sábado, janeiro 24, 2009

Eu, Na 'Bússola Ronaldo'

Ronaldo foi eleito o mais odiado futebolista do campeonato inglês. Estranho?

Depois de tudo o que Ronaldo superou, mas também depois de algum egotismo, alguma falta de... comunhão com os outros elementos do jogo (os colegas, o público), recordo o anúncio da Nike que foi feito para ele, dividindo o mundo nos que detestam e nos que adoram o Ronaldo. Já vamos a ele.

Acontece isto com Ronaldo: foi o seu solipsismo que o fez vencer (mas o futebol também é colectivo). A minha sugestão é o: 'be careful what you wish for'. É, aos adeptos de futebol, e portugueses em particular, não adorar nem detestar Ronaldo - deixá-lo seguir sozinho, como ele sempre quis.

Eu nunca quis ser um 'Ronaldo' (leia-se 'estrela'). Nem nunca consegui totalmente ser um fã apaixonado. Também não o detestei - ele trabalhou para o que conseguiu (mas o futebol não é trabalho).

Não: eu não quero ser a estrela, o idólatra, ou o difamador. Eu quero o gajo que se lembra de fazer este anúncio.



Eis o meu lugar, na 'Bússola Ronaldo'.

terça-feira, janeiro 20, 2009

segunda-feira, janeiro 19, 2009

Há Vida No Rústicos

Afinal, parece que vai continuar a haver vida no 'Rústicos Epicuristas'. Lá coloquei a minha eleição de melhores golos. É darem uma olhada.

(para ver todos, clicar em 'Mesagens Antigas' no final da página).

domingo, janeiro 18, 2009

Tanto Mar

E pedir a Chico Buarque a paz aqui, em Portugal?


Cachimbo da Paz

Vamos lá mandar para o Médio Oriente, o grande índio, do 'nosso irmão' Gabriel. Vamo lá.


Ah, se tudo fosse assim tão simples...

Fama

Numa entrevista de Lady GaGa, ela explica que a sua insistência em se vestir exuberantemente, se bem numa espécie de vertente 'tailleur', usando essa roupa no dia-a-dia, faz também parte da lógica com que concebeu o nome do seu CD. É que ela chamou-lhe 'The Fame' e não 'Fame' propositadamente. E explica: 'Fama' é o que têm as pessoas que são conhecidas, 'A Fama (de)', é o que tem alguém que nos provoca e nos imprime uma 'persona' fora do normal, embora a não conheçamos. E a pessoa que tem 'A fama (de)' é aquela que nós queremos conhecer.

Assim, antes deste CD, indo vestida à sua mercearia com um penteado do Gautier e um meio-vestido inspirado em Versace, ela teria 'A Fama (de)'. Aquela rapariga, a que ninguém conhecia. Aquela, a meio estranha. Não te lembras? Que se vestia daquela forma maluca, mas depois era estranhamente lúcida a falar?

Há algo de mecanismo de sedução nessa diferença subtil. É como aquela questão: os homens desejam mais a capa da Playboy ou a mulher 'real' com que dividem o tempo no escritório?

Suponho que, dentro em breve, dela será, a 'Fama', não mais 'A Fama (de)' - e com toda a justiça.

Bem-Vindos...

... sejam os novos leitores deste blog. Um pequeno anotamento quanto às regras com que se faz este blog. Sobretudo à mais importante de todas: o facto de eu não ter que comentar o que aqui está escrito.

Porquê? Conhecem a célebre frase de Maradona: "El fútbol es el deporte más lindo y sano que existe en el mundo. Eso no le quepa la menor duda a nadie. Porque se equivoque uno no tiene que pagar el fútbol. Yo me equivoqué y pagué, pero... pero la pelota no se mancha."?

É exactamente o mesmo com este blog. O que eu escrevo, em liberdade, não se mancha, ou condiciona, pela minha vida quotidiana. É algo de per se. Se eu escrever aqui que tenho uma determinada inclinação política, e amanhã revelar outra - azar. O blog é o blog, é a escrita, é um laboratório sem esses condicionalismos de coerência. É para escrever. Que eu me equivoque na vida - o que escrevo não tem que o pagar. Nem eu tenho que pagar na vida aquilo que escrever (respeitando as regras de sociedade). São dois domínios, e estanques entre si. Haverá quem estabeleça relações, é inevitável. Digo somente que me escuso a comentá-las.

Dito isto, para quem vier por mal, tem aí a história daquele dia em que eu fiquei com o troco a mais que me deu a D. Ermelinda da papelaria. Pode dar jeito para mandar para o 24 Horas quando, em 2023, em me candidatar à Presidência da República. Blá blá blá 'beto', blá blá blá 'pseudo-intelectual' (Ciao, Freud!).

Quem vier por bem... divirta-se, se puder. É só escrita, de alguém que gosta de escrever, nada mais.

Retrato de Uma Artista Enquanto Jovem

True. Artista, through and through. Como deve ser.



Opois espantem-se.

"My art is my whole life"

"I eat, sleep, breathe and bleed every inch of my work. I’d absolutely die if I couldn’t be an artist."

"I don’t give a f*** about money. What am I going to do with a condo and a car? I can’t drive."

(Lady GaGa)

Planeta Ronaldo? Fiquemos Por Aqui...

Eu admiro a capacidade e a força de vontade que Ronaldo tem para superar as adversidades. Não vou estar com tretas: ele merece tudo o que ganhou. Nunca deve ter havido um jogador de futebol tão trabalhador e driven. Ainda assim: o homem é ele e a sua circunstância. Havia Ronaldo - genética e mentalmente, se quisermos - e a sequência de eventos fortuitos (o Sporting, o Manchester de Ferguson, a selecção de Scolari, etc.) que o ajudou. Ninguém - ninguém - vence sozinho. Por mais que assim o pense.

Não posso deixar de criticar o seu cinismo ao elogiar todo o entorno do Manchester, se for verdade que irá deixar o clube para rumar a Madrid. Para mim, é mau carácter. Mas é o mundo do futebol (talvez o próprio mundo). Também não posso admitir que Ferguson venha dizer que Ronaldo "deve" ao clube (um discurso bastante 'socialista' e 'continental' para o país de Adam Smith), se não perceber o pão amassado pelo diabo que Ronaldo teve que comer. A dureza do novo ambiente. O individualismo dos colegas. As entradas a matar. A falta de piedade de jogadores séniores como Nistelrooy, com quem teve pegas. Ninguém fala disso. Ninguém se lembra disso. Ninguém viu isso. Mas tudo isso Ronaldo superou em silêncio.

Tudo dito, apesar de tudo, acho que ele não deve tentar jogar esse jogo manipulativo. No entanto, faço uma ressalva - eu dizia o mesmo em relação à garganeirice do Figo, e o Figo, provavelmente, esteve à frente do seu tempo. Poucos anos depois da sua transferência, as trocas milionárias estavam vulgarizadas, e os salários - para jogadores inferiores a ele e mais novos - tinham subido. Agora veio a crise, tudo pode mudar. Mas, dessa perspectiva, fui eu quem se equivocou. Donde, a conclusão a tirar é que quem lá está é que sabe como as coisas são. Nada mais. Por isso, julgando as acções de Ronaldo a partir do meu entorno é provavelmente errado. Ainda assim, fica a nota.

De resto, não me recordo de futebolista para quem a Bola de Ouro tenha sido a antecâmara de qualquer coisa. Foi sempre o 'beijo da morte'. Sem excepção, todos decrescem depois do prémio. Mais: não é só Messi que ameaça Ronaldo. Basta verem Alexandre Pato a jogar à bola. E ele não tem só a capacidade, tem também a humildade que Ronaldo parece ter perdido, e, portanto, mais margem de progressão. Se o Milan não complicar o simples, Pato - disse-o o próprio Kaká - chegará àquele topo dentro em breve. Tenho nesse caso a desfaçatez de dizer que no Generosità eu já falara nele (Junho de 2007) mesmo antes de ser comprado pelo Milan. Foi aqui.

