza da coisa, e tenho que me rir.

Rafeiro - no sentido rácico - não tem porque ser pejorativo. Só o é para pessoas com deslumbre por quimeras de natureza humana. Um rafeiro é muito mais malandreco, muito mais sabidão, e muito mais desenrrascado. Não é como esses cães de boa linhagem, que ficam zangados por qualquer elemento fora do sítio no seu mundo.

Melhor ser rafeiro feliz que ser pedigree agrilhoado.

Sistema Nervoso (Demasiado) Simpático II

O segundo problema de um sistema nervoso demasiado simpático, é já não o de ser simpático e sofrer com o mundo. Mas de ser demasiado simpático com os outros.

Acontece que acolhe demasiado os problemas, limitações, as circunstâncias dos outros. Sofre com o que não tem que sofrer, interioriza o que não deve interiorizar.

E não deve, simplesmente, porque o sistema nervoso alheio é parassimpático, isto é, está além dessa ingénua simpatia. Como tal, não tem em consideração as mesmas cortesias, não permite a mesma margem de manobra nos julgamentos de nós que faz. A nossa gentileza raia o servilismo, e a falta de resposta do outro lado raia a ofensa intolerável.

Não restam dúvidas da pequena maldição que é ter um sistema nervoso (demasiado) simpático. A maior parte safa-se bem com as regras do seu, parassimpático. Talvez seja possível, nesta era de evolução científica, fazer a conversão. Talvez a isso sejamos - inevitavelmente - obrigados.

sexta-feira, novembro 07, 2008

Sistema Nervoso (Demasiado) Simpático I

Eu não tenho acções na bolsa, mas sofro com as suas descidas. Eu não estou 'inserido' laboralmente, mas preocupa-me o mercado laboral. Eu não trabalho nas empresas dos outros, mas gostava muito que andassem bem, sobrevivessem, melhorassem. Eu ainda não ganhei um tostão, mas estou atento a quanto se recebe, e onde se gasta.

Eu não sou americano, mas vivi as eleições americanas, desde há muitos dias antes da vitória final. Se necessário, nem gasto gasolina - mas sofro com os preços do petróleo. Eu não cometi nenhum crime. Mas sofro com o facto de serem cometidos.

Eu não tenho nada a ganhar com a política, mas preocupa-me que seja tomada por oportunistas. Eu (quase) não pago impostos, mas sofro pelas pessoas que pagam. E pelo seu dinheiro - conquistado a custo, com esforço, tempo, às vezes mesmo saúde, embolsado por ladrões em estruturas, de fato.

É este o problema de querer sentir o mundo a todo o momento. É este o problema de ter um sistema nervoso simpático, demasiada e penosamente simpático - para com o mundo.

Deficíl

A propósito do último 'Zé Carlos', dos Gato Fedorento, há uma parte da 'entrevista' a Manuela Ferreira Leite, em que ele faz notar o 'piqueno' dela em vez do mais comum 'pequeno'.

É que eu já andava para aqui publicar a constatação das minhas origens sociais, realmente, pouco presumidas. É que eu digo 'pequeno' em vez de 'piqueno'. E 'difícil' em vez de 'deficíl'.

quinta-feira, novembro 06, 2008

Momentos 6

António olhava para Graciete, e Graciete olhava para António. Não sabiam como explicar o facto de terem desaparecido todos os filhoses que estavam naquele tabuleiro, sobre a mesa da cozinha. E o barulho do ‘Migas’, o seu gato, dormindo a sono solto com o ventre dilatado, ali perto, não ajudava à sua concentração.

Não foi senão daí a alguns minutos que tudo se conjugou nas suas mentes.

Momentos 5

Tinham ambos ficado com aquela estranha sensação do ‘eu conheço aquela cara de algum lado’. Tomando alguns segundos para a dúvida continuaram, porém, os seus assuntos. Curiosamente, tanto Dr. Jekill como Mr. Hyde detestavam essa irritante impressão. Tinham essa característica em comum.

Momentos 4

Naquele corredor vivia-se um ‘stand-off’ à maneira do Velho Oeste. De um lado o Dr. Antunes, do outro o Dr. Lopes. Longo o corredor, e vazio, disputariam janelas, fotocopiadoras, cactos. Olhariam para os papeís que tinham em mao mais que uma vez. Em desespero, até para o relógio. Perderia o desafio aquele que que olhasse o outro primeiro. Que nao aguentasse, e primeiro deixasse escapar o ‘tudo bem?’. Dependendo da distância do disparo, poderia ser fatal – se o outro nao respondesse. Era preciso manter a calma até ao ponto certo. Era duro aquele corredor, e já haviam perecido vários em frente àquela máquina de água. Era duro aquele corredor.

Momentos 3

‘- O que é que estão estes cérebros em cima da mesa a fazer? E aqueles membros dispersos?! Foi assim que eu te eduquei? Olha para essa bata toda suja! Parece que vives nas barracas! E aqueles projectos, aqueles papéis? Quero tudo aquilo arrumado antes de jantar! Que pocilga, este laboratório. Parece que só estás bem entre a confusão! O que é que estás a fazer? Um monstro? E já foste aos Correios como te tinha pedido? Não fazes nada de útil!... Olha para esta desarrumação.’

Por sorte, o criador do Frankenstein não teve uma mãe portuguesa. Ou o desespero tê-lo-ia impedido de completar a sua criação.

Momentos 2

Ela era uma senhora à maneira antiga. Tomava chá, nunca café. Lia, e não incorria em televisão. Levantava-se cedo, e deitava-se cedo também. Achava ‘horrível’ muita coisa, criticava o mundo com a sua empregada. Gostava de ter os cristais bem dispostos na prateleira. E achava que se aprendia ‘imenso’ com as crónicas do Arq. Saraiva na Tabu.

A Bitola

Estava a pensar como gosto de mandar os meus ‘bitaites’ sobre Economia, embora saiba que – pela talvez pequena razão de ignorar quase tudo dessa Ciência – não me deveria pronunciar.

Mas, quer dizer... isso não impede o António Peres Metello, pois não?

Frei Tomás

Facto curioso esse, de em Portugal termos alguns belos espécimes de liberal que é professor universitário a soldo do contribuinte numa universidade pública. Facto curioso, deveras. Nada tenho contra os liberais, reparem: só contra a incoerência.

Higiénico, Vivaz e Ecuménico, Mas... O Sonhador Certo?

Como disse num post anterior, Obama é um presidente higiénico, vivaz e ecuménico.

Não pretendo - e apesar do poema anterior - que me rotulem de 'obamista'. Demasiado cauteloso, permaneço no 'wait and see'.

E, por isso, vou desde já lançar-vos uma primeira questão. É lícito que se considere o 'sonho americano' chegar à Casa Branca? Ou o sonho americano é, antes, de realização pessoal, em termos de riqueza, de performance, de deixar nome, de ser lembrado? De ser milionário, cientista famoso, médico, etc.?

É que um posto de chefia como 'sonho' é algo de ligeiramente diferente. Mesmo na representação do povo.

quarta-feira, novembro 05, 2008

Game Over, New Deal

E pronto. 'Game over, Bush.'

Vitória de Obama que entusiasma o mundo. Que faz 'tabula rasa' - de tal forma é o oposto de Bush (negro - ou mestiço, se preferirem - multi-racial, com um QI assinalável, passou pelo 'mundo de baixo', e tem origens africanas - e mesmo islâmicas). Dois pólos.

A mudança é tao grande que, naturalmente, só pode, como dizia Nuno Rogeiro, por o conta-quilómetros do táxi 'bode expiatório' a zeros. E acaba um período. Uma era de vazio, ao contrário do que tantos pensavam.

Antes de mais, uma era de vazio de valores:


[1]. A legitimidade de um líder.

Decorre da primeira figura de uma naçao, de um sociedade, que tenha legitimidade para a governar. Antes de mais, legitimidade democrática, é certo. Mas também legitimidade pessoal. Por exemplo, não convém a um preguiçoso defender as virtudes do trabalho. Da mesma forma, alguém que manda uma geração para a guerra deveria, no mínimo talvez, não se ter escusado a um guerra que tivesse tocado à sua geração. Como fez Bush. Num mundo correcto, teria sido McCain a liderar a guerra no Iraque - cujos frutos ainda é cedo para apurar - porque poucos políticos teriam a sua legitimidade. Mas eu ainda me lembro da minha estupefacção ao ver McCain, um herói com todas as letras, preterido em 2000 por um homem algo estranho, com pouco brilho, de um país onde a inteligência, naquela altura, pelo progresso científico avassalador (na Biologia, sobretudo, estávamos ainda a sair da revolução na Genética), impressionava. Quer dizer, para nós que estávamos à espera da universidade nada havia no mundo como o meio universitário americano. Era ali que o magma fluía. E, no entanto, surgia aquele homem, de uma simplicidade nem sequer inteiramente genuína. Quase um menino folgazão, que, no caso português, teria pertencido à Associação de Estudantes, praxado e bebido Super Bock ao pequeno-almoço, depois se aninhando nas empresas do pai, para agora ir liderar o país. E falam eles do Santana Lopes.

Mais tarde eu daria algum crédito a Bush. E a História pode com ele ser muito mais benevolente que aquilo que nós somos, agora. A invasão do Iraque, malgrado outras motivações, pode criar um tampão muito importante na região. Como dizia o Pacheco Pereira, essa devia ter sido a motivação desde o primeiro momento.

E, não só Bush valia mais que aquilo que eu cria (embora eu nunca tenha sido fã dele, já naquele então, em 2000, eu apreciava McCain particularmente, houve outra coisa que com ele se tornou mais óbvio: é que o presidente, a figura cimeira é muitas vezes meramente instrumental. Eu pensava, na minha ignorância, que tinha que ser uma grande pessoa. Ainda mais numa grande nação, como a americana. Mas... afinal não era assim. Havia uma série de gente a pensar a vida da sociedade, ideólogos, 'think tanks', etc., pelo que o presidente era mais um pormenor - era instrumento de uma ideologia.

