sexta-feira, novembro 23, 2007

Nunca Princesa, Sempre Rainha (Sem Trono)

"- Miúdas como ela vão acabar com um gajo do piorio."

Elas (aquelas miúdas absolutamente fatais) tendem a gostar dos piores. Às vezes acontece vermos nós ali, claro como água, que o gajo é um sacana e ela anda com ele. É que não é só ser ele sacana com outros homens - é-o com as próprias mulheres. Ah, mas elas são cegas, não conseguem ver, isso que é tão claro para nós. Obviamente, não lhes podemos dizer - seremos mal-intrepretados (e às tantas somos bem-interpretados - gostamos delas, realmente).

Mas elas continuarão até ao momento inevitável em que, claro, são magoadas. E então ficam exactamente como a rapariga sobre quem se dizia esta frase, distantes e senhoris. É que vejo demasiadas raparigas, já jovens mulheres, que desistiram de ser "princesas", são já só rainhas, ou antes querem sê-lo. Que pena - isso só lhes trará infelicidade - nunca o serão. É que a beleza, por infortúnio, não dura para sempre. A contrição emocional só trará coisas piores com os anos. Desde logo, a sensação de ter desperdiçado algo precioso. Mas enfim, o jogo é assim mesmo, só idiotas, os bons idiotas, têm pena que seja assim.

Sai Uma Discussão Fresquinha

O que a gente da empresa de publicidade que concebeu a campanha "orgulho hetero" para a cerveja Tagus não percebe é que o próprio conceito de "orgulho" é a reacção à opressão de se ser minoria. Não faz sentido em falar em "orgulho em gostar de respirar" ou "orgulho em gostar de comer bem", "orgulho em gostar de café", ou "orgulho em gostar de gastar dinheiro", ou "orgulho em gostar de dias de sol", etc. São coisas normais, estatisticamente normais. Há vivê-las com segurança, no respeito pela diferença. Embora, (e eu aí sou algo politicamente incorrecto), respeitar a diferença não é aceitar tudo e todos. O que eu nunca aceitarei, definitivamente, é que me tomem por tolo.

Mas estas "boutades" só apelam a um conjunto de "burgessos" ignaros, que reagem agressivamente, defensivamente, na defesa da sua heterossexualidade (têm medo do estranho, e "a coisa" afigura-se-lhes muito estranha; falta de cultura...). Nesse sentido, a campanha apela até a uma certa homofobia, no limite. O que só pode querer duas coisas - para além da óbvia publicidade grátis que a discussão (previsível) suscita - ou o padrão de normalidade está a reduzir (e daí poderíamos ir para discussão do "tempo histórico", da tal "Civilização") ou então, teoria maquiavélica, foram mesmo "eles" que conceberam a publicidade, e estão a rir-se disso neste momento.

When You Look At It

Porque parece que há sempre qualquer coisa a chatear-nos. Qualquer coisa a comprometer a nossas felicidade. Sempre alguma escolha mal feita, sempre algo, ou alguém, que repassamos, e que "não é o nosso estilo". Não vale a pena. Life's really too short. Melhor viver cada dia da maneira mais feliz possível. Fiquemos com os nossos bem perto, os demais que vivam suas vidas. Se os "liberais" estiverem certos, a sociedade funciona se cada pessoa, dentro dos limites legais, procurar seguir os seus interesses (como seria bom eu acreditar nisso...).



Some things in life are bad
They can really make you mad
Other things just make you swear and curse.
When you're chewing on life's gristle
Don't grumble, give a whistle
And this'll help things turn out for the best...

And...always look on the bright side of life...
Always look on the light side of life...

If life seems jolly rotten
There's something you've forgotten
And that's to laugh and smile and dance and sing.
When you're feeling in the dumps
Don't be silly chumps
Just purse your lips and whistle - that's the thing.

And...always look on the bright side of life...
Always look on the light side of life...

For life is quite absurd
And death's the final word
You must always face the curtain with a bow.
Forget about your sin - give the audience a grin
Enjoy it - it's your last chance anyhow.

So always look on the bright side of death
Just before you draw your terminal breath

Life's a piece of shit
When you look at it
Life's a laugh and death's a joke, it's true.
You'll see it's all a show
Keep 'em laughing as you go
Just remember that the last laugh is on you.