Não façam erros: eu desejo a maior das sortes ao Cristiano. Mas acho que no futebol cai-se tão rapidamente quanto se se ergueu. A grande desvantagem de surgir uma nova estrela no futebol é que, parece que nos últimos anos há sempre uma nova estrela a surgir, a ameaçar o pódio. Ainda bem para nós, adeptos. Antes não era possível a um jogador de 24 anos ganhar todos os prémios que Ronaldo ganhou. Mas como o seu homónimo 'Fenómeno' está aí para demonstrar, mesmo para os 'fora-de-série' o sucesso parece ser de consumo rápido. Such is the allure of the game.

sábado, janeiro 17, 2009

Os Nazis da Sopa e a Portugalidade

Um dia, viajava este vosso blogger pelo metro de uma alegre metrópole lusitana. Como ainda há duas com metro, vocês vão ter que ficar na dúvida. Como? É bem perguntado: porque sim.

Pois bem, alegremente ia eu - dizia - nessa alegria do silêncio e do 'não me incomodes' mútuo que caracteriza tal meio de transporte quando, à minha frente começo a ouvir uns batuques de tambor. Eram três jovens que faziam uma festa de rumor exótico, no final da carruagem. Aí se haviam sentado, pegado nos tambores e ensaiado - alegremente.

Geralmente prefiro o silêncio, mas a questão é que eles não tocavam mal, e para mim isso bastou: o alegre tamborilar era superior ao morcão silêncio. Estava-se bem. O metro lá continuou - alegremente. A certa altura, numa paragem, entram dois polícias, vestidos a rigor com o seu estilo "Armani SWAT". O clássico negro e cabedal, com um 'POLÍCIA' escrito a branco, etc.. - seguramente incomodando alguém, seguramente descansando alguém, com a sua presença.

Eis que um dos polícias presentes é interpelado por uma senhora mais idosa que ia à minha frente. Como eu não podia deixar de reparar (embora seja assumidamente cusco), só fiquei a perceber tudo depois: ela pediu -lhe para mandar calar os adolescentes que ritmavam no seu recato antes que, suponho, alguém começasse a baloiçar de argola de ferro em argola de ferro, como se de lianas de tratasse. É um perigo real.

Nisto, o polícia lá foi interpelar os músicos primitivos, e, com alguma estupefacção, a coisa ficou por ali. Digo-vos eu - e os mais inteligentes ficam na mesma a duvidar se é certo ou não - que havia uma certa melodia, uma certa qualidade. Não maçava, era alegre. Digo-vos eu.

Perguntei-me, pois, o que motivara assim aquela senhora a fiscalizar aqueles jovens, a trazer consigo essa vontade de os calar. Parecia-me uma insignificância. Parecia uma maneira absurda de cortar a alegria alheia.

Noutra situação, pouco após, vi alguém perder as 'normais estribeiras', de novo por causa de... coisas insignificantes. A tensão que pesa sobre as pessoas - todos sentimos a espaço tensão - mas parece-me haver demasiada... 'bulha' por pormenores. Não vejo, tantas vezes, uma porção que seja dessa energia investida no que realmente importa.

Mas este síndrome, o de fazer tempestades em copo de água, próprio de tempos nervosos, só me recorda o 'Soup Nazi' do Seinfeld, que, quando embirrava com algum pormenor de alguém, lhe negava desde logo a afamada sopa.



A piada da coisa (e aí começa a relação com a portugalidade) é que há uma história segundo a qual Seinfeld se teria inspirado para o personagem numa viagem que fez a Lisboa. Mas provavelmente, como verão se procurarem na Wikipedia, terá sido mesmo num vendedor de sopa nova-iorquino.

Há por aí alguns 'Nazis da Sopa' a chatearem-nos a cabeça. De todas as idades. Há por aí gente que se move, repara, protesta, julga - por 'coisinhas'. Às vezes penso se será uma coisa meio masoquista, espécie de 'death wish'. Como quem deseja ter outros problemas - esses sim, sérios.

sexta-feira, janeiro 16, 2009

Pecado Original 31

Niccolò Paganini ficou famoso pela qualidade dos violinos que fabricava, sendo que muito se tem especulado sobre o segredo por detrás dos seus instrumentos.


Esta senhora, que se chama Gabriela Paganini, é brasileira, mas quem sabe descenda do grande artesão veneziano. O certo é que tem, seguramente linhas muito harmoniosas em si, uma certa melodia nas curvas. Diria mesmo que tem, como dizem os brasileiros, não um corpo violino, mas um corpo violão. E pergunto-me qual será o segredo dela. Apetece-me mesmo atravessar o Atlântico para elucidar tão sedutora questão.









P.S.1: Para o leitor deste blog que dizia estar cheio de fome... cultural.

P.S.2: Que eu pense que, conjugando estes posts com a minha improdutividade, ao considerar a função social que me cabe, num José Vilhena refinado, é algo manifestamente cruel. Eu também podia igualmente bem ser comentador de futebol.

Neunundneunzig Luftballons

E o curso de Alemão continua, feito o segundo exame na semana passada. Continua já amanhã bem cedinho.




A Solução

Estava aqui a pensar que talvez desse para resolver a crise se vendessemos o Mourinho e o Ronaldo aos estrangeiros... Era tão bem feito. Vinham para cá os trocos, e eles ficavam com eles. Por que é que o Ronaldo não pode ser alemão, ou o Mourinho tailandês? Hum? Não era uma grande ideia? Quanto é que não valia? E se fosse preciso punha-se o Sr. Aníbal da mercearia a treinar o Inter, ou mesmo o a D. Estrudes da repartição a centrar para o Berbatov. Porque não? Hum?

Gosto muito de urdir estas considerações sobre Economia. Não sou muito pior que a maior parte dos comentadores, valha a verdade.

Gágá (And Proud of It)

Uma coisa que me chateia ligeiramente, com pessoas da minha idade, é que alguns pensarem (por estereótipo) que, gostando eu de temas mais 'adultos', e conseguindo ter uma luzes sobre Economia, ou Política, que não somente sobre Futebol, de alguma forma 'não pertenço', isto é, a cultura jovem me escapa.

Ora isso é uma absoluta - espera. Há alguma verdade nisso. Talvez alguma dessa cultura juvenil me escape - mas ela é tanta, a quem não escapa? Tudo bem, eu não sei qual é a nova banda inglesa do momento. Mas isso não quer dizer que eu não goste da melhor cultura juvenil, da minha cultura contemporânea. Aliás, desde o momento em que os (so called) adultos começaram a remexer divertidos na 'nossa' net, o que é a cultura verdadeiramente juvenil? Onde está o Gato Fedorento que víamos e que os nossos pais só conheceram, surpresos, por um anúncio a um banco? Hum? Disseste Bruno Aleixo? Veremos.

Mas serve isto para dizer que, já me bastando o paternalismo adulto, e reconhecendo as minhas lacunas, dispenso o paternalismo juvenil. Eu gosto de tudo. É a tal expressão parvóide "omnívoro intelectual". Sempre fui. Diz que é uma espécie de curiosidade.

Mas eu não pertenço à turma dos 'gágás'. Ou antes, pertenço pois, com muito gosto - mas não é à que estás a pensar.


Les Aventures de Tintin: Dans Un Monde Sans Intelligence

Tintin fez recentemente 80 anos. É uma idade vetusta. E eu não gosto que se brinque desta maneira com o Tintin.