E tudo fazia, enfim, algum sentido. Bush não tinha estatura pessoal para líder. Mas talvez, então, ele estivesse ali como veículo de uma ideologia - conservadora, ou neo-conservadora, se quiserem. Havia algo maior que ele. Um país, uma sociedade, uma política. E isso jogava bem com o facto de ele, para um líder, não ser particularmente orgulhoso ou egocêntrico, mas até acessível.

Era essa então a legitimidade de Bush - impossível a legitimidade pessoal - a de um 'projecto' maior que ele. Mas até essa legitimidade, até esse conjunto de valores iria por água abaixo.


[2]. A legitimidade de um visão política.

Veio a crise financeira no final do seu mandato. Pela cartilha liberal que o tinha guiado antes, Bush teria que ter deixado os bancos falir. Era duro, mas era assim. E as regras são mesmo para cumprir - à maneira 'hard' conservadora. Mas... não foi isso que aconteceu. As circunstâncias impuseram-se aos valores, tudo mudou. Os empresário que tivessem falido antes já não sentiam que viviam num mundo duro, mas justo. Era duro para alguns, e nada mais.

Eis assim como, nunca alcançada a primeira legitimidade, por este pormenor maldito, no final do seu mandato, Bush perdeu essa 'segunda' legitimidade também. E é por isso que hoje sai um homem vergado pelos eventos.


[3]. A legitimidade de uma nação.

Há, no entanto, ainda uma outra, uma 3ª legitimidade que Bush comprometeu: a do seu país como paladino da Civilização Ocidental. Embora seja difícil conter as reacções ao 11 de Setembro, que foi algo sem precedentes, ou mesmo controlar aspectos humanos da guerra, em que todos os demónios se soltam, aquilo que aconteceu em Abu Grahib e Guantánamo, não só colidiu com o sistema de valores ocidental, americano. Não só retira legitimidade ao país em posições de princípio futuras. Mas também, de forma preocupante, pode colocar em perigo soldados americanos em situações futuras. Foi algo da mais extrema gravidade, portanto.

[***]

Apesar de tudo isto, e digam o que disserem, é cedo para julgar correctamente Bush. Ele governou por anos sem precedente. Enfrentou realidades muito complicadas. Falta perceber o seu legado - Voltará a prosperidade do seu tempo? Haverá um dia um Iraque diferente, nação democrática, emancipando toda a região?

Mas agora é o tempo da mudança de tom, com Obama. Há indicações positivas, mas também grandes - grandes - dúvidas. É refrescante, mas o mundo aí anda perigoso. E complicado.

Obama aparece como higiénico, vivaz e ecuménico. Esperemos que tudo lhe corra bem.

segunda-feira, novembro 03, 2008

O Inverno

Não é Inverno, realmente, até termos nas mãos, a perfurmar-nos por completo, o cheiro intenso a laranjas. É aquele fruto que não se prova num instante, mas que antes se saboreia toda a manhã.

domingo, novembro 02, 2008

Avante, Camarada!

Curioso o à-vontade de Jerónimo de Sousa em ultrapassar a fila das outras pessoas que iam ver a estreia de 'Ensaio Sobre a Cegueira' de Saramago, apanhado no CQC.

Bem lhe disse, com a arte de colher o momento, José Pedro Vasconcelos: 'Avante, camarada, avante!'.

Brilhante

Palmas para o melhor comentador da televisão portuguesa. Porque nao acompanho os jornais e a rádio devidamente, hesito em lhe extender a honra. Palmas para a osmose entre a 'inside information' e o 'mainstream'. Na Economia, e na Política.

Palmas para Ricardo Costa, director da Sic Notícias. 'Bang on target' em practicamente tudo o que lhe oiço. Cortante, e sem meias-tintas com ninguém.

Brilhante é a palavra, sejamos generosos. Brilhante.

Santana Lopes: O Comeback Kid

Não é que eu aprecie tudo em Santana Lopes. De todo. Mas estava a rever uma entrevista dele a uma revista Kapa, quando era secretário de Estado. E já entao toda a gente era cortante com ele. Mal-educada, agressiva. A testar os limites... E ele nunca dobrava, nunca dobrou. Nunca lhe deram o respeito mínimo, e ele continuou. Uma resistência que os desafiou, os desafia a todos.

Toda a gente sempre teve um diabinho para despejar nele. Desde cedo tomado como bode expiatório, como bobo da corte. E sempre a voltar, para a estupefacçao deles. É o 'comeback kid'.

E eu, claro, tenho que elogiar isso. Mesmo que como político nao realize, eu elogio isso. Eu percebo isso, caramba. Eu percebo isso muito bem.

Mestre Cardoso

Eu tenho um simpatia especial por Miguel Esteves Cardoso, aka MEC. Porque eu sempre tive esse respeito pela criatividade. E pela inteligência. Deve ter sido um gajo porreiro, o MEC, nos seus tempos.

Leio a entrevista que deu à Sábado. Caramba. Até com os seus excessos simpatizo. Ou com a sua honestidade ao falar deles, talvez mais. Mesmo que nao o acompanhe em todos. Mas tenho os meus. A verdade é sempre um valor, porque custa. E se nao cutasse nao seria um valor. A mentira é a regra, a norma. Muito raramente é a mentira um valor - na excepção de proteger alguém ou algo, pouco mais. Regra geral, é usada para auto-protecçao, e por isso nada vale. A verdade, em oposiçao, nem a nós próprios poupa.

E depois tem frases que eu próprio disse na minha vida. Do nada. Temo bem que a vida possa dar voltas e eu as nao possa cumprir - mas eu disse-as um dia, sim. Disse algo como: 'Eu acredito que há pessoas que sao felizes com pouco. Um pescador com o seu barco de pesca, numa ilha, com a sua família, pode ser feliz, nao precisa de um Cadillac. (...) Agora sou pobre, vivo com pouco.' Ou isto, que se o nao disse ainda, certamente que digo, e penso, que fui, sou ou serei: 'Ganhei muito dinheiro, mas também gastava muito (...) Portanto, nao tinha mais dinheiro do que agora. Quanto mais precisas para viver, mais tens que trabalhar e menos tempo tens para ti. O maior dos luxos é o tempo. O tempo é o meu maior património.' Nem mais.

E depois acaba a entrevista afirmando: 'Eu já fiz o que tinha a fazer. Em novo tinha o máximo de graça que pude. Fiz programas de rádio, um jornal, uma revista, teatro, publicidade, televisão. Hoje tenho 53 anos e uma ansiedade quase adolescente de entrar na idade sábia. Estou como se tivesse entrado na 4ª classe da velhice. A minha ambiçao é ser um sábio e de facto eu sou um gajo que sabe. Quero chegar aos 75 anos e saber tudo. Continuo a brincar, a brincadeira não tem idade. Mas agora quero brincar com coisas mais sérias.'

E eu, que tanto tempo procurei pessoas sábias, que tinha a maturidade de as reconhecer, sem ter avistado muitos desses 'portugueses sábios' na minha formaçao (puro azar, realmente), tenho que conceder a MEC, pela sua obra, e criatividade, esse título.

Que tenha uma longa, sadia e feliz vida, mestre Cardoso.

Pasticchi...

Uma coisa curiosa de uma certa 'italianofilia' é a de ver a nossa televisão inundada por 'pastiche' da tv italiana. Do 'Porta a Porta' de Bruno Vespa nasceu o 'Prós e Contras', do 'I Migliori Anni' de Carlo Conti se fez o 'A Minha Geração', com a irritante Furtado, e, agora, o 'Le Iene' da Tv5 foi convertido no CQC (Caia Quem Caia) da TVI. Este último, incidentalmente, até pode ter pernas para andar - é uma muito melhor cópia (até eu já havia pensado numa cópia lusa desse programa), e eu acho que o José Pedro Vasconcelos tem talento bem superior à média do 'milieu' (é tao bonito saber usar estrangeirismos).

Por o Carrasco em Carrascao

Ele há cadeiras de universidade, sobretudo aquelas à base de cálculos, com que nao é saudável ficar a cismar. Sao assim como o vinho tinto: nao se deve deixar uma pessoa sozinha com aquilo. Tantas vezes, porém, sao justamente aquelas que nos interessa mais dar por terminadas. Poem assim o 'carrasco' académico, no vinho barato, 'carrascao' que sao.

quinta-feira, outubro 30, 2008

Dois Jarros de Tinto

Ele há desportos radicais e desportos radicais. O meu, ontem, foi, na matança do porco, trabalhar normalmente a centímetros da chama - para chamuscar o animal - do senhor que, se bem que seguramente experimentadíssimo, não pode deixar de causar uma pequena dúvida, ao dizer que consumiu 'dois jarros de tinto' ao pequeno-almoço.

Viver perigosamente (na charneca) - eis o meu lema.

O Fiscal de Linha

Por vezes, quando estou bem disposto, e bem com toda a gente, acontece-me deparar, para infelicidade pessoal, com um fiscal de linha.

Explico. Quando bem disposto, gosto de conversar. Mesmo com desconhecidos. E tenho a grande vantagem pessoal de, creio para mim, tratar toda a gente por igual. Mas por vezes, envolto nesse prazer, começo a falar com alguém que não deixa a conversa correr, a bloqueia, a deixa cair do seu lado. E eu volto a tentar, e esse alguém volta boicotar a ponte. São casos raros, emocionalmente amorfos - mas acontecem.

