quinta-feira, dezembro 13, 2007

O Dito Por Não-Dito

É no nível de "goes without saying" que uma pessoa também se define. Aquilo que observa sem reclamar, aquilo que respeita, sempre respeitou. É no não-dito, na forma como são preenchidas as lacunas, que aprendemos sobre alguém. E, não raras vezes, chegamos à conclusão de que "sometimes less is more" - há quem, dizendo pouco, diga o fundamental, mantendo uma coerência discreta.

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Se Os Não Podes Derrotar...

1º Caso

Há dias pediram-me um livro para fotocopiar. Tendo nascido entre livros, tenho um respeito ancestral pelo objecto. Sou da tribo que sente o cheiro, o tacto, que detecta os matizes nas folhas, às vezes mesmo na letra. Ou, pelo menos, era - que hoje, não sei se condicionado pelo meu curso, se por outras razões, vejo-me a ler bem menos que aquilo que gostaria. Mas sobre o prazer da colecção de conhecimento, de vidas, nas nossas mãos, sobre essa quase luxúria do livro tentarei discorrer noutro post - que o merece.

Tenho respeito pelo livro, dizia. Acontece que no outro dia pediram-me justamente algo que eu detesto particularmente (e eu até nem detesto muitas coisas particularmente): fotocopiar um livro. Antigamente fotocopiar um livro era um acto inconcebível para mim: eu podia poupar em muitas coisas, (e, acreditem, nunca fui muito gastador, ou então fui inconsciente), mas preferia sempre investir no livro a fotocopiá-lo. É claro que, havendo bibliofilia por casa, as coisas eram mais fáceis de enquadrar, mas, ainda assim, acabava por ser uma opção.

Isto no que respeita a fotocópias para mim. Mas é maior o problema quando se trata de fornecer fotocópias aos demais a partir de livros meus. É que... o livro não é o mesmo. Eu costumava dizê-lo "esventrado" pela fotocopiadora. As páginas começavam a descolar de forma às vezes irreversível, e o livro parecia mais volumoso, mudado, estranho aos olhos de quem dele tanto gostava. É como ver perante nós um amigo querido que fez algo muito estúpido, que comprometeu o seu ser, a pessoa que nos era familiar (só um verdadeiro bibliófilo aceita esta comparação desmesurada).

Portanto, quando me pediram para fotocopiar um livro meu, essa alergia voltou. Não tão intensa como antes - suponho que ando menos livresco e mais dado ao compromisso nesta questão. Ainda assim, pedi para só o emprestar em último caso. Houve um colega que se disponibilizou, e eu expus-lhe a situação, com a cortesia e honestidade devida, disposto, no limite, a rever a minha posição. Felizmente ele é muito mais racional que eu nessa matéria, e não houve qualquer problema.

2º Caso

Parte de um plano acarinhado há alguns meses, a minha irmã mais nova quer trazer a casa amigos estrangeiros que conheceu em Erasmus. Não estando eu por lá nessa altura, pensou, tomou como adquirido, que poderia usar o meu quarto para os alojar. Ora eu sei que estas coisas são importantes para ela, e, julgo eu, não tenho mais infantis prazeres de contrariar, mas... aquele espaço, sinto-o como meu, e disse-lho.

Não acho confortável a ideia de ter pessoas que não conheço por lá. De todo. Claro, para ela é tudo muito mais prático, tudo questão de mudar camas. É certo, racionalmente faz sentido. Mas, lá está, eu não sou muito racional em várias coisas. Sempre respeitei o espaço dos outros, nomeadamente o dela, e gosto que repeitem o meu. Mas, realmente, devo estar aqui contra os ventos deste tempo. São velozes, exigem o descartável, e abominam o apego. E eu gosto de algum apego.

Dou comigo a pensar nesta frase de Pacheco Pereira, neste artigo (espero não a citar descabidamente):

"A privacidade é, no seu melhor sentido, um dos adquiridos do mundo burguês, da casa, do espaço familiar ou reservado, da liberdade de mostrar ou esconder o que nos parece ser a última propriedade: o mundo próprio do ser."

Serei eu quem está a ser anacrónico, obsoleto, inflexível, precocemente envelhecido - "careta", "bota-de-elástico"? Ou ela que não está a respeitar um princípio básico, que "goes without saying"?