Mas ok, caramba... o artigo está suficientemente 'bem-visto' para a gente se rir um bocado. Diz Matthew Perris (ex-deputado conservador, e homossexual assumido) que Tintin é... gay. Alguma calma, por favor, - eis os seus argumentos:
  • "um jovem imberbe, andrógino, com um caracol loiro sobre a testa, em calças de aspecto curioso e um cachecol indo viver para a mansão do seu melhor amigo, um marinheiro de meia-idade?"
  • "um rapaz de face dócil devotado a um felpudo 'toy terrier' branco, cujos outros amigos mais próximos são um par de detectives inseparáveis em chapéus de coco, e cujo única amizade do sexo feminino é uma diva de ópera [Bianca Castafiore - 'A fag-hag if ever there was one']? "
  • " (...) a única e enigmática referência quanto às origens de Tintin [por parte de Hergé] foi descrevê-lo como tendo saído recentemente dos escuteiros."
  • " (...) conto apenas oito figuras identificáveis como mulheres (cerca de 2%) da lista de cerca de 350 personagens por entre as quais Tintin se move na sua vida. Não há qualquer mulher jovem, e nenhuma mulher atraente, nas suas aventuras. (...) Nem mesmo ao seu arqui-inimigo Rastapopoulous, fumador de charutos, empresário de filmes e traficante de drogas, (...) é alguma vez dada uma loira no seu braço ou a miúda do vilão que se esperaria. Permanece solitário."
  • Milú: "o único mamífero masculino que é heterossexual sem ambiguidades no universo de Tintin. Sabemos isso pela tendência de Milú em ser distraído por cadelas (...). (...) 'Pity this dog, wretchedly straight and trapped ina a ghastly web of gay human males'."
  • 'But Snowy [Milú] saw everything; Snowy knows all. And Snowy never tells'
Ora, alguns franceses (embora o criador, Hergé, seja belga) ficaram meio irritados com esta desfaçatez. E eu percebo-os.

Mas, lendo a entrada na Wikipedia em francês sobre Tintin (bem sei - é a Wikipédia, mas quem conseguir cruzar os artigos em diferentes línguas estará mais próximo da verdade), podemos extrair estes factos - que, para mais, me fazem todo o sentido:
  • Hergé chegou a ser interrogado sobre o assunto, e recusou essa interpretação, defendendo que as aventuras de Tintin referem-se somente a histórias de amizade masculinas, e que as relações amorosas não encontram aí lugar
  • é preciso recordar que a legislação do ante-guerra - e mesmo depois - relativa às publicações para juventude era muito rigorosa. Nessa época, a juventude masculina e feminina estava na Europa claramente separada, tanto na vida escolar como nas publicações que lhe eram destinadas. Essa característica pode, aliás, ser comprovada noutros autores para além de Hergé
  • também a grande experiência de Hergé em matéria de escutismo pode indiciar que as suas relações de amizade ao longo da adolescência foram somente masculinas, o que era comum na primeira metade do séc. XX
Eis a resposta a Perris - como deve ser. E a defesa de Tintin, afinal, de toda esta gente que teima em julgar assim - a traço juvenil, sem fazer o 'trabalhinho de casa'.

A piada é boa, sim senhor (mas está visto até que a 'teoria' nem é nova como ele faz crer...) - mas é só piada juvenil, nada mais. Com toda a ignorância , todo
o défice de análise - por debaixo da ânsia na síntese.



Não dá para explicar a este mundo - a esta gente - o que é o onírico, um conceito de honra e amizade que Hergé cultivou, mal ou bem (ponho a hipótese de 'mal', porque a ingenuidade paga-se cara). É o mundo dos Tom Sawyer e Huckleberry Finn, dos Cinco, das aventuras do Hitchcock, do 'Uma Aventura'. É o mundo da fraternidade juvenil, de amigos que se juntavam para explorar este mundo, quando o mundo não vinha todo na televisão e na Internet. É, meus caros, um mundo dos livros. Com alguma simplicidade, com alguma inocência. E o mundo não a percebe mais, porque já não há nele assim paraísos do simples e do inocente. É um mundo mais cruel - mas mais honesto. Quem conheceu esses universos, teve essa sorte, conheceu. Quem não conheceu, bom... pode esperar que regressem. Talvez então, quem sabe, até dê ao filho um livro de Hergé.

quinta-feira, janeiro 15, 2009

Back In Business

Fui ali abaixo comprar o jornal à papelaria que poderia haver no rés-do-chão do meu prédio. Disse-me o sr. Albano, quando eu estava a pagar o Público: "Vem aí o Fim do Mundo". Ainda pensei se seria alguma nova série de televisão. Mas depois percebi. "Então isso quer dizer que não há 'Público' amanhã?". Responde o sr. Albano: "Goze, goze, que vocês é que cá ficam. Eu já tenho 63 anos, já gozei muito, comi que me fartei, e, sem a minha mulher saber, andei amancebado com duas mulatas e uma ucraniana. Vocês é que se vão lixar." Eu já não estava a apreciar a conversa. "Ó sr. Albano, mas o senhor, desculpe lá, se o mundo estiver para acabar de que serve também o senhor ter gozado? Quer dizer, quem é que sabe disso? Eu não, porque não estarei cá. Não vou ser eu a dizer na minha hora: 'Eh pá. Quem me dera ter gozado como o sr. Albano, com duas mulatas e uma ucraniana. Aquilo é que foi viver'. Já não vou ter um filho para lhe dizer: 'Jaquim Júlio, não faças esta vida estúpida do teu pai. Vai mas é curtir como fez a seu tempo o sr. Albano.' De que serve ao futuro todo o gozo que teve o sr. Albano? Vai deixar tanto lastro o seu nome como ali o do Pintas." O Pintas é o rafeiro do bairro, um simpático cão amarelo, de uma cor amarela desmaiada pelo muito coçar em que se entretem, por ociosidade.

O Sr. Albano ficou mais chateado do que daquela vez em que eu disse que o Benfica era beneficiado pelos árbitros. Se eu visse a ucraniana que não falava assim e não sei que mais. "Você não vê", disse ele, que "se amanhã morrermos os dois, eu vou de barriga cheia?". Hum... "Hum... Mas ouça lá, embora isso possa ser verdade, desaparecendo você, o que é que deixa na Terra? Quem é que vai dizer: 'aquele indivíduo não só existiu, mas gozou que se fartou'? Quer dizer, que obra ou filhos deixa você?". "Uma filha.". Ah, ah! "Bom, pelos vistos não deixa, não é? Quer dizer, o Fim do Mundo, quando vem, é para todos, não?" Não gostei muito da expressão com que o sr. Albano me fitou naquele momento. Suspeitei que já não me ia calhar o próximo fascículo de biografias de Grandes Carpinteiros com o 24 horas. Mas tudo bem, já tenho a do Gepetto (é por isso que mais vale prevenir).

Algo embaraçado, lá me fui embora. Era para lhe perguntar pelo novo fascículo da Agostini e pelo sentido da Vida, mas achei melhor ficar para outro dia. Isto, claro, na eventualidade de haver um outro dia.

Mas a verdade é realmente essa. A tal coisa portuguesa de curtirmos mais a vida, só faz sentido se... ainda houver mundo. Se os tipos acabarem com ele, por terrorismos, guerras ou crises financeiras, infelizmente, ninguém vai comentar o meu recorde de 322 croquetes em dia e meio. A modos que a coisa, vá por onde vá, nos lixa sempre. Ah e tal, vem aí o fim do mundo e fulmina-nos todos. E pah, se for mesmo todos, todos, é desagradável. Porque se somos nós e aqueles aos que fomos mais espertos, então... diacho - volta tudo à estaca zero.

Foi aí que eu senti que o que o sr. Albano, na verdade, me queria dizer, era que devia manter o meu blog como estava. E isso, claro, significa deixar o 'Rústicos Epicuristas', mas lá terá que ser. Eis pois, o fim da mais curta moratória anual de sempre - nomeadamente porque durou somente um terço do mês.

Enganei-vos bem, não foi?

sexta-feira, janeiro 02, 2009

AVISO: Blog Em Moratória


[***]

Durante todo o ano de 2009, o Generosità estará em moratória. Foi um projecto que tive o maior prazer em realizar, e que espero retomar em 2010. Sentirei falta de local onde escrever, mas só muito excepcionalmente o retomarei antes do período previsto. Poderá mesmo ter que terminar aqui. Se tal for o caso, não posso deixar de agradecer aos amigos que fizeram questão de o ir visitando.

[***]

quarta-feira, dezembro 31, 2008

Olivus 2008: Jornal/Revista/Colunista

Que não vos iludam estes prémios. O panorama da imprensa portuguesa continua paupérrimo, em crise desde há muito. Cheio de 'enlatados', 'condensados' e 'produtos de marca branca' . Ah, que saudades da 'boa mesa'!...