Ontem aconteceu-me justamente isso, num qualquer café, de uma qualquer cidade portuguesa. A senhora alentejana que me servira o bolo, simplesmente, estava-se a borrifar pela minha curiosidade e interesse nas tradições da sua região. Eu discorria sobre as ervas - de aplicação insuperável no Alentejo - e ela nem poejo nem hortelã. Eu recordava a sopa de cação - engenho supremo! - que nem cação continha, mas ela não me dispensava peixe, sopa, ou resposta. Lá comi com uma amiga a fatia de bolo, ela a aperceber-se daquela... perfeita má-educação.

A dita senhora agiu assim como um fiscal de linha: cortou todo o entusiasmo. Eu estava feliz, a celebrar um golo (ou um bolo) e ela disse que não. Eu estava de bem, e ela indicou falta - de esperteza. Eu nem estava fora-de-jogo, mas ela arrefeceu todo o encontro. O remate era belíssimo, pleno de técnica (quantas pessoas da minha idade falam assim de culinária alentejana?), mas ela mantinha a bandeira hirta - eu nem devia sequer ter rematado. A beleza do remate, a minha felicidade e a das bancadas era-lhe indiferente. Havia as regras do jogo, e as regras de não incomodar as outras pessoas.

São pessoas como estas que fazem condenar tratarmos todos de igual forma. De não deixarmos de fora pessoas, de não nos rirmos, com quem não faça parte do nosso círculo.

Curiosamente - e como que por arte divina - vem ficar ao meu lado no balcão um personagem pseudo-famoso, pseudo-político, e pseudo-comentador, que pontifica na nossa pseudo-televisão. E não é que a mesma senhora, tão refractária comigo, se abriu em mimos? E não é que, de súbito, havia vontade de charlar nela?

Há pessoas que só se regem pela 'realpolitik' da vida. Pela hierarquia, pelo primário, pela lei do mais forte. Eu nunca fiz isso. Não foi a minha escola.

Uma escola de tolos neste mundo real, alguns dirão. E com razão. Mas foi a minha. E vai ser preciso mais que esta senhora para a esquecer. Já nem é ingenuidade ou romantismo - é tão somente teimosia.

O Fantasma da Guerra Colonial

Os fantasmas nunca abandonam as pessoas. Ou os povos. Por vezes, no Campo, onde as coisas demoram mais a morrer, e no Inverno, quando as coisas passadas são revisitadas, encontro nalguma pessoa o fantasma da Guerra Colonial. Persiste ainda nos espíritos. Está lá, como um marco a fogo, um acidente de uma vida, uma memória à noite, uma legitimidade sob um orgulho, ou uma arrogância, que não se compreende bem.

Esse fantasma persiste. Está por aí, algures. Perto de cada um de nós. O espectro de uma guerra assombra uma vida - por vezes mais que uma vida. Assombra uma geração - por vezes mais que uma geração.

Verdade vs. Privacidade

Um pormenor preocupante em algumas pessoas, a partir de certa idade é um certo desleixo da consciência do privado nos outros. Passam a ficar mais cínicas - tudo em sua frente pode ser lido pelo pior que há na espécie humana. Todas as motivações são miseráveis. Tudo é explicável pelo sexo, pelo dinheiro, pela preguiça, pela escusa à responsabilidade, pelo interesse, pela pulsão maldita em qualquer forma.

Um subproduto dessa absoluta falta de fé no ser humano - tantas vezes por oposição à própria juventude dessa pessoa, generosa - é o facto de cortar a talhe de foice pela 'persona' daqueles que conhece.

Assim, deixa de proteger essas pessoas. Já não preserva alguns pormenores íntimos, que antes nunca abordaria. Já não é só do familiar menos próximo, mas do amigo ou amiga, do merceeiro, de quem se acabou de conhecer. Por uma presunção de verdade. Expõem todos, desnudam-nos perante a opinião alheia.

Eu nada tenho contra a verdade, na vida. Pelo contrário, é talvez aquilo que eu mais aprecio. Mas há uma diferença - abismal - entre a exposição da verdade e a exposição da pessoa. A verdade sobre alguém não tem porque incluir os factos que sejam do foro privado. E eu, pela minha parte, não admito pessoas que comprometam a minha privacidade. Da mesma forma que farei um voto de silêncio em relação à privacidade de outrém.

O que nunca faltou em nenhuma sociedade foram coiotes arfando pelos pecados dos outros. Para esse prazer miserável de 'desmontar' quem quer que seja. Para reduzir tudo à mesma massa. Como se não houvesse diferença individual, como se não houvesse percursos diferentes. Como se eles próprios não estivessem escudados por um código de sociedade que impede a lei da selva. Quem sabe se, à lei da selva, esses coiotes não seriam os primeiros a ter saudades da Civilização.

Há, claro, questões - de natureza judicial - em que a privacidade pode ser revelada. Mas só nesse caso. As pessoas ainda não atentarem que a sociedade que está a ser criada trucida a privacidade do indivíduo, a expõe aos ditames de uma 'onda' da maioria em favor do facilitismo. De novo, é o curto prazo que sacrifica e compromete o longo prazo. As pessoas - dotadas desta falta de pudor (espcialmente grave com pessoas tímidas ou recatadas) - são apenas o estereótipo, a 'polaroid' de uma coisa maior que elas. Este é um mundo cada vez mais sem regras, e, no caso português, sem noção de castigo para quem as infringe.

Mas estes são os nossos dias. De falta de vergonha em não ponderar como se afecta - face ao que fica nos outros de nós, da falta, sobretudo, de compreender em si a vergonha que esse sentimento de liberdade despudorada causa nas pessoas sobre quem se fala.

terça-feira, outubro 28, 2008

Iguais Mas Diferentes

E às vezes dizem eles que a coisa é global - capitalista como dappertutto - mas outras vezes, a coisa é 'dos outros', diversa da nossa cultura. Umas vezes indistintos, sujeitos às mesmíssimas coisas. Outras... excepcionais. Quem determina exactamente o quê, é que eu gostaria de saber.

segunda-feira, outubro 27, 2008

Um Homem Perplexo

Sempre que oiço Freitas do Amaral falar, oiço-o dizer-se perplexo com algo. E o que é extraordinário é que eu nunca lhe nego a razão, em termos substantivos. Freitas, porém, parece-me ter errado algumas vezes na sua vida pela própria boa-fé. Crê na boa-fé também nos outros. No seu sentido de dever. Numa certa... normalidade das coisas. Numa ordem.

Parece-me um homem para quem a Amizade, a Família, o Dever, são, de facto, valores sine qua non. Tomados por adquirido. Terá talvez crido, na sua vida, que a sua inteligência, educação, e dedicação bastariam, que trabalharia em prol de um todo, que estaria consigo em sintonia, e que lhe seria grato...

Um erro, de facto. Não posso deixar de sentir alguma pena por o mundo trucidar, tantas vezes, gente inteligente, generosa, e com um código de Amizade a reger as suas acções.

Que pena, realmente. E é por isso que eu, não querendo partilhar de seus erros, percebo perfeitamente como fica perplexo com a realidade Freitas do Amaral.

De Torga a Obama

E pronto. Vamos lá então para a última semana e tal dias antes do primeiro patamar de solidez, a primeira definição. E então seguir para o próximo problema. E vou ter que publicar este poema de Torga outra vez. Espero que em despedida deste 'zeitgeist' (espírito do Tempo).

Dies Irae

Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.

Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.

Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.

Oh! maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grades cinzeladas,
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!

Miguel Torga (1907-1995)

domingo, outubro 26, 2008

Lusitain Breton

Tenho um rafeiro, arraçado de Epagneul Breton, que é um cão cheio de personalidade. É quase humano. E Manuel Alegre dedicou, exactamente, um livro a um seu cão dessa presumida raça: 'Cão Como Nós'. Vale a pena ler.

Este, meu, tem características muito vincadas: é um grande caçador (isto é, adora o 'jogo', nenhuma autoridade se sobrepõe a essa paixão vagabunda), é instrumental nos afectos com os donos (os 'de cima'), à vez sincero como nenhum outro cão, outras interesseiro, e, fora isso, só pensa em sexo. Tem um grande amor, bem-estar com a vida. Está-se lixando para obrigações (guardar a casa, etc.), ou deveres para com os outros (obedecer). Se o seu objectivo for palpável, se ele o sentir, ele fura o que houver a furar.

O extraordinário é que eu conheço pessoas (mais que uma, aliás) com personalidades muito semelhantes. Mas muito mesmo. E, quem sabe o quanto eu gosto de animais, percebe que eu não faço a comparação para ofender quem quer que seja. Mas também não uso outras raças. É esta, do Epagneul Breton, que é assim estranha nessa parecença a algumas pessoas e - ainda mais intrigante - a alguma portugalidade...

Corrente Alterna

Ele há pessoas que afectivamente são 'corrente alterna': que não estão sempre no mesmo 'patamar afectivo'. Mudam, quando já não o esperamos. Quando pensamos que já estamos em 'corrente contínua' com elas, a confiança acordada de parte a parte, do seu lado a corrente muda, e ela contrai-se. Afinal não. Não há um elo.

São pessoas cronicamente desconfiadas, volúveis. Pergunto-me se todas marcadas a fogo por um qualquer evento... Não sei. Mas não deve ser saudável, essa desconfiança crónica. Não deve dar em grande prazer de viver. Eu mesmo me considero algo desconfiado (deve ser a costela sulista, berbere), mas gosto de viver o melhor possível. Não se o pode fazer sem alguns elos básicos, sem arriscar alguma coisa, em algumas pessoas.

Algum dia temos que passar de corrente alterna a corrente contínua, suponho - para própria felicidade.

A Sul: A Bella Figura

Ontem fui à feira de Gatronomia de Santarém. Nunca lá tinha ido, por mero acaso, e até gostei bastante.

Mas deparei com muitos exemplares da segunda espécie endémica da região, a seguir ao touro bravo: o beto scalabitano. Muito bem representada, a fauna local.