Dado estas duas situações, serei eu quem é socialmente disfuncional? Em confronto com todos os outros? Cultivando delicadezas risíveis, reclamando direitos hilariantes? Que insiste numa individualidade exagerada, que ninguém respeita - mas que também ninguém reclama? Com o tempo virá a resposta. Convinha não demorasse muito, para que um possa decidir se resiste ou se cede. E seguir em frente com a sua vida.

sexta-feira, dezembro 07, 2007

Deep

Manhãs de Outono, o céu plúmbeo acima de nós. Um ligeiro quebranto, talvez mesmo um certo nervoso. Nos sentidos, percorrendo todos os sentidos, a música de Leonard Cohen. Que quase nem precisaria de música.




Don't matter if the road is long

Don't matter if it's steep
Don't matter if the moon is gone
And the darkness is complete
Don't matter if we lose our way
It's written that we'll meet
At least, that's what I heard you say
A thousand kisses deep

I loved you when you opened
Like a lily to the heat
You see, I'm just another snowman
Standing in the rain and sleet
Who loved you with his frozen love
His second hand physique
With all he is and all he was
A thousand kisses deep

I know you had to lie to me
I know you had to cheat
You learned it on your father's knee
And at your mother's feet
But did you have to fight your way
Across the burning street
When all our vital interests lay
A thousand kisses deep

I'm turning tricks
I'm getting fixed
I'm back on boogie street
I'd like to quit the business
But I'm in it, so to speak
The thought of you is peaceful
And the file on you complete
Except what I forgot to do
A thousand kisses deep

Don't matter if you're rich and strong
Don't matter if you're weak
Don't matter if you write a song
The nightingales repeat
Don't matter if it's nine to five
Or timeless and unique
You ditch your life to stay alive
A thousand kisses deep

The ponies run
The girls are young
The odds are there to beat
You win a while, and then it's done
Your little winning streak
And summon now to deal with your invincible defeat
You live your life as if it's real
A thousand kisses deep

I hear their voices in the wine
That sometimes did me seek
The band is playing Auld Lang Syne
But the heart will not retreat
There's no forsaking what you love
No existential leap
As witnessed here in time and blood
A thousand kisses deep

quinta-feira, dezembro 06, 2007

O Pódio

Falando da língua portuguesa a uma espanhola, e tendo já lidado com português, francês e italiano, confesso-lhe que, realmente, em termos de dificuldade crescente vamos do espanhol ao italiano, e só então ao português. "Repara que, em Espanha, existe mais que um idioma (castelhano, basco, galego, catalão*), e em Itália, a cada região corresponde um dialecto único (um lombardo pode não perceber palavra do que diz um napolitano). Em Portugal, sendo certo que o país é mais pequeno, todos falam a mesma língua, integralmente a mesma. Até os matizes são insignificantes. O que tu descobrirás, se tiveres curiosidade, é que o português é uma língua muito especial no sentido em que permite uma grande criatividade e individualidade - é como se cada português falasse a língua adaptada à sua pessoa".

*Se houver dúvidas quanto aos outros, seguramente que o basco é, mais que dialecto, uma língua distinta

Selecção Natural

Ah, a necessidade de classificar... Panda? Ratazana? Nem um nem outro?... Pensemos antes assim: deixemos a selecção natural funcionar, mais que forçar uma opinião. Observemos em silêncio, com algum respeito, alguma humildade. Porque, às vezes, quando classificamos ("tu és isto", "tu és mais assim"), estamos na verdade a tentar evitar, justamente, essa essa selecção natural. E a isso alguém chamaria de inveja, mesmo até de canalhice...

quarta-feira, dezembro 05, 2007

O Gene

"Dilbert", uma "comic strip" de que gosto bastante, satiriza o ambiente de trabalho nas empresas tecnológicas, tipicamente as "cube farms", com enormes salas de cubículos, saídas dos anos 80. Os empregados/personagens são todos engenheiros informáticos. Se o engenheiro é já um ser... especial, o engenheiro informático é a versão amadurecida de um universitário "nerd" até às lágrimas, socialmente inábil e emocionalmente desencontrado.