Melhor Jornal: 'Público', apesar das minhas críticas, e embora não o leia como antes. Parece que a crise económica pode obrigar o jornal a largar toda a gordura que eu desde o princípio critiquei. Quem sabe se eu ainda não ganho na teimosia?

Melhor Revista: novamente, a 'Sábado'. Ainda criativa e irreverente. A 'Visão' melhorou.

Melhor Colunista: vou dar o prémio este ano ao José Pacheco Pereira, uma vez que Miguel Sousa Tavares o ganhou o ano passado (parece que a coisa vai mesmo rodando por estes dois). Mas faço-o sobretudo pela erudição - tenho a mesma opinião que Baptista Bastos: JPP fala muito melhor do que escreve. Nele há sempre este dilema: lucidez e pedagodia na oratória, e uma certa sofreguidão, um ataque de 'bulimia intelectual' nos textos (espaço ou estilo?). Ainda assim, excelente divergência de temas - e incomparável profundidade. Miguel Sousa Tavares - o melhor a clamar quando tal se pede - partilha a melhor prosa com Pedro Mexia, tendo este último talvez a mais consistente 'bagagem' cultural contemporânea, e uma boa divergência de temas. Interessantes sugestões e 'dedo na ferida' de João Pereira Coutinho (incidentalmente, considerado no Brasil um dos, senão mesmo 'o' melhor colunista).

Olivus 2008: Televisão

Apenas duas notas:

'Conta-me Como Foi' teve os melhores desempenhos de toda a ficção nacional, na minha opinião. Miguel Guilherme e Rita Lello mantiveram um nível que me parece inusitado, mesmo se eu tivesse pouco interesse na série em si. 

O melhor telejornal continua a ser o da Sic Notícias, com grande destaque para a condução de Ana Lourenço (de uma ponderação, pequeno domínio do tema e sentido de oportunidade inigualáveis), bem como de Mário Crespo (e basta a menção, porque o sex-appeal simplesmente não é o mesmo).

Olivus 2008: Filme do Ano

Decidi (os estatutos assim o permitem) suprimir o Olivus Award para Música, e converti-o em Filme do Ano. Porquê? - porque, não sendo um cinéfilo propriamente dito, muito menos sou um apreciador refinado de música. Em termos musicais, pertenço à escola: "Don't know much about Art, but I like that!" (aponta para mapa de emergência do museu, pensando que se tratava de um Paula Rego).

Já em termos de cinema, há uma enorme diferença: é exactamente o mesmo, embora eu me atreva a opinar.

Oiçam... o Óscar manda nos prémios dele - e eu mando nos meus.

[***]

Pois bem. De novo deixando piadas, e passando a assuntos sérios, há um filme que merece, 'far and away' o prémio, e refiro-me obviamente ao "Batman: The Dark Knight".


Nada direi da realização, nada direi da produção, nada direi da iluminação (?). Mas facilmente se percebe a qualidade dos actores (estamos a falar de um filme que se dá ao luxo de ter Michael Caine e Morgan Freeman como actores secundários), sobretudo pela suprema (excessiva?) dedicação de Heath Ledger ao papel de Joker.

Quer o admitamos, quer não, o advento da morte de Ledger veio dar ainda mais força artística a este personagem, para o tornar inesquecível. Esperemos que não tenha sido essa a intenção de Ledger - nem mesmo a Arte se sobrepõe à Vida. Pelo contrário - deve celebrá-la. E a sua morte é uma tragédia que nada justificaria.

Assumindo-a embora, acontece que as próprias idiossincrasias de Joker, com a sua cara oculta, parcialmente desfigurada, contribuem para que, na mente do espectador, se suma para sempre Heath Ledger. Substitui-o uma personagem... uma sua obra de Arte. É como se não fosse bem Heath Ledger que faz de Joker, mas outrém. De repente, parece até que não há actor, quase como se um Joker existisse. É como se Ledger tivesse pensado em tudo, e quisesse confundir o antes e o depois, o vivo e o não-vivo - com uma criatura estranha pelo meio.

O enredo do filme, para mais, é bom, por exemplo, na exploração da natureza humana com o dilema da aniquilação mútua (situação dos barcos), mas, sobretudo, no sacrifício de Batman, a sua maldição à clandestinidade para manter, nas pessoas - no 'mainstream' - uma ilusão de esperança. Também de ilusões, de esperanças, vivem as sociedades humanas. E, por entre a racionalidade, o hábito, também dos seus próprios heróis.

Confesso que, tantas vezes, o meu estilo de filme não é mesmo este. Parecia-me ter demasiada acção (no meu caso 'demasiado' é practicamente uma perseguição de carros), demasiado fogo-fátuo por cima de vacuidade do enredo, fluindo com interrupções na qualidade... Grande - grande - surpresa: "Batman: The Dark Knight" 'limpa' tanto os elogios do 'comercial', como do 'intelectual'. E arrisco dizer que, além de filme do ano, tem lugar, necessariamente, numa reflexão sobre o cinema que se fez esta década.

terça-feira, dezembro 30, 2008

Olivus 2008: Livros do Ano

Reparem, como apontou Francisco José Viegas no seu 'A Origem das Espécies', no facto de o 'Ypsílon', suplemento cultural do 'Público', na lista dos melhores livros de 2008, não incluir um único título de Ciência ou Filosofia.

Tendo passado pela lista análoga da 'Actual', do 'Expresso', e reconhecido igualmente pouca não-ficção (creio que também nenhum título de Ciência ou Filosofia) vou, para os meus livros do ano, escolher dois tomos que são, justamente, não-ficção.

Faço-o, antes de mais, pela questão elementar: foram, que me recorde (e do pouco que infelizmente li), os que mais me marcaram. E depois, claro, sempre dou a 'pinta' de ler imenso - seja de ficção ou não-ficção. "Keeping up appearances". É sempre importante.

Os livros pertencem ao mesmo nível de qualidade, estão ex-aquo, apesar da numeração.

1. "Outliers", de Malcom Gladwell


É difícil encontrar uma etiqueta temática para este livro. Psicologia pop? Talvez. Ensaio/ciência sociológica popular? Quem sabe.

Tal como nos seus anteriores 'The Tipping Point' e 'Blink', Malcom Gladwell volta a produzir um livro surpreendente, criativo na abordagem, compilando uma série de factos dignos de nota numa teoria. Acerca de quê?, perguntam vocês - e bem. Pois, acerca de algo que a maior parte das pessoas procura na sua vida: sucesso.

'Outliers' é o termo inglês que se refere ao ponto estatístico que escapa à média. No caso concreto da análise de Gladwell, os casos das pessoas com sucesso nas suas vidas, consensual. Quais são os factores que são comuns a todos os casos especiais, a todas as pessoas brilhantes e que 'conseguiram'? A um Bill Gates, a um atleta, a um cantor famoso, etc.? Nas palavras de Gladwell, qual é a 'ecologia' do sucesso?

Gladwell identifica alguns factores comuns aos conjuntos de casos que apresenta. Alguns muito interessantes, na verdade. Como o 'efeito Mateus' (a partir do episódio bíblico), que ocorre com os atletas - e alunos - nascidos nos primeiros meses do 'cut-off' anual para a segmentação dos grupos. Essas crianças têm maior probabilidade de ter sucesso na sua vida (dado igual componente genética, quantidade de trabalho, etc.), concluiu. Acontece que, nas primeiras idades, uma diferença de poucos meses é muito significativa. Assim, um jogador de futebol, por exemplo, que nasça em Janeiro (supondo que o 'cut-off' de captação é em Janeiro) tem maior probabilidade de evoluir para um profissional do que aquele que nasce em Dezembro. Ocorre aquilo que se chama uma 'self-fulfilling prophecy', ou um 'feedback positivo', uma espécie de 'vitória busca vitória', de tal forma que o menino Aquário - mesmo se não for à partida o melhor, se torna o melhor, em virtude dessa série de sucessos acumulados.