Mas tenho que elogiar gente bem vestida. Melhor que Lisboa, com estilo degradado pelo efeito 'miaúfa': quem tem dinheiro - e estilo - escusa a vestir bem porque... vocês sabem.

Aqui impera a tradição. E eu tenho que elogiar isso. Tenho que elogiar as 'betas scalabitanas' sobretudo - no melhor do esterótipo, sem ofender. Deslumbrantes. Continuo a adorar mulheres que sabem vestir. A ensinar Lisboa.

Nunca pensei que uma feira de Gatronomia - onde eu esperava encontrar mais 'tabernos', com a camisa aberta até à cintura, e colares dourados - fosse um evento tão chique, na verdade.

Mas, enfim, ele há de tudo. Ele há, por debaixo da ilusão da bella figura, aristocracia falida, histórias sobre historietas, etc., etc.. Mas eu gosto, pronto. Está ali parte parte do meu 'gene pool' - nada a fazer.

É. Ali há Sul, ali há sol, no Inverno ribatejano. Ali há a tradição, a cada estação. Ali pertenço - ou gostaria de pertencer - em parte.

Momentos 1

Olhando incrédulo o chão lá fora, do seu 13º andar, e aquele do fim do Sr. Silva, o Dr. Júlio teve um momento de lucidez, e prometeu-se nunca mais proferir a frase: '... donde, face aos seus problemas cardíacos, eu aconselho-o a cortar no álcool ou na actividade sexual. É escolher: cerveja ou mulheres.'

sábado, outubro 25, 2008

A Moralidade Descartável

Estava-me a lembrar de alguém que tem uma curiosa capacidade: a da moralidade descartável.

Imaginem alguém que é capaz de, nunca cumprindo um código moral, desfraldar a sua bandeira quando é preciso - isto é, quando é preciso para reclamar de algo, para conseguir o que pretende. E que, para tal, se assegura de 'dar umas pinceladas' dessa moralidade, de vez em quando. Mesmo que a maior parte do tempo siga os próprios intentos - em sentido contrário.

Assim, por exemplo, se tivermos um indivíduo que advogue o vegetarianismo, pode ele criticar doutamente aqueles que comem carne, pode até dar o exemplo mais beato, numa refeição, de se ficar pelo pão com manteiga, porque naquele restaurante só se come cozido à portuguesa e chanfana. E, no entanto, quando sai com os seus amigos, incorre nos mais suculentos coiratos, ou recheados hambúrgueres.

Do respeito geral, contudo, não se livra. Até porque vive dele. Diz que faz umas outras coisas menos recomendáveis, e que não participa ou fura a sociedade. 'Mas reparem no seu empenho para salvar os animais... Tocante.'

Usa, assim, de uma moralidade descartável, incompleta, que defende quando lhe aprouvém. É assim daquelas moralidades que se vendem nas bombas de gasolina. Quando passa por lá, compra mais uma recarga, juntamente com o seu desportivo e um o ambientador para o carro.

Ele há várias dessas moralidades salvíficas, a bom preço: vegetarianismo, aquecimento global, direitos das minorias, o clube de futebol, a luta pela elevação de Ermesinde a concelho, a defesa dos ornitorrincos, ou a demarcação da zona produtora de pastéis de Tentúgal. Ele há várias.

E assim, usando uma moralidade descartável, se atinge a perfeição: não se tem que trabalhar para que haja uma legitimidade, mas pode-se criticar quem se quiser. Eles não sabem, ou não podem apontar o dedo quanto à falta de ligitimidade.

As moralidades a longo prazo, de vida são, na realidade, uma parvoíce: só dão trabalho, para pouco mais. Nada como a moralidadezinha descartável.

Afinal, não se está a inventar nada de novo. Que já o Eça, com o seu conselheiro Acácio, paladino dos bons costumes, que se acostumou demasiado à criada, se referia à coisa. E pode-se, por isso, dizer 'acaciana' essa tal de 'moralidade descartável'.

O Arroto em Comprimento

E passávamos os dois em conversa ligeira, quando se nos cruza um indivíduo bem-vestido, de fato escuro. Julgo que falando ao telemóvel. Típico executivo lisboeta. Íamos em sentido diferentes daquela rua, num fim de tarde outonal, já escuro.

Eis quando, ao passar por nós, solta um som contínuo. Eu estava mais distante, pensei para comigo que era aquilo, mas também que não podia ser aquilo. Simplesmente não podia ser aquilo. Mas foi confirmado por quem ia comigo: acabávamos de testemunhar um monumental arroto.

É que o extraordinário naquele arroto, para além de destoar com 'look executivo' (desespero com a crise?), ou mesmo o mínimo de Civilazaçãozinha, foi a sua... extensão. O homem arrotou durante uns bons dois metros ao passar por nós. Foi longo, profundo, consistente. Foi um ensaio de 'arroto em comprimento'.

Mas nesses dois metros de arroto, também não se apoquentou com a nossa presença. Podia ter esperado apenas mais uns segundos, ou ter arrotado uns segundos antes, mas tal era a sede de liberdade daquele arroto, que nenhuma pequena vergonha conseguiu contê-lo. Houve como que um grito de libertação naquele arroto. Não só de gás entranhado - também de um dia de trabalho, e de uma Civilização que, afinal, pode criar tanta infelicidade, tanta malfeitoria. Há um 'statement' naquele arroto, um protesto contra as convenções. Foi um arroto subversivo, rebelde, iconoclasta.

Tão pouco, se realmente estava ao telemóvel, o deteve a conversa telefónica. Os cínicos diriam que estava em espera, mas eu gosto de pensar que ele, da mesma forma que arrotou para nós dois sem pudor, transmitiu essa libertação pessoal a alguém querido do outro lado do telefone. Talvez um familiar, talvez um amigo igualmente oprimido. Uma amante, quem sabe - que o romantismo evolui com os tempos.

Escapou-me porém, nestes Jogos Olímpicos, esta modalidade do 'arroto em comprimento'. Aquele era certamente um campeão nacional. Talvez, quem sabe, nos próximos Jogos, os espectadores possam atentar nessa pérola do desporto. Sugiro também a criação dos '200 metros a tirar macacos do nariz', ou mesmo a 'flatulência sincronizada'.

Quem sabe se não 'é nisto que somos bons'.

sexta-feira, outubro 24, 2008

Os Hortofruticultores da Vida

Noto como alguns personagens que encontro ou de que oiço falar assumem, em suas vidas, uma orientação hortofruticultora do futuro. Porquê hortofruticultora? E porque é 'hortofruticultor' uma palavra longa e divertida de repetir?

Responderei somente à primeira. Ora, a sua abordagem filosófica à vida é hortofruticultora no sentido em que concebem as pessoas que conhecem como plantas de uma rede, ou jardim. São eles que zelam por esse jardim, mantendo-o viçoso, e disponível para lhes conceder seus frutos.

Um hortofruticultor escolhe para o seu jardim as melhores espécies possíveis, isto é, rodeia-se dos melhores contactos. E assim compõe um belo jardim, uma horta, um pomar, de que só ele sabe, e que é a sua vida. Vive da hortofruticultura, feliz - e não precisa assim de qualquer outra actividade.

Quando, por exemplo, as batatas 'Manuel Joaquim' estiverem a mirrar, pois o hortofruticultor bota água para cima delas. Ou, vendo ervas daninhas próximas do pé das plantas de feijão verde 'Carlos António', as retira carinhosamente. E faz ver a Manuel Joaquim e a Carlos António o muito que custa regar assim, e com primor podar assim.

Se as laranjas 'João Pires' precisarem de adubo, as estruma com a melhor técnica. Ou, requerendo as dálias 'Joana Lopes' mais sol, desvia seu vaso no sentido da luz.

Fá-lo, mansamente, dia após dia, sem maçar demasiado cada planta, mas fazendo cada uma crer que só ela recebe tais mimos, para um colheita tardia. Não sabe exactamente quando, mas aqueles belos espécimes devem - mais ano menos ano - florir esplendorosamente. E ele sabe que pode precisar de ir buscar umas batatas 'Manuel Joaquim', ou feijão verde 'Carlos António', ou as laranjas 'João Pires', colher umas dálias 'Joana Lopes'. Pode ter - terá certamente - essa necessidade. E, como tal, prefere estar à vontade para reclamar esses produtos hortofrutícolas. Afinal, ele bem as encheu, a cada planta, de mimos únicos. A cada uma se devotou como só o mais puro agricultor pode fazer.

Ele há muitos hortofruticultores por aí, com suas hortas secretas. De vez em quando dão um pequeno toque, um aparo, uma erva removida, uma rega generosa - para que nada os impeça de pedir depois algum produto. Para que a planta não os possa erradicar dos seus amados, daqueles que a ajudaram no esforço de florir. Para que os não possa vedar as suas frutificações individuais.

Não, ele há muito hortofruticultor por aí. E ainda dizem que vai mal a Agricultura deste País.

quarta-feira, outubro 22, 2008

O Oráculo Zé Sofá

O problema de ser... jovem por estes dias é o de estar a ser constantemente bombardeado com as profecias da desgraça sobre a economia. De ouvir as pessoas clamar contra os "burocratas de m.... do Estado", relatos de chatices de quem trabalha non-stop - "e é tudo em cima de um gajo", brutas verdades ocultas, só emanadas, os inevitáveis problemas do "ninguém paga", etc., etc..

Desce, desce, desce! Stressa, stressa, stressa! Grita, grita, grita! Cala, cala, cala!

Ok. Parou!

E pah... calma aí, malta (supostamente) adulta! A culpa não é nossa! Então nós estamos aqui tão serenos em frente ao PC e à TV, o que é que a gente fez? Então vocês armam a confusão e agora andam assustados a passar batatas quentes?