And always look on the bright side of life...
Always look on the right side of life...
(Come on guys, cheer up!)
Always look on the bright side of life...
Always look on the bright side of life...
(Worse things happen at sea, you know.)
Always look on the bright side of life...
(I mean - what have you got to lose?)
(You know, you come from nothing - you're going back to nothing.
What have you lost? Nothing!)
Always look on the right side of life...

terça-feira, novembro 20, 2007

Os Meus Filmes 9: Match Point

Christopher "Chris" Wilton: The man who said "I'd rather be lucky than good" saw deeply into life. People are afraid to face how great a part of life is dependent on luck. It's scary to think so much is out of one's control. There are moments in a match when the ball hits the top of the net, and for a split second, it can either go forward or fall back. With a little luck, it goes forward, and you win. Or maybe it doesn't, and you lose.

O Desporto da Crítica

Espero bem que a selecção amanhã ganhe. Como português, é certo - mas um português menos apaixonado por uma selecção com Decos, Pepes e Scolaris (se é para este aperto, como antes, prefiro uma equipa portuguesa de berço - sou assim de inconveniente).

Mas espero que ganhe também porque a selecção, com o trauma da máquina de calcular, os seus jogos fracos, com um Madaíl e um Scolari que traz a reboque, anima-me muito pouco, actualmente. Mais - retira à semana o sal e pimenta (por mais que seja um sal grosseiro e uma pimenta sem aroma) de uma jornada. Apesar de tudo, continua a ser o primeiro tema de conversa, o "espanta-espíritos" num café. Sobretudo no Inverno, defendo que os seus jogos deviam ser proibidos.

Depois, desde a saída de Figo e Rui Costa, falta realmente alguma veterania lusitana, e não vou desenvolver mais o tema. E, se não fosse isso, outra crítica eu acharia. Sou português, afinal, e criticar é, a par do futebol, um dos meus desportos favoritos.

Da Gaffe

A boa Diplomacia dirá concerteza que há um protocolo a seguir após uma gaffe. Eu digo que a redenção, que se impõe, anda em torno de uma compensação, de uma qualquer reposição do valor em conta, depois de tão abrupto levantamento.

Às vezes, esse esforço de restabelecer o equilíbrio pode ser bastante desagradável, mas o certo é que a gaffe é uma maneira estúpida de originar uma ruptura social. É absolutamente gratuita, uma preocupação desnecessária, um inimigo desnecessário. E, como tal, há sempre o esforço intuitivo, natural, de compor os estragos que causa.

O quanto essa reposição nos custa depende, geralmente, da graciosidade do ofensor, mas não menos da empatia (leia-se classe pessoal) do ofendido.

Perigosa Condescendência

Há um traço de personalidade que é, para mim, particularmente intrigante e interessante, e que tentarei partilhar aqui na esperança que alguém mais o tenha detectado.

Começemos pelo facto básico: as pessoas, tantas vezes, não são grande coisa umas para as outras. Permitem-se desconsiderações, desonestidades, canalhices, mesmo perversões e agressividades. Nada de novo. É a face lunar do ser humano.

Reparo, no entanto, que existe determinado tipo de pessoas que, não se permitindo esses excessos, toleram praticamente tudo a tantos. "É assim...", "o que é que queres...", "não há nada a fazer...", "ah, pois, já sabes como é...". Quer dizer, elas não ferem o espírito da colectividade (às vezes são mesmo excelentes pessoas), mas suportam infracções várias, assumem-nas como um facto natural. São, de algum modo, uma espécie de "vencidos da vida", no sentido em que deixam de lado um sentido de Justiça e Moral. Não conhecem mais qualquer tipo de idealismo. E o caso é ainda mais grave quando surge na juventude, quem sabe surja com alguma frequência até.

Dedicam-se a fazer o seu trabalho com o mínimo de ondas, melindrar o mínimo de pessoas, passar por cima de todas as pequenas canalhices (não falo de crimes, mais bem das pequenas vilanias repetidas). Algum horizonte de futuro, alguma outra forma de vida as anima para não protestar e amordaçar os instintos vez após vez. Algum dia se esqueceram que "eles" não devem fazer "aos outros", "aquilo que não gostam que lhes façam". Mas, com a consciência tamponada, condescendem.