Os factores enumerados, que incluem também (que pena que a cultura de Gladwell não chegue aí...) uma outra versão da célebre frase de Gasset: 'El hombre es él y su circunstancia', seja na oportunidade em termos do tempo histórico para se nascer, seja no contexto cultural que nos marca (sobretudo na mudança desse mesmo contexto, como no caso de um emigrante, ou na vantagem de hábitos antigos em tempos modernos; sobre esta última, uma curiosa reflexão sobre a cultura do arroz no espírito trabalhador do chinês, e no mandarim a conferir vantagem em Matemática).

Sejamos claros: haverá algo no livro que é superficial, seguramente. Mas o caso que Gladwell expõe é suficientemente interessante para ser atentamente lido. É como uma colecção tratada de estudos científicos e livros que apresentam ideias diferentes sobre a realidade, que fazem notícias de jornal - desconexas entre si.

Porquanto haja o perigo de falibilidade de alguns postulados após a sua análise, 'Outliers' suficientemente 'thought-provoking' para merecer este prémio. É criativo, neo-prespectivista (inventei agora, porque eu também posso ser criativo), e está claro, bem escrito o suficiente para que se o leia de uma ponta à outra.

Nota: se bem que publicado recentemente, este livro está já disponível na tradução portuguesa.

2. "The Drunkard's Walk", de Leonard Mlodinow



Muitíssimo mais consistente no seu tema é este livro de Leonard Mlodinow, que trata sobre a aleatoriedade nas nossas vidas. Por mais que pareça conversa de bêbado a sair da taberna (embora não seja daí que venha o título), as nossas vidas são mesmo muito condicionadas por fenómenos aleatórios, e, pior, nós condicionamo-las por fenómenos que a nossa mente crê seguirem um determinado padrão, quando a Ciência pura e dura prova a sua aleatoridade. O grande problema - o de sempre, talvez - é que, enquanto seres humanos, não conseguimos 'funcionar' sem a certeza do controlo - e a nossa sociedade é simplesmente aleatória, complexa demais, para que a possamos inteligir. Não somos nós que não encontramos o padrão - ele simplesmente não existe.

Ninguém quer acreditar nisso, claro. Mas Mlodinow, começando com uma (refrescante, para mim, já que era esse o único tema em Matemática de que eu gostava) revisão sobre Probabiliades e Estatística - um pequeno 'primer' - dá depois exemplos muito consistentes, que abarcam a Medicina, a Justiça, a Finança, mesmo - citando mesmo algumas fontes comuns a Gladwell - o sucesso pessoal, e que expõem a miserável incerteza das nossas vidas neste complexo entorno hodierno.

O livro está bastante bem escrito - é rigoroso, lúcido, como próprio de um cientista - mas igualmente espirituoso. Pessoalmente, achei-o brilhante, e muitíssimo esclarecedor. Afinal, eu sempre tive essa teoria a priori: a sorte, a 'Lady Luck', dá 'nós' no caminho que nunca pensaríamos possível, com a boca cheia de 'trabalho', 'esforço', 'qualidade intrínseca'. Não seria por outra razão que tenho em boa memória filmes como 'Sliding Doors', ou 'Match Point'.

Completo, lúcido, a espaços impressionante. Ainda bem que tive a sorte de comprar este livro.

[***]

Ambos lidos no original inglês, como deve ser; quilometragem em Inglês: 909 páginas.

Olivus 2008: Publicidade

O Olivus deste ano para a publicidade vai para uma singela frase, daquelas que a Sic Radical passa entre programas e anúncios, como se nada fosse, mas que, em sintonia com o estilo ou a razão de ser dessa estação eu achei simplesmente genial. A frase é somente esta: "Não emigres".

Dela se pretende subentender, claro, que a Sic Radical sempre daria umas razões - supostamente pela qualidade da sua programação - para evitar que uma pessoa entre os seus 18 e 30... deixe este país. É brilhante porque capta o 'zeitgeist', o espírito deprimido, sem horizonte, arquitectando seus planos em silêncio, de uma juventude abafada pelo país, que não encontra espaço no país.

Uma nota, ainda assim, para este anúncio da Zon. Eu sei, eu sei. Mas eu sou o tal fã do Rigoletto (e é tão singela e verdadeira a letra: la donna è mobile, deveras), e algum dia já pensei em algo parecido. Portanto... fica a menção honrosa. 


Olivus 2008: Figura do Ano

Voltamos aos Olivus Awards, meus amigos. Começemos com a 'figura' ou 'pessoa' de 2008, porque a 'personalidade' que ganha o prémio, essa já sabem - é mesmo a minha (é lerem as regras se houver dúvida).

Ok. As graçolas ficam por aqui. Vamos lá então a coisas sérias.

I. Internacional:
Barack Obama

•
Escolha natural, e sê-lo-ia somente pela ruptura cultural, pela página da História que já escreveu. É, com efeito, um político arguto, que parece ponderado na abordagem aos problemas, mas ao mesmo conciliatório, ecuménico. É a sua expectativa, porém - uma vez que da sua acção ainda nada se pode concluir - que vem este prémio. Por todas as razões, vamos esperar que a acção esteja ao nível das expectativas.

2009 vai obrigá-lo a jogar as cartas que aparenta ter na manga. Nesse jogo, de nada adianta dizer que 2009 será aquilo que se espera, ou que a crise ainda vai piorar. A janela de esperança que representa, não só para os EUA, mas também para o mundo, exige-lhe o que prometeu: mudança. Exige-lhe inteligência e criatividade. Exige-lhe resultados.

Mas faço uma ressalva, chamo a vossa atenção a uma curiosidade… “maldosa”. Ei-la: discurso de vitória eleitoral de Obama centrou-se na capacidade de realização do ‘american dream’, partindo do princípio que o seu feito – porquanto histórico – representa, justamente, o ‘american dream’. Ora, eu - se bem que não seja americano - não podia estar em maior desacordo. Na minha concepção histórica o "motivo onírico" americano aplica-se à conquista de riqueza, à conquista intelectual, mas não tanto à conquista de poder.

Um presidente deve ser instrumental, isto é, ser um veículo, permitir aos seus concidadãos usufruirem da possibilidade de se sublimarem, de realizarem esses ‘american dreams’, essas conquistas. O poder, em termos do que é a democracia americana (como exemplar nação democrática), não pode - não deve - estar dissociado do serviço.

Mas enfim, esperemos que ele consiga superar com actos esse ‘faux pas’. Esperemos que sim – para o bem de todos nós. Here’s hoping things work out for you, Mr. Obama.

II. Nacional: Cristiano Ronaldo/Nélson Évora

Parece-me, igualmente, natural a escolha de Cristiano Ronaldo como personalidade nacional, não pelo que faz pela nação propriamente dita, mas antes pelo que nalguma representação nacional faz a nível internacional.

No meio do vazio, da ausência de rumo, tanta vez, que caracteriza a nossa era para muita gente, Ronaldo aparece com uma super-motivação, uma força imparável, uma ambição e realização espantosas. Para muita gente, por ridículo que possa soar, ele aparece um pouco como "vida no vazio", um enigma que apaixona a vida aborrecida, banal, condicionada, cerceada, de tanta gente. Aparece como um motivo do humano. Era melhor que fosse Rembrandt - mas não é assim que as coisas funcionam.

A paixão de Ronaldo pelo futebol, a sua entrega ao jogo, fá-lo um símbolo. No futebol não há chefe, não há dinheiro, não há amor, não há certeza, não há dois jogos iguais. Há só artistas, um parêntesis cénico, uma obra de arte dinâmica e colectiva, um exercício de possibilidade que qualquer ser humano compreende. Por exceder no futebol, por entusiasmar tantas pessoas, Cristiano Ronaldo merece este prémio. A Bola de Ouro é o mero corolário do seu esforço e dedicação. Fez ouvir e ler-se a palavra 'português' - gostemos mais ou menos dele - mais do que qualquer outra pessoa em 2009. E, tendo-o feito por motivos eminentemente positivos, mais que merece esta distinção.

Partilhará, contudo, o troféu que o Generosità, na minha pessoa, lhe oferece, com Nélson Évora, que, talvez mais, alegrou o próprio país. Sobretudo porque foi o único que, confrontado com a maior fasquia, no caso particular, a cumpriu. Disse, ou deixou que muitos dissessem - e fez. 