Afinal, quem é esse tal de 'Liquidez'? É um gajo mexicano? Ramón Liquidez, primo do Córtez, e afilhado do Rodriguéz, que joga no Porto? Será isso? E porque é que anda tanta gente à procura dele?

E pah, se as pessoas não têm dinheiro, porque não proibir os grandes carros em todo o país? Vendia-se tudo. E os gajos que andaram a embolsá-lo até agora? E ir atrás deles, não? Era logo um montão que se arrecadava. Mas desde quando as notícias da TV causam uma depressão assim? O que é que já aconteceu? Duh...

Como é que isso afecta as nossas estatísticas: as de miúdas giras que conhecemos, por exemplo? O défice de 'curtes'? A inflação da imperial? O Sporting? E o Benfica? Metam mas é lá o Obama: está mais que visto que é um gajo inteligente, aquele Bush só fez porcaria.

Se a coisa der mesmo para o torto façam como no Brasil: tudo a andar a etanol. Quero ver o que é que os gajos do petróleo fazem nessa altura. É que quero ver.

Senão, olha: se o mundo acaba antes que saia o PES 2010, também é um mundo onde não vale a pena viver!

(Falou Zé Sofá, o Oráculo).

"A" Quinzena: Keep Your Pants On

Hoje as bolsas desceram de novo. Provavelmente, a tendência não se irá inverter até ao primeiro patamar de solidez: as eleições americanas. Um dos grandes problemas da crise é o de, justamente, surgir a meio destas eleições.

Até lá, ninguém mexe no coldre. Até lá, ninguém pia. Depois, logo se vê. Depende. De quem for eleito, como, qual a sua equipa, qual a primeira impressão, quais as primeiras medidas. Vai ser a segunda parte de um mês de nervos. "A" quinzena.

It's gonna be a bumpy ride. Keep your pants on.

terça-feira, outubro 21, 2008

Contra o Fantasma da Crise

Ainda estão algo longínquos os 'Olivus Awards' deste ano, mas posso já atribuir o meu singelo prémio: 'música a ouvir no carro em altos berros, com janelas abertas, e todo o estrilho, quando se regressa enfim a casa'.


Dez Anos de Depressão

Que nos digam que estamos em crise como nos afecta, portugueses jovens? É que, afinal, nós andamos aqui em crise há - atenção - dez anos. Há pelo menos dez anos que esta geração vive sobre a ameaça castradora de uma crise económica. Caramba. É demais.

Não cem anos de solidão, como no título de García Márquez, mas dez anos de depressão. Eis a história resumida de uma geração.

Inteligência e Ética

Paula Teixeira da Cruz. Elogio à inteligência e ética no feminino, que por ser no feminino também parece ser sempre algo mais.

Tudo Certo

Excelente a entrevista de Manuela Ferreira Leite, ontem na TVI. Tudo certo. Até que enfim!

Ah, e para alguns de vocês por aí: deslumbrado com a possível reabilitação de Santana. Absolutamente deslumbrado. Era bonito o Pacheco Pereira ainda ter que o engolir outra vez.

Andaram todos convencidos estes anos que o problema era Santana. O problema, afinal não era Santana, e em 2004 foi o próprio Durão Barroso que andou a perguntar pelos amigos quem não se importava de ficar com o País, como Morais Sarmento. Santana, claro, foi o que aceitou, o que cedeu à tentação. Mas deixá-lo tentar-se, esse sim, foi o pecado original.

Imediatamente

Ainda não tive bem a oportunidade de utilizar uma linha que me recordo de 'cartoons', e que os Gato Fedorento ainda não se souberam apropriar.

Imaginem que alguém vos diz: 'Tens que fazer isto, é urgente.', com uma certa presunção. Qual é deve ser a vossa resposta? Esta: 'Ok - vou começar a ignorá-lo imediatamente!'.

segunda-feira, outubro 20, 2008

Motivos

Um dia, na sala de aula, o menino Joãozinho decidiu fazer uma pergunta ao senhor professor (nesta escola os miúdos não têm Magalhães, mas usam 'senhor professor').

'- Senhor professor?'
'- Diga Joãozinho.'
'- É o seguinte. Queria fazer-lhe uma pergunta. O que é que faz andar o mundo?'
'- Como assim?'
'- Quer dizer, do que é que andam os adultos, os homens crescidos atrás?'
'- Hum...' o senhor professor sorria. 'Digamos que andam atrás de somente duas coisas, invariavelmente.'
'- E quais são?'
'- Pois então considera que parte dos homens crescidos andam todos atrás de dinheiro.'



'- Então e a outra parte deles anda à procura do quê?'
O professor hesitou um segundo, mas sorriu ligeiramente e respondeu:
'- De mulheres, Joãozinho. De mulheres.'



'- Está bem... Mas então não há homens que não têm dinheiro nem mulheres? O que é que esses fazem?'
'- Fazem blogs Joãozinho. Fazem blogs...'

domingo, outubro 19, 2008

Do Ulme a Ülm: A Última Barreira

Estou a cumprir o último ano do meu singelo curso. É um curso agradável, não é certamente o tema dos meus sonhos, mas é um curso muito interessante. Aprendi a gostar e a respeitar Farmácia - embora ache que o meio (tal como outros) padece de grande... corporativismo. Terá algumas perspectivas de empregabilidade - e essa escolha parece hoje mais inteligente.

Não fiz um curso brilhante, creio. Fiz dois anos de excelentes notas, para depois entrar numa certa mediania. Posso encontrar várias razões para o justificar (próprias e alheias), mas da mesma forma que isso não me perturba por aí além (porquanto sempre tenha gostado de ser bom aluno), acho que não vale a pena invocá-las. Quando a dança das cadeiras começa, pouco importa se eu tinha média de 18 no meu secundário. Quem lê, lê curso científico em universidade privada, de 'segunda linha' e essa é uma realidade com a qual eu tenho que lidar.

As pessoas não têm tempo para o cinzento, para a história completa, para as justificações, para os pudores, para os pequenos sacrifícios. Julgam num instante, e nesse instante lê-se: 'curso com empregabilidade, média aceitável, universidade de pouco/médio prestígio'. Ponto. É assim o preconceito - é assim que eu, e os meus colegas, temos que trabalhar com ele, mesmo que não corresponda à realidade.

Mas estou a acabá-lo, o meu curso, e este ano tenho que produzir um relatório final e acabar três cadeiras em atraso. Eis porque decidi aproveitar o tempo para algo que, sim, me dá um infinito prazer: aprender línguas. E, tendo já estudado inglês, francês, espanhol e italiano, faltava-me uma grande língua, naturalmente,: o alemão.

Comecei assim, a estudar para ultrapassar essa última barreira. Porque gosto de ler, e falta-me essa língua para ler. Porque gosto de viajar, e falta-me essa língua para me desenrascar por essa Europa fora. Porque acho que isso pode enriquecer um currículo - em qualquer área que seja. E também porque eu tenho a 'minha', e vou continuar a tê-la - por mais piores sentimentos, pior sociedade, piores alturas na vida das pessoas que conheço.

Eu tenho a 'minha'. E bem pode tudo andar em alvoroço, que eu, cumprindo as regras da sociedade, não desisto dela. Nem que chovam picaretas. Por isso, conheci tantos ao longo desta vida que preferem ofender, exibir, vegetar, maldizer, invejar. Eu cá é mesmo ler, e conhecer coisas novas e estimulantes. Mesmo em tempo de crise - que há dez anos andamos nós em crise.

Mas sente-se já uma grande pressão social para começar a trabalhar, por mais que eu me defenda a dizer que até nunca fui um gajo de excessos, que escolhi racionalmente uma profissão, e que agora, se faz favor, gostava só de acabar o meu curso como deve ser. Ainda no próprio dia do curso me perguntavam 'Profissão?'. E eu lá disse 'estudante', mas com bastante vergonha. Não é que o não seja, mas... caramba. Não se está a falar de um estudante brilhante na sua pretensa área, e ainda por cima um que está agora em 'pousio laboral', para produzir a sua tese de mestrado, como eles chamam à coisa. É como se... tivesse que dizer 'estudante' para não dizer 'aspirante a político', ou 'ventríloquo', ou 'adorador de Satã'. Só para dizer que a rufia, delinquente não se chega.

Por isso vou agora tentar abraçar um novo idioma, que me faz muita falta. Só pelas aulas dá para perceber que tem, realmente, uma dinâmica muito própria, muito especial, muito característica. Talvez, quem sabe, seja um idioma que primeiro se estranha, e depois se entranha.

Só para que eu, ribatejano, possa, um dia, poder viajar do Ulme até Ülm, sabendo falar todas as línguas pelo caminho. Era bonito. E eles dizem que os sonhos não existem.

O Zé Conseguido e o Rui Conforto

Oiço pessoas da minha idade a dizerem-me que vão procurar casa. Fico sempre na dúvida sobre a inteligência dessa opção. É por isso que gosto de ouvir o que dizem os especialistas.

Diz o Zé Conseguido: 'Tens que sair da casa de teus pais para te realizares enquanto pessoa. Ganhares o teu dinheiro, ires onde quiseres, quando quiseres, sem dares justificações. Sabes aquele sentimento em que tu nem sais de casa porque isso vai preocupar, aborrecer a tua mãe? Essa capacidade de te limitares a ti mesmo? Isso desaparece tudo. Vais ver que estás num mundo novo, que nem podes agora conceber. Sentes-te livre. E depois trabalhas, envolves-te com outras pessoas - evoluis. Em casa dos teus pais desleixas-te, habituas-te, entras em vícios domésticos. Depois olhas para trás, quando tens 30 anos e pensas que erraste seriamente nas tuas escolhas, que desperdiçaste uma parte da tua juventude - e da tua vida.'