A grande questão de fundo é antiga demais: o medo. O medo de perder o emprego, o medo de uma retaliação, o medo de que a sua situação piore em consequência disso ("better the devil we know than the devil we don´t"), sempre o medo, num país que se sente pequeno, a sociedade ainda mais pequena. Está fora de moda levatar a voz por um princípio. Está fora de moda levantar a voz por uma vítima (às vezes as vítimas também traem os próprios defensores, mas essa é outra história). É mais bem uma questão de cumprir o seu trabalho, e aproveitar ao máximo o alheamento que nos garante uma indústria de lazer que ainda não conhece limites.

Esta condescendência com coisas graves que se passam não é saudável. Tende a criar clones, a repetir-se, a ter um efeito dominó "Ai é assim? Então eu também me estou a lixar". É que, quando um dia aceitamos praticamente tudo nos outros, se não temos cuidado, acabamos a aceitar praticamente tudo em nós. A condescendência e a habituação são tão forte analgésico - primeiro toleramos demasiado os outros, depois toleramo-nos demasiado. E esse é sempre um caminho perigoso.

segunda-feira, novembro 19, 2007

Uncalled For

É angustiante a sensação de sermos bode expiatório, mesmo "saco de pancada" de outrém. Todos libertamos vapor, todos sacudimos pressão para a pessoa ao lado. E quando estamos muito tempo juntos - colegas de trabalho, familiares - a coisa é mesmo uma questão de tempo, carece quase de relação matemática.

Até ali estávamos tranquilos. Depois do trovão pensamos "Eh pah... Mas o que é que eu fiz ou disse para merecer esta?...". Eu, regra geral, tendo a não contestar - sou também uma pessoa com os meus "quês", de alguma forma incomodo os outros também. Mas confesso que talvez já tenha sido mais tolerante.

O que acho realmente curioso é aquele sentimento de ficarmos suspensos, remoendo (ninguém se furta a remoer, mais ou menos). É que o tempo pára ali, e a mente processa uma qualquer variação do "totally uncalled for..."- a expressão americana (bem precisa) que a minha, nessas situações, vai buscar.

O Desconcertante Sr. Mailer

Morreu no sábado passado Norman Mailer, um peso-pesado da literatura americana. Como não a sigo (e confesso também não ler, em geral, quanto deveria e quereria), passaram-me ao lado as suas obras. Lembro-me somente de há uns anos se ter comprado o seu “Viragem aos 80”, e do inicio do livro, onde Mailer desafiava quem pensava que, chegando um homem aos 80 anos a vida se torna um deserto. Para o provar, começava por assumir ainda se excitar “com um belo par de mamas”.

Leio agora nos jornais que era machista, tendo combatido os movimentos feministas dos anos 60 e 70, também pelos seus livros. O que lhe valeu, claro está, o carinhoso título de “porco chauvinista”. Mas o que eu não resisto a reproduzir é mesmo uma resposta que lhe deu Gore Vidal. Não sei se por ser homofóbico ou por ter em Vidal um émulo, Mailer esmurrou-o um dia. A resposta, sublime, de Vidal no chão: “Uma vez mais, Norman, as palavras falharam-te”.

Pecado Original 22

[Cláudia Vieira em desfile Triumph no Porto] "Mas o que é que estás aí a ler tão interessado no jornal?". "Nada de especial. Futebol. Parece que o Porto teve mais um triunfo. Aquela equipa é tão boa que até irrita".

E pensar que viveu (vive ainda?), aqui tão perto deste blog... Eis a única verdadeira sex-symbol portuguesa dos nossos dias. Mais um pecado original dedicado a ela, que põe o "Cláudia" em "claudicar".


nota: claudicar - fraquejar, vacilar

sábado, novembro 17, 2007

O Pós-Virtual

É uma característica genética da minha geração a lide com um mundo virtual, por oposição ao real, físico, multi-sensorial, arcaico. Todos nós nos vemos confrontados com o uso de telemóvel (falando ou escrevendo), do PC, da Internet. Tivemos que desenvolver essas literacias, seja por pressão dos pares, necessidade de trabalho, ou mera curiosidade.