Para mais, fê-lo na pior situação - quando todos os colegas olímpicos desiludiram na sua meta (excepção feita, notavelmente também, a Vanessa Fernandes), e a crítica devastadora (o atípoda da exaltação esperançosa antes de os atletas entrarem no avião) se acumulava. De tal forma que Évora - actuando mais tarde - foi um 'tudo ou nada' para a missão olímpica portuguesa. Foi a última fronteira para a desilusão e o achincalhar de toda a missão. E ele, sob essa pressão acrescida, foi o tudo, e salvou tudo. Ter conseguido - perante o mundo, perante os portugueses e, também, perante o pessimismo e a desilusão dos portugueses, fazem de Nelson Évora o símbolo do ano, o vencedor português do ano. Daí o prémio, daí os parabéns - que assim exige o nome deste espaço.

terça-feira, dezembro 23, 2008

Boa Acção do Dia 4

Camões versus o 'espírito' do Natal.


Boa Acção do Dia 3

Afinal, o mito do 'Daredevil' tem fundamento. O homem nas imagens, como descreve a narradora, é cego. E consegue desviar-se de todos os obstáculos no caminho.

Alguma vez esperaste ler as duas últimas frases seguidas num texto?


Em Preparação...

...os Olivus Awards deste ano.

Boa Acção do Dia 2

A ler, o excelente artigo de José Pacheco Pereira (JPP) - disponível no Abrupto - "A absurda ideia de que há um regresso a Marx". JPP no seu melhor.

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Miss RE 2008

A vossa atenção para esta votação, se faz favor. Muito agradecido (é desta que o primo Apolinário pode votar na moça mais ao seu agrado).

Boa Acção do Dia 1

Ora leiam este poema: 'poeminha do menino triste', aqui. (há que baixar a página com o cursor).

sábado, dezembro 20, 2008

A Dialéctica do Espírito: Um Conto de Natal

Estás preocupado com a crise. Não sabes bem exactamente o que é, como te vai afectar. É uma crise estúpida. Caramba, tu bem avisavas. Mas aconteceu. E há sempre os banqueiros que se safam escandalosamente, os políticos para quem fica tudo na mesma. Um nojo. Mais um suspiro. Mais um dia.

Chegas de manhã ao teu emprego absolutamente miserável e lixado com a vida. 'Isto é tudo uma m****!' dizes para ti depois de cumprimentares cordialmente o Sr. Carlos, porteiro.

Quando chegas ao teu andar, finalmente, vais fazer a única melhoria possível dessa manhã - beber café. Descobres que ('f***-se!!!') a singela máquina escolheu esse dia para deixar de funcionar. Já não convém saíres, porque, assim que entraste o teu chefe disse: 'Bom-Já-Tens-Ecomenda-Antes-Dez-Era-Para-Ser-Depois-Mas-Mudou-Prazo-Senão-Lixados. Já bebeste café? Vai lá, mas não te demores'.

Sabes que a vida está complicada quando não te sobram asneiras para dizer numa manhã. Lembras-te do teu avô que vivia no Campo - isso sim, era vida. Que pena o ecrã do computador não poder falar contigo. É estranho não o fazer, por ser um tão fiel amigo, e agora precisavas das palavras de um fiel amigo. Talvez a sua qualidade seja a de estar calado perante os teus caprichos. Talvez esse silêncio o torne agora tão inútil.

Mas, por algum milagre, além do monitor os teus colegas estão contentes. Estranhamente felizes, num tom de conversa ameno. Luminosos. Pegas em ti, e juntas-te a eles. És bem recebido. Ausentas-te só um segundo com uma piada, e fazes a encomenda que era preciso. Um instante. Quem diria. Tornas à conversa. Sentes as tuas dores a deixarem - como se nada fosse - os teus ombros. Ris-te. E percebes que a todos une, de alguma forma, e para tua surpresa, o espírito do Natal.

No final do dia, renovado pelo convívio no escritório como nunca antes, despedes-te de todos. 'Feliz Natal' para um lado, 'Bom Ano' para o outro, até mesmo um 'Não, se calhar são vocês que ganham o campeonato este ano'.

Toda a gente ri. Mas então alguém se lembra de acrescentar ao generoso 'Divirtam-se!' sorridente, um acrescento de verdade, que faz cair o sorriso: 'Se conseguirem, com esta crise... Vamos lá ver' [olha o chão].

Ias dizer uma asneira. Duas até. Tinha que ser, não podia ninguém não o lembrar. Era só mais um bocado, estavas quase a sair. Não ias ficar com o espírito maculado de novo.

Mas que se lixe. Decidiste ir para casa com o espírito de Natal. O espírito da crise virá, sabes bem. Mas há sempre um Natal a seguir a cada crise, dentro de cada crise. Há sempre um dia, pelo menos, em que ninguém ganha ou perde. Natal é natal. Não está cotado, não é emprestado, e ninguém te o pedirá.

Mas decidiste aceitá-lo sem remorsos, contra ti talvez. E acabas a pensar que, talvez, quem sabe, essa seja a melhor definição para o que é o Natal.

quarta-feira, dezembro 17, 2008

Dodge This

Diga-se o que se disser, e pense-se o que se pensar de George W. Bush, há que elogiar os seus reflexos, ao desviar-se - com grande estilo - dos sapatos projectados contra ele pelo tal jornalista. 

Especialmente tendo em consideração que, com o papa, ele deve ser - supostamente - dos homens mais bem protegidos à face da Terra, sem poder antever tal ataque pessoal.

Pode não saber onde fica a França, mas, cá para mim, era uma estrela nos tempos do 'Dogdeball'.

terça-feira, dezembro 16, 2008

Bucólica

A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;

De casas de moradia
Caídas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;

De poeira;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.

Miguel Torga (1907-1995)

Mário Soares

Depois digam que não foram avisados. Aqui.

"Portugal também não deve ficar indiferente. Com as desigualdades sociais sempre a crescer, o aumento do desemprego que previsivelmente vai subir imenso, em 2009, a impunidade dos banqueiros delinquentes, o bloqueio na Justiça, e em especial, do Ministério Público e das polícias, estão a criar um clima de desconfiança - e de revolta - que não augura nada de bom. Oiçam-se as pessoas na rua, tome-se o pulso do que se passa nas universidades, nos bairros populares, nos transportes públicos, no pequeno comércio, nas fábricas e empresas que ameaçam falir, por toda a parte do País, e compreender-se-á que estamos perante um ingrediente que tem demasiadas componentes prestes a explodir. Acrescenta-se o radicalismo das oposições, à esquerda e à direita, que apostam na política do "quanto pior melhor". Perigosíssima, quando não se apresentam alternativas credíveis..."

segunda-feira, dezembro 15, 2008

Também Vosso

Só para relembrar que é aqui que estou a reunir a memorablia televisiva (já vai em 18 - uff!). Vão, que vale a pena. De certeza, encontram algo também vosso.

Algo Que Virá Com Alguém

"- Já me perguntei se seria uma coisa de mulheres. Sem mulheres não há sonhos. Há só viver, continuar. Há estudo, teoria de vida, tentativa de perceber um mundo que é demasiado violento. Mas sem mulheres não há o sonho de o mudar. Não há porque o confrontar.
- E quando é que deixaste de sonhar?
- Acho que me habituei. De noite acordas e achas que não sonhaste durante a noite. Pela manhã vais trabalhar sem te lembrares que alguma vez quiseste algo diferente.
- Mas terás realmente sonhado, algum dia?
- Eu... Eu acho que sim. Já não me lembro bem, ao certo. É uma leve impressão quando me levanto - há algo nessa noite que não cheguei a perceber. E é uma leve impressão quando estou a trabalhar, a falar com pessoas: algo está mal, algo deveria estar diferente. Há algo fora de tom. O sonho deve ser então o regresso a alguma harmonia perdida. Uma harmonia que é tão provável, tão possível, que tu sentes poder existir, subcutânea... Mas que não está lá.
- Não sabes se sonhas com algo ou com alguém?
- Não. Mas tenho a impressão, ligeira, insinuada, de que sonho com algo que virá com alguém."