Diz o Rui Conforto: 'Mas para que queres tu deixar a casa dos teus pais para te meteres num apartamento pior, com vizinhos barulhentos? Para além de que, nesse caso, vais precisar mesmo a sério do dinheiro que ganhares. E ganhá-lo, como deves perceber, não anda mesmo nada fácil nestes dias. Tens que ceder o teu projecto pessoal, agarrar um emprego que será difícil, quem sabe com um patrão menos agradável. Se calhar passas a comer pior que em tua casa, a ter até menos dinheiro disponível, a amaldiçoar a tua vida. Para quê? Para poderes ir ao Lux sem que os teus pais te chateiem? Se calhar tu, com inteligência, até os ajudavas em qualquer coisa, e terias mais liberdade. E, quem sabe, conhecias mais gente, até podias namorar mais. Não vás nessa ilusão de sair para escapar a regras - vais apenas cumprir regras diferentes, nada mais.'

E agora? Quem tem razão? O Zé Conseguido ou o Rui Conforto? Eis a questão.

Injecção de Verdade

E se, de repente, os governos anunciassem uma injecção de Verdade no sistema? Para restaurar a confiança, para dar solidez (já não liquidez) às instituições? Isso, sim, seria uma revolução.

Off-Shores e Confiança

A questão dos off-shores, para mim, é que está verdadeiramente na raíz da falta de confiança na sociedade. Porque perverte a maneira 'limpa' de ganhar dinheiro. Portanto esses sábios económicos, que tanto elaboram sobre a necessidade de confiança, e em coerência lançam dinheiro no sistema, para a restaurar, poderiam pensar se, talvez, a existência de um circuito de dinheiro que escapa à sociedade em geral, de contornos imorais, não diminui, justamente, essa confiança.

Felicidade

Espero que o post anterior não soe demasiado moralista, ou 'padreca'. Eu sou a favor da as pessoas serem livres para fazerem o que quiserem. É só uma comparação.

Não pretendo criticar comportamentos - apenas ajuizar certos fenómenos de acordo com o que eu acho que é uma sociedade a funcionar, de acordo com o que eu acho que é o patamar dessa coisa a que chamam... felicidade.

A Bolsa e A Consciência

A propósito do que levou à actual crise dou comigo a pensar que a economia financeira está para a economia real, para o capitalismo, como a pornografia está para o sexo: é a idealização da coisa como ela é - mas nunca deixa de não ser a coisa como ela é. É o mais simples, primário, darwiniano - é o modelo que produz o deslumbre juvenil da coisa. Mas não é a coisa.

É uma ilusão que tem a capacidade de criar muitos seguidores, que acreditam que é essa a via para vencer na vida, ou que acreditam que é essa a via para o sexo como ele é. E não faltam histórias daqueles que triunfaram por essas vias - são motivo de inveja. Foram mais espertos - não tiveram que trabalhar ou 'aturar' mulheres (ou elas 'aturar' homens - sim, que isto toca aos dois sexos).

Nesta ilusão juvenil estará algum do problema do nosso tempo. É a ilusão do fácil. E tem muitíssimos seguidores. Mas continua a ser uma ilusão, uma esquizofrenia da realidade. Da mesma forma que o dinheiro raramente se cria assim, o sexo raramente se faz assim.

O problema é haver uma sociedade que permita vitórias pelo fácil. Porque quem se habitua ao fácil, num ápice esquece as razões do difícil. E num ápice passa à perversão.

Mas é sempre o instinto humano ir para o fácil, e a tentação de ser mais esperto é inevitável. E é por isso que anda tanta gente a tentar seguir esses dois modelos. E por isso um dia a bolsa rebenta, e por isso um dia a consciência rebenta.

Off-Moral

Seria interessante se, de uma vez, os líderes internacionais se concentrassem em produzir uma boa justificação para a existência de off-shores. Não me refiro - atenção - ao acto de enfim os suprimirem. Mas antes ao facto de que, tendo eles que gerir sociedades com base numa Moral, conseguirem justificar minimamente a existência dessas aberrações, que não servem senão para dar prazer perverso a yuppies, ou manter pequenos estados.

segunda-feira, outubro 13, 2008

Ajuda a Escorregar (a Realidade)

E já agora, para voltarmos ao mundo, ao nosso mundo, fazê-lo da melhor maneira. Com o humor de Herman José, no mítico skecth da 'Cerveja Ribamar', inspirado, justamente, no anterior anúncio de Martini. Pode ser que, para os demais fantasistas e oníricos desse lado do blog, ajude a escorregar o mundano.

Martini Woman II

Mas segue a saga Martini, com o não menos célebre anúncio do anel. E quem será esta actriz, que assim se desfaz do anel, da fidelidade, num gole de prazer?

Aquele Mágico Fio de Lã

Não era um mau nome, em alternativa ao 'Pecado Original', esse de 'Aquele Mágico Fio de Lã'. Afinal, como escrevi, é como se o estivéssemos a seguir há anos. É uma espécie de onírico feminino, de Olimpo epicurista. Ou, no meu dicionário: casa.

Martini Woman (Em Retrospectiva)



Mas quem diria que era a Charlize Theron que neste anúncio participava - com uma actuação soberba, muito expressiva... Neste anúncio, talvez icónico para a minha geração. Quem diria que era o seu bel sedere. Charlize estava destinada a ir longe - podemos hoje afirmá-lo em retrospectiva.

Já agora, e porque não, apreciem a versão completa, menos frequente nos nossos ecrãs, e nos recuerdos de adolescentes.

E é como se a mente tivesse seguido sempre ao longo dos anos, inebriada pelo mais puro Martini, ao sol tão afável, e prazenteiro, sob a benção de Apolo e de Baco, aquele mágico fio de lã.


domingo, outubro 12, 2008

Mas Tu Queres Ver...

E afinal eu era um homem rico e não fazia ideia. Sim, rico: porque esta é a tal 'economia do conhecimento', e ele não sabia quem era a 'Bar Rafaeli'. Afinal havia alguém que não sabia.

Na minha mente: 'Ok, é menos um a fazer-se a ela. Já só sobram os outros 2,999... biliões de homens! É possível.'

Quebranto

Detesto este tempo de Setembro/Outubro. Como se o ar estivesse cheio de uma qualquer electricidade estática nociva. A produzir quebranto, esse de que gozava o Eça. A mexer com alguns temperamentos. Horrível.

Desperdício Tóxico

Alguém me diz, a propósito do plano Paulson, não perceber o sentido da compra de activos tóxicos por parte do Estado americano. Afinal de contas, o dinheiro dos contribuintes serve para comprar todo o lixo, deixando de parte os melhores activos e - sobretudo - não adquirindo as empresas. Quer isto dizer, portanto, que se deixa lá a mesma gestão que criou os problemas.

Olhando para Espanha, lemos que o governo espanhol invistirá dinheiro no sistema sim - mas em activos não tóxicos. Isto é, garante liquidez às empresas, mas resguarda a sua posição. Provavelmente, obriga-las-á a um maior esforço de melhoria, em comparação com a compra de activos tóxicos.

À luz de um não especialista, parece muito mais inteligente a estratégia espanhola que a americana. Esperemos - por ser mais premente a resolução do caso americano - que assim não seja, necessariamente.

sexta-feira, outubro 10, 2008

Berlusconi

É certo que o homem tem defeitos. Mas... haveria algum italiano mais qualificado para estar à frente do país nestes momentos que Berlusconi? Se ele não safa a coisa para o lado deles... ninguém safa.

Pergunto-me, pois (já agora) por Portugal... Hum...

Do Investimento

A História ensina-nos, a propósito das bolsas: cada momento de baixa é uma oportunidade de novo investimento. E é justamente para glosar sobre investimento que convoquei para o Generosità Martina Colombari, esposa de Costacurta, que muito lhe gaba o sedere. Eis um juízo que nada tem de especulativo, mesmo com muito insider trading.

terça-feira, outubro 07, 2008

When Push Comes To Shove

É nas alturas de crise - como a que se quer controlar - que se vê como as coisas são na realidade. Que se vêem as verdadeiras cores. Que se vê uma Europa desunida, que não se encontra (por exemplo, veja-se o fundo de salvação comum que foi vetado pela Alemanha). Esta crise pode muito bem ser um ultimato à própria Europa: ou evolui para um modelo mais comum - e as nações têm que o aceitar caladas - ou então, quem sabe, pode bem desagregar-se. Não me espantaria.

SPT

Agora que termina - pelo menos a parte das aulas - do meu curso, vejo, como me dizem os meus colegas, que me recordo de pouquíssimo. Que terei que rever muitíssimo, embora nem saiba precisamente o quê. Está tudo demasiado difuso, pegado a cuspo. Está líquido, em gel - e eu vou ter que o solidificar (se de facto enveredar pela profissão).

Agora, se bem digam que este esquecimento é 'normal', eu mais bem tendo a interpretá-lo como uma espécie de stress pós-traumático. O meu problema, porém, é que o trauma - e o stresse - ainda não acabaram exactamente. Nem me refiro às idiossincrassias da minha universidade - não farei considerações desse género aqui.

Acho somente, que não sou, realmente, talhado para cursos universitários - em geral, em qualquer universidade do país. Porquanto, paradoxalmente, sempre tenha tido uma enorme paixão por temas intelectuais, uma grande curiosidade e um grande prazer em ler e estudar.

Acho que as nossas universidades cerceiam mais que estimulam esse bem precioso que é a criatividade. Por várias razões. Uma das quais, profundamente queirosiana, tem a ver com a relação sempre equívoca entre professores e alunos. Desde o nacional-porreirismo à esquizofrenia intelectual, passando pela avarice intelectual, o pedantismo, a falta de paixão, o comodismo e outras coisas menos sanas.

Este é um país de que Rómulo de Carvalho, seguramente, se envergonharia. A ver se consigo sobreviver - intelectual e paradoxalmente - à minha (des)educação universitária.