Numa dessas tiras o tema é justamente a capacidade masculina para evitar trabalho desnecessário. Há um "gene", exclusivamente "macho", que permite "cheirar" o trabalho desnecessário. As mulheres não têm esse 6º sentido, esforçam-se muito mais. Sempre achei que havia algo de verdadeiro nesta observação, e comprovo-o pela dinâmica de alguns anos de trabalhos universitários em grupo. Suponho que algumas vezes o trabalho constante a longo prazo compensa, pela mecanização e pela humildade, noutras o trabalho desnecessário rouba-nos, de facto tempo de vida e stressa-nos sem necessidade. Ou seja, às vezes ganham elas, outras eles.

A Grande Porca

Chega a altura de eleições para a associação académica da universidade. Parece que haverá uma lista que se mantém, outra para a "novidade". Não reconheço qualquer utilidade à organização, e tem sido burgo daqueles que pretendem muito mais "do well" que "do good" pela comunidade de alunos. Nada de novo... Mas, na perspectiva da possibilidade de câmbio, do Generosità vão 3 conselhos:

1. Leiam este livro - devorem este livro. Poupar-vos-à muito tempo de vida, erros e maquinações fátuas. É uma obra-prima de simplicidade e natureza humana.


2. Já que a universidade tem ao lado a sua casa, lembrem-se das caricaturas daquele tipo dos livros de História, sim esse: o Rafael Bordalo Pinheiro. Não se esqueçam que a política, do lado dos eleitores, parece ainda (e sempre?) "a grande porca".


3. Lembrem-se deste poema:

Termidor Errado (25 de Novembro de 1975)/XI

"Democracia é alternância"
repetiu de novo a embalar tédio
um senhor de sonho espesso.

Como se fosse possível - ó glória! ó ânsia! -
construir um prédio,
mudando de vez em quando
os mesmo tijolos do avesso.

(José Gomes Ferreira)

Estações Sul-Americanas

Sem o saber ou querer bem explicar porquê, às vezes o Inverno português parece-me argentino - como o Verão brasileiro.

Pecado Original 23

Se estivéssemos na selva (e às vezes parece mesmo que estamos), Valeria Mazza seria uma leoa, rondando segura o seu território, atenta a todos os elementos. Passaria serena, mas pronta para toda a defesa, num impulso. O mero olhar, os olhos intensos, vigiam toda a insistência canalha, e desencorajam as vis hienas de entrar na sua toca.

Não me lembro de Valeria como rapariga, quase sempre foi (jovem) mulher. Corrijo: Mulher. Reclamando a sua dignidade desde logo, mas sem medo de ir em frente, e de ser ela a defender-se a si mesma. Com toda a sensualidade feminina, mas sem a delicadeza doentia. Com curiosidade e alegria, mas elegendo a fidelidade acima de tudo. Sabendo cortejar e ser cortejada sem manipular - muito menos admitindo ser manipulada. Sabendo divertir-se sem perder o controlo. Sabendo escolher as pessoas, e não hesitando em confrontar o que não está - simplesmente não está - certo. Prazenteira sem ser escrava do prazer, sem fraquejar. Segura sem ser arrogante. Bela sem ser inatingível.

Nem elegante nem voluptuosa: tão somente mulher até ao osso. Mulher sem se preocupar demais com isso. Agora, que espera o seu quarto filho (e será, decerto, boa mãe), um cumprimento de admiração, e respeito, não só de mero deleite estético, a esta argentina, de corpo, de beleza e de coração.

"noi fummo i Gattopardi, i Leoni; quelli che ci sostituiranno saranno gli sciacalletti, le iene"

terça-feira, dezembro 04, 2007

Sem Compromisso

"- Mas vais?
- Sei lá. Sabes como eu costumo dizer - não me comprometo. Sou o autêntico profissional da indecisão. É só mais uma hipótese. Uma hipótese muito interessante".

Obrigado

Só para assinalar a personagem mais bem conseguida, creio, nesta série de Gato Fedorento: Ezequiel Valadas. Note-se a sua última frase "obrigado sou eu", preparada para "pegar", entrar no maistream, ser repetida e emblemática. É bem capturado, o falar campesino, que Ricardo Araújo Pereira conhece bem. Mas... se pensarmos bem nisso, dizer "obrigado sou eu" não estará assim tão errado. O nosso "obrigado" é parente em termos de significado do "obliged" inglês. Eu sinto-me obrigado ("feel obliged"), eu estou obrigado ("I am obliged"), mais do que sou obrigado. Ainda assim, não é um tosco tão tosco como parece. Aliás, como raramente o é, o tosco campesino, para o julgamento (amiúde, esse sim - alarve), do citadino. No Portugal campesino há expressões que decorrem, mais do que ignorância, de uma certa pureza linguística, e sentido profundo da língua, antes de ela se tornar superficial, vácua e veloz no frenesim citadino.