Acontece que é também muito da minha geração um certo sentimento “pós-virtual” nos relacionamentos. Quer dizer, há um código, e uma soltura de ânimos que o telemóvel (sobretudo na sua versão SMS), o chat online (de que o exemplo mais popular é o MSN, precedido pelos mIRCs) e mesmo, mais recentemente os blogs. Esse à vontade existe num código escrito, que também foi adaptado para os próprios meios, e que, vazio da voz, da denúncia do inconsciente no nosso tom de voz, liberta o próprio inconsciente sobre a capa da ambiguidade. Há todo o tempo para escolher as palavras, para se dizer exactamente aquilo que se quer.

O domínio sobre esse código escrito – tomemos como exemplo o que se escreve no MSN – varia com as pessoas. E o registo que imprimimos ao que escrevemos aí é também diferente do nosso registo oral. Toda a variabilidade que permite o código de sociabilidade cibernético, dá margem de manobra, cria um microcosmos de ambiguidade, que é muito bem explorado em questões mais delicadas, a que as pessoas se escusam de enfrentar pela conversa vis a vis. Um exemplo muito simples é uma declaração de interesse amoroso, antigamente transmitida por bilhetinhos ou poemas, e hoje possível por este meio. É mais fácil a um rapaz fazer o “beating about the bush”, explorando, indagando, saber se pode “andar “ com uma rapariga pela via cibernética. É muito mais cómodo que “tê-los no sítio” para convidá-la in loco, sujeitando-se a uma rejeição mais explícita (e existe a noção de que as raparigas não gostam também dessa abordagem directa). Muitos rapazes coleccionam endereços de MSN e anseiam por aqueles das raparigas que lhes interessam (às vezes aproveitando uma oportunidade, como um trabalho em conjunto, algo que se organiza). A partir daí “ela” está fisgada, e será sujeita a uma série de conversas “da treta”, para aferir a sua disponibilidade, o seu eventual interesse.

Mas, volto ao fundamental, o mais interessante, para mim, é esse sentimento de pós-virtual. Não só nos relacionamentos afectivos. Em todo o tipo de relacionamentos. Quer dizer – há uma lacuna entre a confissão virtual e a confissão em conversa, directamente. Duas pessoas podem estar a falar muito tempo no MSN sobre temas importantes, expondo-se bastante, criando afinidades. No da seguinte encontram-se e existe esse sentimento “pós-virtual”. É certo que pode existir igualmente, por exemplo, depois de uma saída à noite, em que se libertam os espíritos e se dizem coisas mais honestas, mais profundas que o normal. No dia a seguir há uma correcção, um fingido esquecimento talvez. Mas, como disse, essa distensão do espírito é, exactamente, a marca do relacionamento virtual. E esse sentimento, no dia seguinte, está sempre presente. Faz parte da inteligência emocional de uma pessoa saber fazer a ponte entre a conversa intimista da noite anterior e o dia de trabalho do dia seguinte. A regra geral é continuar com outros temas, aproveitando a cadência dos requisitos profissionais, como se nada tivesse sido dito.

Acho muita piada a este constrangimento que se cria, mais ainda ao esforço para “passar por cima”. E à influência que o registo dessas revelações tem na postura das pessoas connosco. Dou o meu exemplo. Não é que utilize muito o MSN, ou mesmo o SMS, mas constato que, por vezes, é já incorporada na opinião dos outros sobre mim os artigos que escrevo neste blog*. Surge já em conversas referência a um ou outro post. Suponho mesmo que, no caso de um blog é mais inescapável, porque o registo está lá e é público.

Não sei se alguma vez repararam nesta décalage entre a conversa escrita, ou a mensagem escrita, e a vivência de todos os dias. Mas seguramente, sendo utilizadores destes meios, todos a terão sentido. Há um pós-virtual, dentro do esforço de sociabilidade, que entra em confronto com o à vontade e absoluto controlo do que se diz no virtual. Talvez esteja aí parte do sucesso do virtual – dizemos aquilo que queremos, controlando tudo a cada segundo. Liberdade e controlo absoluto. Difícil de superar, não acham?