Let It Be Envy

Uma coisa que me intriga nos dias de hoje é a frequência com que oiço raparigas elogiarem outras. Quer dizer, mesmo raparigas, normais, digamos, discorrem doutamente sobre outra. Começam por dizer "é muito gira". Mas o estranho é que não ficam por aí: falam do cabelo, de ser magra, dos olhos, etc. É algo desconcertante. É dos poucos casos em que eu espero, sinceramente, estar presente o velho pecado português da inveja.

Get Real

Uma coisa intrigante nesta crise financeira é que, como o jogo se tornou global, e se descontrolou por ser global, os efeitos dramáticos parecem mais globais. Quer dizer, a americanização do mundo, no facto da economia influenciar os destinos das nações, talvez não tenha, realmente, precedentes. A globalização do capitalismo, que o desresponsabiliza - e é a raíz desta crise - fará com que também, os efeitos mais dramáticos da própria crise se sintam da mesma forma por todo o mundo. Quer isto dizer pessoas nervosamente coladas aos números das bolsas, deprimidas, tomando acções extremas talvez. Pensemos assim: onde antes uma percentagem pequena da população vivia nervosamente a bolsa, hoje essa percentagem é muito maior. E, talvez, onde antes uma percentagem grande sofria em termos de economia real, essa percentagem está ainda para ser aferida. É diferente uma crise no princípio do sec. XX de uma no princípio do sec. XXI. Veja-se, por exemplo, o mero pormenor de avanço na produção de alimentos. O problema nem é da economia real, que pode hoje ter um nível como nunca antes. O problema está no liberalismo, e no primado da economia financeira, facilmente internacional, sobre as vertentes da economia real. Não faz qualquer sentido. É como dizer que nunca podemos produzir tão bem como hoje, mas como não podemos gastar tanto quanto deveríamos, o sistema entra em colapso. Ora isto é ilógico, e ridículo - e tem que ser revisto.

O que está visto - e eu sempre suspeitei - é que havia algo estrnanho no ar, quando, há uns meses andavam aí a dizer que havia imensa liquidez a nível mundial, que o mundo estava a crescer a um excelente ritmo. E eu, que sou céptico, não antecipando o espectro temporal para o desenvolvimento de nova actividade económica, nem a antevisão da diversificação cada vez maior da economia - com a população mundial a aumentar - pensei algo estar errado. Mas, caramba, o que é que um farmacêutico sabe de economia?

Treta de Elite

A miséria deste país, realmente, reside noutras coisas. Nomeadamente no facto de não ter elites. Zero. É tão prazenteiro, carnal e egoísta aquele que estudou no melhor colégio e na universidade estrangeira como o que cumpriu o secundário em sofrimento para gastar os dias no bairro de barracas. A culpa não é do segundo - é do primeiro. É raríssimo haverem pessoas à altura (recordo-me, de repente, de Pinto Balsemão). Por isso a cáfila depressiva toma a cena.

Uma Nação

Não posso acompanhar os depressivos apocalípticos, porque penso que são tão somente isso - depressivos. O mundo não está a acabar, mesmo que haja uma crise económica. Filhos-da-mãe. E logo os mais inteligentes.

Em muitos aspectos o mundo está a começar. De idiotas depressivos e bons portugueses acobardados está, realmente, este país cheio. Há gente em depressão tão profunda que só ouví-los dá um baque no coração. É claro que o problema está em ouví-los, realmente, é só isso que eles querem. Faz parte da sua terapia - e eu não lhes darei essa benesse. Se estão doentes, têm que se curar e não infectar com depressão.

Para ajudar a que o mundo comece, mais que acabe, uma inspiração: Luísa Beirão. Portugal é nosso, aprendam isso. O que daí decorre logo se verá. Mas homens que nem sequer se aguentam nas cuecas é que não, se faz favor. Este rectângulo debruado de mar é nosso, nossa uma série de coisas fantásticas. Entre elas mulheres como a Luísa Beirão. Não sejam idiotas, se faz favor.

segunda-feira, outubro 06, 2008

Liberdade

Perguntam-me porquê esta mania do blog. Responde Miguel Esteves Cardoso, via Pedro Mexia (Estado Civil): "Não há sítios onde escrever, onde fazer merda. Não há. Não há sítios onde desabafar (...) Se não houvesse os blogs estávamos todos tramadíssimos."

Talvez dizê-lo escandalize alguns de vocês: mas um blog é mesmo um espaço de liberdade. Criativa, artística. E isso às vezes, significa tão simples e prosaicamente, um sítio onde fazer merda.

(E remeto para este post).

Filosofar e Jogar à Bola

Eu acho que, se as bolsas entrarem em histerias parvas, vai ser preciso reflectir. Eu digo que era fechar o País, e durante um mês filosofar e jogar à bola, como na escola. É assim que ocorrem as melhores ideias.

Isto não é negação - é mesmo um projecto sério. Porque outro não há, realmente.

Vivaz

Estranho - mas um bom estranho. Vivaz, escorregadia, trocista. Deolinda.


Marinheiro de Água Doce

Ainda na despedida de solteiro, sendo a parte anterior de praxe, e nocturna, a tarde foi muito originalmente passada com um baptismo de vela, no Tejo. Muito agradável. Recomendo. Descobri porque é que os meus antepassados eram agricultores, porém - não teriam jeito nenhum para navegar. Se aquilo não fosse em água doce, eu diria mesmo que sou um péssimo marinheiro. Mas o importante, como em tudo, é saber desenrascar se for preciso.

Almas Nuas

[início]

A propósito de transgressão, ontem fui a um clube de strip.

É - deu-me para isso. Esta solidão urbana dá cabo de um gajo. Estou sozinho em casa, tive que me distrair. Ah... enganei-vos! Antes, fui a uma despedida de solteiro. O que me serve de excelente desculpa...

Há um certo encanto em mulheres desnudadas a dançar num palco. Eu sei - é uma coisa subtil. Mas quem tiver olho, sabe apreciar. E naquele famoso clube lisboeta não faltavam, como casa que se preze, as mulheres nuas - nem os homens desesperados.

[meio]

Mas esse encanto tem um limite, claro. E não estou a falar de uma table dance, pagar e ir embora. Estou a falar de uma certa saturação, depois de ouvir música após música após música de umas senhoras - brasileiras, do leste - que, embora bem torneadas, e muito afoitas na coreografia... parecem acabar por ter uma certa beleza postiça, demasiado igual. É como se todas aquelas luzes azuis e miradas fixas desgastassem a pele.

E, à medida que a emoção inical se desvanece, a coisa fica mais ou menos bem percebida, o olhar deambula pelo espaço. Não é suposto ser assim, claro, e é para isso que tudo está escuro. À minha frente está um velho, um homem velho, toscamente sentado, apesar do fato branco. Tudo nele se concentra no olhar, uma linha recta que faz um ângulo recto com o varão em que ela dança.

A confundir as goemetrias estão as formas curvilíneas dela, subindo e descendo o poste, colando a sua medida voluptuosidade ao metal. Pergunto-me se o olhar dele, visto dela, será tão bem metálico... Ou talvez antes embevecido, não sei. Pergunto-me o que vê um homem daquela idade numa mulher jovem assim, dançando à distância de um copo de whisky? Já não é uma mulher, já não é uma paixão. E já não é só um prazer. É algo mais, uma tentativa de encontrar nela algo perdido em si. É uma tentativa de provar algum daquele esplendor de juventude, voltar atrás. Falar - depois ela irá à mesa dele - com uma mulher jovem. Olhar para os olhos dela, torneá-la com uma conversa. Não ser ávido, ter prazer na própria conversa, a cada segundo.

Não como esses outros idiotas, miúdos, que na mesa de trás soltam suas perspectivas simplórias, pornográficas da vida. Ele gosta daquele próprio acto de falar, devagar. De resto, está em silêncio. Eles partilham e comungam seus desejos - são todos tolamente jovens e lúbricos. Bebem, fazem uma table dance, algo mais ou diferente, e vão-se embora. Ele quer saborear tudo aquilo, toda aquela vida ao seu dispor. Não tem nenhum sítio a que ir, sabe-o bem. Além do fato branco, tem vestidas todas as desilusões da vida - já lhe pagou, já lhe ficou a dever. Não tem nenhum sítio para onde ir.

A seu lado estão dois desportistas. Na verdade, não parecem desportistas. Vestem calças, usam camisas de lúcido padrão, com as mangas não demasiado arregaçadas. E usam óculos. Di-los-ia estudantes de engenharia, por um estereótipo que nem sei bem se será o meu. Mas têm um esforço, um desporto físico no seu olhar. Horas sobre horas, estiveram sentados no mesmo lugar, sem trocar palavra entre si, mas coordenando o olhar. Não era natação sincronizada, mas óculos sincronizados. Olhavam, em conjunto, num rigor impenetrável, profissional, para o palco. Não só para a dançarina do palco. Quando não havia nenhuma a menear seus encantos, eles olhavam fixamente para o palco ainda, num olhar orfão - mas sempre sincronizados. Um deles, levantou-se depois de trocar brevíssimas palavras com uma delas, depois com o seu colega de mirada, e foi com ela, para lá da cortina. Voltou tão composto quanto antes, não olhando para ninguém em seu redor, retomando seu assento e sua função.E eu, embora curioso com aquela inexpressão, diferente dos tolos jovens que o velho desdenhava, não deixava de pensar o quão estranho era assim o prazer individual - em conjunto, e sem emoção, alegria.