Chassez Le Naturel

No outro dia algumas colegas levantaram a questão do "casar e ter filhos". Quem, eu? Nunca sabemos como será a nossa história, mas digo-vos isto para esta geração: os 30 são os novos 20. E a classe média com um emprego relativamente bom (o meu futuro?? hum...) tem alguma margem de manobra. O pior é mesmo se, estando o resto do país tão mal, ser "solteirão" não é quase um acto imoral... Não que esse seja o meu projecto - digo somente que é uma possibilidade para qualquer pessoa nessa condição de poder "fazer vida", com curso, emprego, ainda apoio parental, etc.

Mas, nunca devemos esquecer, a cada manhã, que a melhor manhã está por acontecer (mesmo se as nossas manhãs forem preguiçosas...). Não devemos deixar que a rotina se instale cedo de mais. Ter sempre coragem de mudar: "A change is as good as a holiday". Não só as mesmas pessoas todos os dias, não só os mesmos temas, os mesmos trabalhos. Outra música, outro livro, outro prato, outro estilo. Qualquer idiota se prende, se habitua a um trabalho, se casa, tem filhos. Isso é ceder à nossa natureza. E nada há de mal nisso, pelo contrário - é bom que esse seja o objectivo final de todos nós. Mas não sem antes querer mais, tentar mais, conseguir mais. Não sem um antes. Aqui, lá fora, onde for. Porque, feitas as contas, convém não ceder à rotina sem ter uma história para contar. Quem cede ao desejo de rotina cedo demais (e temo ser um traço genético da minha geração...), quando a consegue enfim, segura e quentinha, mesmo com a realização de ter filhos, amigos que ficaram, e prazeres cultivados, corre o risco de que tudo isso lhe saber a pouco. E quando se chega a esse objectivo na vida de cada qual, nada é tão trágico como sentir-se aprisionado.

Suponho, no entanto, sempre supus talvez, que aí há algo da natureza da pessoa que é determinante. Se prefere arriscar ou não. É que, às vezes, por mais caminhos que fizermos, a nossa natureza leva-nos, invariavelmente, magneticamente, para o mesmíssimo lugar. Donde... arriscar nem é assim tão perigoso, se acreditarmos estarmos mais inclinados para determinada situação na vida. Não é por um abanão que vamos mudar tão profundamente o nosso ser. "Chassez le naturel, il revient au galop".

Novo Léxico Politiquês

A frase metafórica de Ribau Esteves, um dos números 2 de Menezes: “Se queremos uma gaja boa como o milho, temos que a namorar” (leia-se é preciso esforço para ter uma obra bem feita*). Um poeta, este Ribau. Vá, Ribau, tou a brincar – tu até és porreiro. És um porreiro, pá!

*na Sábado deste fim-de-semana

Resistência

Às vezes parece que ser português é só uma questão de resistência psicológica. Ou então é mesmo desta era em que, tendo a subsistência assegurada (e bem que jogou Salazar com o medo da escassez…), a mente anda a ocupar-se com trivialidades sem nexo, induzindo depressão.

Nessa depressão é demasiado comum culpar o país, os “outros”. Este Portugal tão pequeno, mesquinho e cheio de inveja, que não se adapta ao que nós queremos, que nada nos dá, só aos outros.

sábado, dezembro 01, 2007

As Cigarras e a Formiga

Ocupados em OPAs e fusões, lá no cimo dos seus egotismos, puxa e empurra, deixa e retoma, se entretêm BCP e BPI. E qual deles, contas feitas, teve o maior crescimento orgânico nos últimos tempos? Pois é - o BES. Também considerado (disso se gabam em anúncios de jornal) o melhor banco em Portugal, num qualquer ranking estrangeiro, aparentemente importante. É sempre assim. Discutem as cigarras aos berros, e a formiguita vai tratando da vida e precavendo o futuro. Depois queixem-se.