* E isso, perdoem-me, é algo que dispenso. O que aqui está escrito é para ficar exactamente aqui, não é para dar um registo do meu pensamento. Nem sequer me comprometo com o que está escrito – é demasiado volátil e efémero para traduzir o meu carácter. Mas, é claro, também, percebo que a tentação é irresistível. Por isso disse, desde logo, que não pretendo comentar em pessoa aquilo que escrevo aqui. Seja para me elogiar ou criticar.

Pacheco Pereira e a Teoria do Tudo

José Pacheco Pereira (JPP) é uma figura de referência da opinião publicada portuguesa. Tal como foi um pioneiro do mundo dos blogs. Tal como percebeu bem cedo o advento do PC, do mundo virtual, e a sua relação com a realidade.

JPP tem opinião sobre, bom – sobre tudo. E porquê? Eu, que o leio há alguns anos a esta parte – e continuarei a ler, por o achar erudito, mesmo brilhante a espaços – diria que, em todas as suas análises existe, subjacente, uma “Teoria do Tudo”. Explico-me. Desde a Teoria da Relatividade de Einstein que surgiu um problema da Física: a conciliação desses pressupostos com a Teoria Quântica. Acontece que, ambas comprovadas pela experiência, são incompatíveis no limite. O próprio Einstein acabou os seus últimos anos intrigado com este paradoxo. De algumas décadas a esta parte que a descoberta da “Teoria do Tudo”, que unifica Teoria da Relatividade e Teoria Quântica, é o Santo Graal da comunidade física.

Partindo desta analogia, permito-me dizer que existe, nas análises que faz Pachaco Pereira, uma certa “Teoria do Tudo” subjacente. Quer dizer, tudo para ele bate certo, faz sentido. Todo e qualquer fenómeno. E quem o lê sabe-o a atento a todas as minudências da vida comum, igualmente que a Política, a Arte, mesmo a Ciência. Eu diria que, no seu papel de intelectual, JPP parte de uma matriz explicativa que vai desde o átomo, a célula, até ao espaço, passando pela natureza humana e como a limita, contorna e aproveita a Civilização (Ocidental, nomeadamente). Estou certo de que JPP conheceu e se lembra de alguns portugueses de um Portugal que para nós é hoje só miragem. De um Portugal de outros homens, de outras fés, de outras vidas. Somos pobres herdeiros de alguns desses antepassados.

Repare-se na afinidade que JPP professa com Sá de Miranda, autor da célebre estrofe:

"Homem de um só parecer,
dum só
rosto e d'ua fé,
d'antes quebrar que volver

outra cousa pode ser
mas da corte
homem não é"

JPP configura-se, em parte pelo menos, como o continuador de homens como Sá de Miranda. É dele a memória, e também a obsessão com a memória, o registo dos eventos e das vivências. Daí também a sua filiação nos formatos que servem de suporte à memória: o papel, o PC, o vídeo, a fotografia. Daí o seu interesse com o registo da vida. Porque sabe que, a dado momento, todos nós olhamos para trás. Corso, ricorso.


Co
nfesso que aprendi muito ao ler JPP. Por isso o continuarei a ler sempre. Além de que foi o único ver
dadeiro “erudito”, o único “mestre” a que tive
acesso nos “meus tempos”. A ubiquidade do medíocre surpreendeu-me como eu nunca pensara antes. Daí o meu elogio, que eu não preciso que alguém morra para o elog
iar.

Retomo o que disse antes – JPP é brilhante a espaços, e um corredor de resistência a que poucos dão valor. Se usar uma metáfora futebolística (e falta-lhe perceber o quão humano é também o futebol), JPP é o verdadeiro “trinco”. Ele é douto, extremamente douto, em natureza humana. E, como tal, não se perde em tentações de ataque. Sabe que são todas repetições de um tema. Mas percebe o quão importante é o ataque. E, como tal, assume o papel de trinco. Deixa que os outros, lá à frente, ataquem à vontade, troquem a bola, soltem o virtuosismo. Ele fica como último homem – ele sabe que, apesar de tudo, nas equipas à retranca, um contra-ataque canalha pode ser fatal. Um contra-ataque que é uma ofensa para o virtuosismo dos que estão lá na frente a dar toda a sua alma ao jogo. E ele, seguro na sua posição, pode tocar pouco na bola durante o jogo. Mas garante que a equipa contrária não tenha sucesso nesses contra-ataques canalhas e cínicos. Faz parte de uma equipa completa, JPP, de uma equipa portuguesa – grandes jogadores, que dão tudo em equipa. O problema é sempre o mesmo, é eterno – convencer essas individualidades a jogar em equipa.