O Custo de Vício I

Dou comigo a pensar que crise é crise, mas... quer dizer, a grande parte dos meus prazeres de vida são grátis ou baratos.

Ler é grátis (e apetecia-me ficar por aqui). Jogar à bola ou andar de bicicleta é grátis. Se eu conseguisse socializar com mais miúdas giras - grátis. Navegar na net - barato (com jeito até pode ser grátis). Uns petiscos com amigos também se arranjam baratos (nem preciso de dizer: goodbye beluga!). Mesmo sem carro, a minha vida continua (tenho a carta há pouquíssimo tempo e continuo a andar de transportes públicos).

Crise é sempre crise. Mas quem não tem dinheiro, não tem vícios - ou tem vícios grátis/baratos.

Satisfeito Com a Sua Companhia

Leio no artigo da Wikipedia dedicado a Benny Hill:

"Hill worked compulsively and had only a few friends, although colleagues insist he was never lonely but content with his own company."

Eis uma frase que, por vicissiudes e temperamentos, poderá ser, um dia, aplicável a mim. Espero que não, apesar de tudo - mas fica aqui a sentença.

La Vera Sfida

E Mourinho será o campeão de Inverno. Com a Juve a -6, e o Milan a -9, está muitíssimo bem lançado. É que - atenção - é mais difícil ganhar num primeiro ano em Itália do que ganhar no primeiro ano em Inglaterra. Fazê-lo em ambos campeonatos, então, é excelente. Quem sabe, uma marca para a História.

domingo, dezembro 14, 2008

Dado Adquirido

Que haja pessoas que ainda gostem de nós, quer dizer tão somente que nem tudo o que fazemos será mal feito, por mais que tenhamos dias, tiques, manias, requintes, ambições.

Que haja pessoas que não gostem de nós - isso pode tão somente querer dizer que fazemos coisas. 

O 2º Turno

Doravante, passarei a dividir... posts entre este blog e um outro, 'Rústicos Epicuristas', a ser feito a meias com o Edu, incial colaborador deste blog.

Com que critério os vou dividir, logo verei, mas o Generosità continua seguramente.

Desde já, começa nesse blog a série: "The Simple Life". Porque é bom rever a vida simples face às dificuldades da vida portuguesa hodierna.

Não resisto, porém, a incluir também no Generosità este delicioso sketch de Benny Hill - dos anos 70' - muito mais malandreco. Nesta nossa era de vulgarização do sexo (nada contra, mas a sedução era uma coisa tão bonita...), até podem chamar à coisa 'petit-bourgeois', que eu não me importo. Mas este 'Learning All The Time' é mesmo o meu Benny Hill favorito.


sexta-feira, dezembro 12, 2008

Elogio a Sophia

Talvez, se me perguntassem de repente pelo meu poeta favorito, eu me saísse com o seu nome. É certo que continuo um fiel de Cesário, mas Sophia de Mello Breyner Andresen (e todos sabemos o seu nome completo), tem dos poemas mais... limpos da nossa língua. É magnífica. É um acto de higiene mental, lê-la. Uma redenção do mundo. E pergunto-vos se para algo mais existe a Poesia.

Sophia disse, creio, ser o (seu) Porto 'a nação dentro da nação'. Até lhe darei razão nessa fé, mas mais importante para mim será dizer que Sophia é a Língua Portuguesa dentro da Língua Portuguesa. Se se tivesse que começar do zero este nosso mágico idioma, seria sempre com ela. Seria com a sua Poesia que se ensinaria Português a um marciano. Pessoa - se bem que igualmente pristino (ortónimo) - não é nunca tão sincero (ou não é nunca sincero), como Sophia. Sophia escreve e é. E por isso resume a enorme complexidade da Língua Portuguesa, sintetiza e comprime o universo. E traz luz sobre os nossos.

Uma Língua em Relevo

Tem sido áspero o primeiro contacto com o Alemão. Uma língua eslava, tão distante da doçura latina que eu amo. Às vezes parece uma língua seca, que estala, que constrange. Não se conhece nenhuma palavra - a pronunciação tem que ser tacteada a todo o momento. Não há registo oral - zero.

O alemão soa mal, sejamos francos. A princípio soa mal. Não é melífluo, antes áspero e bárbaro. Mas é a língua de Mozart e tantos outros génios. É uma língua que exige muito - muito - mais esforço, mas onde se começa, eu começo, a descortinar uma pequena ordem, e uma certa manobra - uma simplicidade aliada à criatividade.

Mas ainda parece muito uma língua seca, esferovite a ranger, cheia de espinhos, alfinetes. É uma língua em relevo, não é bidimensional - tem picos, tem exigências de que não abdica. É teimosa, caprichosa com o que é seu.

Mas este mais puro amante da latinidade há de a descodificar. Nenhum código linguístico é impenetrável - tudo depende do trabalho que nos exigirmos, realmente.

Ah, e depois do Alemão, ainda falta um idioma para fechar o círculo (se houver Saúde e disponibilidade*). Mas ainda é cedo (tão cedo...) para falar em 'depois do Alemão'.

*E, pelo andar das coisas, também Civilização, País como o conhecemos. Não é assim tão ridículo dizê-lo...

Give Me Good Numbers (Baby?)

Eu não sabia que a correctora da minha eleição também tinha... outro trabalho em paralelo. Não fazia ideia, honestamente. Afinal é ela a enfeitar as ruas de Lisboa como nenhumas luzinhas poderiam fazer.

Olha que bela surpresa natalícia.



*

(* imagem indecentemente surripada ao excelente E Deus Criou a Mulher, captada por Brunorix)

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Parabéns

Os devidos parabéns a Paulo Bento, por mais que eu me impaciente com ele em alguns pormenores da gestão da equipa (nomeadamente o insistir na lógica de rotação e de vários jogadores médio-bom, quando já podia gizar um conjunto de excelentes, acabar com os bons remendos e passar a utilizar só do bom tecido). 12 pontos na Liga dos Campeões (Mourinho fez 8), 4 (!) vitórias e apenas 2 derrotas contra aquela que é, provavelmente, a melhor equipa da Europa neste momento, o Barcelona, é um registo a todos os níveis fabuloso. Sobretudo para um Sporting tradicionalmente destinado a fazer número na Europa.

Os meus sinceros parabéns a Paulo Bento, e desculpas no que se impôr. Continuarei crítico - sempre -, mas esta primeira passagem aos oitavos-de-final chega a coroar um pouco o óbvio: que Paulo Bento tem já o seu modesto lugar na História do Sporting. Parabéns, portanto.

Espero que ele consiga fazer uma coisa tão simples - e tão sportinguista - que é o de acolher a nova geração. De ir buscar - como tem feito com Pereirinha, Carriço - mais e melhor prata da casa, preparar o Sporting dos próximos anos.

Politicamente Correcto ou Amizade?

Dou comigo a pensar em como, tantas vezes, tendo - tendemos - a desculpar em demasia as pessoas da nossa geração. A nossa geração é, sejamos claros, grande parte daquilo que nos define. Mas... quer dizer, julgo que há uma certa tendência para cair no politicamente correcto de desculpar tudo a todos - só por termos a mesma idade. De desculpar omissões, comportamentos, má-educações, cobardias, etc. E, paradoxalmente, tendemos a criticar, por vezes, os nossos próprios pais.

Ora, é claro que existe aí um grande paradoxo, uma grande injustiça. Não há porque desculpar tudo aos nossos coetâneos (nem aos nossos pais, já agora, porquanto a gratidão se imponha). A amizade não é desculpar tudo - a amizade é justamente uma relação de confiança em que as pessoas cumprem regras, inevitavelmente - ou ela rompe-se. Todo o contrário, portanto. Será que, quanto mais tendemos a aceitar cegamente tudo nos nossos co-geracionais, mais tendemos a criticar gratuitamente, por exemplo, os próprios pais?

Será que conseguimos avaliar por um qualquer padrão que apliquemos a pais, e amigos - mas antes de mais a nós mesmos?

Não vale a pena deixar coisas básicas para ser 'aceite'. Mais vale estarmos sós.