"De"

Virtude do aniversário do acontecimento (200 anos), sempre prenho de artigos e leituras, foram algumas as curiosidades que lhe transmitira, nas conversas desse dia. Fico caricato a trazê-las à conversa, claro, - Deus nos livre de sermos um pouco mais cultos, de sabermos um pouco mais sobre as Invasões Francesas. Ela queria simplesmente troçar dessa insistência. A ele, que era algarvio, ao almoço, aproveitou uma frase para compor o chiste:

Ele: "....lá em baixo, no Algarve"
Ela: "Não me digas que também foram as invasões francesas!" (risos)
Ele: "Não... Geralmente, no Algarve, temos mais invasões de francesas"

Big Brother Mao is Watching You

Brinquem, brinquem, que eles andem aí.

Cold Outside

When it's cold outside... you should come inside, Heidi! No clue? No clue?! I understand your authority in the matter, but please give (some of) us some credit, will you? And, should there be indeed insuficient knowledge, I reccomend the virtues of experience and those of learning through trial and error.

quarta-feira, novembro 28, 2007

Amanhã, Parece Que Foi Ontem

Amanhã foi o dia final. Ouviu-se o último martelar solene. As televisões reuniram-se em torno dos advogados derrotados. Era o fim do derradeiro recurso à Justiça. Como nunca antes, foram parcos em palavras, eles cujo nome havia sido repetido inúmeras vezes, que eles o quiseram repetido inúmeras vezes. Culpados, foi o veredicto, e várias as sentenças. Era realmente o fim. Quem prestou atenção ao processo Casa Pia durante todos aqueles anos ficou com a surpresa do primeiro veredicto confirmada. Quem fez por não prestar atenção também emergiu em súbito alívio. A maré tinha começado a mudar com a manchete daquele fim-de-semana, naquele jornal. Quando viram seu destino traçado, seis dos acusados juraram que não iam sozinhos. “Boca no trombone”, nem menos, foi o título dessa denúncia. Sabendo-se perdidos, elencaram um a um os senadores que flutuavam acima do seu opróbrio. Discorreram sobre seus vícios, pormenores íntimos, que desgostaram e prenderam quem os leu. Os senadores desmentiram, atacaram a credibilidade dos acusadores. Fizeram entrevistas nos jornais, alguns na televisão. Mas as pessoas não lhes criam mais. A cada olhar o desconforto, a dúvida, a crítica. Seus movimentos estudados, suas conversas escutadas. Até que uma conversa precipitou o cárcere. Eles próprios sentiam-se já caçados, hesitantes entre sair para o estrangeiro, para onde alguns haviam enviado as suas famílias. As ironias que a História cultiva, foi o tema de algumas colunas de jornal. O primeiro julgamento durara dois anos, dois longos anos. A vergonha e os olhares carrascos desfiguraram os acusados com o tempo. Veio a vergonha suprema para alguns no final das suas vidas, como nunca o haviam pensado. Alguns acreditavam tanto nos de “sua confiança”, que descuraram pormenores. Pormenores fatais. Parecia o fim de um processo, tão somente isso. E no dia a seguir a amanhã tantos simples homens respiraram um ar matinal bem diferente. Parecia puro e antigo, como o dos seus avós. Parecia que o sol aquecia mais que antes, e as pessoas afinal se conheciam e se confiavam. Parecia que eram todos sobreviventes, a um tempo, a um medo, a uma opressão. Quase de repente, surgiram na televisão, nos jornais, nas livrarias, fragmentos de um país antigo. Ensaios, romances, obras, esforços, génios, lusitanidades sortidas. “Tinha-me esquecido totalmente…” pensou ele, num dia de Março, pouco depois da tormenta, enquanto sentia a textura daquele livro de outros tempos. Comprou-o num alfarrabista e deu-o ao filho, na esperança que a curiosidade de o ler o afastasse de outras atenções. Escreveu algumas linhas no livro, e a partir daí ele próprio leria, dia após dia, todos os livros que se prometera saborear. Um dia o filho atentou naquele interesse pelo papel, e, no seu mundo secreto, começou a deambular pelas páginas de fantasia, e a provar a inteligência fluída desses livros. Nada disse ao pai, que o sabia. Nada lhe disse dessa nova paixão, que o havia de fazer escritor celebrado. Na escola falou do livro aos seus colegas. Um deles, que não o acabou, pensava só em algo de muito diferente. Perdera a mãe muito novo, e começara a trabalhar antes dos 16 anos, numa oficina. Mas era boa a sua escola secundária, por sorte, e ardente o seu entusiasmo. Entrou com uma excelente nota na universidade, e foi logo no primeiro dia que conheceu outros dois personagens: um deles diletante, curioso e bem-humorado, o outro vindo do estrangeiro para ali fazer o curso, sempre insistindo na mesma paixão não correspondida por uma estudante de Arquitectura, e querendo explorar mais Matemática que Engenharia. A ética de trabalho entre eles era surpreendente naquele meio. Zangaram-se algumas vezes durante o curso, mas a decisão de fazerem o último ano na Alemanha e nos Estados Unidos cimentou uma tríade que nunca se separaria mais. Precisavam da inteligência, do brilhantismo de cada qual – os outros não lha ofereciam. Ainda antes do último ano conseguiram conceber um qualquer