sexta-feira, novembro 16, 2007

Red Dwarf

Aconteceu-me hoje passar por um episódio da (parece-me agora) longínqua série "Red Dwarf". Gostava muito de ver aqueles personagens, aquele humor bem conseguido, aquela exploração do absurdo (tão britânica), de um holograma, um vadio com sotaque e um mutante felino vagando pelo espaço como últimos representantes (?) da humanidade.

Belos os tempos em que via estes episódios, puto deliciado, numa RTP 2 de boa qualidade (ainda assim, tenta manter um ou outro pormenor, mas onde estão os "Lugares da História", os "5 Noites, 5 Filmes", mesmo os "Finantial Times"?).

Parece-me que, com o advento do DVD e a obsessão em olhar para trás dos nossos dias (assim indefinido vai o Presente), esta série está a voltar a ser popular. Sugiro este vídeo para refrescar a memória.

Sem Compromisso

Olha que bela novidade. A radiografia da juventude italiana: pouco sonhadores; o sexo - ocasional (aos entusiastas, para quem a coisa deve ser "todos os dias", por ocasional entende-se aqui "one night stand"). Como uma luva se pode aplicar este título ao nosso país. Essas coisas são transversais, bem mais transversais que aquilo que nós, portugueses, cremos, quando nos queixamos.

A questão interessante é esta: o que está subjacente à falta de sonho e ao sexo ocasional? Já pensaram bem? Pois é - a fuga ao compromisso. Tudo gira em torno à nossa capacidade de compromisso. Sem ele somos egoístas e solipsistas. Somos a geração IM (I Am). E o problema, claro está, é que não há sociedade sem compromisso. Passe o alcance desta frase, é mesmo assim que penso.

quinta-feira, novembro 15, 2007

Força Centrípeta

Um conjunto de amigos perfeito para ir ver o nosso Sporting a Manchester. "Se eu quero ir?... Acho que não, mas agradeço o convite." Desdenho assim a oportunidade, a conjunção de factores e pessoas. Isto partindo desse fundamental nesta idade tão esquecido - a capacidade económica para o fazer.

Falam-me meus colegas insistentemente na viagem de finalistas, na transição de semestre. Gosto muito do espírito, mas... não sei. "Posso bem não ir", vou avisando. E faço-o com certa pena.

Surge a oportunidade de fazer o meu estágio no estrangeiro. Milhares de oportunidades, situações, experiências e crescimentos pessoais concebe o meu espírito. "Mas em Portugal, se nós quisermos, também aprendemos - eu não sou provinciano, nunca fui. Temos gente de muita qualidade". Acredito nisso quando o digo, mas sei que terá algo também de justificativo. Há muitos bons relatos da experiência. Muita a gente a dizer "Vai. Vais gostar". Mas... vou indagando e indagando, vasculhando todos os pormenores, até acontecer o que só pode acontecer: passar o prazo - e a possibilidade.

Prende-me esta força centrípeta de quem já viveu fora, sendo demasiado português, sentindo saudades de voltar. Prende-me o medo de fazer longas viagens de avião. Prende-me o outro receio, de "fugas para a frente", debruçares nervosos, estúpidos, foguetes com pólvora a mais, a rebentar com estrondo em céus tranquilos, e que podem mesmo rebentar ali, nas mãos. Prende-me a noção clara de não ter ainda feito tanto que há de básico por cá. (Tanto que me resta conhecer. Tanta gente que me resta conhecer). Prende-me mesmo uma certa qualidade de vida e pormenores que são tratados por mim de que eu nem suspeito. E que gosto de nem suspeitar.