Canções de Ícones e Caracteres

Canções de ícones e caracteres...
Mas só se amam as mulheres.

terça-feira, dezembro 09, 2008

Mas Tu Queres Ver...



Nova Iorque, ontem. Vou ter que rever esta sessão com a minha correctora Irina Sheik.



É que a mim parece-me estar tudo bem. Muito bem mesmo.

Um Orlando Bloom de Distância

Diz Miranda Kerr (um dos 'angels' da Victoria's Secret - essa famosa empresa de laminados) que pretende viver numa quinta, cheia de animais e de virtudes campesinas. Ora bem, minha cara - estamos somente a um Orlando Bloom de distância. Quase nada.

Entrudo Antes de Quaresma

Olhós gajos a tramar o Quaresma... Caso para dizer, a fazerem Carnaval antes que apareça Quaresma...

Há que trabalhar para sair por cima. Na dúvida, é só copiar o Mou (que as minhas fontes confirmam ser leitor do Generosità. Sabe pouco, sabe...).

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Cuidado Não Te Apanhem a Chorar

Dedicado às pessoas que andam pelo Metro de Lisboa, arrastando cansaços, por vezes escorregando olhares. Em compras, ao frio, ao desespero. Quem sabe no ventre da Terra que mundo ainda há lá em cima? No metro o país é o mesmo - e não se pode olhar directamente para ele. É uma mulher deslumbrante, que se não pode olhar. É uma quimera que sai, nesta, naquela estação - nunca a nossa. Nós devemos continuar, sem olhar. E então, mesmo no ventre da terra, há uma luz que espanta os olhos que se desviam, e não sabemos se é já a tempestade. Não - foi só um relêmpago nos carris. Foi só electricidade, o mesmo de sempre. E, como sempre, aquela rapariga esgueirou-se na outra estação. Não deu para lhe dizer que talvez fosse ela Portugal, talvez levasse ela o país. Não deu para lhe dizer. Estranhamos as pessoas estranhas do metro. E continuamos. Ao frio, e à incerteza. Em cada qual. O silêncio é o pacto que fizemos, é o requiem por qualquer coisa, ou espera em respeito de qualquer coisa. E Portugal, de repente - como o relâmpago que parecia - talvez não seja aquela bela rapariga, que olhou em diante. Talvez sejamos nós, que escusamos olhar-nos. Talvez Portugal seja magnífico, talvez uma maldição. Talvez nunca o saibamos - talvez Portugal seja a estação a que nunca vamos, embora saibamos bonita. Embora tenhamos sempre a convicção de que, se for preciso, lá saberemos ir ter.

Dedicado a essas pessoas de hoje. Poema de Jorge Sousa Braga.

Portugal
Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir como se tivesse
oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de
África
só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo uma mentira
que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar
àparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera um futuro de
rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver se contraía a febre do
Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr uma pérola que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
Estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu
mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentugal
e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete Salazar estava no poder nada
de ressentimentos
um dia bebi vinagre nada de ressentimentos
Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca

Jorge Sousa Braga

domingo, dezembro 07, 2008

Co/Re-Incidências

Diz que o Oliveira e Costa tinha um bunker na Vidigueira. Devia ser por causa do sol. E Dias Loureiro já esclareceu que, embora estivesse em Dallas, naquele dia de 1963, e, por acaso, levasse consigo uma carabina ('os tempos eram, naturalmente, mais perigosos'), tinha ido somente entregá-la ao seu primo Zé Júlio, emigrante, e provar as tartes de maçã que fazia a mulher deste - incidentalmente, muito boas.


Exílio

Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

Ansiedade

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjectividade objectiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um eléctrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espectáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espectáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...
Sim, o porvir...

Fernando Pessoa/Álvaro de Campos (1888-1935)

quinta-feira, novembro 27, 2008

A Música

Da pouca música que ainda conheço, eis aquela que levaria comigo para uma ilha distante. E que se mistura com o filme 'Five Little Pigs', a retratar o caso de Poirot, de uma maneira absolutamente divinal.

Um Novo 25 de Abril: O Desastre Anunciado

Se Portugal evoluísse para uma situação de ruptura social - como há pessoas esclarecidas que aventam poder acontecer - e se gerasse um novo 25 de Abril, um dos efeitos desastrosos seria, naturalmente, o de agravar a crise económica geral. Por muitas razões, mas, antes de mais, por este simples facto: a nossa economia tem uma grande contribuição por parte do sector turístico. Já pensaram no absoluto desastre que seria uma nova revolução em Portugal? E não tenham ilusões - demoraria muitíssimo tempo a debelar.

Ainda para mais que agora começa a aparecer (veja-se a nova clínica Maló na Madeira) aquilo que eu desde há muito defendo como um cluster fundamental para o país: o turismo clínico. Pessoas que vêm ser operadas a Portugal, com todas as condições. Se temos uma boa tradição médica, e uma grande indústria, elementos para turismo, porque é que, infelizmente, não temos líderes com o mínimo de visão, para juntar as duas coisas?

Mas, realmente, um novo 25 de Abril seria desastroso. Mas, caramba, se já os romanos diziam que 'não se governam nem deixam governar', que novidade é que haveria numa outra revolução?

quarta-feira, novembro 26, 2008

Inteligente

A meu ver, a convocatória a Hillary Clinton e a manutenção de Robert Gates. Até agora, Obama tem dado bons sinais - e, igualmente importante, não tem dado maus sinais.

'He Needs To Grow Up'

Excerto deste artigo, de um colunista italiano no 'The Times':

"Brazil revel in Ronaldo’s on-field humiliation

It was not a good week for the man who is likely to collect all the World Player of the Year awards over the next month or so. Cristiano Ronaldo walked down the tunnel at Villa Park at the weekend trading abuse with the crowd after a lacklustre performance. But that was a pleasant evening compared with what he had gone through three days earlier.

On Wednesday, Brazil thrashed Portugal 6-2 in Brasilia and the home side seemed to take unnatural pleasure in humiliating him. One incident, which is already a classic on YouTube, stands out.

Thiago Silva, a central defender no less, juggled the ball over Ronaldo’s head (a classic “sombrero”) when the Manchester United forward tried to press him after an ill-advised throw-in towards the Brazil goal. Ronaldo was incensed and, later in the match, he launched a terrifying tackle at his opponent.

“Ronaldo is just a malicious guy, if I hadn’t jumped out of the way, he would have broken my left leg,” Thiago Silva said. “He lost control because we totally snuffed him out of the game.” Ronaldo did say sorry for the tackle after the game, but Thiago Silva was having none of it. “I’m not going to accept an apology from a guy like that,” he said. “He needs to grow up.”

Supporters in Brazil are loving all this. Normal service has resumed: once again, it is the men in green and gold who are humiliating their European opponents with their otherworldly skills and flair. That Ronaldo, a player who has been accused of showboating in an attempt to humiliate his fellow professionals, is the victim only makes it all the more delightful in their eyes."

Eis o vídeo do acontecimento. If you ask me... nada de especial. Mas tudo bem. Agora, que também anda tudo a querer tirá-lo do pedestal... não é novidade, pois não? Mas, realmente, o jogo de Ronaldo contra o Brasil foi muito fraco mesmo.


Uma TV Catita

Será que se pode dizer que, com 'Os Contemporâneos' a contrabalançar os 'Gato Fedorento', e uma série que abre caminho na (medíocre) produção de ficção portuguesa como 'Mundo Catita', podemos dizer que temos uma outra TV, uma TV portuguesa na trajectória (cuidado: agarrem-se!) da qualidade?

terça-feira, novembro 25, 2008

Romantismo

A propósito de Romantismo, quem sabe se os tempos não mudam. Apresento-vos João Coração, que a Y do Público descreve como boémio e talentoso. A vós de julgar o segundo adjectivo.

Ao ler a descrição, parece o meu estilo de português: mais preocupado com mulheres, vinho tinto e música, cultura. Afinal, antes deste País ser Império, era uma nação de trovadores.





segunda-feira, novembro 24, 2008

O Fato de Treino Confunde Tudo

É, mas se Deus pretendesse que fôssemos seres moralmente coerentes, não teria inventado o fato de treino, e o relax doméstico, pois não?