pormenor de motor que permitia reduzir o consumo a metade. Algo relacionado com uma injecção gradual e um método de bioengenharia para reconverter detritos. Ninguém podia acreditar na tão estúpida ideia, que veio a ser elegante mais que simples. Um gigante do sector comprou-lhes a patente, e o sucesso comercial era aventado por todos. Foi fundada uma enorme fábrica em Portugal. Poucos ouviriam falar deles, apesar de tudo, não fosse uma peça de televisão. Aos quarenta, casados e já com filhos, empregavam na sua fábrica quinze mil pessoas. Eram excelentes pessoas e patrões. Conseguiram ser fiéis a eles mesmos. Ninguém mais os animaria, só eles sabiam que era possível, desde aquela tarde na casa de um deles, ao Cacém. Nessa mesma tarde, no campo de futebol vizinho, despontava, vindo de uma equipa de Tondela, um talento que iria emprestar poesia ao jogo. Desde criança seguira o seu sonho a cada chuto, e o sonho evoluíra para uma sensualidade de bailado com a bola, na adolescência. Aos dezassete anos era já disputado por vários clubes. Jogou dois anos num “grande”, os suficientes para ser arrematado por uma fortuna para um clube espanhol do “star system”. Viria ainda a jogar em Inglaterra, e Itália, antes de voltar a Portugal. Crente desde cedo, nunca cedeu às facilidades da vida de jogador. Seguiu a sua febre e paixão, e levou consigo a namorada de infância. Encantou todos e deixou orgulhoso um país. Foi um médio-centro virtuoso, com um perfume de técnica que tantos outros viriam a invejar. Amava demais a sua terra para não voltar cedo. Fê-lo ainda para jogar no clube do coração, mas sempre reservado. Quatro épocas fez ainda antes do crepúsculo da sua carreira, sem nunca aparecer em revistas, sem nunca ceder na sua intimidade. Sem nunca se enfurecer com as fotos que dele eram tiradas na sua praia algarvia, de refúgio. Perto dela, mais ou menos pela mesma altura (amanhã) em que ele jogara o dito jogo no Cacém, um grupo de quatro amigos, com uma rapariga de voz desconcertante, começou um grupo de música que ocuparia os palcos e os corações do país os próximos vinte anos. Para os seus sucessos misturavam músicas portuguesas de sempre, influências externas de vária ordem, mas mantendo um registo de elevação e, mesmo idealismo, que foi admirado por todos. Um “back to basics”, foi o que disseram os críticos, meio saudosistas, meio desconfiados, com o primeiro albúm. Entretanto a regulação tinha evoluído para combater eficazmente a descarga de música on-line e a indústria musical floresceu como antes. Foram eles e a sua circunstância, alguém diria depois, que estavam na base daquele sucesso inusitado. Mas, em última análise, sempre assim foi. Os primeiros passos para a regulação da obtenção ilegal de música foi feita pelo governo do homem que daria um novo “-ismo” a Portugal. Esse decreto-lei não foi percebido a princípio, ocupado que estava o país a discutir a implantação de centrais nucleares e de um pólo aeronáutico, de fabrico de pequenos jactos, no Alentejo. Sobre a questão nuclear, os argumentos caíram perante a eficiência de um ministro, de nome Luís, que viria a tomar o nome de “Luzinhas” para grande parte do povo. A sua previdência permitiu desenvolver grandes capacidades de energia solar e de biomassa, antes da evolução para o nuclear, que defendia como medida de segurança. Foi vaiado em manifestações, várias vezes ofendido pessoalmente. Mas a sua resiliência vinha do espírito de missão, de se lembrar de um avô longínquo, e da frase de Churchill, lida na sua adolescência: “Um político pensa na próxima eleição, um estadista na próxima geração”. Saiu ao fim do ciclo de oito anos, o segundo mandato (em maioria absoluta) daquele governo tendo sido considerado o melhor “desde o primeiro de Cavaco Silva”. Um homem de esquerda, “de uma certa esquerda”, como gostava de dizer, que fez parte de um “dream team” de gente decidida (bruta no dizer de alguns), e que permitiu conter o desemprego galopante, e aumentar significativamente o rendimento per capita dos portugueses. Com maior riqueza individual, o número de casamentos disparou e a natalidade também, nos anos seguintes. Os jovens de vinte anos desse tempo foram marcados por um movimento nacional, o “Elo”, oriundo de círculos católicos, que daria origem a uma corporação nacional de solidariedade com lugar na História pela sua originalidade. Conseguiram vários sucessos na ajuda a sem-abrigo, juntaram várias associações para cruzamentos culturais, incluindo tertúlias que apaixonaram uma geração. Ressuscitaram o interesse em Poesia e toda a Ciência. Das suas reuniões saíram membros ilustres da comunidade científica portuguesa de vinte anos mais tarde. Souberam convencer grandes professores, mestres vários, a participar. Alguns partidos políticos procuraram o seu apoio, em vão. Permaneceriam independentes (embora, dizia-se, com ligações informais ao governo) até à sua dissolução, por morte do núcleo de quatro fundadores, trinta anos passados sobre aquele começo virtuoso. Sobre a sua iniciativa muito se viria a escrever.