Além do palco, do velho, e da dançarina que desce atleticamente o poste, com os olhares dos homens, e seus desejos está um homem ao balcão. Corpulento, de cabelo negro, barba incipiente, ventre dilatado, escondido pela camisa fora das calças, sólido, metido consigo, de olhar desconfiado. Há pouco havia visto um igual. Uma espécie de híbridos do Manuel João Vieira, porque sem ponta de alegria (mesmo a depressiva), e do James Gandolfini. Talvez um Vieira que queira ser um Gandolfini. Que suspeita alguém o possa descodificar, enaquanto sonda a sala. Haveria personagens para um casting dos 'Sopranos' à portuguesa, por aqui. Certamente que os haveria.

[fim]

De tudo isto eu faço piadas para os outros, claro. Sempre gostei de me rir, em qualquer situação. E estava já aborrecido. Embora não estivesse certo que eles se aborreçessem tão cedo quanto eu. Mas chego a perceber isto na minha relação - e certo fascínio - com mulheres: o olhar demasiado, impune, da minha parte, não é algo que eu goste demasiado na mulher que olho. Tenho a convicção de não precisar disso. Gosto de falar com elas, felizmente. Sei que prezo bastante a inteligência feminina. Pergunto-me se muitos daqueles homens que gostam só de olhar assim - impunemente - não vão acabar como aquele velho um dia, tendo mais prazer com a conversa do que com outra coisa qualquer.

domingo, outubro 05, 2008

A Transgressão: Do Virtual ao Vis a Vis

Uma coisa que me chateia um pouco no facto de ter um blog - antes, no facto de um pessoa saber que eu tenho um blog - é justamente limitarem-me o espaço para a transgressão. Quer dizer, como explicar à amiga (é sempre mais complicado com raparigas) cinco estrelas, pessoa impecável, os meandros por onde a alma anda?

'Eu julgava que eras uma excelente pessoa, Pedro. Mas depois vi aquele chorrilho de asneiras,
aquelas interpelações à sexualidade meio pervertidas, e as tuas manias pessoais desconcertantes - como é que podes gostar de água das Pedras? - e a ideia que eu tinha de ti mudou por completo. Ah, e aquilo de eu dizer que eras bem-parecido, mesmo apolíneo? Esquece - era tudo mentira."

Quando o virtual se converte no vis a vis, eu estou sempre lixado. Sempre mesmo. Mas tudo bem, perdido por 100, perdido por 1000. Lá se vai o meu projecto de ter as pessoas a idolatrarem-me fascinadas. Já não dá para as enganar. Humano, demasiado humano.

O Melhor vs. O Mais Forte

Eu tenho uma grande, grande vontade pessoal que Cristiano Ronaldo ganhe o troféu de melhor jogador do mundo. Para matar esse borrego. Para lhe dar a bicleta. Porque acho que ele é o jogador mais trabalhador, esforçado, que mais comeu o pão que o Diabo amassou e seguiu em frente.

Mas... quero também sobretudo para me ver 'livre' de elogiar Ronaldo. Para o recompensar de ter que 'furar' um mundo tão impenetrável sozinho, contra todos, e depois poder ir glorificar os outros jogadores que, na minha opinião, são mais 'artistas', têm um amor pela Arte mais profundo, conquanto tenham menor rendimento futebolístco. Refiro-me a Messi, a Ibrahimovic e a Ronaldinho.

Basta ver o golo que Ibrahimovic marcou ao Bolonha para perceber o que digo. Aquele gajo, simplesmente, recusa-se a marcar golos fáceis! 'É fácil? Então não, não vou marcar, ok?' Ibrahimovic, como Messi, como Ronaldinho recusam o fácil no futebol. Ao contrário de Ronaldo, que açambarca tudo o que pode - o fácil e o difícil. Aqueles três preferem o complexo, o que acham só eles podem fazer, e têm desdém pela normalidade, pelo fácil. Pois bem, meus caros, melhor definição de artista não conheço.

Ronaldo não é um artista nesse sentido, como eles. Ele não procura ser, na verdade, o melhor. Ele procura ser o mais forte. Há uma grande diferença. E é esse, justamente, o meu problema com o Ronaldo: ele não é, para mim, o melhor jogador do mundo. Neste momento, porém, é o mais forte: o mais atlético, completo, e produtivo.

Eis porque muito relutantemente lhe concedo o título do melhor do mundo, senão por reconhecer que lhe foi difícil e que ele trabalha 'como o caraças'. Ah, mas a Arte, meus caros, não é uma questão de trabalho...

quinta-feira, outubro 02, 2008

Forward To: "Belzebu"

Se há coisa que eu abomino são as 'chain letters'. Se Dante descrevesse de novo o Inferno, lá estariam os gajos que criam as 'chain letters' eternamente a enviá-las para si mesmos e enviá-las de novo. E a cada vez tinham que enviar para um novo endereço, também seu. E a partir de cada novo endereço teriam que encontrar novos - seus - endereços a quem enviar. Bwah ah ah... Espera... já estou a delirar com a fantasia.

Detesto, em suma. Agora, o problema é quando são coisas realmente importantes. Por acaso, a mim toca-me ter uma amiga que é especialmente profícua a remeter emergências. O que me cria um grande dilema. Normalmente as 'chain letters' morrem chegadas a mim, mas tenho mesmo que reenviar (e é estranho as pessoas que tenho que escolher) uma emergência. Não pode ficar ali, afinal.

E se os houver que usem esse sistema de emergência falsamente, da próxima vez remeto o mail para o Joaquim Mefistófeles (quim_mefisto@gmail.com) para ele lhes arranjar um lugar onde criarem chain letters para toda a eternidade.

Individualista vs Solitário

E eu explicava que não sou individualista, que nunca fui individualista. Mas sempre fui solitário. A diferença? Um individualista pensa em si no meio dos outros. Um solitário afasta-se dos outros, porque no meio deles não consegue pensar minimamente em si. É o total oposto.

Um solitário é alguém, na realidade, profundamente gregário, que rejeita, teme, essa envolvência nos outros. Por várias razões. Não... um individualista é um puro sacana. Um solitário é apenas alguém que não gosta de como pode esquecer-se tão - mas tão - profundamente de si mesmo no meio dos outros, e por isso renega sequer a normalidade.

1000 (Uau...)

1000 posts tem já este blog. Extraordinário. 1000 posts. Acima de 1000 posts. 1000. E era para ser só umas semanas. Uau. 1000... 10 vezes 100. Um milhar de "Publicar Mensagem". Uau. E quase dois anos, que não duas semanas. Uau.

Cum caraças.

terça-feira, setembro 30, 2008

La Solita Storia... (anexo)

Recordo-me de, há uns meses apenas, me dizer um taxista milanês que as pessoas, face à crise instalada, tinham que pagar para trabalhar. Isto é, para serem escolhidos para um trabalho, face à oferta, pagavam um tanto de entrada. Pagar para poder trabalhar de um lado. 14 milhões em notas a passearem pela cara de um jornalista. Na mesma cidade.

Não, ó Zé. Eu não me metia nisso.

La Solita Storia...

Está na Gazzetta, aqui:

"Singolare il siparietto durante la conferenza stampa in cui un giornalista è stato sfidato con ironia da Mourinho a scrivere la formazione prima di una partita, e non a criticarla dopo. "Lo faccio se mi dà parte dei suoi nove milioni di ingaggio..." ha risposto il cronista. Immediata la rettifica di Mourinho, che però lo dice col sorriso sulle labbra: "Non sono nove, ma 11, e con gli sponsor arrivo a 14 milioni..."

Desafia Mourinho um jornalista italiano para escrever a formação antes de um jogo, e não a criticá-la depois. Resposta do jornalista: "Faço-o se me der parte dos 9 milhões que recebe...". Réplica de Mourinho: "Não são nove, mas onze. E com os patrocínios chego aos quatorze."

Não, ó Zé... Assim não vais lá. Ainda não percebeste que Itália é mesmo o país do mundo mais errado para estares com essa postura. E ainda por cima mergulhada também numa crise económica. E ainda por cima ainda não fizeste nada. Não vás por aí - é o meu conselho. Mas tu é que sabes. Espero que vás construindo obra e tudo isso se dilua. Mas, Zé, foste - mais uma vez - avisado de que essa não é uma "buona strada".

"Chi va piano, va sano e va lontano".

Não é preciso ir muito piano. Mas... também é preciso perceber que um gajo da bola que recebe 14 milhões - em qualquer país - tem que fazer um esforço, ter um bocado de classe. Isso não é cirurgia de peito aberto, apetece gritar.

Senão anda, verdadeiramente, a brincar com os elementos. Por mais que possa haver estratégia para proteger jogadores, devida a um qualquer outro objectivo de longo prazo.

The Way of The Rebelde

Um título que é como giz a riscar quadro na minha mente é o "Rebelde Way". Rebelde... Way? De onde virá aquilo...?

"- Oi, chaval. Tudo bem?
- Em altas.
- Olha lá, chaval, qual é a tua way?
- É rebelde, puto. Sempre.
- Bacano. Choca aí, puto."

Quer dizer. Podia ser um título inteligente, mas dá a impressão que é, antes, um que não chegou bem lá. Lá, a ter o efeito, o "twist" desejado. O tipo queira fazer passar aquilo, mas... não colou.

Foi, maybe, um bocado naïve, julgo eu. I mean, se o guy queria um bom título para a novela, assim catchy, não devia ter ido por ali. Cause um gajo, desde logo, para ser rebelde, tem que ser cool. E aquilo mais parece um old timer a fazer-se de James Dean. Um gajo das catacumbas da SIC, fat e smoking his lungs out, que pensou: "Ora bem, o que é que esse teenage dirt bag que por aí anda quer numa novela?". E came up com aquele título para o show. Ficou, of course, todo orgulhoso, ao pensar que tinha concebido uma coisa really cool and all. E, assim, levou a sua brilhante masterpiece ao boss, dizendo: 'I found it. Vai ser Rebelde Way'.

Não, o acordo ortográfico a tanto não chega, meu caro. Rebelde as it may be a sua Way, não cola.