Falta de ousadia? Acomodado? Aceito a crítica sem problema, tem toda a lógica. Digamos que já perdi algum tempo em folias desnecessárias (mas aí o pormenor que faz a diferença - eu tentar tento sempre), e o fundamental ali ao lado. Não é que tenha medo do que quer que seja - não terei, simplesmente, vontade. Porquê ao certo não sei. Não sei se desilusão, se mera percepção (atrasada) da realidade das coisas. Tendo a culpar o não ter encontrado as pessoas que pensava existirem, nos últimos anos (encontrei outras, que me supreenderam pela positiva). Pelos vistos, não é agora com esta atitude que as vou encontrar.

Esta, realmente, não é a melhor postura - e não duvidem que comporta riscos. A vida é feita com períodos de andar em frente, e com períodos de balanço. E, se não tivermos cuidado, esses olhares "para trás" podem ser fatais.

E bom, em última análise, se pudermos ter algum bem estar, por cada vida, por cada caminho que percorremos, outras tantas - imensas - ficam por viver, ficam por caminhar. Cabe a nós a função, dentro das nossas limitações, de ser feliz. Nem sequer vale a pena esperar que venham coisas "com a idade". Para tal basta ler Camões: "não cuide a gente futura/que será obra da idade/o que é força da ventura".

Pautado Futuro

Digo a um amigo que a diferença entre nós dois se resume aos cadernos pretos em que escrevemos. Vocês conhecem-nos: o típico caderno de estudante, da Ambar, capa toda preta, cúmulo da simplicidade.

O facto é que ele é muito organizado (na fronteira do "control freak", se genial na sua capacidade estratégica), gosta de se levantar "a horas" e fazer as coisas bem feitas. Só gosta de escrever nos tais cadernos que tenham linhas. Eu, pela minha parte, sou muito mais criativo, gosto de esperar para ver os desafios de amanhã, e impôr a mim mesmo uma resolução "on the spur of the moment". Gosto de inovar e tenho um perfeito horror à rotina. Donde, folhas lisas, e o mais amplas possível, por favor.

Augura-me esse amigo uma conversão às suas linhas, à sua ordem. Mas tudo aquilo me parece uma prisão, mais uma prisão para além das outras. E, sendo um fanático por liberdade - de tal forma que não me assusta estar só - duvido que chegue a mim esse tão grande desejo de "ordem". Mas, cauteloso como sou, não digo peremptoriamente que não seja, ou tenha que ser, pautado o meu futuro.

terça-feira, novembro 13, 2007

Semper Idem

A vossa atenção para estas estrofes de "Sôbolos Rios Que Vão", de Camões. A enquadrar com algo do que já foi escrito neste blog, e a provar que os tempos mudando embora, não mudam assim tanto no fundamental.

(...)

Acha a tenta mocidade

prazeres acomodados,
e logo a maior idade
já sente por pouquidade
aqueles gostos passados

(...)

Mas deixar nesta espessura
o canto da mocidade,
não cuide a gente futura
que será obra da idade
o que é força da ventura

(...)

Que se o fino pensamento
só na tristeza consiste,
não tenho medo ao tormento
que morrer de puro triste,
que maior contentamento?

(...)

E beato quem tomar
seus pensamentos recentes
e em nacendo os afogar,
para não virem a parar
em vícios graves e urgentes

(Luís de Camões)

Semper idem...
?

segunda-feira, novembro 12, 2007

Mundo Lusófono

Se se diz "eu não sou racista, mas...", há sempre o "mas" em que os demais pegam como negação da primeira parte da frase. Mas se se o omite, é-se igualmente estranhado - porque dizê-lo é litúrgico e, como povo semi-católico, o português até pode pecar, só não deve falhar na liturgia.

Vou-me, assim, esquivar ao "saying" o "goes without saying" que precisa de ser dito. Confusos? Calma. Serve a introdução do elemento catártico, mais que o elemento em si, para pegar no poema "Lágrima de Preta" de António Gedeão. Somente para atentar na coincidência de o ter colocado no blog ontem, e hoje, verdadeiramente me ter espantado com a quantidade de pessoas de cor negra na minha faculdade.

Ok, volto atrás. Nada tenho contra os negros - cedo à necessidade de o dizer. De todo. Sou muito mais racista com a estupidez, mediocridade e bovinidade - a falta absoluta de algo especial na vida - do que com qualquer raça.