Foi este o país que surgiu, sem que ninguém o esperasse, quando em volta parecia só haver terra queimada, amanhã. Foram anos impressionantes, de grandes esforços e conquistas, amanhã. Engraçado... quase parece que foi ontem.

Adenda

A propósito deste post, peço a contribuição do genial Cesário Verde, com Deslumbramentos. Maior afinidade é possível, ou não falasse ele também (bela coincidência) de "rainhas".

Deslumbramentos

Milady, é perigoso contemplá-la
Quando passa aromática e normal,
Com seu tipo tão nobre e tão de sala,
Com seus gestos de neve e de metal.

Sem que nisso a desgoste ou desenfade,
Quantas vezes, senguindo-lhes as passadas,
Eu vejo-a, com real solenidade,
Ir impondo toilettes complicadas!…

Em si tudo me atrai como um tesoiro:
O seu ar pensativo e senhoril,
A sua voz que tem um timbre de oiro
E o seu nevado e lúcido perfil!

Ah! Como me estonteia e me fascina…
E é, na graça distinta do seu porte,
Como a Moda supérflua e feminina,
E tão alta e serena como a Morte!…

Eu ontem encontrei-a, quando vinha,
Britânica, e fazendo-me assombrar;
Grande dama fatal, sempre sozinha,
E com firmeza e música no andar!

O seu olhar possui, num jogo ardente,
Um arcanjo e um demónio a iluminá-lo;
Como um florete, fere agudamente,
E afaga como o pêlo dum regalo!

Pois bem. Conserve o gelo por esposo,
E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos,
O modo diplomático e orgulhoso
Que Ana de Áustria mostrava aos cortesãos.

E enfim prossiga altiva como a Fama,
Sem sorrisos, dramática, cortante;
Que eu procuro fundir na minha chama
Seu ermo coração, como a um brilhante.

Mas cuidado, milady, não se afoite,
Que hão-de acabar os bárbaros reais;
E os povos humilhados, pela noite,
Para a vingança aguçam os punhais.

E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas,
Sob o cetim do Azul e as andorinhas,
Eu hei-de ver errar, alucinadas,
E arrastando farrapos - as rainhas!

(Cesário Verde)