Mas insisto - fiquei abismado com a quantidade de pessoal (soa melhor assim?) "de cor" a entrar hoje na minha universidade. A Lusófona (pois assim se conhece) tem imensa gente - gente a mais, para o meu prazer de serenidade. E bastantes protocolos (pífios?) de acolhimento a estudantes africanos. Daí a inusitada quantidade. Sejamos francos, senhores, - muito mais que a densidade portuguesa média.

A questão aqui está no facto de, exactamente, não serem portugueses. Os negros portugueses são... exactamente como os outros portugueses. Um dos meus projectos é ter um amigo negro com quem possa falar livremente da sua cor, que isso seja tão natural como da minha barriga. Da mesma forma que pretendo ter várias amigas atraentes e falar livremente com elas sobre os seus atributos físicos... (talvez esse projecto seja mais apelativo - e mais difícil). Chama-se "à vontade". Sinto que tenho alguma legitimidade para o fazer - amiúde sou o meu maior crítico jocoso.

Mas, de facto, os africanos levam o continente nos olhos. É algo de distinto. São luso-africanos, e isso faz também a diferença, nota-se. Pacíficos, educados, mas... surpresos, espantados, olhando olhos europeus com uma notória curiosidade. Aconteceu-me hoje, ao distribuir folhetos à entrada da Lusófona para recolha de medicamentos fora de prazo (a propósito, se os tiverem, a recolha dura a semana inteira). Parece que aquele fugaz contacto é inesperado, prazer de curiosidade, mais importante que o saco dentro do folheto para colocar os medicamentos, mais importante que a viagem ao Brasil em sorteio (e daí talvez não). Pelo menos, eu achei. "Eh pah... este gajo nunca falaria comigo se não fosse para me dar isto", pensarão. Conheço de cor o sentimento - o mesmíssimo que eu teria a falar com uma rapariga gira a querer-me vender algo. Subitamente tratamos com alguém "acima" do nosso nível (eu não disse que estava acima!, digo somente que eles o pensarão).

Enfim, acho curioso. Vestem mais ou menos da mesma forma humilde, e são humildes também a ouvir (e eu sou sempre a favor dos humildes). O facto inusitado, perdoem-me a honestidade, foi mesmo a... quantidade imensa.

Mas os africanos são, no geral, boa onda - há fauna menos confortável ao nosso lado. Tenho visto também pela universidade umas figuras proto-brasileiras (chungas de má vida e uma mulher mulata de cara horrível, brutissima) que parecem directamente saídos da "Cidade de Deus". Aliás, não faltarão à Lusófona membros do "bas-fond" - sim esses em que estão a pensar. Os tais, as tais - a malta do transgredire. Nem quero pensar muito nisso. Mas enfim, que a coisa aos meus olhos tantas vezes parece clara, só pela pinta, - parece.


Por entre gente normal (baixa classe média, e média-média - o meu curso é algo de excepção), e bastante boa gente, vejo às vezes membros de outros lugares andando livremente. Por entre os estudantes que se arrastam falando, além do remanso dos cafés onde o fumo torna o ambiente irrespirável, vejo - poucos, apesar de tudo - personagens que não deviam estar a roçar ombros com gente inocente. Mas deve ser só da minha vista. Embora eu tenha a maldição de, por análise a posteriori tantas vezes confirmar a minha primeira impressão, visceral e apriorística.

domingo, novembro 11, 2007

Ironia

De súbito, levantou a cabeça, olhou a estante além do livro na mão. Não lhe tinha ocorrido até então essa ironia de estar e ler a autobiografia de Giacomo Casanova em papel "tipo bíblia". Semi-sorriu com o inusitado, e continuou pela vida do homem nas suas mãos.

Lágrima de Preta

Às vezes tenho saudades do Portugal de Rómulo de Carvalho. Ah, não podia mais ser, foi um tempo que passou... Tivesse eu tido um professor assim (depois do secundário). Se ser português é ter inveja de algo, eis a minha, talvez uma versão menos comum: a falta absoluta de um grande "mestre".

Lágrima de Preta

Encontrei uma preta
que estava a chorar
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.

(António Gedeão)